O Movimento Negro Unificado8, componente da realidade política brasileira, originado no seio das sociedades organizadas em prol da luta pela cidadania e respeito à vida, contra as desigualdades étnicas e de classes sociais, corrobora para se pensar o processo de democratização do Brasil.
Sua história no Brasil se confunde com a história de luta pela democracia. A presença negra na historia é marcante nos períodos de luta pela liberdade
8 Movimento Negro no âmbito desta dissertação é compreendida como o conjunto de entidades
negras, de diferentes orientações políticas, que tem em comum o compromisso de lutar contra a discriminação racial, o racismo acreditando na centralidade da educação para a construção de uma identidade negra positiva. (RODRIGUES, Tatiane Consentino, 2005.p.251) In: Negro e educação: escola, identidades, cultura e políticas públicas. Organizado por: Iolanda Oliveira ET.al.São Paulo Ação educativa, ANPED,2005.
democrática que permearam os anos de 1945, com a criação do Teatro Experimental do Negro (TEM) criado por Abdias Nascimento, um dos mais enfáticos a denunciar o racismo. Em 07/07/1978 com o nascimento do Movimento Negro Unificado Contra a Discriminação Racial (MNUCDR), concentrando centenas de intelectuais no questionamento sobre a posição do negro na estrutura social do país. No ano de 1988, as marchas coroaram as lutas contra o racismo, com o centenário da abolição, e mais recentemente em 2001 com a Conferência de Dubai, que estabeleceu políticas públicas de Ações Afirmativas para a população Afro-brasileira. Desde então, iniciativas organizadas pela população negra lideraram constantes debates em prol do respeito de seu lugar como protagonista na construção deste país marcando profundamente a história política da nação brasileira.
A expressão “negro” para o Movimento Negro passou a exprimir o contrário da visão preconceituosa.
Utilizada para humilhar, agredir e discriminar os descendentes de africanos no Brasil, o MNU reescreveu essa expressão “negro” que passou a ser uma palavra de ordem, de reconhecimento, de dignidade, de desenvolvimento e autoestima. Transformando a desqualificação pela qualificação maior dessa identidade. (GARCIA, 2008, p. 23).
Para esse autor, a sociedade brasileira ao longo de sua história, tem sido cruel, primeiro com os africanos e hoje com seus descendentes. Somam-se mais de um século de subcidadania negra no Pós-abolição e o fato racial é uma invariável crucial para o desenvolvimento sustentável no país.
O ideal de branqueamento implícito no conceito de democracia racial passou a ser questionado com veemência a partir da década de 1970, quando o MNU, retomou a luta antirracista enriquecido pela experiência dos movimentos anteriores e pela confluência de eventos como as lutas pela libertação dos povos africanos, contra o Apartheid na África do Sul e dos negros pelos direitos civis nos EUA. Nesse contexto, o MNU adotou uma estratégia mais politizada de denúncia aberta à discriminação racial e ao racismo na sociedade brasileira.
Essa retomada foi marcada, entre outras questões, pela percepção de que raça constituía-se em um conceito organizador das relações sociais no Brasil, pela denúncia e descrédito da ideologia da democracia racial e pela percepção de que a construção de uma sociedade plurirracial e o resgate da identidade étnica passaria necessariamente pela desfolclorização da cultura
e pelo reconhecimento do legado africano para a construção do Brasil. Tais questões levaram as diferentes gerações de militantes negros a insistirem no papel fundamental da Educação. (PINTO, 2003, p.26).
Repensar o papel que a raça, ocupa na constituição da sociedade brasileira, recai sobre polêmicas intelectuais por vezes contraditórias, sendo raça um conceito em amplo e profundo questionamento. Esse debate fica ainda mais aquecido quando relacionado ao tratamento que é dado ao conceito de classes dentro das análises sociológicas que procuram explicar e justificar as desigualdades sociais. Exemplo disso é o conceito de classes desenvolvido por Marx e difundido pelos marxistas no meio acadêmico, para demonstrar que a sociedade capitalista moderna, a sociedade burguesa, devia sua dinâmica e seu desenvolvimento à exploração dos trabalhadores. Marx com intenção de encontrar a relação de exploração entre o capital e trabalho que fosse tipicamente capitalista, subtraiu de sua análise da relação social do trabalho, todas as formas de coerção não econômicas como gênero, raça, etnia, nacionalidade.
