2. Por uma interpretação conflitiva da relação entre Estado e religião: uma
2.2. Os modelos de democracia radical de Chantal Mouffe e de Estado
2.2.1. Chantal Mouffe, o modelo agonístico de democracia e suas contribuições
2.2.1.2. Mouffe entre o liberalismo e o comunitarismo
A defesa da ampla participação democrática dos cidadãos na esfera pública, como dito, não implica em uma total negação por Mouffe às ideias defendidas no âmbito do liberalismo político. Embora tenha apresentado as críticas e alternativas acima mencionadas, muitos dos conceitos presentes na aludida tradição foram apropriados no modelo agonístico de democracia, quais sejam, a prioridade do justo sobre o bem, o princípio de separação entre Estado e religião, a articulação entre os princípios da igualdade e da liberdade, o reconhecimento do império do direito e dos direitos e liberdades fundamentais.
Desta maneira, a ênfase da autora nos direitos de participação democrática, relacionados à coletividade, não conduz a uma negativa ao individualismo, aos direitos e às liberdades individuais amplamente enfatizados pela tradição liberal. Pelo contrário, o seu modelo de democracia radical visa admitir uma forte participação coletiva dos cidadãos na esfera pública, sem contudo negar os benefícios trazidos pelo liberalismo político para defesa de direitos individuais e enfrentamento do pluralismo presente nas democracias liberais.
Especificamente a respeito da temática da presente pesquisa, Mouffe explicitamente concorda com o princípio da laicidade, de separação entre Estado e religião, considerando-o uma das principais conquistas do liberalismo político que merece ser apropriada em seu modelo, por constituir noção que responde adequadamente ao pluralismo das democracias liberais, nas quais as mais diversas, conflitantes e divergentes visões de mundo defendidas pelos cidadãos inviabilizam a organização social por apenas uma concepção de bem.
Ao inserir em seu modelo de democracia o princípio liberal da laicidade e a ideia de prioridade do justo sobre o bem, Mouffe concorda com Rawls, admitindo expressamente a importância do filósofo de Harvard na temática:
“Penso que Rawls tem razão ao defender que numa democracia moderna os princípios de justiça têm que ser deduzidos independentemente de qualquer concepção moral, religiosa ou filosófica e que servem como enquadramento para determinar quais as concepções de bem concretamente aceitáveis. (...) Com a emergência do indivíduo, a separação entre a Igreja e o Estado, o princípio da tolerância religiosa e o desenvolvimento da sociedade civil, operou-se uma separação entre a política e aquilo que se tornou a esfera da moralidade. As crenças morais e
religiosas são agora uma questão privada, sobre a qual o Estado não pode legislar, e o pluralismo é um traço fundamental da democracia moderna, o tipo de democracia que é caracterizado pela ausência de um bem comum substantivo.” (MOUFFE, 1996, p. 65-67)
“O grande mérito de Rawls reside no fato de salientar que as sociedades democráticas modernas, onde já não existe um único bem comum substantivo e onde o pluralismo é fundamental, uma concepção política de justiça não poder resultar de uma determinada concepção religiosa, moral ou filosófica de felicidade.” (MOUFFE, 1996, p. 78)
Nessa medida, além de considerar o princípio da laicidade e a prioridade do justo sobre o bem como noções fundamentais e indispensáveis para a defesa das liberdades individuais e do pluralismo existente nas sociedades modernas, Mouffe questiona o comunitarismo, tradição tipicamente oposta ao liberalismo político que sustenta, dentre outros ideais, a unificação das comunidades políticas por intermédio de um ideal de bem comum substantivo defendido coletivamente, criticando o princípio de separação do Estado perante as visões individuais de mundo, bem como a ideia de prioridade do justo sobre o bem. Contra o comunitarismo, afirma a professora de Westminster:
“(…) sou prudente em relação a muitos dos aspectos da abordagem comunitarista. A sua rejeição do pluralismo e a defesa de uma ideia substantiva de “bem comum” representam, a meu ver, outra forma de fugir à inelutabilidade do antagonismo. (…) A cidadania é vital para a política democrática, mas uma teoria democrática moderna tem de criar espaço para concepções divergentes da nossa identidade como cidadãos.” (MOUFFE, 1996, p. 18)
