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Nesta parte do trabalho, pretende-se fundamentar o que se entende por movimentos sociais, políticas públicas e universidade de forma a subsidiar a análise do contexto onde esses elementos interagem, ou seja, o Território Cantuquiriguaçu. Entretanto, encontrar um conceito único para quaisquer dos termos é algo inviável, pois, assim como os outros termos anteriormente tratados, quais sejam, desenvolvimento, subdesenvolvimento e definições ligadas a espaço/território/região, a busca por definições esbarram em diferentes abordagens e concepções que nem sempre contribuem para sintetizar a essência que representa cada expressão.

Interessa, particularmente a este trabalho, identificar e analisar os elementos que, atuando no território, podem ser indispensáveis para o desenvolvimento das regiões menos desenvolvidas e, seja de forma isolada ou em articulação, representam alternativas para a superação do atraso socioeconômico. A questão que se coloca é como as regiões menos desenvolvidas e, portanto, menos atrativas ao interesse do capital, poderão superar suas dificuldades e se desenvolver? Assim, parece que as atuações dos movimentos sociais, do Estado, através das políticas públicas, e da universidade apresentam mecanismos e recursos que podem, efetivamente, transformar a sociedade e contribuir para seu desenvolvimento.

Nesta direção, esta parte da pesquisa discute esses três temas: movimentos sociais, Estado e políticas públicas e universidade. Os movimentos sociais representam uma importante forma de organização da sociedade. A existência dessas organizações pode proporcionar que inúmeras demandas sejam elencadas e trazidas para a agenda da sociedade. A ação estatal e o uso das políticas públicas podem ser instrumentos visando, em tese, proporcionar uma melhoria na qualidade de vida da sua população. As universidades, em que pese suas múltiplas funções, são instituições que direta ou indiretamente afetam o desenvolvimento. Estes três elementos são aqui discutidos, pois são de grande valia ao se investigar o caso específico da Cantuquiriguaçu. Afinal, a caracterização destes elementos permite analisar o desenvolvimento regional e as perspectivas futuras, tendo em vista o baixo desenvolvimento do Território.

Em relação aos Movimentos Sociais é possível caracterizá-los como “[...] ações sociais coletivas de caráter sócio-político e cultural que viabilizam formas distintas de a população se organizar e expressar suas demandas.” (GOHN, 2011, p. 335). A autora considera que “Uma das premissas básicas a respeito dos movimentos sociais é: são fontes de inovação e matrizes geradoras de saberes. Entretanto, não se trata de um processo isolado, mas de caráter político- social.” (GOHN, 2011, p. 333). A autora elenca características comuns aos movimentos sociais:

identidade, enfrentam oposição aos seus interesses e se articulam ou se fundamentam em prol de um projeto de vida ou de sociedade (GOHN, 2011). A autora considera de expressiva importância a existência dos movimentos sociais, os quais são responsáveis por um leque de ações que podem proporcionar transformações significativas na sociedade.

Segundo Souza (2012, p. 9), “Movimento social refere-se a uma organização sociopolítica, cuja expressão empírica é dada pela manifestação conjunta de pessoas, movida por determinados interesses e/ou carências.” Sobre sua forma de atuação, a autora entende que:

[...] os movimentos sociais fazem uso de diferentes estratégias de lutas, como abaixo-assinados, manifestações em lugares públicos, ocupação de prédios públicos entre outros. Fazem uso de estratégias visuais que atraem a mídia, de modo a dar visibilidade às lutas empreendidas. Têm projeto político que varia de questões estruturais para questões conjunturais. (SOUZA, 2012, p. 11).

Destaca ainda que, “Geralmente, o movimento social faz parte de uma relação de forças entre classes sociais e entre estas e os governos.” (SOUZA, 2012, p. 11). Essa situação, aliás, pode caracterizar interesses antagônicos entre os agentes envolvidos. Tais considerações corroboram o entendimento de Gohn (2011).

