4. UM ENSAIO SOBRE A MORTE OU AS INTERMITÊNCIAS DO ENSAÍSMO
4.1 A morte nos ensaios de Montaigne: aprender a morrer para se libertar
Antes de nosso mergulho analítico no romance As intermitências da morte, faremos um desvio para a obra de Montaigne, com o intuito de verificar o modo como o pensador francês faz da morte um constante ensaio no transcorrer de sua obra, pois, conforme já afirmamos, esse autor teve importância ímpar na formação de Saramago, de modo projetar na linguagem do escritor os estilhaços de uma escrita ensaística que marcaram o seu fazer literário, conforme procuraremos demonstrar no decurso deste capítulo.
Na esfera da filosofia, em Montaigne, embora o ensaio “Que filosofar é aprender a morrer” seja um dos que mais arrazoam sobre a morte, este tema perpassa inúmeros outros ensaios do filósofo, pois se ele o concebe como um registro material de suas próprias singularidades, da sua cambiante condição humana ao longo de sua existência. No rol de seus textos, é possível mapear essa condição mutável por que passa, e o que ele vislumbra sobre o tema da morte.
Considerando-se a divisão da obra montaigniana em três livros, no primeiro livro, do qual faz parte o famigerado ensaio “Que filosofar é aprender a morrer”, Montaigne dedica boa parte de sua escrita a essa mesma questão. Desde o início da obra até seus ensaios finais, elabora páginas e páginas ensaiando sobre o tema sob diferentes ângulos ou por meio de inúmeras micro narrativas, que trazem, concreta ou metaforicamente, a morte à baila.
Aliás, antes mesmo desse primeiro livro, numa carta dirigida “Ao leitor”, Montaigne já descortina sua antologia de ensaios colocando em cena a morte como algo inevitável, pois deixa entrever que, além de tentar resumir seus ensaios em um modo de expressão que registra os matizes de seu caráter e de seus pensamentos, sua obra se justifica, enquanto seu próprio legado, em razão de sua morte: “a fim de que, quando eu não for mais deste mundo (o que em breve acontecerá)” (MONTAIGNE, 2016, p. 39). Ou seja, desse ponto de vista, a morte torna-se a razão pela qual se justifica a constante redação, e reelaboração, de seus ensaios: o aspecto permanente do qual a escrita se vale. Algo, portanto, contrário à ideia da vida permanente: a efemeridade.
No primeiro ensaio do livro I, por exemplo, intitulado “Por diversos meios chega-se ao mesmo fim”, Montaigne pouco disserta sobre o que acena no título, porque lança mão de vários argumentos baseados em fatos concretos, isto é, pequenas narrações em geral de pessoas notáveis, a fim de persuadir o leitor32 e demonstrar que a morte, sobretudo aquela resultante dos conflitos humanos, é o ponto axial para se repensar as ações humanas.
Dessa maneira, perscrutar o conceito de morte na obra de Montaigne é deparar-se com o cerne do seu pensamento: a natureza humana como algo volátil, ou nas palavras do filósofo, “Em verdade o homem é de natureza muito pouco definida, estranhamente desigual e diverso. Dificilmente o julgaríamos de maneira decidida e uniforme” (2016, p. 45). Nesse sentido, suas visões em torno da morte modificam-se dentro de um mesmo ensaio, ao ponto, inclusive, de chegar ao nível da contradição, como já se afirmou anteriormente, quiçá mapeá-la em sua obra toda...
Ainda no primeiro livro, por exemplo, no ensaio “O bem e o mal só o são, as mais das vezes, pela ideia que deles temos”, o filósofo apresenta as proporções relativas no que toca à morte, calcadas em outros pensadores, como Lucano e Cícero, a saber:
Ora, essa morte que alguns consideram “a mais horrível entre as coisas horríveis” outros julgam “o nosso único refúgio contra os tormentos da vida – o maior benefício que nos deu a natureza - o único amparo imediato e comum a todos contra os males”. Aguardam-na alguns a tremerem de medo; outros, preferem-na à vida. E não falta até que a considere demasiado acessível: “Ó morte, quisessem os deuses que desdenhasses os poltrões e que somente a virtude merecesse tua preferencia”. Mas não nos ocupemos com tão gloriosas coragens. (MONTAIGNE, 2016, p. 87-88)
Cumpre destacar que em um dos famigerados ensaios, “Que filosofar é aprender a morrer”, Montaigne assinala que tal proposição, sob o seu ponto de vista, remete ao exercício crítico que se deve prevalecer sobre a morte, uma vez que: “o estudo e a contemplação tiram a alma para fora de nós, separam-na do corpo, o que, em suma, se assemelha à morte e toda sabedoria e inteligência resulta finalmente que aprendemos a não ter receio de morrer” (2016, p. 120), de modo a sublinhar que os principais tratados filosóficos convergem no sentido de que “Um dos principais benefícios da virtude está no desprezo que nos inspira da morte” (p. 121).
