Censos e multiculturalismo na Colômbia e no Brasil Disputas em torno das classificações raciais
2.3 Movimento negro e campanhas de auto-identificação
Organizações do movimento negro na Colômbia e no Brasil, articuladas com outros atores sociais interessados na informação estatística para populações negras, adiantaram ações para incidir em diversos aspectos dos censos posteriores a reforma multicultural. Nesta seção analiso os objetivos e os resultados das
campanhas criadas para fomentar a auto-identificação negra no contexto do censo 2005 na Colômbia e o censo 2000 no Brasil.
2.3.1 “Las Caras Lindas de mi Gente...”
Paralelo às negociações com o DANE, algumas organizações negras da Colômbia se articularam para incidir diretamente na realização do censo 2005 e promover uma valoração positiva da auto-identificação como negro. Em 2004 a organização “Proceso de Comunidades Negras” convocou outras organizações do movimento negro para conformar a “Mesa de Trabajo Nacional Afrocolombiana para el Censo 2005”. Os principais objetivos propostos foram fortalecer a coordenação entre as organizações do movimento negro em torno de ações de sensibilização da população negra para a auto-identificação, destacar a presença das populações negras e seus aportes na construção da nação e propiciar acordos com o DANE para o seguimento e avaliação dos resultados do censo 2005 (CNA, 2006).
Para as organizações convocadas, a participação do movimento negro no censo 2005 devia desenvolver-se em pelo menos dois cenários: no dialogo com o DANE e restantes instituições estatais envolvidas no processo do censo com apopulação negra, e através de ações diretas com a população nacional convocando à auto-identificação. Neste contexto se concretizou a realização da campanha “Las Caras Lindas de mi Gente...”, contando com participação das organizações Conferencia Nacional Afrocolombiana, Proceso de Comunidades Negras, Movimiento Nacional CIMARRON, Asociación de Organizaciones de Comunidades Negras, Asociación de Alcaldes de Municipios con Población Afrodescendiente, Red Nacional de Jóvenes Afrocolombianos, Red Nacional de Mujeres Afrocolombianas, Federación de Municipios del Pacifico, entre outras.
Contando com o apoio das ONG’s Serviço Mundial de Igrejas (ILSA) e MSD- USAIN, a campanha conseguiu produzir material impresso (cartazes, volantes) e material audiovisual para ser difundido em rádio e televisão. Na capa de um CD que recopila o material produzido pelas organizações, especifica-se o propósito da campanha.
En el caso de los Negros(as), Mulatos(as), Zambos(as), Morenos(as), Afrodescendientes, Afrocolombianos(as) y Raizales. Es decir todos aquellos descendientes de africanos en Colombia, todos y cada uno de los colombianos a quienes nuestros antepasados nos
dejaron, aunque sea una gota de sangre africana (negra). Este censo constituye una posibilidad histórica. En los casi 200 años de vida republicana hoy no existen datos sobre el número total de descendientes de africanos en Colombia, ni indicadores reales sobre la situación socioeconómica en que viven.
En el censo preguntarán: si de acuerdo con sus rasgos físicos, su pueblo o su cultura, usted es… Negro(a), Mulato(a), Zambo(a), Afrodescendiente, Afrocolombiano(a), Palenquero(a) o Raizal. Conscientes que responder esta pregunta significa enfrentar factores de autonegación que tienen sus causas en la discriminación y el racismo a que este grupo poblacional y sus miembros hemos sido sometidos a lo largo de toda su historia, las organizaciones de afrocolombianos están desarrollando acciones de incidencia, educación y movilización para que los descendientes de africanos que habitamos esta patria, nos autoidentifiquemos al momento de responder el cuestionario del próximo Censo (PCN, 2005).
O texto aponta a dois aspectos amplamente debatidos pelo movimento negro depois dos resultados do censo de 1993. O primeiro é a inexistência de informação estatística confiável sobre o tamanho da população negra e sua situação sócio- econômica, de maneira que o censo “constitui uma possibilidade histórica” para acabar com a invisibilidade estatística. O segundo é que a história de discriminação e racismo contra a população negra faz com que as pessoas não se auto- identifiquem como negros, daí a importância de ações de incidência do movimento negro no campo da sensibilização. O aspecto do texto que mais chama a atenção é que propõe para a Colômbia a adoção da norma de “hipo-descendência” própria da classificação racial dos países do norte, em particular os Estados Unidos. Essa regra se resume dizendo que uma gota de sangue negra, faz que quem a porta seja denominado pessoa negra. Arocha (2006) destaca que esta é uma estratégia que tem a vantagem de aumentar o recrutamento racial e desse modo melhorar as condições de pressão política que poderão exercer as organizações negras.