Pode-se apontar, inicialmente, que as demandas e interesses que levaram ao surgimento dos movimentos sociais demonstram o conflito entre setores, classes sociais, contendas entre grupos de indivíduos, ou parte da sociedade, com o Estado. Nesse último caso, pode ser em decorrência de uma insatisfação, na expectativa de ter um anseio atendido ou ainda a manutenção de determinada conquista. Esses fenômenos não são exclusivos da sociedade brasileira. No entanto, as formas de organização encontraram terreno fértil em boa parte da América Latina e, em especial, no Brasil, dado o cerceamento de direitos e a existência de profundas desigualdades socioeconômicas nesta parte do planeta. Mais especificamente, no caso brasileiro, pode-se identificar que, ao longo da história, diversos movimentos se estabeleceram desde o “descobrimento”, sendo que os mesmos foram de significativa importância para a formação socioeconômica da sociedade brasileira.

Após os anos dos governos militares “O surgimento dos movimentos sociais, urbanos e rurais, fora de enquadramentos partidários, foi de certo modo uma grande novidade na sociedade brasileira, uma nova forma de expressão social que se combinou com o florescer de novos sujeitos sociais e políticos.” (MARTINS, 2000, p. 269). O autor tece críticas à atuação dos movimentos sociais, classificando-os como “[...] organizações, não raro agressivas, autoritárias e intolerantes, com burocracia própria, bloqueando o espaço para novos e autênticos movimentos sociais.” (MARTINS, 2000, p. 273). Apesar da crítica, não se pode negar que os movimentos sociais são importantes e possuem capacidade de pautar questões essenciais para

a discussão e o avanço de temas do mundo atual em áreas ainda pouco desenvolvidas ou sujeitas aos interesses dos grupos hegemônicos.

Favero (2003) salienta outra importante crítica apontando que a institucionalização, muitas vezes, proporciona a perda do caráter de movimento social e destaca que, como consequência desta situação:

Emerge, assim, um verdadeiro campo de tensões opondo movimentos e organizações, que é uma das expressões da tensão dialética que existe entre regulação (contrato) social e emancipação social. A história moderna foi, de modo quase absoluto, a história de um contrato social que subordinou a emancipação à regulação. No entanto, apesar de o sócio-político e cultural ter solicitado e impelido quase sem restrições os movimentos sociais para sua institucionalização, tornando-os desse modo prisioneiros do sistema, frequentemente, outras forças pressionaram no sentido da não institucionalização, o que contribuiu para a transformação de muitos movimentos em laboratórios de experiências alternativas de desenvolvimento. (FAVERO, 2003, 24-25).

Portanto, o autor reconhece que os movimentos sociais podem, ao não se tornarem parte do sistema, ser alternativas que promovem novas possibilidades para a transformação da sociedade, sendo que “[...] os movimentos sociais produzem efeitos que extrapolam o limite das demandas localizadas, ampliando e universalizando o campo formal do direito para todo o conjunto da sociedade.” (SOARES DO BEM, 2006, p. 1138). Na discussão referente ao desenvolvimento de um país ou região, é inegável o papel que cabe à sociedade deste respectivo território.

O desenvolvimento deve ser um projeto da sociedade antes de sê-lo do Estado. Se é indubitável que a sociedade terá de dotar-se de um Estado capaz de assumir a difícil tarefa de monitorar o desenvolvimento, não o é menos que ela deverá guardar para si mesma a função de definir os fins deste desenvolvimento e de circunscrever a área em que atua o Estado. (FURTADO, 2013, p. 106).

Entretanto, compreender um único projeto de desenvolvimento para uma sociedade, qualquer que ela seja, é algo extremamente complexo e de difícil compactação, ainda mais quando se trata da desigual sociedade brasileira. O que se verifica é que o poder hegemônico não consegue e não tem interesse em atender os anseios e necessidades de parte da sociedade, o que favorece o surgimento e consolidação dos movimentos sociais.

