TEMPO IV NEGRITUDE EM MOVIMENTO
4.2 MOVIMENTO NEGRO EM MOVIMENTO NO BRASIL
Domingues (2007, p. 120), ao resgatar a história da organização e mobilização racial, apresenta quatro fases do movimento negro (Primeira fase do Movimento Negro organizado na República (1889-1937): da Primeira República ao Estado Novo; Segunda fase do Movimento Negro organizado na República (1945-1964): da Segunda República à ditadura militar; Terceira fase do Movimento Negro organizado na República (1978-2000): do início do processo de redemocratização à República Nova; Quarta fase do Movimento Negro organizado na República (2000 - ?): uma hipótese interpretativa). Destaca inicialmente que durante o processo de transição para a república, culminando com o fim da escravidão em 1888 e a Proclamação da República em 1889, a elite brasileira apoiada pelo “racismo científico” e pelo “darwinismo social”, desenvolveu uma política de exclusão dos negros do modo de produção capitalista, adotando o “branqueamento” da população brasileira com os incentivos a introdução do imigrante europeu no mercado de trabalho.
Os egressos do cativeiro e os afro-descendentes de um modo geral foram privados – ou tiveram dificuldades – de acesso ao emprego, à moradia, à educação, à saúde pública, à participação política, enfim, ao exercício pleno da cidadania. Ante tal situação, uma parte deles não permaneceu passiva. Pelo contrário, levou avante múltiplas formas de protesto, impulsionando os movimentos de mobilização racial (negra) no Brasil. Foram engendradas diversas organizações com base na identidade racial; elas procuravam projetar os “homens de cor”, como atores políticos, no cenário urbano.
Em linhas gerais, a primeira fase do movimento negro no período republicano de 1889 a 1937 se caracterizou pela diversidade de organizações (clubes, grêmios literários, centros cívicos, associações beneficentes, grupos “dramáticos”, jornais e entidades políticas), que desenvolviam atividades de “caráter social, educacional, cultural e desportiva, por meio do jornalismo, teatro, música, dança e lazer ou mesmo empreendendo ações de assistência e beneficência” (p. 121) a fim de combater a intensa marginalização da população negra deste novo sistema político, no alvorecer da República.
É deste período a origem da imprensa negra: jornais publicados por negros e elaborados para tratar de suas questões:
Esses jornais enfocavam as mais diversas mazelas que afetavam a população negra no âmbito do trabalho, da habitação, da educação e da saúde, tornando-se uma tribuna privilegiada para se pensar em soluções concretas para o problema do racismo na sociedade brasileira. Além disso, as páginas desses periódicos constituíram veículos de denúncia do regime de “segregação racial” que incidia em várias cidades do país, impedindo o negro de ingressar ou frequentar determinados hotéis, clubes, cinemas, teatros, restaurantes, orfanatos, estabelecimentos comerciais e religiosos, além de algumas escolas, ruas e praças públicas (IBID, p. 105).
O autor enfatiza nesta fase a criação da Frente Negra Brasileira (FNB), na década de 1930, transformando-se em partido político em 1936 com o objetivo de capitalizar o voto da “população de cor”. Esta entidade pressionava o governo do Presidente Getúlio Vargas em prol de suas reivindicações, tendo conseguido o fim da proibição de ingresso de negros na guarda civil em São Paulo após ser recebida em audiência pelo então presidente. Entretanto, com a instauração do Estado Novo em 1937, para Domingues (2007), o movimento negro, “no bojo dos demais movimentos sociais, foi então esvaziado. Nessa fase, a luta pela afirmação racial passava pelo culto à Mãe-Preta e uma das principais palavras de ordem era a defesa da Segunda Abolição”.
Contudo, ainda que as primeiras organizações negras já atuassem no combate à segregação racial, Guimarães (2001, p. 161) afirma que nos anos de 1930 a ideologia difundida era a do “mito do paraíso racial”41: as lutas contra o preconceito racial almejavam,
por meio de uma política eminentemente universalista, “a integração social do negro à sociedade moderna, que tinha a ‘democracia racial’ brasileira como um ideal a ser atingido”.
41 Guimarães (2001, p. 161) afirma que a utopia que caracterizava uma visão do Brasil como um
país em que não havia nenhum preconceito de raça, nem discriminações, que daria a todos a mesma oportunidade, não existindo “linha de cor” como nos Estados Unidos da América, ainda não era chamada, nem mesmo por Gilberto Freyre, de “democracia racial”. Este autor até 1944 ainda falava em “democracia étnica”. Foi Charles Wagley, na literatura especializada de 1952, quem primeiro falou em “democracia racial” para expressar a utopia da harmonia entre as raças no Brasil.
Era atribuída aos negros, por sua falta de instrução e costumes arcaicos, sua “situação de degenerescência”. Ainda que não se valesse do termo “democracia racial” neste período, de acordo com Guimarães (2001, p. 152):
Na sociologia moderna, Gilberto Freyre foi o primeiro a retomar a velha utopia do paraíso racial, cara ao senso comum dos abolicionistas, dando-lhe uma roupagem científica. Em 1936 ele chega mesmo a retomar as imagens de "aristocracia" e "democracia" para contrastar a rigidez da organização patriarcal e a flexibilidade das relações entre raças.
