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Revolução dos Cravos, 25 de Abril de 1974.

2.2. Movimento Popular antes do 25 de Abril: a autonomia no horizonte

Desde há muito os/as trabalhadores/as portugueses/as utilizavam os meios que estavam a seu alcance para mostrarem-se contrários/as à exploração dos patrões. Além das greves, outras formas de luta eram experimentadas, porém, o regime fascista respondia às manifestações de desacordo dos trabalhadores com repressão e vigilância exercidos pela polícia política. Ainda assim, o agravamento das contradições do sistema capitalista, as condições de miserabilidade que se encontrava a classe trabalhadora, não lhe deixavam outra escolha. De 1968 a 1974 as movimentações operárias em Portugal atingem um novo fôlego, mas é nas empresas, como nos diz José PIRES (s/d:31), que as reivindicações encontram mais apoio dos trabalhadores e que mais êxitos são por eles conseguidos.

Muitas das empresas que após o 25 de Abril atingirão radicalidade nos processos de luta iniciaram sua jornada reivindicativa entre 1968 e 1972, como é o caso da LISNAVE, CARRIS, TAP, entre outras. Porém, foi a partir do último trimestre de 1973 que as lutas dos trabalhadores alcançaram maior número e uma capacidade de movimentação que, devido ao silêncio que os meios de informação eram obrigados a manter no que se refere as ações dos trabalhadores, não foi apercebida por grande parte da população. Apesar do regime repressivo dentro das fábricas, a classe trabalhadora se pôs em confronto com o capital na luta por melhores salários.

Diante o aumento do custo de vida resultante da crise geral do sistema capitalista e como resposta aos despedimentos coletivos, os trabalhadores insistiram nas paralisações do trabalho e, como nos demonstra PIRES (s/d: 43), por vezes, as paralisações foram seguidas de ocupação das instalações das empresas por longo tempo, como foi o caso da fábrica Abelheira34. Consideraremos que a movimentação que irrompe em Portugal a partir do final de 1973 é um passo fundamental para a criação de

34 É interessante o exemplo desta fábrica cujos patrões (Champalimaud) declararam falência e encerraram a fábrica, com o intuito de que esta passasse a preparar os produtos que interessavam a outras fábricas pertencentes aos mesmos proprietários. Mas a persistência dos trabalhadores levou-os à vitória sobre essa manobra dos patrões. Ver PIRES, José. O Povo em Acção: greves e o 25 de Abril. Edições Base, Lisboa, 1979. A Abelheira foi ocupada e teve o apoio de trabalhadores de outras 30 ou 40 empresas têxteis, sendo preciso a atuação da GNR para desalojar os/as grevistas.

um expressivo movimento autônomo que se desenvolverá pelo país logo a seguir ao 25 de Abril.

No começo da década de 1970 a configuração da classe operária portuguesa demonstra que os setores da construção civil, têxtil e metalúrgicos constituem mais de 50% do operariado. Enquanto que o número de operários/as têxteis aumentou devido ao desenvolvimento da indústria de confecções, frequentemente dominada pelo capital estrangeiro e recorrendo, sobretudo a um extenso operariado feminino, com baixa qualificação, o setor metalúrgico verificou um crescimento de trabalhadores qualificados, de que a indústria necessitava cada vez mais (COSTA, 1979:219). Estes dois setores mais adiante irão influenciar muitas das várias lutas deste período35.

No período de 1950 e 1970, o processo de concentração operária nos moldes do capitalismo português permitia a continuação de um vasto número de pequenas e médias empresas, principalmente devido aos baixos salários e à super-exploração do trabalho. No entanto, o desenvolvimento do capital industrial e dos monopólios fomentou uma significativa concentração operária fabril, coexistindo com a população operária de pequenas e médias oficinas. Tanto é que, nos apresenta esses dados Ramiro da COSTA, em 1969, 98,5% das empresas absorviam 52% do emprego, enquanto apenas 1,5% das unidades que empregavam mais de 100 pessoas detinham os restantes 48% (1979:223). Verifica-se neste momento uma mudança na configuração do mundo do trabalho a partir do declínio da importância de certo número de profissões tradicionais, como curtidores, peleiros, sapateiros, entre outros, e o crescimento de profissionais de setores modernos, operários da produção de metais, eletrotécnicos, etc; a concentração fabril acompanha a concentração mais geral dos assalariados. As indústrias modernas ao mesmo tempo em que desqualificam o trabalho com as cadeias de montagem criam a demanda do trabalho qualificado com a introdução de novos processos técnicos, o que favorece a constituição de uma série de administradores técnicos.

