3.3 Argumentos políticos
3.3.2 MOVIMENTOS SOCIAIS
A) Movimento Pró-Vida
O Movimento Pró-Vida é a principal manifestação política de posicionamento contrário à descriminalização e legalização do aborto. Composto por entidades religiosas e laicas, esse movimento, com expressividade internacional, atua politicamente em diversas frentes. Em documento do Movimento Pró-Vida dos EUA temos apontadas as seguintes premissas:
1. A vida começa desde a fecundação;
2. O estatuto de pessoa é inerente ao ser humano, independente de sua fase de desenvolvimento embrionário;
3. Todos os seres humanos, desde a fertilização até sua morte natural, são detentores de direitos inalienáveis, como a vida e liberdade;
4. O aborto, eutanásia e a destruição intencional de embriões humanos são assassinatos.5353
Esse grupo coloca como sua missão:
We seek to restore a culture of life in America. We seek to protect innocent human life from fertilization to natural death when threatened by surgical or chemical abortion, euthanasia or embryonic stem cell experimentation. We oppose the cloning of human beings. We are committed to ethical and peaceful means to end the injustice of all manner of abortion, euthanasia, cloning, and embryonic experimentation that destroys human life. With compassion, we seek to provide resources to help pregnant women and their children. We seek to end legalized abortion as quickly as possible and to significantly reduce abortions until that is accomplished (Fundamental Principles of the Pro-Life Cause, 2008). 54
Apesar de verificarmos a existência, no restante do documento, de um discurso com elementos religiosos (especificamente cristãos), Mori (1997) evidencia que, a despeito da recorrente associação desse movimento ao catolicismo, é possível haver diferenciação dentro do movimento, visto que há também grupos que se posicionam favoráveis a métodos de contracepção e esterilização, podendo também apoiar a permissão do aborto em pelo menos um dos casos em que geralmente é legalizado.
Mujica (2007), ao analisar o movimento pró-vida na América Latina, aponta-nos a mudança de perfil ao longo dos anos e a
53Fundamental Principles of the Pro-Life Cause. Documento do Movimento
Pró-Vida de Califórnia/EUA.
54Disponível em: http://www.lifepriority.net/Principles%20of%20the%20Pro- Life%20Cause%20-%20border%20&%20date.pdf Acessado em: 14 de dezembro de 2012.
transformação do contexto político em que se insere a discussão do movimento pró-vida. A primeira fase categorizada, também nomeada de “período clássico do conservadorismo”, é datada até meados do século XX, em que a cultura política dos Estados reafirmava, ao excluir seus cidadãos ou tutelá-los a partir da lógica paternalista, a ideologia baseada em discriminações étnicas, de gênero e de classe (MUJICA, 2007, p. 34). Com o sistema político pouco democrático, as minorias encontravam-se excluída de espaços de construção de hegemonias, como a ciência, instituições religiosas e o próprio Estado.
Em segundo momento, delimitado a partir das últimas décadas do século XX, observa-se, na América Latina, um processo de redemocratização, em que os direitos civis passam a ser incorporados pelos Estados, que não teriam mais espaço no cenário internacional sem se adequarem à prerrogativa de preservação desses direitos. Ao mesmo tempo, temos, segundo Mujica (2007) a implantação de políticas neoliberais que não asseguram completamente a efetivação dos direitos sociais. As características acima levantadas geram tanto uma dissociação direta dos grupos conservadores ao Estado quanto faz-nos notar que esse movimento não gerou, necessariamente, uma ruptura entre essas duas esferas. Essa configuração desencadeia a necessidade desses grupos de inserir-se no Estado a partir das agendas de políticas públicas, fazendo com que se construa um discurso que consiga agregar diversos atores sociais.
O terceiro processo notado por esse autor é o atual, em que, ao haver o aumento de mobilizações sociais em torno dos direitos sexuais e reprodutivos, cria-se a necessidade de alteração das estratégias de ação dos grupos conservadores para tentativa de manutenção do controle do Outro, sendo o corpo um dos principais núcleos de ação dessa prática, como explicita Mujica (2007):
La emergente demanda de libertades y derechos, así como el proceso de agrietamento de las correlaciones de poder, han dispuesto un reciente campo de acción y de nuevas tensiones sobre las cuales nos desenvolvemos hoy en día. Este panorama muestra algunas características particulares entre las que resalta el hecho de que los grupos conservadores han dejado de lado la cuestión étnica y de clase y han centrado su atención en el asunto de género, en las cuestiones referidas a las libertades sexuales y a la de los derechos sexuales, así como a la anticoncepción
(ello no quiere decir que estas sean ahora las únicas preocupaciones de estos grupos, sino que son los temas que han ocupado un lugar predominante en sus discursos) (MUJICA, 2007, p. 37).
