• Nenhum resultado encontrado

MORTE DO PLANETA

No documento A Cidade do. Fim do Mundo (páginas 32-41)

CAPÍTULO TRÊS

MORTE DO PLANETA

Kenniston caminhou pela Mill Street, até a oficina do Bud Martin, onde tinha deixado o seu carro um bilhão de anos atrás, quando essas coisas ainda eram importantes. Ele sabia que era mantido um jipe lá, para o trabalho de campo do laboratório, mas talvez o jipe não fosse mais útil, porque não haviam mais estradas, fora da cidade. Além do mais, era preciso não se esquecer dos aguasalhos, pois o ar já começava a esfriar e logo estaria abaixo de zero.

Literalmente, ele começou a sentir como se estivesse vivendo um pesadelo. Acima dele existia um céu alienígena, de onde vinha uma estranha luz vermelha, que se refletia nas familiares paredes de tijolos, que não foram alteradas pelo impacto da bomba e isso era uma coisa, realmente, chocante - a aparência cotidiana da cidade. Quando o tempo e o espaço se abrem, pela primeira vez na história, e você passa pelo fim do mundo, você espera que tudo fique diferente, mas Middletown não parecia diferente, exceto por aquela luz estranha, que vinha do sol vermelho.

32

Havia muitas pessoas na Mill Street, como sempre. Era uma rua de fábricas movimentadas e pequenas vias, que ligavam aquela parte de Middletown com o lado sul da cidade. Nem sempre haviam ônibus, carros ou pedestres. Talvez o tráfego estivesse um pouco mais desorganizado do que o habitual, ou os grupos de pedestres mais entusiasmados, discutindo o que teria acontecido, mas isso era tudo.

Kenniston conhecia um bom número daquelas pessoas, mas não parou para falar com ninguém. Ele não queria olhar as pessoas no olhos pois, em certa medida, se sentia culpado por não dizer logo a verdade para todos, pois se dissesse, o que eles fariam? Era grande a tentação de livrar-se daquele segredo, mas, ele sabia que ainda não era o momento Havia pessoas como o velho Mike Witter, o homem gordo e de rosto vermelho, que ficava o dia inteiro sentado na varanda da sua pequena cabana, no cruzamento ferroviário, brincando com um ratinho de estimação. O ratinho parecia assustado, como se adivinhasse que alguma coisa muito errada, estava acontecendo. Porém o velho Mike não paracia estar preocupado com nada.

- Frio, em junho! – disse ele, saudando Kenniston.

- O mais frio que já vi. Estou indo acender um fogo. Nunca vi um frio tão fora de época!

Na esquina seguinte, havia um grupo de trabalhadores da fábrica de tubos, em frente ao restaurante do Joe, discutindo calorosamente, e dois ou três deles que conheciam Kenniston, se viraram para ele.

33

- Aqui está o professor Kenniston, um dos caras do Laboratório Industrial.

Talvez ele saiba de alguma coisa!

Com as faces intrigadas, eles perguntaram:

- Começou uma Guerra? O senhor sabe de alguma coisa?

Antes que Ken pudesse responder, alguém afirmou em voz alta:

- Com certeza é uma guerra. Algum de vocês viu a bomba atômica, que caiu e fez uma clarão? Vocês não viram o clarão?

- Vá pro inferno, cara! Aquilo foi apenas um relâmpago… - respondeu alguém, do grupo.

- Você está maluco? Aquilo quase me cegou.

Kenniston procurou contornar os ânimos.

- Me desculpem, rapazes mas, no momento, eu não sei muito mais do que vocês. Assim que soubermos de algo, nós, do Laboratório, informaremos à população.

Enquanto o professor se retirava do local, uma voz desnorteada perguntou:

- Mas se uma guerra começou, quem é o inimigo?

O inimigo, Kenniston pensou amargamente, é uma nação que ficou na poeira de muitos milhões de anos atrás...

34

Várias pessoas estavam reunidas na ponte da Mill Street olhando, assustadas, para o rio.

Elas não conseguiam entender como como o rio secara, de repente. Isso mesmo, a água do rio desaparecera subitamente!

Nas cervejarias das ruas haviam mais homens reunidos, do que o normal para aquele horário. Eles gritavam e discutiam em altas vozes, mas não compreendiam nada que se passava com a cidade.

