O primeiro passo do trabalho de pesquisa consistiu na definição dos espaços na cidade de Salvador, Bahia que oferecem apoio e formação a
3.3 MOTIVAÇÕES E INTERESSES: DO TECLADO À INTERNET
“Quais motivações foram geradas no sujeito para a aprendizagem do uso de ferramentas digitais?” É uma questão interessante, pois ela se apresenta sob forma intrínseca e extrínseca ao sujeito. Como não fazer parte do movimento em que o mundo todo está passando? Existem as motivações próprias do desejo de pertencimento que é inerente ao sujeito social – lógica conjuntista identitária (CASTORIADIS, 1982). Porque não ter acesso a algo que todos estão tendo ou desejando ter?
A questão do acesso à tecnologia digital pelo cidadão-cego é algo anterior aos softwares de leitura de tela. Os sujeitos confirmavam os comandos no computador baseados em sua memória dos programas, para isso eles precisavam estudar os programas, e assim conseguiam realizar gravações de arquivos, salvar e recuperar documentos etc...
Na verdade, quando eu comecei a estudar informática foi sem o auxílio de ledores de tela, eu fui com a cara e a coragem pra escola de informática, onde eu tive eu comecei a... aprender os assuntos de forma bastante teórica eu já tinha domínio do teclado dada à minha experiência com a máquina de datilografia. E a realizar algumas operações mesmo sem o ledor de tela, conseguia salvar um arquivo, enfim, gravando comandos, sobretudo naquela transição do MS-Dos para Windows. Onde se digitava bastante comando. Aí eu comecei naquela perspectiva auto-didata. Já se falava muito em alguns sintetizadores de voz que ainda não estava bastante assim em evidência, mais assim pra a elite de deficientes visuais que tinham acesso, sobretudo em algumas empresas onde programadores cegos atuavam. E eu comecei a ter foi quando entrou no mercado o DosVox. Acho que foi em 93 ou 94, que eu tive contato pela primeira vez. E aí me despertou ainda mais interesse. Primeiro pelas minhas pretensões acadêmicas desde aquela época eu comecei a perceber que a utilização do computador ele ia me ajudar bastante. (Cidadão I)
E você tava falando aqui agora na questão de uma elite de cegos que tinha acesso a esses programas em ambientes empresariais que possibilitassem esse acesso. Antes o acesso de deficientes visuais às ferramentas digitais era mais difícil, ou inacessível? (Entrevistador)
Praticamente inacessível. Hoje ainda é muito difícil. Se você for analisar o universo de pessoas cegas hoje, existentes na Bahia, no Brasil. A gente sabe que menos de 10% das pessoas cegas têm acesso à qualquer tipo de recursos que lhe possibilite o desenvolvimento. Mas hoje, o acesso da pessoa cega ao computador até neste momento se dá nas instituições. No caso daqui de Salvador, No Instituto de Cegos, no CAP, Associação Bahiana de Cegos, Setor Braille da biblioteca pública, até porque a
gente sabe que a grande maioria de pessoas com deficiência, a incidência de pessoas com deficiência é de famílias pobres onde o computador ainda não é uma realidade. (Cidadão I)
O que você designa como possibilidade de, possibilidade não, probabilidade da maior parte dos cegos serem pobres? (Entrevistador)
Primeiro porque estudos vêm, comprovam isso. E depois a minha experiência com pessoas cegas comprova isso. Sem dúvida! O pessoal geralmente é de família pobre, oriundos, vindos de família de baixa renda. (Cidadão I)
O cidadão A vê na tecnologia uma possibilidade de mudança de vida, ou seja, trabalhando por meio dessa ferramenta pode desenvolver-se socialmente e lograr um outro tipo de realidade financeira para a sua vida, e no que diz respeito às suas motivações percebe- se que o objeto em si, muitas vezes já é suficiente para promover o contato com ele.
