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4. COMPARAR A ÉTICA DO TRABALHO NA COSMOVISÃO CATÓLICA

4.2. BREVES DADOS INFORMATIVOS DE DETERMINADOS PERÍODOS

4.2.2. Décadas de 1960 e 1970 (Séc XX)

4.2.2.2.1. Movimento Pentecostal

Há de se reconhecer em primeiro momento, que o movimento pentecostal ou o pentecostalismo71, se faz presente no Brasil desde

o início da segunda década do século XX, com a vinda de missionários Suecos. O historiador Carl Hahn, a esse respeito fez o seguinte registro:

As Assembléias de Deus no Brasil foram fundadas por Daniel Berg, missionário sueco, que quando vivia nos Estados Unidos teve uma experiência de batismo do Espírito Santo e se sentiu chamado para ser missionário no Brasil. Ele chegou em 19 de novembro de 1910, data que a organização celebra como a de sua fundação (1989, p.338).

As Assembléias de Deus, como Igreja evangélica, se tornaram o primeiro ramo pentecostal a se estabelecer no Brasil em e a partir de Belém do Pará, no Nordeste. Daí esparramou-se por todo o território nacional, vindo inclusive a torna-se em nossos dias a maior Igreja evangélica do Brasil, em quantidade de membros. Ultrapassando as denominações históricas que aqui chegaram seis ou sete décadas antes dela. Nos idos desse período histórico aqui analisado, historicamente é entendido como sendo a segunda etapa ou momento da presença do pentecostalismo no Brasil. Já contava com várias outras denominações, destacando-se além da Assembléia de Deus, a Brasil Para Cristo; Evangelho Quadrangular; Deus é Amor, dentre outras. Mendonça, sobre esse período comenta:

Alguns setores pentecostalizantes das igrejas tradicionais, na segunda explosão pentecostal das décadas de 1960 e 1970, sustentavam o princípio de que o fiel possuído pelo Espírito não pode pecar... Na citada explosão das décadas de 1960 e 1970, era comum ouvir das lideranças a expressão o Espírito sopra

onde quer, mas está sujeito ao profeta . Entretanto, para o observador, em todo pentecostalismo está latente um potencial de desordem , que desafia os líderes a um permanente controle. (2004, p.72).

71Deve-se esclarecer que o Pentecostalismo, como um dos maiores segmento evangélico do Brasil, não segue, não professa e nem gosta de identificar-se com a Reforma, por isso, não aceita a doutrina que os protestantes, das chamadas igrejas históricas, reformadas, proclamam e defendem. Como Mendonça relata: Para os pentecostais clássicos, o Pentecoste se repete

como experiência renovada e, particularmente, fenomênica do Espírito. Por isso, as igrejas pentecostais, segundo sua forma de crença fundamental, distinguem-se essencialmente das tradicionais da Reforma . (2004, p.74).

Observe que a principal ênfase do pentecostalismo recai sobre a terceira Pessoa da Trindade, o Espírito Santo e sua obra. Contudo, é Ele, segundo o pentecostalismo, controlado e dirigido a fazer o que o líder quer; que, no caso, seria o profeta a quem o Espírito deveria sujeitar-se. O Pentecostalismo identifica-se e marca sua presença de maneira mais acentuada na classe de mais pobres e marginalizados da sociedade. Campos Jr., diz que o

pentecostalismo, como religião que atinge os setores mais pobres da população brasileira, é também sincrético (1995, p.102). Este sincretismo

aponta para o que já foi dito sobre o tipo de semelhança que é encontrada no movimento carismático católico romano e pentecostal, quanto a glossolalia e outras manifestações fenomenológicas.