32 A respeito disso, afirma Montaigne: “os exemplos [...] parecem-me sublinhar melhor a realidade das coisas” (2016, p.
No entanto, pondera que não se deve proceder tal como o homem vulgar, aquele que procura prescindir a morte de seus pensamentos. Como exemplo de vidas breves, mas plenas de humanidade, cita Jesus e Alexandre, os quais morreram aos 33 anos, além de listar inúmeras personagens históricos que morreram de maneira fortuita, inclusive seu próprio irmão, após ser acometido por uma bola em um jogo de pela, aos 22 anos. Enfim, tudo de modo a frisar a importância, que se deve conceber de antemão, de se preparar para a inevitável e final sentença humana (MONTAIGNE, 2016).
Assim, o pensador francês elenca inúmeros aspectos à “preparação” para a morte, rememorando-a permanentemente, como sinônimo de liberdade. Dentre outros inúmeros exemplos de que se vale, cita a forma como os egípcios, durante seus festivais voltados aos prazeres da mesa, lidavam, inclusive nesses contextos, com a morte: a certa altura um esqueleto humano era posto sobre a mesa com o propósito de rememorá-los com relação à precariedade da vida.
Este exemplo, aliás, remete-nos ao contexto português de tradição religiosa cristã, quando, durante o século XVII, período da Contrarreforma, a congregação religiosa franciscana construiu em Portugal algumas capelas inteiramente compostas e ornamentadas de ossadas humanas, cuja frase à entrada era “Nós ossos que aqui estamos pelos vossos esperamos", a exemplo da Capela dos Ossos33 da cidade de Évora. A frase, que aponta para a transitoriedade da vida, resume o objetivo de se construir tais espaços: indicar a transitoriedade e a fragilidade da vida, prática também recorrente em outros países da Europa, naquela época. Montaigne também diz que a prática de construir cemitérios próximos a igrejas ou pontos importantes da cidade, por exemplo, deve-se à importante memória acerca da efemeridade da vida (MONTAIGNE, 2016).
Frase similar a essa, aliás, é citada por Saramago no romance As intermitências da morte: “Nós que triste aqui vamos, a vós todos felizes esperamos” (SARAMAGO, 2014, p. 68), porém, composta pelo acréscimo de alguns adjetivos que ironicamente elevam-na ao nível da jocosidade e da paródia, pois a cena, no romance, refere-se ao momento em que as pessoas vão às ruas protestar em decorrência da suspensão de mortes, de modo a ensaiar ficcionalmente como seria uma vida sem morte.
33 A capela da cidade de Évora, um dos pontos turísticos mais frequentados da cidade, possui mais de 18m de
Montaigne, por seu turno, em certa altura do ensaio em análise, faz referência a si mesmo, como exemplo de alguém que “jamais desconfiou tanto da vida e contou menos com a sua duração” (2016, p.127). Por isso, diz ele, interessava-se muito por fatos ou histórias lidas que envolviam a morte, a ponto de afirmar que “Se fosse escritor, anotaria as mortes que mais [...] [o] impressionaram e as comentaria, pois quem ensinasse os homens a morrer os ensinaria a viver (2016, p. 129). Desse modo, finda esse seu ensaio, tecendo críticas ao alarde lúgubre conferido à morte: “tudo, em suma, em volta de nós se dispõe como para inspirar horror; ainda não rendemos o último suspiro, e já estamos amortalhados e enterrados” (p. 135), bem como de modo taxativo: “Feliz é a morte que nos surpreende sem que haja tempo para semelhantes preparativos!” (p. 135).
Tal maneira de encarar a morte, aliás, como brevemente mencionamos, ressoa no modo como a cultura brasileira lida com a morte: um tema tabu frequentemente associado à questão da dor e do sofrimento, aspectos que nos fazem permanentemente refutá-la ou silenciá-la, como resquícios da cultura cristã imposta inicialmente pelos portugueses, como mecanismo de manipulação e de dominação simbólica sobre a cultura indígena, depois reforçada por outras culturas, também de origem cristã.
