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CAPÍTULO II. MOVIMENTOS SOCIAIS E POLÍTICAS SOCIAIS

2.2. MOVIMENTOS SOCIAIS E O PROCESSO DE FORMULAÇÃO

Nos anos 60 o processo histórico do desenvolvimento da cidadania social sofre uma transformação marcada, principalmente, pela crise do Estado -Providência e o movimento estudantil. Apesar do bom desempenho das estruturas produtivas, os processos de industrialização e urbanização produziram resultados de integração sócio- económica muito aquém das expectativas criadas e acarretaram novos problemas vinculados ao crescimento da pobreza, precariedade das condições de vida e da inserção económica das crescentes camadas urbanas, engrossadas pelas sucessivas ondas de (e/i)migrações, que aconteceram aquando da Revolução Industrial.

De acordo com Lavelle (2003), o que poderia ser considerado como insuficiências do crescimento económico, tratava-se antes dos efeitos perversos da própria modernização (idem; 94). No caso do Estado -Providência, a crise do fordismo, das instituições sociais e políticas, traduz uma dupla crise de natureza económico-política: a crise de rentabilidade do capital perante a relação produtividade-salários e a relação salário directos/salários indirectos; a crise da regulação nacional, até então geria eficazmente essas relações, perante a internacionalização dos mercados e a transnacionalização da produção. A centralização desta regulação no Estado provocou a sua própria crise perante a globalização da economia e as instituições que com ela se desenvolveram. Assim, a proposta social-democrata impregnada nas rotinas da produção e do consumo, comprometeu e condicionou a representação democrática, visto ter-se perdido o contacto com os desejos e as necessidades da população representada. Os cidadãos deixaram de figurar nesta representação, não tendo sido esta participação substituída por uma outra forma.

O movimento estudantil nos anos 60 expôs a crise político-cultural do fordismo: opõem-se ao produtivismo e ao consumismo uma ideologia anti-produtiva e pós- materialista, dando visibilidade às múltiplas opressões do quotidiano, ao nível da produção, da reprodução social e propõem alargamento do debate e participação políticas. Legitimam-se a criação de Novos Movimentos Sociais que transcendem as classes sociais e categorias profissionais. Porém, este movimento de promoção

cidadania estática, negligenciou essa mesma busca. Segundo Boaventura Sousa Santos (2000), a procura de uma cidadania que abarcasse a subjectividade criou espaço para a cidadania liberal, sendo esta fatal para a ideologia que a gerou.

A cultura política instituída pelo movimento estudantil expandiu-se, e só a partir desta é que se pode compreender e entender a emergência dos Novos Movimentos Sociais dos anos 70, 80 e 90.

O enfraquecimento do movimento operário dá lugar à emergência de novos sujeitos sociais e de novas práticas de mobilização social. As novas formas organizacionais pugnam por uma democracia participativa diferente da das lutas pela cidadania (democracia representativa). Estes novos movimentos sociais são constituídos por grupos com objectivos, por vezes localizados e por vezes globais. Emergem na sociedade civil mantendo-se equidistantes do Estado, dos sindicatos e dos partidos políticos, ampliando o campo político, buscando um equilíbrio entre a subjectividade e cidadania.

Boaventura Sousa Santos (2005) considera necessário fazer uma retrospectiva para analisar o que esteve na origem da crise do paradigma anteriormente em vigor. Esse paradigma tinha os seus alicerces assentes no conflito social e no papel privilegiado do Estado, enquanto entidade reguladora desse conflito por via do poder de comando e de coerção. Segundo o autor, esta crise adveio do questionamento radical do conteúdo tanto social como democrático do contrato social subjacente aos Estados sociais- democráticos após o fim da Segunda Guerra Mundial (2005; 7-11). Esta questão encontra-se também focada na obra “Vers un nouveau contrat social” (Roustang G. et al., 1996) os seus autores responsabilizam o Estado-Providência pela incapacidade de proporcionar condições e qualidade de vida aos cidadãos, logrando assim as expectativas de uma sociedade justa, com distribuição equitativa, da riqueza, bens e recursos (1996; 7-10).