Arrais (2009) considera a ação um elemento chave para o desenvolvimento regional e, segundo ele, esta ação pode ser implementada por indivíduos e grupos sociais. O projeto de desenvolvimento nacional brasileiro “[...] subordinou a região, bastando para isso observar a pouca margem para negociação com atores de outras esferas e também os movimentos sociais.” (ARRAIS, 2009). O autor não só faz uma crítica à subvalorização da questão regional, mas

também, reforça a ideia de que os movimentos sociais são sujeitos sociais que devem participar das ações voltadas ao desenvolvimento regional. Hames (2003 apud PAS; RADÜNZ, 2011, p. 49), já havia destacado que os movimentos sociais afetam o desenvolvimento regional e nacional. Essas contribuições reforçam a ideia de que, independentemente de suas pautas específicas enquanto movimentos sociais, as organizações contribuem para o desenvolvimento regional.

Diante disso, é compreensível que os movimentos sociais são, pois, fundamentais na construção do bem-estar da sociedade. Afinal o Estado, mesmo que busque o bem-estar de sua sociedade, é administrado e voltado aos interesses dos grupos hegemônicos. Isto porque determinados setores da sociedade estão afastados do campo das influências e decisões que integram a estrutura estatal. Sendo assim, esses setores podem se unir em organizações que buscam atender seus anseios e necessidades. Esta relação entre Estado e movimentos sociais pode ser diversa e heterogênea. Há, obviamente, condições para identificar essa relação de acordo com o caso, tendo o movimento social uma postura antagônica, indiferente ou de proximidade e, até mesmo, cumplicidade com o governo em questão. A posição de conflito poderia ser entendida como a mais natural, visto que o movimento social tem na sua gênese a conquista ou garantia de determinado direito. Todavia, a proximidade pode ser por uma iniciativa do governo, cooptando lideranças dos movimentos, alianças pontuais (conforme determinado tema) ou diante de alternância de grupos políticos no aparelho estatal. Mas também pode representar o avanço do movimento social ou mesmo a oportunidade de que determinada demanda social possa ser atendida.

A relação entre os movimentos sociais e Estado foi discutida por Frank e Fuentes (1989). Para estes autores,

A maioria destes movimentos se mobiliza e se organiza independentemente do Estado, de suas instituições e dos partidos políticos. Não consideram que o Estado ou suas instituições, e particularmente se integrar ou militar nos partidos políticos, sejam as formas adequadas para alcançar suas metas. (FRANK; FUENTES, 1989, p. 36).

Mais uma vez se evidencia a discordância frente a uma relação muito próxima do Estado com os movimentos sociais. Contudo, é de Touraine (1989. p. 182) a crítica mais enfática quanto a esta aproximação, ao assegurar que “[...] a subordinação dos movimentos sociais à ação do Estado constitui a limitação mais grave de sua capacidade de ação coletiva autônoma.” Sem dúvidas, esta submissão não é desejável, mas convém ressaltar que nem toda a aproximação pode configurar-se como uma obediência, temporária ou permanente, ao Estado.

A força dos movimentos sociais diminuiu ao longo dos anos 1990 devido a proliferação das ideias neoliberais e seus efeitos sobre os países menos desenvolvidos. Essa concepção levou o Estado brasileiro a reduzir seus gastos correntes e investimentos, prejudicando a adoção de políticas voltadas ao desenvolvimento. No seio da disseminação do receituário neoliberal, houve uma onda favorável para que a Sociedade Civil fosse mais ativa, principalmente em decorrência desta redução da capacidade do Estado em intervir. Seduzidos pela dinâmica da institucionalidade uma parte dos movimentos sociais aderem à ideologia neoliberal; tornaram- se parceiros do Estado, corroboraram com a ideologia da revalorização da “sociedade civil”, sobretudo no aspecto da economia. (GOMES; COUTINHO, 2008).

Ao longo dos anos 1980, a compreensão de “sociedade civil” constituída por parte da sociedade opositora às ditaduras militares passa a sofrer expressiva influência “[...] da ideologia neoliberal, com sua crítica ao Estado – visando, como é sabido, ao desmonte do chamado ‘Estado de bem-estar’ (até as versões minimalistas desenvolvidas na América Latina) –, proclamando a palavra de ordem ‘Estado Mínimo já! Reforma do Estado!’.” (BURGOS, 2007, p. 129). Assim, a ideologia neoliberal encontrou um campo favorável para sua expansão na América Latina e, também, no Brasil. Infelizmente, como resultado, houve o enfraquecimento das políticas públicas e a diminuição do impacto das ações dos movimentos sociais.

