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[...] Deixa falar do CECERNE. O CECERNE, eu não adentrei a porta

por-que era uma espécie de dissidência por-que o Sylvio Ferreira por-queria

fa-zer do nosso movimento original. Então, o movimento cresceu e ele

criou o CECERNE. Do CECERNE, quem pode falar muito bem é

Lauri-nete. Não sei se Inaldete poderia, não sei, não sei mesmo, mas

Lau-rinete eu tenho certeza. Porque eu não cheguei a assistir nem uma

reunião deste grupo. Mas tiveram uns quebra-paus, eu era mais

novo, mais chato, mais intransigente, aí tinha uns quebra-paus...

[...] Sim e... Respeitosamente porque eu tenho princípios e eles

também têm. Respeitosamente, mas eu lembro que discutimos no

calor da divergência. E por que essa discussão? Porque tem uma

terceira coisa nessa história. Não era do CECERNE e não era apenas

o movimento negro. Eu era o representante, na época, Véio ainda

era vivo, já não era o presidente, mas eu era do Centro de Cultura

Afro-brasileiro, presente na criação desse movimento negro. O meu

já vinha de 1936, aí, a briga vinha por aí.

[...] Essa reunião já era uma sequência. A primeira ou as

primei-ras; a primeira, a segunda e a terceira, não sei se até dezesseis, não

me lembro, mas a primeira e as primeiras foram no apartamento de

Inaldete. Bom que ela está viva ainda. E era aqui nessa mesma rua,

sem esse mesmo nome. Porque essa rua vai se bipartindo,

tripartin-do, não é? Ela é Riachuelo até chegar ali ao quartel, depois, ela pega

assim a Manoel de Oliveira Lima, essa mesma rua aqui, Manoel de

Oliveira Lima e, no finzinho, ela tem um terceiro nome. Então, é

na esquina... Ali tem um prédio que eu não sei o nome e que ainda

hoje Jomard Muniz de Brito mora. Inaldete morava nesse prédio

também. Foi ali onde se começou a conversar e a se reunir para a

criação do Movimento Negro do Recife. Ainda não havia o CECERNE,

aí, eu fui convidado. Por todos, por Inaldete, Jorge Moraes que você

conheceu [dirigindo-se a Ivaldo Marciano, um dos entrevistadores],

Pereira... Pereira França e a esposa dele. Eram oito na época, então,

pelo fato de que eu já vinha com o Centro de Cultura Afro-Brasileira,

era um trabalho de José Vicente Lima e tinha umas figuras conosco,

foi esse mesmo Centro de Cultura Afro-Brasileira, cujo

presiden-te, o primeiro presidente foi Solano Trindade. Aí, esse Centro que

passou então para Zé Vicente, nessa época ainda era Zé Vicente o

presidente, que o Zé Vicente participou aqui no Santa Isabel

quan-do nós fizemos, então, uma comemoração. Comemoramos não sei

dizer se foi os 20 anos ou 50 anos, um negócio assim, acho que foi

cinquentenário... [...] Eu tenho um livro no qual ali eu já estava na

presidência do Centro de Cultura Afro-Brasileira. José Vicente era

vivo e nós comemoramos o cinquentenário, aí depois tem um

livri-nho disso, do cinquentenário do Centro de Cultura e Afro-brasileira

no Santa Isabel. Aí, nesse ínterim, estava sendo criado o movimento

negro, que as primeiras reuniões foram naquele prédio ali que eu

não sei o nome [...] Quando a gente vem por aquela rua sentido

Bompreço para cá, né? Está acompanhando? Mensalmente? Aí, tem

uma saída que tem o posto de gasolina e vai para lá. Aí, então, logo

ali é essa rua, ali. Que eu também sei o nome, mas estou esquecido

agora. E logo depois é onde foi o Pronto Socorro do Recife e, ainda

hoje, é um prédio onde abriga a FUSAM. Aí, naquela rua ali, tinha

um prédio de esquina, foi ali que foi criado o Centro do Movimento

Negro do Recife. Porque então a briga, a divergência entre eu e o

Sylvio, fora aquela coisa da Noite dos Tambores, a briga foi que o

movimento negro teve origem em São Paulo e se erradicou pelo

resto do Brasil. Aí, a proposta, eu acho que foi do próprio Sylvio, não

lembro assim, qual estatuto que nós adotaríamos. Se faríamos um

novo estatuto, se adotaríamos o de São Paulo, ou se ficaríamos com

o estatuto do Centro de Cultura Afro-Brasileira. Nós fizemos uma

eleição no DCE. Tem figuras ainda vivas hoje. Josafá, por exemplo.

