2 OS CORTIÇOS NO BRASIL NA VIRADA DO SÉCULO XIX/ XX
2.2 O SURGIMENTO DOS CORTIÇOS NO BRASIL
2.2.3 Os motivos que levaram a optar por tal moradia
Como já fora citado neste capítulo, as metrópoles e suas regiões centrais, do séc. XIX, eram o “coração” da vida citadina. As áreas centrais eram onde “pulsavam” todos os sonhos de uma vida melhor das cidades que cresciam em serviços, trabalhos, era onde tudo acontecia. Neste momento socio-histórico não havia separação de área de trabalho e moradia, era comum que os trabalhadores morassem em seus locais de trabalho, conforme consta no Cadastro de Habitações do Distrito Federal, de 1895 (VAZ, 1994). A autora ainda cita que registros confirmam esta prática usual no período da República Velha: “[...] se confirma pelos relatos de diferentes origens, seja jornalística, sanitarista ou literária, que se referem a padeiros dormindo junto aos fornos das padarias, jornaleiros nas tipografias, caixeiros nos armazéns, etc [...]” (VAZ, 1994, p. 588).
Ainda que registros deem por início da presença dos cortiços na capital do Brasil, Rio de Janeiro, o ano de 1850 e a implantação do sistema de transporte coletivo de trens no ano de 1861, não evitou-se a expansão de tais moradias populares a partir da década de 1870, quando a crise habitacional se instalara na cidade. Sendo assim, morar distante das áreas centrais da cidade não era só um fator dificultoso conforme explica Cardoso (2010):
[...] Aos pobres restava a moradia junto ao Centro da cidade, preferencialmente nos diversos cortiços que ali haviam sido construídos; passaram então a abrigar uma população sem recursos para arcar com custos de transportes e que necessitava estar perto do trabalho, então concentrado no centro da cidade, onde se encontrava a maior parte das oportunidades de trabalho (p. 80).
O cortiço, então, nesta perspectiva, não se constituiu uma opção para a maioria de seus habitantes que fazia parte da camada mais pobre da sociedade, migrantes, cariocas, entre
outros, que dependiam de residir em uma região onde a oferta de serviços e trabalho eram mais viáveis. Lima (2011, p. 03) ainda aponta que “as facilidades de locação como não exigência de fiador e impossibilidade de comprovação de renda” impulsionavam este mercado de locação imobiliário. Contudo, tais facilidades não conferiam a tranquilidade de moradia aos moradores, como verificamos em Ribeiro (1994):
[...] Juntavam-se a isto os salários mirrados da população. A solução eram as habitações coletivas, que nem por isso eram baratas. Excesso de gente e pouca moradia: realidade que conferia aos proprietários o poder de cobrarem o quanto quisessem, de aumentarem continuamente os aluguéis e mesmo despejarem os inquilinos pela força, em uma época em que não existiam leis reguladoras dos contratos (p. 638).
No caso dos negros baianos, que vinham morar no Rio, encontravam nas casas (cortiços) das “tias” baianas o “porto seguro” para a sua tentativa de vida na nova e promissora cidade. Era o ponto de partida para um nova vida. Entretanto, os baianos influenciados por sua cultura, também enxergavam o cortiço como um referencial de espaço que não se igualava ao “lar doce lar” da burguesia (VELLOSO, 1990). Da Bahia eles trouxeram o costume de se agruparem em “cantos” de acordo com as etnias locais (nagôs, hauçás, gurucins, ...). Os “cantos” proporcionavam a organização quanto ao mercado de trabalho destes, além ser um local para colocar a conversa em dia e onde tinha alguém para fornecer ajuda (VELLOSO, 1990, p. 212).
A união das pessoas se tornara o ponto principal da dinâmica reinante nos cortiços baianos, o que caracterizava o seu espaço o seu “pedaço”. Neste sentido, Velloso (1990) nos mostra em um relato como funcionava esse espaço de sociabilidade da cultura afro-baiana:
[...] Entre nós, essa tradição era encabeçada pelas mulheres que, muitas vezes, acabavam transformando suas casas em verdadeiras oficinas de trabalho. As casas eram os cantos, o pedaço onde era possível unir esforços, dividir tarefas, enfim, reunir os fragmentos de uma cultura que se via constantemente ameaçada (p. 213). Na cultura negra o espaço tem sentido de um local conquistado, marcado pela luta de um povo, portanto, tanto o espaço da rua como o da casa trazem sentidos fortemente relacionados à sua cultura, como explica Velloso (1990):
[...] O espaço não é regulado apenas pelas leis e regras institucionais, mas pela própria dinâmica das necessidades, daí a rua virar "ponto" e a casa virar "centro". Assim, desfaz-se a rígida segmentação entre o domínio público e o privado. O privado pode se transformar em público (casa-centro), da mesma forma que o público pode apresentar-se como privado (pontos na rua) (p. 225).
Neste contexto de casa-centro e dos pontos na rua, as “tias” tinham presença marcante tanto na casa como na rua, recebiam muitas vezes codinomes como a “alma do bairro” ou a “dona do pedaço” (VELLOSO, 1990, p. 223). Assim, a sociabilidade presente nos cortiços das baianas está diretamente relacionada ao candomblé, que se tornara fator agregador não só entre os baianos, membros da filiação étnica, mas entre todos que frequentavam as casas- centro das tias, membros da família de santo. Velloso (1990) nos informa como a família, neste sentido, se associa ao espaço e a cultura deste povo:
É a necessidade de garantir o pedaço e ampliar a liderança pelos mais variados domínios da vida social (umbanda, samba, jongo), ampliar o espaço da casa (centro), ampliar a idéia (sic) de família ("grande família"), ampliar a concepção de rua (só mero local de passagem mas ''ponto'') enfim ampliar o espaço do terreiro além dos limites fundiários. Sem dúvida, o candomblé introduziu e consolidou muitas dessas idéias (sic) e valores aqui no Rio [...] (p. 225).
Deste modo, verificamos em Velloso (1990) que aos baianos a relação entre espaço e identidade cultural não foi gestada pelas classes dominantes, mas pelas próprias “famílias” das casas que ali demarcavam o seu espaço. Era um pequeno espaço físico, porém, era de cunho fundiário, político, social e simbólico, mas onde se fazia uma verdadeira África.
2.2.4 A perspectiva higienista: a insalubridade dos cortiços – representações sobre