A tecnologia em si. Acho que a informática facilita a nossa vida em muitas coisas em diversas áreas, a gente pode utilizar o computador pra digitar uma redação, guardar informações, fazer uma agenda, pode usar a internet pra fazer pesquisa, tem diversas utilidades, a informática pra mim isso me atrai, me prende muito. (Cidadão A)
Curiosamente o cidadão B fala de um tempo futuro que é ao mesmo tempo o presente. A tecnologia é a que todos nós estamos vivendo, é a que está contemporânea a nós e se confirma o que havia sido dito no capítulo 2.2, de que a influência do momento histórico é fundamental na relação com os objetos e outros sujeitos sociais. E também, pode-se verificar a influência social nas decisões pessoais dos cidadãos. Principalmente se compreendermos que o cidadão fala que a informação pode ser uma forma de melhorar a sua vida social: “como você deve lidar com o ser humano”.
A curiosidade pela tecnologia do computador, foi o que me fascinou porque eu ouvia pessoas comentarem que o computador era a informação e seria o futuro, como está sendo. Eu me interessei a fazer o curso de informática, porque a minha própria família me sugeriu isso, achando que eu ia progredir na informação com relação à internet, e até corrigir erros ortográficos que eu tinha por causa da própria cegueira. [...] Através da internet, através dos programas de voz, eles me informam notícias, novidades que aparecem, programas atuais, informações como páginas de dicas de como você deve lidar com o ser humano etc... E também através do próprio correio eletrônico no sistema DOSVOX você pode acessar através também do próprio Outlook. (Cidadão B)
A tecnologia é imposta de uma maneira tão sutil que não tem porque o sujeito ficar fora do que lhe é contemporâneo.
O que me motivou foi que eu via bastante pessoas mexendo no computador. E há um tempo atrás eu só via falando de internet, a galera só vivia falando nisso. Daí, rolou um curso de Windows com o programa Virtual Vision, que é um programa que lê a tela pra gente ouvir. Ele fala também tudo o que está escrito na tela. Daí, me motivou, eu peguei, como tinha dado este curso, me inscrevi, aprendi mais ou menos algumas coisas. [...] Eu passo acessar internet, pela tecnologia do programa, uma tecnologia nova aí que desenvolveram, acesso internet, acesso o Windows, acesso os programas [...] (Cidadão C)
Ao ser indagado sobre o que acessa na internet, o cidadão C fala da relação com a máquina para o acesso à informação e realização de pesquisa. O mais interessante que para o cidadão C o livro em formato digital é algo tão cotidiano à sua realidade que ele simplesmente fala que “eu leio livro, gosto muito de ler livros”, assim os livros não são em papel mas sim em formato digital.
Eu faço pesquisa escolar, quando tem, passa na sala eu faço a pesquisa e depois imprimo. Às vezes eu jogo quando tenho tempo, às vezes eu leio livro, gosto muito de ler livros, aí eu faço várias coisas. (Cidadão C)
O cidadão D já fazia uso do computador antes de ficar cego e precisou se readaptar para poder acessar novamente. É um relato de um cidadão do seu processo de tornar-se cego e assim adaptar-se ao uso da tecnologia.
Eu por eu ter perdido a visão aos 19 anos, eu já tinha computador em casa, e eu praticamente fiquei com o computador parado por um ano, foi quando eu entrei no Instituto de Cegos e eu vi a oportunidade de estar trabalhando com a informática de novo, com os programas. Passei a conhecer o que eu já tinha acesso, e foi com o professor João Bosco que eu me readaptei a trabalhar com o computador. O primeiro curso. E depois eu tomei cursos avançados na área também pra deficiente visual de outros programas como o Jaws, o Linux, mais o Jaws. E o Virtual Vision no CAP. (Cidadão D)
Quando o cidadão F fala do que “a vida nos impõe”, é a necessidade de estar acompanhando o desenvolvimento do mundo, não ficar alheio a este movimento. Sem perder de vista que este tipo de discurso é também um discurso social, na medida em que os que não
estiverem acompanhando o desenvolvimento estarão excluídos dos processos sociais mais ampliados, mas não deixa de permitir que os sujeitos possam refletir a respeito do uso das tecnologias. O cidadão E fala de uma circunstância educativa também que lhe impõe um outro tipo de velocidade na recuperação da informação: “a chegada ao ensino médio”, sobretudo com a “necessidade de aprender”, assim como o cidadão G fala da sua preparação para o vestibular. De forma geral os sujeitos fazem usos motivados pelo caminho de estudos que estão trilhando.