O comercial de televisão se constituiu numa das peças fundamentais da campanha com o propósito de chegar a um público nacional. Neste aparecem uma série de homens e mulheres negras que representam diferentes contextos (urbano, rural), regiões do país e idades, afirmando de maneira categórica seu pertencimento à população negra, utilizando para isso as classificações censitárias (“negro(a)”, “mulato(a)”, “afrocolombiano”, “afrodescendiente”, “raizal”, “palenquero”) junto com “moreno” e “zambo” que não faziam parte da pergunta étnico-racial. O comercial termina com uma toma geral de todas as pessoas dizendo “orgullosamente
afrocolombianos”4. A inclusão das categorias “moreno” e “zambo” no material
difundido pela campanha ressalta esta estratégia de recrutamento racial, ainda que poderia levar a confundir a pessoa na hora de responder o censo. É interessante que das oito categorias empregadas pela campanha para fomentar a auto-
identificação, a metade é de classificação étnica (“afrocolombiano”,
“afrodescendiente”, “raizal”, “palenquero”) que começou a difundir-se somente a partir da reforma multicultural em 1991. O chamado final do comercial era a identificar-se como “afro-colombiano”, o que corrobora esta perspectiva de uma afirmação étnica da negritude.
O resultado final da campanha foi ambíguo. De uma parte, o 10,5% do total da população negra estabelecido no censo 2005, bastante longe do 26% projetado pelo movimento negro, sugere que as ações de incidência para a auto-identificação não foram suficientemente efetivas. No entanto, reconheceu-se como um importante lucro que pela primeira vez a população negra, desde suas organizações, se mobilizou em torno do censo, indicando a importância deste para a visibilização e o posicionamento das demandas da população negra na nação multicultural (CNA, 2006). A campanha conseguiu realizar manifestações e divulgar o material nas principais cidades colombianas com presença de população negra (Cali, Medellín, Cartagena, Barranquilla, Bogotá) e na região do Pacífico. O comercial se difundiu em canais nacionais e regionais. De igual modo os representantes do movimento negro durante o processo do censo atingiram diferentes acordos com o DANE. Estes resultados indicam que, além do dado estatístico, o censo 2005 foi visto pelos movimentos negros com um propósito político claro, conseguindo incidir em diferentes momentos e aspectos durante sua realização.
4O comercial está disponível no endereço http://www.youtube.com/watch?v=RSq5FuhS1SE. Acessado em
Gráfico 2
Cartaz da campanha “Las Caras Lindas de Mi Gente...”
Fonte: PCN, 2005
2.3.2 “Não deixe sua cor passar em branco. Responda com bom C/Senso” No começo dos anos 1990, uma série de organizações do movimento negro no Brasil, com o apoio de algumas ONG’s, desenvolveram uma estratégia de intervenção social no censo de 1991 através da campanha “Não deixe sua cor passar em branco. Responda com bom C/Senso”. Esta campanha se entendeu como uma continuação da mobilização de finais da década de 1970 em torno da restauração da pergunta de cor no censo de 1980, ainda que adiantada num contexto sócio-político diferente (Sant’anna, 2008).
