• Nenhum resultado encontrado

MOUSE OCULAR

No documento REVISTADIÁLOGO EINTERAÇÃO (páginas 38-41)

A capacidade de comunicação do ser humano com seus semelhantes e o seu ambiente representam uma das necessidades mais básicas da sua existência, com a qual aquele expressa seus anseios, evolução e identidade. Perder tal capacidade torna a existência das pessoas uma terrível tortura pelo aprisionamento de sua mente num corpo que passa a ser o seu cativeiro.

Mas através da tecnologia é possível proporcionar a estas pessoas que não se movem mais, que vivem praticamente isoladas do mundo exterior e que só movimentam os olhos, uma solução capaz de inseri-las novamente à sociedade, aos estudos, aumentando sua autoestima e confiança (MANTOAN, 1997).

Foi pensando nisso que a Fundação Desembargador Paulo Feitoza (FPF), sediada em Manaus, (AM) norte do Brasil, desenvolveu o Mouse Ocular, através de

uma abordagem sistêmica, em que foram integrados conhecimentos de diversas áreas da ciência, com o objetivo de estabelecer uma tecnologia que possibilite a comunicação dessas pessoas para recuperar a sua capacidade de expressão.

A idéia de dar a essas pessoas especiais a opção de usar o computador nasceu três anos antes da FPF, em 1996, com o engenheiro eletrônico, doutor em automação e professor da Universidade Federal do Amazonas, (UFAM) Manuel Augusto Pinto Cardoso, que se sensibilizou ao conhecer um rapaz paralisado do pescoço para baixo.

Inicialmente, a própria UFAM assumiu o projeto, mas a falta de verbas provocou seu arquivamento. A partir de 1999, o Mouse Ocular tornou a ser estudado, mas pela FPF, que angariou recursos através de cotas de patrocínio encampadas pelas empresas Sweda, Olivetti, Thomsom e Philips. Quando ficou pronto, entretanto, a empresa que se interessou em produzi-lo foi a CCE. A equipe ressalta que uma de suas maiores conquistas não aparece em descobertas ou patentes, mas sim no encaminhamento à CCE, através do Mouse Ocular, de uma funcionária tetraplégica (CARDOSO, 2008).

A FPF, Instituição sem fins lucrativos, cuja finalidade principal é gerir, especificar e realizar projetos de pesquisa e desenvolvimento nas áreas de software e hardware, biodiversidade e biotecnologia, projetos voltados à formação e capacitação de pessoal, apoio às atividades culturais, contribuindo, dessa forma, com a constante melhoria da qualidade de vida e da educação, dedicando também, especial atenção às comunidades menos favorecidas financeiramente, investiu R$ 2,5 milhões no projeto do Mouse Ocular. (PINCIGHER, 2008).

Beneficiada pela Lei da Informática, que isenta a cobrança de IPI na Zona Franca para companhias que investirem, no mínimo, 2,7% de seu faturamento em pesquisa e desenvolvimento junto a órgãos externos, a FPF tornou-se uma ilha de excelência tecnológica no Polo Industrial, abraçando novos projetos e desafios, como o Mouse Ocular, que pode ser classificado como um dispositivo de entrada para computadores, e é destinado para pessoas com deficiências motoras como: tetraplegia, distrofia muscular, doenças degenerativas, amputação ou ausência dos membros superiores e inferiores, pacientes com paralisias crônicas, advindas desde acidentes automobilísticos até doenças congênitas, bem como em pós-operatório com graves enfermidades, ou qualquer pessoa que tenha o controle motor normal dos olhos.

De acordo com o censo brasileiro de 2000, existem no Brasil cerca de 300.000 pessoas com necessidades especiais, mas que poderiam ter suas vidas modificadas positivamente através do Mouse Ocular.

Entre as oportunidades tecnológicas que o Mouse Ocular oferece, destacam-se a possibilidade de seus usuários digitarem textos e passarem a acessar a Internet com a probabilidade de comunicação através de todos os recursos disponíveis: enviar e receber e-mail, navegar no ciberespaço para distração e aprendizagem, utilizar programas de bate-papo, ler livros e-books, entre outros.

O custo estimado do Mouse Ocular é de R$ 150,00. Os royalties da comercialização irão para a FPF dar continuidade a outras pesquisas. Há, ainda, certa dificuldade em relação à logística de venda por se tratar de um equipamento de uso bastante específico. Por isso, a FPF está buscando parcerias com instituições que possam ajudar a divulgar e treinar as pessoas para o uso do Mouse Ocular (INSTITUTO PARADIGMA, 2008).