Comecei primeiro no CAP com o Dosvox, o Virtual e o Jaws. E é o que a vida nos impõe, né, de estar acompanhando o desenvolvimento. (Cidadão
F)
Eu, na verdade quando minha irmã comprou um computador em casa, eu ficava parado, então devido a ir chegando ao ensino médio, enfim, chegou a necessidade de aprender e de ir ao CAP. Comecei com o Dosvox, depois o Virtual Vision. Fiz o curso avançado lá no SENAI. E aí a internet também. Devido mesmo a necessidade de você aprender. (Cidadão E)
O que me motivou a buscar a informática, a aprender, na verdade foi as minhas dificuldades. A gente tinha dificuldade em agenda de telefone. Na questão da digitação. Na questão de buscar informação, a partir do momento que você tem o acesso à informática, você tem acesso à diversos tipos de informação. (Cidadão G)
Que informações exatamente você acessa, você utiliza? (Entrevistador)
Eu to me preparando pra fazer vestibular, então eu tô buscando conhecimento em diversos tipo de matérias, né que, e conhecimento gerais, me atualizando pra assim estar realmente preparado pra fazer o vestibular. (Cidadão G)
O desejo de conhecer, o desejo de produção intelectual mescla-se com a representação de que é necessário estar utilizando uma ferramenta que seja a mais moderna, ou que possibilite a maior recuperação de informação no menor tempo. A fala do Cidadão H revela prontamente um discurso próprio de um determinado grupo social – representação social do discurso - os que fazem parte da “academia”. Quais são as necessidades que se impõem academicamente? Estudar, conhecer cada vez mais? Ou, consumir informação?
As necessidades acadêmicas. A própria... os estudos, eles os impulsiona à gente estar sempre buscando recursos que possibilite, que facilite a nossa permanência, as nossas pesquisas. Então por conta do estudo eu me senti voltado a procurar o curso, a entidade tava oferecendo. Com a parceria que eles fazem com o FAT, financiamento do FAT. A entidade tava oferecendo o curso. (Cidadão H)
O que é o FAT? (Entrevistador)
É o Fundo de Amparo ao Trabalhador. Então juntamente com o governo do Estado que é a SETRAS, né, Secretaria de Trabalho, Secretaria do Estado de Trabalho, então eles disponibilizam esse fundo e as entidades vão e oferecem os cursos. (Cidadão H)
O cidadão J estudou informática, motivado pela readaptação ao mundo do trabalho, mas como acabou se aposentando, unido com os seus interesses pessoais, deixou de fazer uso desta ferramenta conforme foi dito anteriormente, já que utiliza a lupa eletrônica. O que motivou o sujeito a estudar informática foi:
Que eu iria utilizar no trabalho. (Cidadão J) E você utiliza? (Entrevistador)
Não porque por questões burocráticas o órgão necessitaria de comprar os programas. (Cidadão J)
Que órgão? (Entrevistador)
O órgão onde eu trabalhava.Tribunal do Trabalho. (Cidadão J) Você não trabalha mais? (Entrevistador)
Me aposentaram por invalidez. (Cidadão J)
Cada um dos sujeitos foi motivado por questões individuais e sociais no uso do computador, mas basicamente o principal motivo está no interesse em ampliar a possibilidade de acesso à informação e com isso realizar transformações em suas vidas, mas o que tem mudado será infra exposto.