Especificamente no Brasil, os principais grupos representantes desse movimento são: Associação Nacional Pró-Vida e Pró-Família e Movimento Nacional da Cidadania em Defesa da Vida (Brasil Sem Aborto), que atuaram conjuntamente enquanto representantes do posicionamento desfavorável à permissão de aborto em casos de fetos anencéfalos (sem possibilidade de sobrevivência extra-uterina) no Superior Tribunal Federal em 2008 (BARROSO, 2007). O primeiro grupo busca agregar afiliados provenientes de qualquer religião ou filosofia, desde que esses concordem com a “defesa da vida desde a concepção até a morte natural sem exceções” e “defesa dos valores morais e éticos da família”5555. O segundo grupo, Movimento Brasil Sem Aborto, autodenomina-se um “movimento supra-partidário e supra- religioso que atua para que o aborto não seja legalizado no Brasil”5656. Uma de suas formas de atuação é através de advocacy, ou seja, buscando incidir sobre o Estado, principalmente sobre o legislativo. Atualmente, esse movimento tem realizado campanhas para angariar apoio popular para o projeto de lei 478/2007, mais conhecido como “Estatuto do Nascituro”, exposto no tópico sobre a atuação do poder Legislativo.
Outro segmento atuante no Movimento Pró-Vida é o religioso. A Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) é seu integrante com maior peso político, atuando, inclusive, em estruturas de participação e controle social como o Conselho Nacional de Saúde. Para além de sua atuação em esferas políticas institucionalizadas, a Igreja Católica também promove mobilizações anuais conhecidas como Campanha da Fraternidade, em que, a cada ano, é eleito um tema para que se promova ações sistematizadas, em âmbito nacional, sob coordenação dessa instituição religiosa. No ano de 2008 o lema escolhido foi “Escolhe, pois, a Vida” para que se pusesse em pauta de discussão e fortalecimento do ideário católico tanto a proibição do aborto quanto a produção de embriões humanos na reprodução assistida e o uso de seus excedentes para pesquisas sobre células-tronco (LUNA, 2010).
55http://www.providafamilia.org.br/site/quemsomos.php 56http://brasilsemaborto.wordpress.com/about/
Para além do catolicismo, temos também a participação de outros setores religiosos, como o evangélico – com população crescente nos últimos anos, segundo o Censo IBGE 2010 – e espírita5757.
B) Movimento Feminista Brasileiro5858
Segundo Pimentel e Vilela (2012), uma das principais reivindicações do movimento feminista é a defesa do direito de mulheres optarem por ter ou não filhos, o livre exercício da sexualidade e o direito ao aborto. Essa reivindicação é considerada de impacto estrutural às discussões sobre autonomia das mulheres em uma sociedade patriarcal, visto esse tema “desconstrói o paradigma hegemônico da maternidade compulsória” (PIMENTAL e VILELA, 2012, p.20), tornando-se, portanto, um tema recorrente dentre os grupos de discussão de movimentos feministas desde a década de 1970.
Apesar das reflexões surgidas nos grupos anteriormente citado, a questão da legalização do aborto foi colocada à discussão pública somente a partir da década de 80, devido às condições políticas conjunturais (ditadura militar) e por não ser uma temática bem aceita nos movimentos de esquerda tradicional – apoiados por setores da Igreja Católica - e nem pela direita conservadora (PINTO apud MAYORGA, 2008).
Um dos veículos utilizados no período para dar visibilidade a essa questão foi a Carta das Mulheres aos Constituintes que constava a reivindicação voltada a “conhecer e decidir sobre o seu próprio corpo”. Mesmo tendo a maioria das demandas atendidas pela Assembleia Constituinte, a reivindicação direta para revisão da legislação punitiva às mulheres que praticam aborto não se deu por recuo estratégico do movimento, já que a insistência nessa pauta poderia trazer prejuízos à 57A Federação Espírita Brasileira participou durante decisão da ADPF 54 que tratava sobre a interrupção de gravidez de fetos anencéfalos, posicionando-se contra a aprovação desse procedimento nesse contexto.
58Em linhas gerais, a legalidade do aborto para o movimento feminista representa: a autonomia sexual e reprodutiva da mulher, o atendimento seguro de mulheres de todas as rendas para execução do procedimento – diminuindo o número de mortes em decorrência do aborto inseguro, a garantia de um Estado laico no país (visto que o discurso predominante contra a descriminalização/legalização baseia-se na religiosidade), e maior atenção da instituição estatal ao planejamento familiar, exigindo-se dela educação sexual, métodos contraceptivos e redes de atendimentos especializados. Entra em questão, igualmente, a desconstrução da concepção cultural da maternidade como condição obrigatória à mulher.
negociação da inclusão de outras demandas. Apesar disso, houve um esforço, vencedor, para que não constasse na constituição a expressão “garantir a vida desde a concepção”, reivindicada por setores religiosos, que dificultaria uma posterior discussão sobre o tema (MAYORGA, 2008).
Durante a década de 90, mobilizações feministas pressionaram o Estado brasileiro para que assinasse acordos advindos de convenções da ONU, que abririam precedentes para uma legitimada pressão ao Estado para ampliação e reconhecimento dos direitos das mulheres, dentre eles o direito individual de definir e planejar o número de filhos. Outra reivindicação nesse período se deu por uma parcela do movimento feminista que passou a cobrar do Estado o atendimento dos casos de aborto permitidos em lei nas redes de saúde pública (MAYORGA, 2008).