O movimento estudantil (finais dos anos 60 início dos anos 70), ao qual se juntaram os movimentos feminista e ecológico, considera que o contrato social visava não incluir mas antes excluir. A exclusão de grandes grupos sociais, tais como as minorias e os imigrantes, e as questões sociais fundamentais, tais como as diversidades culturais e o ambiente, são a tradução desse mesmo contrato, sendo incluídos nessa exclusão outros grupos subjugados a formas que diluíam e anulavam o seu poder – caso das mulheres. A

promessa de construção de sociedades livres e com igualdade de oportunidades preconizadas pela democracia vigente falhou, tendo os sindicatos e partidos operários contribuído em larga escala para esta situação. Paradoxalmente, estes seriam os actores com a missão de aprofundar a democracia e contribuir em larga escala para a construção de sociedades nas quais a soberania do povo e participação popular seriam uma constante.

Em relação à emergência dos novos movimentos sociais, segundo Boaventura Sousa Santos (2005), o momento da mudança iniciou-se quando a Comissão do Trilateral, em 1975, publicou o seu relatório, da autoria de Croizier, Huntington e Watanuki sobre a crise da democracia. Neste relatório, foi colocado em destaque a sobrecarga de direitos e reivindicações, sendo estes constrangedores e castradores de uma sociedade que, ao pretender incluir, exclui, sendo incapaz de cumprir e respeitar os compromissos previamente assumidos. A crise da democracia, a contestação do movimento estudantil, a incapacidade de promover o consenso pôs em causa a legitimidade do governo e, consequentemente a crise de governo e de governabilidade. Para Boaventura Sousa Santos (2005) a identificação da situação de crise da democracia despoletou uma mudança de direcção que se traduziram numa série de alterações, tais como de um Estado central para a devolução/descentralização; do político para o técnico; da participação popular para sistema de peritos; do público para o privado; do Estado para o mercado.

Pierre Bourdieu (1998), alerta para a questão da cientificidade, dos peritos, da liberalização, da “salvação” que o pensamento neoliberal afirma possuir, como solução de todos os problemas identificados. Denuncia, inclusive, a troca de serviços ideológicos por posições de poder e o discurso único que produzem, sustentando a mudança de direcção das políticas sociais pelas políticas neoliberais de carácter social. Nos anos seguintes, assiste-se à construção de um novo regime político-social, também referido por Bourdieu (1998; 2001), à escala mundial baseado nestes ideais – a privatização, a mercantilização e a liberalização. Na década de 1986-1996 os governos da Europa Ocidental, praticamente retiram-se do sector da regulação económica, a lei do mercado preside à regulação económica e social e assiste-se à multiplicação de organizações da sociedade civil, cuja finalidade consiste em satisfazer as necessidades

satisfazer. O significado político da governação neoliberal encontra-se retirado do discurso dos conceitos: transformações sociais, a justiça social, as relações de poder, e a conflitualidade social, tendo estes estado na base da contestação dos anos 70 - no entanto, sem terem conseguido vingar esta bandeira. As alternativas propostas, em oposição, são a resolução de problemas, participação de titulares de interesses reconhecidos; a auto-regulação; políticas compensatórias; coordenação de parcerias; coesão social e estabilidade de fluxos. Estes, não são complementares mas sim opositores aos seus ascendentes, promovendo a exclusão social e a polarização económica e não a inclusão social e redistribuição social (2005; 14).

O neoliberalismo fragilizou muito os mecanismos democráticos de redistribuição social – direitos sócio económicos e o Estado Providência. Desprovida da obrigatoriedade, da responsabilidade e incumbência da redistribuição, a democracia alinha-se com o capitalismo de tal forma que se confunde. A exploração das populações e a acumulação de riqueza atinge níveis nunca antes vistos, devido que facto de os reguladores (actores económicos) estarem livres de obrigações e responsabilidades para com os que os sustentam/mantêm. Estes actores económicos detêm o controlo dos meios de subsistência básicos tais como a água, energia, sementes, segurança, saúde, entre outras. Lavalle (2003) fala-nos, no que concerne a América Latina, sobre a transformação social. Após a abertura política, evidenciando a emergência de novos actores civis, autónomos, um associativismo cívico, descomprometidos de interesses particulares, com capacidade de interferir e influenciar a esfera da formulação de políticas, podendo- se aplicar os termos democratização da democracia e ampliação do espaço público pela mobilização autónoma (2003; 91). Enuncia etapas/passos que conduzem a análises e leituras sobre os movimentos sociais, Estado e políticas públicas. Começa por evidenciar que há uma redescoberta da sociedade civil no contexto intelectual e disciplinar. Segundo, examina-se as particularidades do conceito de sociedade civil, anteriormente definido, e os seus efeitos restritivos sobre os actores empíricos “autorizados” a constituírem-se como expressão da nova sociedade civil. Em terceiro, estuda-se o papel normativo, conferido pela literatura, e a reafirmação do mesmo como elemento distinto da nova sociedade civil, em comparação com abordagens anteriores (2003; 93). De certa forma, a alteração do regime vigente para um regime democrático,

permitiu um alargamento da participação da população na definição, construção de políticas, de respostas às suas necessidades.

