A apresentação de um modo próprio ou autêntico de ser-para-a-morte é empre- endida por Heidegger mediante um procedimento que combina as notas características tanto do conceito existencial de morte quando as notas características de um modo impróprio de relacionar-se com essa possibilidade. Assim, se a tendência cotidiana é a
de relacionar-se impropriamente com a morte buscando esquivar-se e tranquilizar-se frente a essa possibilidade, então o modo próprio precisamente caracteriza-se por não buscar esquivar-se e por não tranquilizar-se. Além disso, essa tendência de fuga e tran- quilização tende a assumir a morte não em termos existenciais como possibilidade na qual o existente é lançado, mas como um evento futuro que ainda não se apresentou. É precisamente o caráter da morte qua possibilidade iminente que é mantido aberto no modo próprio de ser-para-a-morte.
Evidentemente, manter a morte aberta como possibilidade voltando-se para ela não possui o significado de buscar ou perseguir a morte, no sentido de tentar realiza-la de alguma maneira (HEIDEGGER, 2009, p. 277). Aliás, isso implicaria compreender a morte não como possibilidade, mas como evento ou acontecimento. Antes, manter a morte aberta significa o reconhecimento de que todas as possibilidades nas quais o existente é lançado são antepostas à possibilidade de ele não existir ou de ele não poder- ser as possibilidades nas quais ele se lança. Heidegger expressamente afirma que este reconhecimento não é equivalente a pensar sobre a morte, pois isso implicaria ocultar o caráter de possibilidade dela4. Ademais, a relação de antecipação em relação à morte
que equivale ao pensar sobre ela é apresentada por Heidegger como esperar a morte, e esse é um traço que não diz respeito ao modo próprio de voltar-se para tal possibilidade. Assim, ser-para-a-morte propriamente não significa esperar a morte ou pensar sobre ela. Mas se não se trata de um esperar a morte, em que consiste o modo próprio de voltar-se para ela? A resposta a esta pergunta encontra-se na seguinte passagem de Ser e Tempo:
“[...] o estar voltado para a possibilidade na forma do estar voltado para a morte deve comportar-se a respeito dessa de um modo tal que ela se revele
como possibilidade em e para esse estar. Semelhante estar voltado para a possibi-
lidade o chamamos adiantar-se para a possibilidade. [...] A máxima proximidade
do estar voltado para a morte enquanto possibilidade é a máxima distância a respeito do real. [...] A morte, como possibilidade, não apresenta para o Dasein
nenhuma coisa por realizar, nem nada que ele possa ser como real. A morte é a possibilidade da impossibilidade de todo comportamento para...., de todo existir.” (HEIDEGGER, 2009, p.278)
Dessa passagem, é importante destacar o vínculo entre adiantar-se e possibili- dade, pois é precisamente isso que permite que a morte se apresente para o existente 4 Quanto a isso, Heidegger não é muito claro, e apenas atribui ao processo calculador do pensamento essa
característica de não tomar a possibilidade como possibilidade pura. O importante a salientar, contudo, é que não é necessário pensar constantemente na morte para estar propriamente voltado para ela, mas apenas reconhecer que como possibilidade insuperável ela sempre é iminente. Este reconhecimento, na medida em que se trata de um fenômeno articulado pelos existenciais do cuidado, é acompanhado da dimensão afetiva, pois o existente angustia-se face à possibilidade de não poder existir.
como possibilidade. Esse vínculo, na medida em que repousa na estrutura existencial do projeto que é constitutiva da compreensão, é o que torna possível que o existente compreenda-se propriamente. Assim, ao projetivamente adiantar a morte como a possi- bilidade na qual ele está lançado, o existente compreende-se propriamente, isto é, como o ente estruturalmente caracterizado por ser-para-a-morte. Assim, ao compreender-se propriamente o existente compreende-se como totalidade, no sentido de uma integri- dade finita. Essa compreensão vem acompanhada, como qualquer outra, de um afeto. Mais precisamente, o afeto que acompanha esta projeção é a angústia. A descrição da experiência da angústia foi exibida como um afastamento das práticas públicas com as quais cotidianamente o existente familiarmente engaja-se. Do mesmo modo, a compreen- são antecipatória da morte mostra ou torna possível que o existe assuma determinadas possibilidades como suas possibilidades próprias e que relegue outras ou não as assuma como suas próprias. Dito de outro modo, diferentemente do existente cotidiano que tende a compreender-se publica e impessoalmente a partir das possibilidades nas quais ele é lançado, a compreensão antecipatória da morte possibilita ao existente reconhecer que sua própria identidade repousa nas possibilidades nas quais ele se projeta, e que somente projetando-se é possível se individuar com alguma identidade existencial. Na formulação de Heidegger:
“O adiantar-se tornado-se livre para a própria morte libera do estar perdido entre as possibilidades fortuitas que se precipitam sobre nós, e nos faz compre- ender e escolher pela primeira vez de forma própria as possibilidades fácticas que estão antepostas à possibilidade insuperável” (HEIDEGGER, 2009, p. 280)
Assim, a importância fenomenológica do fenômeno da morte existencial é a de mostrar para o próprio existente que suas possibilidades são renunciáveis, e que sua iden- tidade não é previamente estabelecida e fixada. Dito de outro modo, a morte existencial mostra que, apesar de o existe já se encontrar facticamente lançado em determinadas possibilidades, é sempre possível abdicar de tais possibilidades renegando-as e assu- mindo outras como as suas próprias. Ou seja, por meio da morte existencial torna-se explícito para o existente que suas determinações, que são as possibilidades existenciais por meio das quais ele busca individuar-se, não são propriedades à maneira de atributos de uma substância. Antes, a antecipação da morte permite ao existente reconhecer que sua própria identidade é sempre renunciável, no sentido de que sempre lhe está aberta a possibilidade de não existir.
Além disso, o fenômeno da morte mostra que de início e na maioria das vezes o existente encontra-se em meio a possibilidades que não foram por ele escolhidas, mas nas quais ele foi lançado. Heidegger expressa isso ao afirmar que a morte possibilita ao existente afastar-se das possibilidades fortuitas e restringir sua própria identidade para algumas possibilidades específicas, e não, como tende o existente cotidiano, tomar sua identidade como assegurada e nos termos públicos ditados pelo impessoal. Assim, a antecipação da morte possibilita ao existente pela primeira vez reparar a tendência cotidiana de não escolher por si mesmo as possibilidades. Essa característica de ausência de escolha é precisamente o que será exibido e articulado em detalhes por Heidegger por meio do chamado da consciência e a sua reparação é caracterizada como decisão ou resolução. De posse dos conceitos de resolução e de antecipação, será possível descrever o modo próprio ou autêntico de ser-no-mundo. Para tanto, será preciso, antes, reconstruir os con- ceitos de consciência e culpa, pois é por meio do chamado da consciência que o existente pode sair do modo impessoal de ser-no-mundo e resolutamente voltar-se para as possibi- lidades de seu mundo. Na próxima seção, o foco inicial da reconstrução será os conceitos de consciência, culpa e, a partir disso, o conceito de propriedade ou autenticidade.