As razões que motivaram a realização da campanha foram diversas. Em primeiro lugar, estava a inconformidade manifesta de ativistas negros com o sistema de classificação oficial utilizado pelo IBGE, assinalando que cor era uma maneira imperfeita de perguntar, sugerindo incluir a palavra “raça” na pergunta com a categoria correspondente “negra”, em vez de “preta”. Criticava-se também a categoria de cor “parda” devido a sua imprecisão conceitual (Nobles, 2000; Sant’anna, 2008). Num contexto político de re-democratização, outra das razões que motivaram a campanha era fazer visível a demanda do movimento negro que reivindicava uma democratização da informação estatística. Os ativistas negros denunciavam que o Estado brasileiro tinha acesso a múltiplas possibilidades de caracterizar a população negra, a partir da informação estatística em poder do IBGE,
porém os recortes publicados utilizavam poucas variáveis (sexo, idade, situação de domicílio, distribuição da população UF, anos de estudo e rendimento mensal), insuficientes para conhecer as características de uma população que então representava o 44% do total de brasileiros (Sant’anna, 2008)
Neste contexto, a campanha conseguiu articular atores nacionais e internacionais num momento propício aos debates respeito dos direitos de cidadania, inserindo-se no debate sobre direitos diferenciados para populações negras. A campanha foi promovida por nove ONGs, sete das quais eram parte do movimento negro e duas afiliadas a instituições acadêmicas. As sete organizações negras foram: Instituto de Investigações da Cultura Negra, o jornal Maioria Falante, a Fundação Palmares para os Direitos Humanos, o Centro para a Articulação de Populações Marginais, o Centro de Referência Negro-mestiça, Agentes da Pastoral Negra e o Instituto de Estudos Religiosos-Programa Negritude Brasil. As duas instituições acadêmicas vinculadas foram o Centro de Estudos Afro-Asiaticos da Universidade Candido Mendes, com sede no Rio de Janeiro, e o Laboratório de Investigação Social da Universidade Federal de Rio de Janeiro. Adicionalmente a Fundação Ford e a fundação italiana Terra Nuovo se vincularam, financiando parte das atividades desenvolvidas.
A campanha foi lançada em 1990 na cidade de Rio de Janeiro, propondo-se três objetivos sensíveis:
1. Sensibilizar pessoas de origem africana a declarar sua cor a partir do referencial étnico.
2. Contribuir na construção de indicadores nacionais sobre as condições sócio-econômicas da população de origem africana. 3. Fazer veicular uma mensagem positiva da população de origem
negra tendo em vista a recuperação de sua auto-estima cultural e política (Sant’anna, 2009).
Wannia Sant’anna, ativista negra que participou na idealização da campanha, argumenta que foi concebida com propósitos profundamente políticos. Assinala que promover a auto-identificação e elevar a auto-estima entre a população negra, apontava no fundo a colocar o debate sobre as origens étnico-raciais da população no cenário público nacional. De maneira que mais que simplesmente introduzir um quesito no censo, tratava-se de problematizar a questão racial não Brasil e fazer do censo um instrumento de reivindicação política (Sant’anna, 2008).
A peça principal da campanha foi um cartaz e o panfleto que o acompanhava. No cartaz se observa, embaixo do slogan de campanha, as costas nuas de três corpos, cada uma com uma tonalidade diferente de pele e no centro da foto um pequeno quadro com as categorias de cor do censo, seguidas do signo de interrogação. O texto do panfleto faz referência à ideologia do branqueamento como a razão da rejeição das pessoas a se identificarem como negros, negando as origens africanas da nação e ocultando a existência de população negra e seu aporte na construção do Brasil (Nobles, 2000; Sant’Anna, 2008). A campanha centrou suas atividades na cidade de Rio de Janeiro, ainda que com presença em Salvador, Recife, São Luis, Belém e Belo Horizonte
Os resultados do censo de 1991 mostraram, em comparação com o censo de 1980, uma diminuição de pessoas auto-declaradas como “pretas” e um aumento dos “pardos”, sugerindo isto uma avaliação negativa da campanha. No entanto, Sant’anna menciona que os resultados do censo do 2000, no qual se evidenciou um processo de etnização não visto antes, diz respeito ao sucesso alcançado pela campanha. Argumenta que o que se deve observar não são apenas os resultados numéricos obtidos no padrão de respostas sobre o pertencimento étnico/racial da população brasileira, mas a inserção desse debate e a produção de informação e a divulgação sistemática dessa característica da população brasileira. Num artigo recente, Sant’anna (2009) assinala que para o censo de 2010 se projeta que a população negra seja majoritária no Brasil, como resultante, em parte, do papel das organizações do movimento negro na promoção do discurso anti-racista de elevação da auto-estima da população negra. Com respeito à modificação da pergunta de raça/cor que passa a ser de aplicação universal, questiona o motivo que levou ao IBGE a tomar tal decisão, considerando a robustez da amostra e sua capacidade de representar o universo da população brasileira nos diversos temas pesquisados no Censo. Ela acredita que essa decisão não se justifica por outro motivo senão o de provocar problemas na coleta de informações sobre a cor/raça da população brasileira (Sant’anna, 2009).
Gráfico 3
Cartaz da campanha “Não deixe sua cor passar em branco. Responda com bom C/Senso”
Fonte: Sant’anna, 2008.