Raw, R. (s/d: s/p) comentando o livro de Boaventura S. Santos, “Pela Mão de Alice”, afirma que o primado do mercado impera acima de todos os outros. Há um desenvolvimento hiperbólico do princípio do mercado em detrimento do princípio de Estado e ambos em detrimento do princípio da comunidade. Assim, o princípio da cidadania formulado pelas sociedades liberais faz com que este se resuma à cidadania civil e política, sendo que seu exercício reside exclusivamente no voto. No entanto, Raw enuncia três questões que decorrem deste princípio: a representação que assenta na distância e diferenciação entre representantes e representados; a naturalização do Estado que protagoniza como natural o relacionamento entre todos e as partes de acordo com o credo liberal; a marginalização do princípio da comunidade, dado que não há encontro entre liberdade, autonomia dos cidadãos e comando do Estado.

A somar a estas questões, a sociedade liberal concebe a sociedade civil como monolítica, não diferenciando o associativismo voluntário, contido nas organizações que defendem a autonomia dos indivíduos e são espaço de exercício da liberdade e defesa dos seus interesses, das organizações económicas da produção capitalista, nas quais o exercício da liberdade não tem esse espaço e os interesses que estas defendem são outros. Outra ocultação dá-se no domínio doméstico que tem importância fulcral no que se refere à reprodução social. Este relegar para a esfera da intimidade pessoal despolitiza-o, retirando-lhe valor e reconhecimento do papel que tem. Tal como os modelos político-sociais se modificaram, também se verificaram alterações nos movimentos sociais ao nível dos ideais, da composição/constituição, discurso, entre outros. Apple também (1999) chama a tenção para a mudança no que se refere aos novos movimentos sociais. Refere que estas mudanças se devem às alterações significativas do imaginário político e por vezes as reivindicações centram-se no reconhecimento das diferenças do grupo e sãos esquecidas as reivindicações pela justiça social (1999; 19-24). Para melhor alicerçar o que defende socorre-se de Nancy Fraser que também defende que “Estamos a testemunhar uma mudança aparente no imaginário político, especialmente nos termos em que a justiça é idealizada. Muitos actores parecem estar a afastar-se do imaginário político socialista no qual o problema central

problema central da justiça é o reconhecimento. Com esta mudança, os movimentos sociais mais importantes já não são economicamente definidos como classes que lutam pela defesa dos seus interesses, pelo fim da exploração e para obter a redistribuição. Em vez disso, são culturalmente definidos como grupos ou comunidades de valor que lutam para defender as suas identidades, pelo fim da dominação cultural e para obter reconhecimento. O resultado é um divórcio entre políticas culturais e políticas sociais, e o relativo eclipse das últimas pelas primeiras” (Fraser, 1997; 2).

Estas questões, conforme já referido, apontam para mudanças não só ao nível da constituição dos grupos, dos movimentos da população, como também do mote que os une e pelo qual pugnam.

Castro (s/d), reforçando o pensamento de Fraser, parte da tese que os novos sujeitos, os movimentos sociais relacionados com identidades de classes, como os das mulheres, dos negros, dos indígenas, dos jovens, entre outros, têm potencialidades criativas para fazer frente às políticas neoliberais. Este tipo de movimentos que apelam à identidade, género, etnia, etc, participam e estão implicados na construção da ideia que o neoliberalismo é considerado como uma etapa do capitalismo sendo também a expressão da sua globalização (s/d; 1).

Este tipo de movimentos evidencia a importância da cultura da micro-política orientando-se para o resgate de sujeitos múltiplos no projecto de construção de outra sociedade. No entanto, nada nos refere que este tipo de movimentos estão directamente implicados, envolvidos ou comprometidos com um projecto de crítica ao capitalismo. Alias, diversos movimentos podem mesmo operacionalizar de diferente forma o que seria o projecto, a longo prazo, de construção de uma sociedade alternativa.