O ministro da Saúde, José Gomes Temporão, que teve uma demonstração dessa tecnologia no dia sete de maio de 2008, disse que, numa primeira etapa, vai autorizar a utilização do Mouse Ocular nos centros de referência de reabilitação do país, entre os

quais os da Rede Sarah Kubitschek. Num segundo momento, o produto será avaliado pela comissão de incorporação de novas tecnologias do Ministério e só depois de aprovado será incorporado à rede pública do Sistema Único de Saúde (SUS).

A incorporação do produto na rede hospitalar do SUS vai permitir que milhares de pessoas tenham acesso ao produto e será um experimento para que a FPF possa dar início à produção em grande escala. O Mouse Ocular, já está sendo utilizado pelo Hospital das Clínicas de São Paulo (SP), Hospital Pedro Ernesto no Rio de Janeiro (RJ) e no Hospital Pequeno Príncipe em Curitiba (PR).

O ministro garantiu que sua pasta dará total apoio ao Projeto de Lei (PL) nº 3.163/2008, que permite ao deficiente ingressar no mercado de trabalho sem a perda da aposentadoria especial por invalidez. Ele encaminhou cópia do PL para que a sua assessoria prepare uma nota de apoio que será enviada ao Congresso (SILVEIRA, 2008).

O Mouse Ocular ganhou em 2005, pela Financiadora de Estudos e Projetos, do Ministério da Ciência e Tecnologia, (FINEP) o primeiro lugar no Prêmio FINEP de Inovação Tecnológica da Região Norte, na categoria produto.

A princípio, pode-se pensar que o Mouse Ocular é somente um dispositivo eletrônico que possibilita a utilização do computador por pessoas com necessidades especiais. Porém, ao se avaliar o impacto que o uso deste sistema tem gerado nessas pessoas, percebe-se claramente que a contribuição propiciada pelo Mouse Ocular vai muito, além disso, pois ele tem sido responsável tanto pela inclusão digital, quanto socioeconômica de diversas pessoas com necessidades especiais, melhorando a comunicação, o ingresso no mercado de trabalho, o retorno aos estudos, sua reintegração à sociedade, entre diversas outras contribuições.

Como no caso da estudante Luciana Gonçalves de Novaes, que ficou tetraplégica depois de ser baleada no pátio da Universidade Estácio de Sá, no Rio de Janeiro, em 2003, a distância entre o mundo além das paredes do quarto da unidade de tratamento semi-intensivo em que está internada, ficou menor. A FPF doou para Luciana um Mouse Ocular, permitindo a ela usar o computador, dando um exemplo de como a tecnologia pode ajudar vítimas de limitações físicas graves a vencer barreiras de comunicação. No caso de Luciana, um mundo novo num piscar de olhos: ela já está enviando e-mail, pretende escrever um livro e tem perspectivas de criar um site na Internet (CONESUL NEWS, 2008).

Para Lucas, de quatro anos, que mora na cidade de Fortaleza (CE), é uma oportunidade de ser alfabetizado. O menino tem uma doença chamada de amiotrofia espinhal e, por causa dessa patologia, ele não tem movimento do pescoço para baixo, não fala (emite apenas pequenos sons), mas o seu cognitivo não foi afetado, ou seja, ele tem total entendimento de tudo que acontece a sua volta e de tudo que é falado para ele.

Lucas se mostrou muito interessado no aparelho; ele teve algumas dificuldades no controle, o que é perfeitamente normal para qualquer usuário no início de sua adaptação. A FPF espera que o Mouse Ocular possa contribuir para sua melhor qualidade de vida e ele possa ser alfabetizado, utilizando o computador com todas as funcionalidades que este oferece (INFO ATIVO DEFNET, 2006).

A possibilidade da reintegração de pessoas com necessidades especiais em atividades socioeconômicas, e que passam a exercer atividades econômicas a partir da sua competência e capacidade intelectual, através do uso do Mouse Ocular, é um ganho social enorme para toda a sociedade. Essa reintegração traz de volta à sociedade uma pessoa que estava fisicamente limitada, sem motivação e com baixa autoestima, dando a este cidadão uma nova perspectiva de qualidade de vida para ultrapassar os limites

físicos do seu corpo através da utilização e desenvolvimento da sua capacidade intelectual.

No documento REVISTADIÁLOGO EINTERAÇÃO (páginas 38-41)