De 1964 a 1970 os salários médios dos trabalhadores irão conferir uma pequena melhora, de 45.80 escudos em 64 para 70.20 escudos em 1970. Porém, a situação de crise aguda que o regime vivia com o crescente aumento do custo de vida, reduzia as melhorias nos salários a um aumento de apenas 6,3% dos salários reais. Por outro lado, a evolução da produtividade capitalista seguia pulsante, segundo COSTA, esta registrou 35 Também os setores da construção civil ocupando o primeiro lugar no número de profissionais (pedreiro, estucador e afins 223.885 trabalhadores, ibidem) participarão do amplo movimento social do pós-25 de Abril.

no mesmo período um aumento bastante superior, da ordem dos 88,6%, o que necessariamente não deixou de se traduzir num aumento da exploração da classe operária (1979:225). Esse aumento da produtividade esteve baseado na existência de uma elevada jornada de trabalho, que em média chegava a 46 ou 47 horas semanais mais os valores das horas extras, o que na prática traduzia-se num efetivo aumento da exploração.

As lutas sociais no interior do regime fascista eram bastante limitadas; o direito à greve foi negado logo no início do governo de Salazar e as greves que aconteciam eram sempre respondidas com muita repressão nas ações policiais. Mas, apesar dos limites que o regime punha aos explorados, nos anos que antecederam ao golpe de Abril a solidariedade entre os trabalhadores possibilitou que várias lutas fossem travadas. O tema da luta não podeira ser outro que não a melhora imediata nas suas condições de vida, assim que, as reivindicações operárias iniciadas em 1967, provocadas em grande parte pelo aumento da inflação36, mantiveram-se quase sempre no terreno das reivindicações econômicas.

As greves e paralisações parece terem vindo a aumentar até 1970, daí apresentarem uma diminuição entre 1971 e 1973 devido a prática policial do Estado, o autoritarismo fascista e a repressão das classes trabalhadoras. Contudo, a partir do último trimestre de 1973 as lutas operárias alcançaram um volume e uma capacidade de movimentação que, nas palavras de SANTOS, LIMA E FERREIRA,

o 25 de Abril, pela revelação/descompressão dos conflitos de trabalho que operou, obscureceu, de certo modo, uma luta que, aproximadamente em outubro de 1973, se vinha a definir acentuadamente numa importante etapa para a criação de uma expressão política autônoma das classes trabalhadoras (1976:21).

As greves continuavam. Os trabalhadores “adoeciam” todos no mesmo dia. As principais reivindicações estavam centradas em questões salariais, melhores condições de trabalho, abolição das horas-extras, etc. Nas palavras de SARDÁ,

os trabalhadores desenvolveram, durante as décadas de 60 e 70, processos de organização e lutas a partir das suas reivindicações

36 A inflação intensifica-se a partir de 1970 e relaciona-se com a exportação dos efeitos da crise do sistema imperialista para os países dependentes provocando a subida dos preços dos serviços, matérias- primas e produtos comprados ao exterior; expansão das remessas de emigrantes, despesas militares, crise da agricultura com a importação de produtos agrícolas mais caros (SANTOS, LIMA E FERREIRA, 1976:10).

econômicas, mas que se transformavam em problemas políticos ao afrontarem o enquadramento corporativo e a política salarial do regime. As formas de pressão realizadas resultavam, em alguns casos, na deflagração de greves, a despeito ou mesmo contra a estrutura sindical corporativa implantada na década de 30 (2004:229).

Ao lado de inúmeros movimentos reivindicativos levados a diante no âmbito das empresas, destacaram-se as greves da Carris (1968), Lisnave (1969), Grundig (1972) e da TAP (1973), dentre muitas outras. Neste primeiro exemplo, perante a insatisfação dos trabalhadores do transporte que exigiam uma semana de 40 horas e o 13º salário, cerca de 7.000 cobradores ao invés de paralisarem o trabalho deixam de fazer a cobrança de bilhetes, durante três dias. Essa ação teve uma enorme popularidade e se alia a outras novas formas de luta que começam a se esboçar nesse período.