[...] Então, já no DCE, se fez uma eleição, e foi acirrada, né?

Por-que eu Por-queria então Por-que continuasse aPor-quela história do

conservado-rismo. Eu queria que continuasse o Centro de Cultura, o

movimen-to, que esse pessoal todo engrossasse para o Movimento de Cultura

Afro-brasileiro continuar. E porque, então, eu lembrava que em

tem-pos idos e difíceis tinha sido criado pelo Solano Trindade, onde eu

usava, eu agora estou bem melhor, mas eu usava uns termos muito

radicais. A negrada virava o espelho ao contrário para não se ver

negro. [risos] Para nós não nos vermos como negros. Esse pessoal,

Solano Trindade, Zé Vicente Lima e os outros que criaram em 1936,

então esse movimento deve continuar. Era essa a minha tese. Já

Sylvio Ferreira era: “Não, trata-se de um movimento negro, de um

movimento novo, e que deve continuar com o mesmo nome do de

São Paulo, Movimento Negro Unificado”. Aí, nós vamos fazer o

esta-tuto, eu já botei o estatuto meu que tinha na época do nosso Centro,

e houve uma eleição, a eleição foi acirrada, acirrada! Eu já tinha

esse escritório aqui. Nesse escritório aqui eu roubei papel, não sei

o quê, distribui... Veja bem, eu não estou falando do CECERNE ainda.

Ganhou o Movimento Negro Unificado. Então todos nós aceitamos,

não houve divergência. Movimento Negro do Recife.

[...] Nair e Sylvio Ferreira defendiam que todos nós

continuásse-mos com o Movimento Negro do Recife, copiando o de São Paulo.

Enquanto eu defendia que todos se reunissem para engrossar

aque-la história de Soaque-lano Trindade, de 1936. Aí, na votação, eu perdi.

Perdi, mas ninguém se afastou. Pereira e Jorge Morais eram do meu

grupo. Ou melhor, eu era do grupo deles [risos]. Mas, continuamos

juntos. [...] E muitas pessoas da época, tinha o professor Miltinho,

Milton de Paula Santos, Milton Santos. Pois bem, então o grupo

se reuniu todo e criou o Movimento Negro do Recife, mas

traba-lhando em conjunto. Aí, foi quando Sylvio achou que deveria criar

um movimento novo, novo! Aí, criou o CECERNE. Aí, o CECERNE foi

Laurinete e parece que Irene... Irene era uma jovem, me parece que

ela era enfermeira Ana Nery que morava nesse edifício aqui, Santa

Cruz. Sabe aqui o Santa Cruz? Na esquina, né? Na Gervásio Pires,

na Conde da Boa Vista. Pois bem, no mesmo prédio. Então, me

pa-rece que Irene, Laurinete e mais umas duas pessoas, que eu não sei

dizer assim objetivamente, ficaram com Sylvio no CECERNE. Mas, o

CECERNE não conseguiu ter a mesma projeção do Movimento Negro

Unificado. Entendeu? Porque a ideia do CECERNE não era apenas

continuar o pessoal se reunindo, fazendo todo aquele trabalho, não.