É somente em 1962, quando as ideias do negritude cruzaram o Atlântico, que Freyre usará a expressão em “democracia racial”, sendo considerado um dos grandes responsáveis pela “legitimação científica da afirmação da inexistência de preconceitos e discriminações raciais no Brasil. Ele defendia, segundo o autor, o colonialismo português na África ao construir o que chamará de “luso-tropicalismo” em oposição às “influências estrangeiras sobre os negros brasileiros”.
Na segunda fase (1945-1964), com o fim da ditadura varguista, o movimento negro retomou a atuação no campo político, educacional e cultural, ampliando seu raio de ação, segundo Domingues (2007). Com a União dos Homens de Cor (UHC) ou “Uagacê”, fundada por João Cabral Alves e o Teatro Experimental do Negro (TEN), entidades de maior visibilidade no período, passou-se a enfatizar a luta pela conquista dos direitos civis.
A União dos Homens de Cor (UHC) atuava, em linhas gerais, pela “promoção de debates na imprensa local, publicação de jornais próprios, serviços de assistência jurídica e médica, aulas de alfabetização, ações de voluntariado e participação em campanhas eleitorais” (Ibid, p. 108).
O TEN , fundado em 1944, tinha como principal liderança Abdias do Nascimento; adquiriu caráter mais amplo que a formação de um grupo teatral exclusivamente constituído por atores negros, com a publicação do jornal Quilombo, oferecimento de cursos de alfabetização e de corte e costura, fundação do Museu no Negro e organização do I Congresso do Negro Brasileiro, etc. Domingues (2007, p. 109-10) ainda afirma que:
O grupo foi um dos pioneiros a trazer para o país as propostas do movimento da
negritude francesa, que, naquele instante, mobilizava a atenção do movimento
negro internacional e que, posteriormente, serviu de base ideológica para a luta de libertação nacional dos países africanos. Com a instauração da ditadura militar em 1964, o TEN ficou moribundo, sendo praticamente extinto em 1968, quando seu principal dirigente, Abdias do Nascimento, partiu para o autoexílio nos Estados Unidos.
Entretanto, segundo Guimarães (2001, p. 152), com as guerras de libertação na África, e o avanço ideológico da “negritude”, Freyre acirra a devoção à “democracia racial” ou “ética” justificando e legitimando a hegemonia da cultura luso-tropical. Até este momento, a questão problemática não era o consenso sobre a “democracia racial”; era possível conciliar a realidade do “‘preconceito de cor’ com o ideal de ‘democracia racial, tratando-os, respectivamente, como prática e norma sociais, as quais podem ter existência contraditórias, concomitantes, e não necessariamente excludentes”.
De acordo com Domingues (2007), com o golpe militar de 1964, ocorreu a desarticulação da coalização de forças reunidas em torno do enfrentamento do “preconceito de cor”, enfraquecendo o movimento negro organizado, que tinha seus militantes estigmatizados e acusados de forjar um problema que não existiria, o racismo no Brasil. De acordo com Guimaraes (2001, p. 155), o golpe de 1964 marca a “morte da democracia racial”; o movimento negro passou a fazer oposição à ideologia oficial patrocinada pelos militares e difundida pelo luso-tropicalismo: paulatinamente, “os militantes políticos e ativistas negros referirão tanto as relações entre brancos e negros quanto o padrão ideal dessas relações como o ‘mito da democracia racial’’, forjada por Florestan Fernandes. Em meados dos anos 1970 era a reivindicação da identidade e singularidade negra que:
começava a ser atendida pelo Estado brasileiro, ao menos no terreno da cultura. Assim, antes que o movimento negro aparecesse na cena política nacional com uma agenda radical de reivindicações antirracistas, a "afirmação cultural" negra já se encontrava bastante madura, protegida justamente por uma política de "democracia racial", que remontava aos anos 1930.
Na terceira fase (1978-2000), caracterizada pela disseminação de centenas de entidades negras, que em sua maioria se aproxima dos partidos e dos sindicatos, procurando agregar ações de cunho classista e antirracista, destaca-se, segundo Domingues (2007, p. 114), o Movimento Negro Unificado (MNU):
No Programa de Ação, de 1982, o MNU defendia as seguintes reivindicações “mínimas”: desmistificação da democracia racial brasileira; organização política da população negra; transformação do Movimento Negro em movimento de massas; formação de um amplo leque de alianças na luta contra o racismo e a exploração do trabalhador; organização para enfrentar a violência policial; organização nos sindicatos e partidos políticos; luta pela introdução da História da África e do Negro no Brasil nos currículos escolares, bem como a busca pelo apoio internacional contra o racismo no país.