A ampliação da classe operária urbana de 768.000 para 1.020.000 trabalhadores produtivos entre 1950 e 1970 proporciona mais um elemento para a eclosão de um conjunto de lutas que nunca havia ocorrido em Portugal. SANTOS, LIMA e FERREIRA entendem que,

o extraordinário surto de conflitos – greves operárias, reivindicações de salários mínimos, formas de resistência, comportamentos de baixa produção, desorganização oculta do processo de trabalho, conflitos ligados à habitação (ocupações), à saúde, aos transportes, as lutas nos campos (greve de seis mil operários agrícolas de Alpiarça, Almeirim e Benfica do Ribatejo), nas pescas (Peniche, Matosinhos), resistência nos quartéis – desagrega o bloco social que sustentara o fascismo e abrevia o seu derrube (1974:20-21).

Outro fator que é importante analisar neste momento se refere a espontaneidade em que ocorreram estes conflitos. Para Ramiro da COSTA, grande parte destas lutas não tem um centro dirigente. Ao contrário do que sucedera em períodos anteriores, o PCP está, pelo menos parcialmente, ausente da sua direção. Lutas operárias tão importantes como as da Lisnave (1969), da TAP (1973), a greve de Matosinhos, entre outras, não sofrem a influência do PCP e são em grande parte dirigidas por operários de vanguarda não organizados ou tendo deixado de estar organizados, fundamentalmente por corte com o revisionismo (COSTA, 1979:231). O partido comunista, com influência reduzida no meio operário, não estava em condições de dirigir esse movimento fortemente espontâneo. Nos documentos do PCP relativos a esse período37, o movimento

37 Comunicados da Comissão Executiva do Comitê Central do PCP, de 31 de outubro de 1973 e de 10 de novembro desse mesmo ano. Ver COSTA, Ramiro. Elemendos para a hisdória do movimendo operário

reivindicativo está ausente e o partido aponta como caminho principal da luta a continuidade da propaganda democrática e a referência aos trabalhadores só aparece no sentido de incluir as massas na sua grande campanha política. Nos dois comunicados do Comitê Central lançados em fins de 1973, o partido não lança nenhuma referência ao movimento social reivindicativo que pulsa nas fábricas portuguesas e que desemboca nas grandes mobilizações de 1974 e 1975. Não diz nada a respeito das melhorias das condições de trabalho e nem se refere a luta pelos aumentos salariais. Somente num comunicado de 31 de janeiro de 74 é que aparece a compreensão da importância dos processos de luta em desenvolvimento. Tal atraso na percepção da realidade social operária demonstra a distância que o partido estava dos acontecimentos em curso guiados pela movimentação dos trabalhadores, que não esperaram de braços cruzados a sua libertação, movimentando-se nas brechas do passivismo, da resignação e da repressão do regime fascista.

No campo sindical, era frequente a pressão das lutas ante a proibição da formação de sindicatos independentes e da unicidade sindical. É certo que a organização sindical que existia em Portugal neste momento não passava de estruturas que corporificavam o aparelho do Estado e, além de corporativas, suas estruturas eram extremamente divididas por sindicatos regionais, distritais, e, em menor número, sindicatos nacionais. Essa divisão dos sindicatos fazia parte da política fascista que fazia de tudo para propiciar a sua intromissão e fiscalização destes organismos. O Partido Comunista nesta altura desempenhava um papel significativo nos sindicatos, mas não exclusivo. Algumas direções tomaram posições marcadamente antifascistas e nalgumas delas, como ocorreu com o sindicato dos metalúrgicos, dos lanifícios e dos químicos, demonstraram seu apoio às lutas desenvolvendo também lutas próprias centradas nas negociações de contratos colectivos (COSTA, 1979:232).

É importante mencionar que, no período que antecede a revolução, houve importantes agitações sindicais, como o papel que desempenhou os sindicatos de serviços, os bancários, os caixeiros e os de seguros, onde se verificaram lutas com expressão política em manifestações contra a repressão e prisões de seus dirigentes, dentre outras ações. Mas, sobretudo, é na formação da Intersindical38 que essas

Alvim, 1979.

38 A Intersindical nasce em Outubro de 1970 quando os sindicatos dos metalúrgicos, dos Caixeiros de Lisboa, dos Lanifícios e dos bancários convocam uma reunião com a presença de 13 sindicatos e começam a desenhar uma estrutura de coordenação das lutas sindicais. A partir da Intersindical se começa a lançar a luta pelo salário mínimo aliada a luta pela liberdade sindical e pela liberdade de expressão e reunião. A ação da Intersindical se mantém até Abril de 1974, altura em que se

agitações adquiriram um papel importante.

A mobilização das classes populares na luta contra a exploração, a dependência, a marginalização e o colonialismo acelera as contradições e a crise da ditadura e em 25 de Abril de 1974, o regime fascista foi desarticulado através do golpe protagonizado pelo Movimento das Forças Armadas.