Ele tinha uma ideia mais ampla. [...] Ficou uma grande massa, o

nosso grupo maior, não tinha esse mesmo ponto de vista, porque

aí é onde entra aquela história de pessoas com tendências mais ou

menos político-ideológicas. Aí, pessoal de protesto, pessoal de

pin-tar muro e não era essa a história do CECERNE. Esse pessoal não teria

abrigo no CECERNE. Então, esse pessoal foi no caldo geral, que havia

passeata, aquele oba-oba de estudante, né? Havia tudo isso.... Aí, eu

não sei dizer nada objetivamente sobre o CECERNE porque eu não

cheguei a participar. Laurinete, sim. Laurinete participou e o

pró-prio Sylvio foi quem criou. Aí, o movimento negro continuou como

ainda é hoje. Só que, de um tempo para cá, eu tenho notado menos

junção. [...] Mas, tudo também é uma época. Ali, nós tínhamos um

combustível muito bom que era o protesto. Nós tínhamos uma

po-sição de protesto, queríamos consertar o que não estava certo,

aque-las coisas que não achamos perfeitas. Mas, a coisa foi mudando de

uma maneira que mudou também o lado político do lugar e muitos

daqueles que estavam conosco protestando, hoje são do organismo,

da máquina política. Então, aquele nosso, talvez até, lirismo,

desa-pareceu e muito.

Ivo Rodrigues

[...] Eu não sei se eu consegui me entender como eu negro, mas

foi assim, eu estava na faculdade e uma pessoa, que era o Walter

Araújo, já trabalhava com essa cultura negra aqui, e eu

desconhe-cia, aqui em Ouro Preto [em 1982]; aí, certa vez, ele me convidou

para participar de uma apresentação do Grupo Cênico Liberdade e,

desde então, eu fui me encantando com a história da negritude, eu

acho que era o processo de reconhecimento, eu me identificando ali,

me identificando com aquela coisa que estava sendo apresentada ali

para mim naquele momento, que era a questão da negritude

atra-vés do teatro, teatro negro que o pessoal fazia aqui na Vila de Ouro

Preto, antigamente era Comunidade do Embrião, estava surgindo,

era uma ocupação que tem ali ao lado de Ouro Preto, nos terrenos

da Fosforita, antiga Fosforita, uma fábrica que fazia exploração de

fósforo, para a produção de alguma coisa lá.

[...] Tinha seminários internos que fazíamos com o pessoal todo.

Muita gente achava um saco, mas todos os sábados íamos para a

escola, que ocupávamos aos sábados, a Capitão André Temudo, e

reuníamos o pessoal para discutir a questão dos orixás, do maculelê,

da capoeira, tudo isso a gente discutia... E eu acho que nós

cons-truímos muita coisa. Tem várias pessoas que são referências hoje,

que continuam ainda persistindo, investindo nessa cultura, que

pas-saram pelo Grupo Cênico Liberdade, muita gente não sabe disso,

mas pessoas como Lúcia Crispiniano e Jorge Riba são exemplos de

referências da atualidade que passaram pelo Grupo Cênico e isso

eu acho que isso nunca foi dito, que isso seja um fato que passa

despercebido e eu creio que seja importante que se registre essa

coisa, porque muita gente aprendeu lá a gostar a ter o fascínio pela

cultura negra. Eu conheci Jorge Riba, era um garoto também, um

adolescente, todo mundo. Lúcia também... E, de lá para cá, nós

fize-mos trabalhos juntos. Roberto Santos é outro também que passou

pelo grupo. Tem alguns momentos que nós pedimos a parceria de

grupos, como o Cleonice Veras, também com Mica, Graça, é... Tem

outra.... Também todas passaram, fizeram um trabalho junto em

conjunto com o grupo Cênico, foi uma maravilha, eu creio que eles

ainda não deixaram de lado essa questão, a questão de trabalhar a

cultura negra.

[...] Nos apresentávamos em escolas, praças e ruas. Aqui em

Olinda existia uma noite muito movimentada, tinha uns bares que

faziam essa divulgação; como o Querubim, o Amalá, e nós

estáva-mos lá fazendo essas intervenções. Além disso, nas comunidades

e associações de bairro nós também estávamos presentes. Íamos

para Saramandaia, Ouro Preto e Rio Doce... Em todos esses bairros

nós apresentamos algum trabalho, fizemos temporada...

Ressaltan-do que fizemos temporada com “Luá uma Saga Negra” no Teatro

Popular do Bonsucesso. Este, por sinal, é o marco de resistência

cultural. Aí, vem depois de estarmos nessa movimentação toda do

grupo Cênico, do grupo Cênico produzindo, nós que existíamos,

que tínhamos algo mais para conquistarmos, eu me lembro de que

foram sete grupos que se reuniram lá no Bonsucesso, aonde hoje

está essa Secretaria de Planejamento e Meio Ambiente, e nós nos