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2. ENTRE AVANÇOS E RETROCESSOS

2.3 MOVIMENTOS E REFLEXÕES

A cada encontro com o grupo de crianças as atividades sempre foram iniciadas com atividades com movimentos, no intuito de trabalhar noção de espaço, concentração, atenção dirigida e o respeito ao outro. Em sequência foram desenvolvidas atividades que contemplaram as linguagens, verbal e não verbal. A cada encontro desenvolvemos atividades objetivando o desenvolvimento de linguagens relacionadas ao teatro. Em uma das atividades cada criança fez o reconto verbal de uma história infantil (entre as escolhidas foram citadas Chapeuzinho Vermelho, Os três porquinhos, Branca de Neve e Papai Noel) os relatos desencadeavam sempre em torno da cena principal. A partir dessa atividade ficou obvio que as crianças se envolveram com cada um dos relatos, elas estavam deitadas, e somente o/a contador/a ficava sentado/a.

Para realizar as atividades de cada dia, o espaço construído conforme os interesses das crianças foi criado de modo a coadunar com as cenas, surgida nas rodas de conversas, a interpretação se dava com base em suas vivências. A partir do planejamento feito pelas crianças, partiam para a composição do cenário e de acordo com o texto, o organizava a seu modo. Como proposta da pesquisa, o

trabalho coletivo foi uma de suas características. Coelho (1978, p. 17) afirma que para:

“[...] obter uma integração coletiva, desenvolver o espírito comum de trabalho sem despertar o espírito de competição. Vários jogos podem ser utilizados, mas a finalidade única é induzir num grupo acostumado a um relacionamento competitivo... ou seletivo... a necessidade de uma atitude igual e igual diante dos estímulos a serem fornecidos”.

Nesse sentido ficou notório que o jogo conforme mostrado pelas crianças tem um caráter competitivo, e isso se mostrou forte em algumas delas por meio de uma atividade desenvolvida com a montagem de um quebra-cabeça com a participação de todos. O trabalho coletivo foi uma estratégia utilizada na composição de um quebra-cabeça onde as crianças escolheram as peças para montá-lo. Inicialmente formaram-se dois grupos, um deles nas primeiras tentativas de montagem, logo percebeu que seria impossível realizar a atividade isoladamente, que todos deveriam juntar as peças, porém, o segundo grupo resistiu, até ser convencido de que não seria possível realizar a atividade separadamente.

Uma das crianças do segundo grupo – Manu- ao perceber que seria impossível montar o quebra cabeça com os grupos separados disse: - gente vamos juntar os grupos, porque desse jeito não vamos conseguir. A arte implica essa percepção de que o trabalho coletivo demanda aceitação, se colocar no lugar do outro e, quando se trata de jogo, elas descobrem que trabalharem juntas tem mais significado, a noção de colaboração fica mais evidente.

É como se todas as atividades objetivasse a divisão das crianças, porque logo montaram dois grupos. A percepção de que o trabalho realizado por todos juntos teria o resultado esperado inicialmente não foi percebido pelas crianças, foi necessário que algumas delas tentassem mesmo que de imediato não conseguissem montar o quebra cabeça separadamente. E a insistência de outras crianças em juntar as peças para a montagem foi um processo que inicialmente teve resistência, mas a partir de tentativas sem conclusão da montagem, reflexões, elas concluíram que as peças deveriam ser organizadas com a participação de todas as crianças, ou seja, a tomada de consciência, o sentimento de ter conseguido juntos. A liberação do individual para o coletivo.

A ideia de competitividade – revelado na execução da atividade - se mostrou forte no desenvolvimento dessa atividade, porém foi necessário que isso acontecesse, pois as crianças se mostraram na sua essência.

Outra proposta para trabalhar no grupo foi desenvolver o conceito de jogo a partir de atividades coletivas, mostrando que o jogo pode e deve ser realizado com o intuito de agregar, unir um grupo com um objetivo em comum, somando seus interesses, onde cada um desempenha seu papel culminando na composição, ou realização de uma atividade que privilegia a participação de cada uma das crianças. Com esse intuito elas desenvolveram trabalhos em dupla, trios e em único grupo onde todos trabalharam em função de um só propósito, que foi montar e interpretar uma cena partindo de um tema do interesse deles. Pode-se notar isso a partir da encenação feita, - as crianças tentaram mostrar seus medos referentes a vampiros, escuro, falta de abrigo e fuga. Na cena alguns interpretaram uma família a procura de um lugar para se abrigar, foi acomodada por uma pessoa que os acomodou, mas que na verdade fazia parte de uma família de vampiros que na primeira oportunidade atacou a família que acreditava está em segurança -.

Nos relatos na roda de conversas demonstraram que realizar a atividade em grupo é produtivo. Vilmeyre disse - É legal porque todos estão juntos, fica mais fácil e mais legal. No começo é difícil, só que depois todo mundo se ajuda. Para Vygotsky (1998) o desenvolvimento e aprendizado estão inter-relacionados e as relações sociais provocam nas crianças especialmente a soma de idéias e as experiências se fazem no fazer. É interessante que a elas é dada a possibilidade de criar e, mesmo que conforme os relatos a princípio parece difícil, deixa de ser na medida que experimentam, agem, refletem e re-inventam.

Os exercícios vivenciados pelas crianças por mais que se baseiem em fatos ou vivências a posteriori, representam sempre a possibilidade para ir além do que elas já sabem por isso a imitação é um elemento que corrobora com esse fazer tornando-se parte do processo de desenvolvimento e aprendizado da criança, de modo que é o momento onde a criança se revela em seu sentido real.