Uma mulher, que estava na janela, chamou a outra dona de casa, que varria uma varanda vizinha à sua, para falar da novela do rádio.

- Estou perdendo a minha novela de hoje, no rádio! As estações estão, todas, fora do ar...

Kenniston ficou feliz quando chegou a oficina do Bud Martin, um homem alto e magro, que montava um carburador com eficiência e competência, ao mesmo tempo em que criticava o seu jovem ajudante.

- Ainda não aprontei o seu carro, professor, disse o mecânico, eu falei que ficaria pronto às cinco, o sr. se lembra?

Kenniston balançou a cabeça, concordando, mas disse ao mecânico que precisava de um carro e Martin sugeriu:

- O sr. pode levar o jipe. Para mim será melhor, por que não estou conseguindo trabalhar direito. Parece que tem alguma coisa errada no ar…

35

Ele não parecia particularmente interessado no que Kenniston pretendia fazer com o jipe, pois parecia mesmo estar muito nervoso. Um homem com um avental de padeiro, enfiou a cabeça na oficina.

- Ei, Bud, ouviu a notícia? Os moinhos simplesmente desligaram ... todos eles.

- Ah, as notícias, disse Martin, eu estava ouvindo novidades de manhã.

Os caras estavam dizendo coisas muito estranhas e eu não prestei atenção, porque estou muito ocupado para isso.

Kenniston entendeu porque as coisas estavam tão calmas, apesar de tudo. É que os homens de Middletown são muito ocupados e, por isso, não prestaram atenção nas coisas diferentes que estavam acontecendo, como o sol vermelho e o frio excessivo, por exemplo. Martin suspirou.

- Bud, disse ele, estou com medo dessa história ser verdade. Se os moinhos fecharam, realmente, será o fim dos nossos negócios.

O que era muito difícil de se dizer àqueles dois homens, pensou Kenniston, era que os moinhos foram desligados para economizar combustível, mas que nunca mais voltariam a funcionar. O professor não podia ficar na oficina conversando e, assim, encheu alguns galões de gasolina, como reserva, arrumou os galões no jipe e partiu para o norte.

Na rua principal começavam a aparecer pessoas agasalhadas, devido ao frio estranho. Haviam grupos de pessoas nas esquinas e pessoas à espera de ônibus, todos olhando, curiosamente, o sol vermelho e o céu escuro. Entretanto

36

as lojas continuavam abertas, as donas de casa carregando sacolas de compras e as crianças andando de bicicletas. Nada parecia ter mudado. Ainda não.

Também não havia silêncio na Walters Avenue, onde Ken tinha seu apartamento, embora fosse muito estranha a cor avermelhada da luz do sol, as pessoas continuavam apreciando o dia. Kenniston ficou feliz que sua senhoria estivesse fora, porque ele não achava que poderia enfrentar mais questões sobre o fatídico clarão.

Ken pegou seu kit de caça - um rifle .30 e uma espingarda de repetição, calibre 16, além das caixas de munição – e arrumou tudo no jipe. Vestiu sua jaqueta especial de campo e mais um casaco de couro, para o amigo Hubble, além das luvas. Então, antes de voltar a entrar no jipe, ele correu até a casa de Carol Lane, à meio quarteirão de distância, onde foi recebido por sua tia, a sra.

Adams, uma mulher forte, rosada e preocupada.

- John, estou tão feliz que você veio! Talvez você possa me dizer o que fazer. Devo cobrir minhas flores? - ela balbuciou ansiosamente - parece tão bobo, em um dia de junho. Mas está muito frio. Eu acho que as flores vão se ressentir com as geadas...

- Eu as cobriria, Sra. Adams, a previsão é de que o frio vai aumentar.

Ela levantou as mãos.

- O tempo, estes dias! Nunca costumava ser assim.

Ela se apressou para garantir a cobertura das flores, as flores que tinham horas para viver. Isso atingiu Kenniston com outro desses pequenos choques de

37

percepção. Não haverá mais rosas na Terra, depois de hoje. Não haverá mais rosas, nunca mais.

- Ken ... você descobriu o que aconteceu?

Era a voz de Carol atrás dele, e ele sabia, mesmo antes de se virar para encará-la, que não conseguiria evadir-se com ela, como tinha feito com os outros. Carol não sabia muito sobre ciência e sobre coisas como a curva espaço-tempo, ou sobre um tal de “continiuns” ser quebrado. Essas coisas nunca tinham entrado em sua cabeça. Mas ela o conhecia, e não lhe deu nenhuma chance de enrolar a história.