Em 2002, a Plataforma Política Feminista, formulada durante a Conferência de Mulheres Brasileiras, destacou a necessidade de se deslocar o tema de uma visão criminal/punitiva para uma questão de saúde pública e de cidadania para a mulher. Em 2004, foi criada a “Jornadas Brasileiras pelo Direito ao Aborto Legal e Seguro”5959, que
segundo Mayorga (2008), desencadeou reações de setores fundamentalistas na esfera legislativa.
Ainda no ano de 2004 foi realizada a I Conferência de Políticas Públicas para Mulheres, promovida pelo Governo Federal, onde, através da participação de diversos setores da sociedade, somando 2.000 mulheres (LOLLATO, 2004), foi construído o Plano de Políticas Públicas para Mulheres colocando a possibilidade da revisão da lei punitiva ao aborto, como já explicitado anteriormente.
Para além de um marco político, essa proposição causou, segundo percepção de representantes do movimento feminista6060, o aumento de
operações policiais para fechamento de clínicas de aborto clandestinas em diversos estados (Maranhão, São Paulo, Rio de Janeiro, Rio Grande do Sul, Minas Gerais, Goiás, Bahia, Pernambuco, Paraná, Ceará, Sergipe e Mato Grosso do Sul). Casos de maior impacto, como a 59Rede de movimentos sociais, ONG’s e grupos de pesquisa composta atualmente por 67 organizações.
60 Entrevista com Margareth Arilha, coordenadora-executiva da Comissão de Cidadania e Reprodução (CCR) e Rúbia Abs da Cruz, coordenadora-geral da Themis (Assessoria Jurídica e Estudos de Gênero) no Jornal Brasil de Fato, disponível em http://www.brasildefato.com.br/node/868. Visualizado no dia 10/09/2010.
aprisionamento de mulher na maca do hospital durante recuperação de complicações de aborto clandestino no Rio de Janeiro e a divulgação do nome de 9.862 mulheres suspeitas de terem praticado aborto ilegal em uma clínica de planejamento familiar em Campo Grande/MS durante três meses no site do Tribunal de Justiça de Mato Grosso do Sul, mobilizaram o movimento feminista que passou a pressionar com mais intensidade o Governo Federal para manifestação pública favorável às mulheres envolvidas.
Outro caso com grande repercussão nesse período (2008), conhecido como “caso Alagoinha” (cidade em que ocorreu o fato), foi o processo de aborto em uma criança de nove anos que, após três anos sendo vítima de violência sexual de seu padrasto, encontrava-se em processo de gestação de gêmeos. A partir de análises médicas, observou-se tratar-se de uma gravidez de risco, devido a estrutura física da gestante. Mesmo tratando-se de uma interrupção da gravidez permitida por lei, houve reação do Movimento Pró-Vida, dentre eles da Igreja Católica, que promoveu, inclusive, a excomunhão dos médicos que realizaram o procedimento e da mãe da criança submetida ao aborto. Esse fato, juntamente com acima indicados, acirrou o debate não só da legalização do aborto como também dos serviços públicos de saúde disponíveis para o atendimento de meninas e mulheres que necessitam recorrer ao aborto permitido por lei.
De forma geral, nota-se, comparativamente a outras reivindicações históricas, como o combate à violência contra a mulher e à educação sexista, que o movimento feminista tem investido pouco diálogo com a sociedade civil como um todo e pouco tem atuado no sentido de provocar sensibilização6161 geral à questão, focando-se
majoritariamente no Estado. A crítica a propostas de plebiscito para decisão de alteração ou não do código penal em relação ao abortamento6262 evidencia a percepção do movimento sobre a resistência
quanto à temática pela sociedade63.
61 Registra-se a propagação da discussão em comunidades através de multiplicadoras e em rádios comunitárias a partir de material produzido pela ONG “Católicas pelo Direito de Decidir” na década de 90. Outra ação de sensibilização de alcance social maior sobre o tema foi produzido por grupo social não integrante do movimento feminista, a Igreja Universal do Reino de Deus, juntamente com o Instituto Ressoar, através de peça publicitária divulgada na emissora Record News em 2008.
62 http://jornadaspeloabortolegal.wordpress.com/
63 Pesquisa do Instituto Vox Populi, publicada em dezembro de 2010, registra que 82% da população é contra mudanças na legislação referente ao aborto,
A partir da identificação de atores, pretendemos analisar a interação dos grupos envolvidos nesse debate, buscando fundamentalmente compreender a interação do movimento feminista e o Estado, a partir do poder executivo.
sendo considerado o maior índice registrado em pesquisas semelhantes. (http://congressoemfoco.uol.com.br/noticias/vox-populi-82-da-populacao-e- contra-aborto/). O movimento feminista ao perceber a resistência da sociedade ao lidar com esse tema prevê no plebiscito a derrota de sua proposta.
4 PERCEPÇÃO DAS PROTAGONISTAS SOBRE OS