O MNU, a fim de intensificar o poder político do movimento negro, objetivava unificar, em escala nacional, a luta de todos os grupos e organizações antirracistas. Registra- se nesse período também:
O culto da Mãe Preta, visto como símbolo da passividade do negro, passou a ser execrado. O 13 de Maio, dia de comemoração festiva da abolição da escravatura, transformou-se em Dia Nacional de Denúncia Contra o Racismo. A data de celebração do MNU passou a ser o 20 de novembro (presumível dia da morte de Zumbi dos Palmares), a qual foi eleita como Dia Nacional de Consciência Negra. Zumbi, aliás, foi escolhido como símbolo da resistência à opressão racial. Para os ativistas, “Zumbi vive ainda, pois a luta não acabou” (Ibid, p. 115).
Outra mudança simbólica registrada foi a substituição do termo “homem de cor” (quase que totalmente abolido) por “negro”, com o intuito de despojá-lo de sua conotação negativa/pejorativa e designar todos os afrodescendentes. No campo educacional, a intervenção do movimento negro passou a ser mais incisiva:
[...] com proposições fundadas na revisão dos conteúdos preconceituosos dos livros didáticos; na capacitação de professores para desenvolver uma pedagogia interétnica; na reavaliação do papel do negro na história do Brasil e, por fim, erigiu-se a bandeira da inclusão do ensino da história da África nos currículos escolares. Reivindicava-se, igualmente, a emergência de uma literatura “negra” em detrimento à literatura de base eurocêntrica (Ibid, p. 115).
De acordo com Domingues (2007), nesta fase “o movimento negro organizado africanizou-se” e a luta contra o racismo almejava a promoção de uma identidade étnica especificamente negra; os nomes ocidentais foram questionados e os neonatos negros recebiam nomes africanos; aos ativistas era exigida a adoção do candomblé; desenvolveu-se uma campanha política contra a mestiçagem considerada uma “armadilha ideológica alienadora”. Em suma: as reinvindicações antirracistas foram introduzidas no ideário político da sociedade brasileira e ocorreu a consolidação de uma nova identidade racial e cultural para a população negra. Para Guimarães (2001, p. 157):
[...] o movimento negro retomava as suas bandeiras históricas de "integração do negro à sociedade de classes”, acrescentando-lhes a nova bandeira de identidade étnico-racial expandida. Assim, tem-se três movimentos em um: a luta contra o preconceito racial, a luta pelos direitos culturais da minoria afro-brasileira e a luta contra o modo como os negros foram definidos e incluídos na nacionalidade brasileira.
De 1985 a 1995, segundo o autor, a construção de uma nova institucionalidade política marca o ativismo negro com seus representantes ocupando cargos no Ministério da Cultura. A Constituição de 1988 é considerada antirracista por tornar o racismo crime inafiançável e imprescritível; em 1989 a Lei nº 7.716 define os crimes resultantes de preconceito de raça e de cor. De acordo com Guimarães (2001, p. 161, grifo nosso):
Na academia brasileira o “mito” passa agora a ser pensado como chave para o entendimento da formação nacional, enquanto as contradições entre discursos e práticas do preconceito racial passam a ser estudadas sob o rótulo mais adequado (ainda que altamente valorativo) de "racismo" — ou seja, no mesmo terreno em que o movimento negro as pôs.
Na quarta fase do movimento negro organizado, Domingues (2007) destaca a influência do movimento Hip hop, que tem recorrido à expressão “preto” ao invés de “negro” e expressa a “rebeldia da juventude afrodescendente”, ainda que não tenha um viés exclusivamente racial. Na atualidade, segundo Guimarães (2001, p. 162),
Morta a democracia racial, ela continua viva enquanto mito, seja como falsa ideologia, seja como ideal que orienta a ação concreta dos atores sociais, seja como chave interpretativa da cultura. E enquanto mito continuará ainda viva por muito tempo como representação do que, no Brasil, são as relações entre negros e brancos, ou melhor, entre as raças sociais — as cores — que compõem a nação.
Guimarães (2006, p. 272) defende que a reconstrução democrática do Brasil na década de 1980 difere imensamente da que ocorreu no pós-guerra, nos anos de 1940, devido à mudança de dois grandes paradigmas: o modelo de nação que agrega e homogeneíza raças, culturas línguas perde força ideológica diante da visão do Estado como instituição que deve garantir o multiculturalismo e do multirracialismo e preservar a diversidade linguística e cultural de seus cidadãos; a democracia não se refere mais a uma universalidade abstrata, com igualdade formal dos cidadãos e garantia das liberdades individuais: hoje prevalecem ideias como a de direitos coletivos, a de que “há grupos sociais e coletividades que devem ter garantida a igualdade de oportunidades, assim como a ideia de que tal igualdade deve se refletir em termos de resultados”.
Portanto, as reformas constitucionais recentes na América latina, para o autor, trazem como pressuposto a concepção de sociedades e nações pluriétnicas e multiculturais. No Brasil, ganhou mais relevância o reconhecimento do racismo como um problema nacional.
4.3 PRODUÇÃO HISTORIOGRÁFICA SOBRE A PARTICIPAÇÃO DO NEGRO NA