“(...) existe um risco real de regressarmos a uma concepção pré-moderna de política que não reconhece as inovações da democracia moderna e o contributo fundamental do liberalismo. A defesa do pluralismo, a ideia da liberdade individual, a separação entre a Igreja e o Estado, o desenvolvimento da sociedade civil, são todos traços constitutivos da política democrática. (…) Ao contrário do que propõem alguns comunitaristas, uma comunidade política democrática moderna não pode ser organizada em torno de uma única ideia substantiva de bem comum. A recuperação de uma forte concepção participativa de cidadania não deve ser feita à custa do sacrifício da liberdade individual.” (MOUFFE, 1996, p. 86-87)
Apesar de ser contrária à tentativa comunitarista de negar as liberdades individuais e o pluralismo de concepções individuais de bem, Mouffe concorda com a ênfase do comunitarismo na participação política e na construção de identidades coletivas entre os cidadãos. Para a autora, a tradição liberal contribuiu consideravelmente para a defesa de direitos individuais, mas, por outro lado, permitiu que nas sociedades modernas os conflitos, as divergências, os dissensos e as questões éticas fossem relegados para a esfera privada, em prejuízo ao exercício dos direitos de participação popular. Nessa medida, com vistas a se apropriar mutuamente dos benefícios da tradição liberal – com sua ênfase nas
liberdades individuais – e do comunitarismo – com sua perspectiva voltada a uma ampla participação dos cidadãos na esfera da política –, Mouffe defende a conjugação de ambas as tradições, a fim de que os cidadãos possam amplamente obter o reconhecimento de seus direitos individuais, assim como ser-lhes garantido o exercício dos direitos de participação política nas democracias liberais.
Em que pese rejeite a unificação social por intermédio de um ideal de bem comum adotado coletivamente, por outro lado, Mouffe sustenta que as democracias liberais possuem importantes valores políticos que não podem ser negligenciados, como os princípios ético-políticos da liberdade e da igualdade. Nesse ponto, “com” o comunitarismo e “contra” o liberalismo, Mouffe sustenta que inexiste uma neutralidade geral do Estado perante os valores políticos, já que os ideais de igualdade e de liberdade são pressupostos nas democracias liberais, e que, por isso, o princípio de separação entre Estado e religião não implica em uma necessária neutralidade com relação a todas as religiões:
“As reflexões anteriores indicam que há uma séria incompreensão no postulado liberal da neutralidade do Estado. Realmente, um estado liberal democrático, a fim de respeitar a liberdade individual e o pluralismo, tem que ser agnóstico em matéria de religião e moralidade. Mas não pode ser agnóstico quanto a valores políticos, uma vez que por definição ele postula certos valores ético-políticos, uma vez que por definição ele postula certos valores ético-políticos que constituem seus princípios de legitimidade. Longe de se basear numa concepção relativista do mundo, a democracia liberal é a expressão de valores específicos que informam a maneira como ela estabelece um modo de ordenamento das relações sociais.” (MOUFFE, 2006, p. 20)
“Como vimos, o modelo agonístico nega que o estado liberal seja ou deva ser neutro. A separação entre Igreja e Estado não pode portanto ser justificada sob o argumento de que o Estado deve ser neutro para com todas as religiões. De acordo com tal visão, a separação entre Igreja e Estado é uma característica definidora da democracia liberal, já que é ela que possibilita um regime de tolerância onde o estado tolera uma multiplicidade de grupos religiosos, e força os grupos a se tolerarem mutuamente. Mas a justificativa para este regime de tolerância não finge ser feita por meio do apelo a argumentos supostamente neutros. A tolerância é justificada com base em que ela é requerida pelos valores constitutivos do regime liberal-democrático e pela forma de coexistência humana que eles informam. É por ser a afirmação da liberdade e igualdade para todos os princípios éticos-políticos do estado liberal, que um regime de tolerância é necessário e que não se deve permitir que o estado favoreça uma religião sobre outra.” (MOUFFE, 2006, p. 24-25)
2.2.1.3. Considerações sobre o modelo agonístico de democracia e suas