É importante salientar que as propostas atuais (pós-modernas), apontam e justificam a ausência de discussão sobre raça questionando as atribuições de classe como foco principal de geração de desigualdades sociais.Todavia,segundo GUIMARAES (2005,p.259), a negação da existência da raça subsiste, com tratamento discriminatório e com a reprodução da desigualdade social.
Silvério (2002, p.219), afirma que mesmo quando se considera a proeminência da desigualdade econômica na explicação dos profundos problemas sociais do país é desconsiderar que as desigualdades são produto de uma complexa trama entre os planos econômicos, político, cultural e consequentemente, mostram uma confluência entre desigualdade econômica e desigualdade racial.
Nesse sentido, podemos compreender que o conceito de classes no Brasil, esconde a dimensão racial, por isso a necessidade de se reafirmar a raça como um conceito sociológico e uma ferramenta analítica para compreensão da realidade social.
(...) aí aparece à necessidade de teorizar as raças como elas são, ou seja, construtos sociais, formas de identidade baseadas numa ideia biológica errônea, mas socialmente eficaz para construir, manter e reproduzir diferenças e privilégios. Se as raças não existem num sentido estrito e realista de ciência, ou seja, se não são um fato social no mundo físico, elas existem, contudo de modo pleno, no mundo social, produtos de formas de classificar e de identificar que orientam as ações humanas. (GUIMARÃRES, 2002, p.64).
O fundamental de toda essa discussão é poder afirmar que o conceito de raça também foi reintroduzido pelo movimento negro na denúncia da prática do racismo, da discriminação racial, na tentativa de dar visibilidade a uma identidade negra e na desmistificação do credo da democracia racial, negando o caráter cordial das relações sociais no Brasil.
Mas foi o MNU, uma abertura de portas para a superação do racismo ao possuir características marcantes, militância disciplinada, organizada em núcleos e focada na luta contra o racismo, umas das suas tarefas prioritárias. Assim, o MNU se transformou em conceito evocativo de um novo segmento do movimento das massas, tanto no cenário político como no imaginário nacional.
Ampliou-se as frentes em prol do debate e das denúncias, com a criação de inúmeras entidades negras, encontros culturais, organizações partidárias, guetos e marchas, de modo especial, as políticas públicas afirmativas. Essas frentes políticas do Movimento Negro resultaram na criação do mais importante órgão com status de Ministério, a SEPPIR (Secretaria Especial de Políticas de Promoção da Igualdade Racial) e a Fundação Cultural Palmares junto ao Ministério da Cultura (MINC). Teoricamente, ambas procuram integrar e orientar as diferentes políticas raciais.
Portanto, podemos afirmar que o Movimento Negro tem na cultura um importante elemento de resistência e de formação de núcleos organizados em torno da consciência negra.
Nessa abordagem é emergente pensarmos no movimento negro, seus olhares e expectativas, sempre influenciados pelas entidades e pessoas de maneira diversificada, especialmente quanto ao que se refere a sua relação com a capoeira.
Esse jeito mandingueiro, repleto de negaça, emergiu como valorização da cultura negra e passa a simbolizar o Brasil em qualquer parte do mundo, sua existência e sobrevivência como produto cultural negro perpassam pela unificação da luta do movimento negro e não foi obra do acaso.
Essa interação nos conduz a fazer alguns questionamentos. Onde a capoeira esteve presente? Como o Movimento Negro contribuiu para a disseminação e o fortalecimento da capoeira e vice-versa? Poderemos dizer que o movimento negro se consolidou com a prática da capoeira, também? Nos encontros do Movimento Negro existiram apresentações, debates entre os mestres ou
palestras que tratassem de capoeira? E o que marca ou define a capoeira como componente do movimento negro, já que ela é por si mesma uma comprovação de existência e resistência organizada da diáspora africana no Brasil? Por que determinadas bibliografias que retratam sobre o MNU no Brasil, não falam tão abertamente da capoeira, ou não possuem uma abordagem sob o ponto de vista dos seus mestres?
Essas indagações nasceram no âmbito da construção da pesquisa e certamente nos mostra que temos muito ainda que caminhar rumo a uma transformação tanto ideológica quanto empírica dos nossos olhares e expectativas de si e do outro na dinâmica interna e externa do Movimento Negro. Essas reflexões nos fazem lembrar uma expressão do Mestre Fumaça em uma de suas aulas na escola: “[...] o melhor da capoeira é a história dela”.