- Elas são verdadeiras, as histórias sobre uma bomba atômica que caiu sobre Middletown?

Carol estava, realmente, assustada. Ela tinha cabelos e olhos escuros.

Era magra, robusta e, segundo Kenniston, tinha lábios sensuais. Ela gostava de crianças, cães pequenos, e de casa bem arrumada e agradável e, principalmente, cozinha perfumada. Também de conversas e risos discretos.

Parecia uma coisa terrível para Kenniston, que ela estivesse de pé, em um jardim agonizante, fazendo perguntas sobre bombas atômicas.

- Sim, ele disse. A bomba é real... - ao observar a cor sumir do rosto da moça, Ken acrescentou apressadamente: ...ninguém foi morto. Não há efeitos de radiação na cidade, portanto, nada a temer.

- Existe alguma coisa. Posso ver na sua cara

38

- Bem, há coisas de que ainda não temos certeza. Hubble e eu vamos investigar agora - Ele pegou suas mãos - não tenho tempo para conversar, mas ...

- Ken, disse ela, por que você? O que você saberia sobre coisas tão terríveis?

Ken percebeu que chegara a hora de contar a Carol, o que sempre temia um pouco, e esperava que fosse adiado para sempre. Chegara o momento de falar com a noiva, sobre o seu trabalho. O seu verdadeiro trabalho. Com que olhos ela o olharia quando soubesse? Ele não tinha certeza, não mesmo. Mas se sentia feliz por poder acabar com aquele segredo, de uma vez. Mas, naquele momento, não havia tempo para isso e ele sorriu.

- Contarei tudo sobre isso, quando voltar. Fique em casa, Carol, prometa-me e, então, não vou prometa-me preocupar.

- Tudo bem, disse ela devagar, e então, bruscamente, "Ken ..."

- O que?

- Nada. Tenha cuidado.

Ele a beijou e correu para o jipe. Graças a Deus, ela não era do tipo histérico. Essa teria sido a última gota... Enquanto dirigia para o laboratório, Ken se perguntava o que isso tudo faria com Carol e consigo mesmo. Se ambos estariam vivos amanhã ou nos dias seguintes e, em caso afirmativo, que tipo de vida seria. Pensamentos ruins. Ele tinha tudo tão bem planejado, antes que este pesadelo acontecesse. A solidão acabaria, bem como a vida sem rumo, sempre

39

se mudando de um lugar para outro. Haveria uma casa novamente, o que o rapaz não tinha tido, desde que seus pais morreram. Era o sonho de paz de um homem moderno. Eram as coisas normais, que um homem precisava para mantê-lo firme na luta pela vida, além de dar sentido aos seus anos. E agora...

Hubble esperava do lado de fora do laboratório, segurando um contador Geiger e vários outros instrumentos. Tudo foi cuidadosamente arrumado no jipe e, após vestir o casaco de couro, o cientista se ajeitou no assento ao lado de Kenniston.

- Tudo bem, Ken ... vamos para o extremo sul da cidade. Das colinas poderemos ter uma visão panorâmica de toda a terra à nossa volta.

Eles encontraram uma barricada da polícia municipal, na extremidade sul da cidade e lá ficaram detidos, até que o prefeito telefonasse, autorizando a saída dos dois cientistas, com a finalidade de inspecionar a área contaminada.

O jipe rodou por uma boa estrada, entre pequenas propiedades verdes, por menos de uma milha. Então a estrada e as terras verdes terminaram de repente. A partir deste ponto, as planícies, levemente onduladas, desapareceram do cenário. Nem uma árvore, nem uma manch a de verde, quebrava a monotonia. Apenas o balanço do jipe, o pó e o vento. Hubble, estudando seus instrumentos, disse:

- Nada. Não é nada. Continue.

Em frente a eles, as colinas baixas pareciam magras e nuas, e acima , um vasto céu escuro e frio, que tocava o solo no horizonte. Estrelas fracas, e

40

sob elas nenhum som, exceto o gemido do vento. Com o barulho do motor do veículo rugindo, enquanto a carcaça balançava, devido às irregularidades do terreno, o jeep levou-os em frente, através do silêncio da terra morta.

No documento A Cidade do. Fim do Mundo (páginas 32-41)