Neste sentido, o fiel, ao ser impactado com a mensagem pentecostal e convertido a esta nova prática religiosa, certamente abandonará a antiga, seja ela qual for. Esta atitude o levará a ter um outro paradigma de virtude em sua vida, ou seja, segundo Campos Jr., os valores morais e religiosos [antigos] são

quebrados. A formação católica [ou outra qualquer] é substituída em alguns momentos [ou definitivamente] pelo pentecostalismo... (1995, p.114). Logo,

além da fé, os novos valores morais e éticos que são passados ao fiel e por ele assimilados, serão instrumentos valorativos que o nortearão em seu agir perante a sociedade, por isso:

O movimento pentecostal surge como alternativa para os setores marginalizados e pobres que procuram sobreviver em meio às condições violentas do sistema capitalista. Devido aos precários serviços de saúde, e assistência de uma maneira geral, as populações pobres vão encontrar, mesmo que em parte, um amparo em religiões de caráter sectário e espiritualizante, mas que possuem uma linguagem que lhes é acessível. (CAMPOS Jr., p.115/6).

Logo, esta população que vive à margem da sociedade, é, em certo sentido, valorizada e estimulada a ter uma vida diferente daquela que levava anteriormente. Isto elevará a auto-estima do indivíduo, visto que ele sentirá a importância de seu papel no meio em que estiver inserido, para ser usado como instrumento nas mãos de Deus em favor do próximo e da sociedade. Por causa disso ele procurará apresentar um nível de vida espiritual, ética e moral em todas as áreas que envolvem a sua vida, que o faça útil e sirva como

exemplo a outros. Contudo, para este propósito em especial, os pentecostais são bem mais exigentes e rígidos, que outros segmentos do cristianismo. Richard Shaull, numa série de palestras ministradas à liderança da juventude cristã brasileira, no início da década de 60, argumenta que:

Infelizmente, é fácil mudar tudo e colocar o dever moral em primeiro plano. Quando isso acontece, a vida cristã passa a consistir em cumprir certas regras, que são geralmente uma lista de proibições. [Impostas pela denominação, nesse caso, pentecostal]. O crente não vê facilmente a razão de ser destas regras; a vida cristã, em vez de ser Boa Nova de vida, pode tornar-se carga pesada. (1963, p.82)

Percebe-se aqui o tendão de Aquiles da moral e da ética postulada pelos protestantes pentecostais. A ênfase deles está em que o fiel deverá, para ter uma vida social íntegra e exemplar, cumprir as regras e as normas rígidas estabelecidas por sua denominação. Entretanto, ocorre que o tipo de conduta refletida nessas condições, será, na verdade, um peso, ou seja, nas palavras de Cristo, uma sobrecarga , que deixará o indivíduo cansado , (cf. em Mateus 11.28-30, Bíblia Sagrada). Logo, a ética e a moral apresentadas na vida desta pessoa, não serão o resultado espontâneo de uma vida regada e fundamentada em princípios bíblicos, mas sim, de algo forjado na morsa eclesiástica denominacional, regida por critérios humanos. Por isso, conclui Shaull:

A única possibilidade de acabar com esta trágica perversão da ética cristã está em mostrar claramente que toda preocupação ética no cristianismo parte da convicção de que Deus nos está oferecendo nova vida, e que esta nova vida é essencialmente questão de relação com outras pessoas. As normas de ética estabelecidas pela Igreja representam a estrutura de vida que torna possível a recepção do divino. (Idem, p.83).

Como base para esta argumentação, Shaull cita o texto bíblico de (Romanos 13.8,9): Quem ama ao próximo, tem cumprido a lei... Amarás ao teu

próximo como a ti mesmo . E, ao depois ele arremata: Se orientarmos nossa vida neste sentido, teremos ainda necessidade de disciplina, de normas negativas, de esforço constante para evitar o mal . Portanto, no entendimento

vida de alguém, apenas representam e são instrumentos úteis que auxiliarão a regularem-na quanto ao que deve ou não fazer, em relação ao próximo e a sociedade, como o texto bíblico orienta. Isto significa e quer dizer que a ética do protestante deverá ser uma resposta ao que a Bíblia recomenda e determina como parâmetros à sua conduta, norteando-a.