Por fim, em um dos últimos de seus ensaios, do livro III, cap. XII, “Da fisionomia”, o filósofo francês, já em uma altura da vida na qual faz uma reavaliação sobre o seu passado no contexto de seu país, toca novamente na questão da morte, narrando e descrevendo os momentos mais adversos por que passou, como, por exemplo, a guerra:
Monstruosa guerra! As outras são dirigidas para fora; esta volta-se contra nós mesmos; destrói-se a si própria e morre de seu próprio veneno. É de natureza tão maligna e desastrosa que se arruína com a ruína que provoca; esquarteja-se a si mesma. Vemo-la que se estingue mais por escassez de alimento do que pela força inimiga. Renega qualquer disciplina; tem por objetivo dar cabo às sedições, mas de sedição se enche. Propõe-se à punição da desobediência e dá o exemplo da revolta; empregada na defesa das leis, desatende às prescrições legais. Para onde vamos? (MONTAIGNE, 2016, p. 960)
Nesse processo de ruminação acerca de seu passado, Montaigne conclui que, apesar de tudo, a paciência e o autocontrole eram os antídotos contra os reveses pelos quais passou: “A verdadeira liberdade consiste em um completo domínio de si mesmo” (p. 964). Contudo, não deixa de enfatizar um dos períodos mais amotinados, vivido na França, que o fez, mais uma vez, relacionar-se à questão da morte: a peste.
Outra calamidade juntou-se a essas misérias: a peste grassou na região com uma violência nunca vista. [...] os ares de minhas terras, tão salubres que nunca haviam sido perturbados, ao serem contaminados sofreram excepcionalmente [...] Minha própria casa tornou-se horrível à vista. O que nela havia ficou entregue a quem passasse; eu, tão hospitaleiro, encontrei a maior dificuldade em descobrir um refúgio para a minha família, a qual passou a ser um objeto de horror para os próprios amigos e parentes; onde quer que se apresentasse, imperava o pavor. (2016, p. 965-966)
Em meio a esse cenário, Montaigne narra que, por seis meses, serviu de guia a essa caravana, sem, contudo, afligir-se pelo medo da morte, por vários fatores, dentre eles, o fato de que a morte pela peste era, em geral, rápida “não se sofre e a ameaça que pesa sobre todos igualmente é um consolo” (p. 966). Além disso, assinala o modo com o qual muitas pessoas, especialmente as mais simples, exemplos de resolução, lidavam com a morte nesse contexto: colhiam normalmente as uvas, “indiferentes à morte, que esperavam de um momento a outro, preparavam-se para recebê-la sem temor, como se aceitassem à maneira de uma condenação universal que a todos atingiria.” (2016, p. 966).
Por fim, o filósofo adverte o leitor: “Se não sabeis morrer, não vos atormenteis; a natureza ensinar-vos-á no momento preciso de um modo suficiente. Ela executará a tarefa, não vos preocupeis” (p. 968). Contrariando Cícero, para quem a vida não passou de uma meditação sobre a morte, Montaigne postula que a ênfase deve ser dada à vida, isto é, não se deve preocupar exageradamente com a morte, mas viver com calma e serenidade, pois assim morreremos do mesmo modo, “o que a vida precisa ter em vista, o que ela deve propor-se é ela mesma; cumpre que se esforce por se estudar, se orientar, se suportar [...]”. Assim, finda o ensaio fazendo referência a “Que filosofar é aprender a morrer”, revendo sua importância no conjunto de seu projeto ensaístico: “no capítulo principal do saber viver, o artigo referente ao saber morrer seria dos menos importantes se nosso temor não lhe desse ênfase” (p. 969).
Montaigne ainda parafraseia um longo discurso que Platão atribui a Sócrates, na “Apologia de Sócrates”, com a finalidade de reconhecer e luzir Sócrates como exemplo de preceptor pelo modo como se defrontava com a morte. Conclui fazendo referência ao título desse ensaio, “Da fisionomia”, ao narrar dois episódios de sua vida nos quais salvou-se da morte graças, segundo ele, à sua fisionomia, reflexo de sua maneira permanentemente crítica de pensar:
Se meu semblante não respondesse por mim e se eu não revelasse nos olhos e na voz a inocência de minhas intenções, não ficara sem disputas nem ofensas
tanto tempo, dada minha indiscreta maneira de dizer as coisas, a torto e a direito, e de tudo julgar temerariamente. (2016, p. 979)
Como já dissemos em capítulo anterior, os Ensaios de Montaigne foram um manancial para vários escritores, dentre eles Machado de Assis e José Saramago. A seguir, focalizaremos, no romance As intermitências da morte, o modo como o ensaio entrelaça-se à linguagem de Saramago, destacando, inicialmente, a morte como mote constante no contexto de seus romances.