Castro (s/d; 1) defende que os Movimentos Sociais sugerem que se deve considerar o capitalismo globalizado e o neoliberalismo, não somente como etapas da economia capitalista, formas de organização de produção de bens, mas também um ethos cultural. Para reforçar esta ideia recorre ao artigo de P. Bourdieu no Le Monde Diplomatique (Março de 1989) no qual este descreve a essência do neoliberalismo “(…) como um programa de destruição das estruturas colectivas capazes de pôr obstáculos à lógica do mercado puro. O neoliberalismo fragiliza e torna debilitada a ideia de nação, a solidariedade social no trabalho, pois propõe e promove a individualização dos salários e das carreiras em função de competências individuais. Fomenta o quebrar da

solidariedade comunal, sob a dinâmica da competitividade e a recorrência a «várias populações para o capital»”. O medo do desemprego, por outro lado, a insegurança, a precariedade, legitimaram uma solução económica que se apresenta como o caminho da liberdade e se realiza via “a violência estrutural do desemprego” (Bourdieu; 1998) por competitividade entre trabalhadores e segmentos. Em contra corrente a este programa pode-se apontar o Fórum Social Mundial que cada vez mais se constitui como espaço privilegiado de “grupo”, elementos plurais (instituições, ONG’s, associações) que reflectem, debatem, tendo como objectivo colocar na agenda política questões sobre as políticas sociais, a defesa de interesses do grupo e não de classe profissional, questões que cada vez mais se sobrepõem ao âmbito nacional e passam também elas a ser globais, tal como o próprio neoliberalismo.

Parece possível afirmar que é consensual para os autores, que a redistribuição social é o problema mais sério com o que nos deparamos neste início do séc. XXI. No entanto, o “direito à diferença”, o reconhecimento da diferença, descomprometido de hierarquias é também um problema por resolver desde as décadas de 70-80.

Santos (2005) defende que a globalização das políticas neoliberais, encontra o seu opositor a globalização contra-hegemónica. Esta forma de globalização é resultante dos movimentos sociais tendo como data de referência a reunião da Organização Mundial do Comércio em 1999 (Santos; 2005). Estes movimentos sociais e organizações da sociedade civil, estabeleceram ligações entre si (locais, regionais, nacionais) e lutam contra as formas de opressão geradas ou agudizadas pelas políticas neoliberais. O seu objectivo principal é definir estratégias e tácticas para integrar na agenda dos políticos, questões de política social assim como definir acções colectivas e formas de actuação. O mesmo autor (2005) considera que apesar de os trajectos dos Movimentos Sociais serem na direcção oposta aos das políticas neoliberais, há coisas que partilham. Em relação ao que se pode verificar ser comum aos dois tipos de globalização, evidenciam a existência do mesmo tipo de contestação e a mesma forma de proposta de alternativas. A governação neoliberal rejeita o “ (…) centralismo e coerção estatais e opta pela formulação de um novo modelo de regulação social baseado no reconhecimento dos interesses e na participação voluntária dos interessados”. Por sua vez, a governação contra-hegemónica rejeita “(…) os partidos operários e sindicatos como agentes

social no sentido progressista, investindo na formulação de um novo modelo de emancipação social assente no reconhecimento da diversidade dos agentes da emancipação social e dos objectivos da transformação social (…)” (2005; 22-23). A reflexão efectuada ao longo deste capítulo aborda o processo de formulação de políticas, os actores que nele participam, os formuladores, e as fases inerentes ao próprio processo. É também abordado facto de o processo de formulação é também permeável ao contexto onde este acontece. Significa, portanto que o regime político, o modelo económico, são também determinantes em todo o processo de formulação. Assim sendo, e tendo por base reflexão anteriormente efectuada, parece ser possível concluir que os Movimentos Sociais podem ser actores participantes no processo de formulação de políticas sociais. Este pressuposto permite passar para a etapa seguinte deste trabalho que é reflectir sobre os Movimentos Sociais em Portugal e sua relação/inter-acção com as políticas sociais.

CAPÍTULO III. MOVIMENTOS SOCIAIS E AS POLÍTICAS SOCIAIS EM