Dentre as inúmeras necessidades da sociedade brasileira, a educação é um dos principais anseios de sua população. Assim, é natural identificar a atuação dos movimentos sociais em prol de uma melhoria na educação. Para Souza (2004), o país apresentou, na segunda metade do século passado, um quadro no qual diversas ações coletivas foram estabelecidas, tendo como demanda a construção de prédios escolares, maior número de vagas, melhor qualidade no ensino, entre outros. A relação entre movimentos sociais e educação é expressa por Gohn (2016, p. 1):

As lutas pela educação envolvem a luta por direitos e são parte da construção da cidadania. Movimentos sociais pela educação abrangem questões tanto de conteúdo escolar quanto de gênero, etnia, nacionalidade, religiões, portadores de necessidades especiais, meio ambiente, qualidade de vida, paz, direitos humanos, direitos culturais etc.

Há um rico histórico da atuação dos movimentos sociais em prol da educação brasileira. Gohn e Zancanella (2012) afirmam que esses movimentos pautaram a educação superior brasileira nas duas últimas décadas do século XX:

As décadas de 1980 e 1990, por sua vez, registram na educação universitária brasileira a criação de vínculos importantes com questões sociais de classes excluídas do processo, caracterizados pela Universidade do Trabalhador, Universidade Popular, Universidade dos Movimentos Sociais e por medidas que o Programa Universidade para Todos (ProUni) – o sistema de reserva de

vagas para estudantes negros, indígenas e alunos que procedem da rede pública de ensino básico – compreende. (GOHN; ZANCANELLA, 2012, p. 58).

Entre os movimentos sociais Gohn e Zancanella (2012, p. 60) destacam especialmente o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra – MST – afirmando que, “Por meio de parcerias com as universidades públicas, cerca de 5 mil trabalhadores e trabalhadoras rurais do MST estudam em 50 instituições de ensino superior [...]”. É de se constatar que inúmeros ganhos para o MST decorrem desta inserção no ensino superior. As autoras são enfáticas ao asseverar:

[...] entende-se que o acesso de integrantes do MST no ensino superior universitário tem trazido contribuições singulares a todo o complexo do movimento. Tem possibilitado aos seus membros uma formação que os instrumente para a discussão sobre a formatação das políticas educacionais com o Estado, a formação como sujeitos dotados de identidade e imbuídos nos propósitos coletivos. Mas, especialmente, tem se constituído em proposta nova de reivindicação para os direitos sociais. (GOHN; ZANCANELLA, 2012, p. 69).

Em suma, pode-se identificar nos movimentos sociais uma forma de organização coletiva que expressa determinada necessidade de parte da população. A princípio, pode representar uma insatisfação social, desta forma, se colocando em posição antagônica ao Estado e/ou outros segmentos. Costumeiramente, é passível de diversas críticas, tais como institucionalização, burocracia, aproximação (ou afastamento) do Estado, todavia, é inegável sua importância. Esta aproximação com o Estado pode, inclusive, expressar a conquista de espaço pelos movimentos sociais. E estes movimentos sociais estão presentes no Território Cantuquiriguaçu. Aliás, não só estão presentes, como possuem expressiva participação na vida social da região tendo sido, por exemplo, fundamentais na conquista de uma universidade pública para o território.

Sobre o tema Estado e Políticas Públicas, embora sejam elementos relevantes para o debate do desenvolvimento regional, aprofundá-lo poderia acarretar numa falsa ideia de que esta pesquisa trata a UFFS apenas como mais uma ação estatal visando promover o desenvolvimento das regiões. Isto até pode ser constatado, porém, a forma pela qual a universidade foi “construída” questiona um pouco a ideia anterior. Ademais, não é objeto deste trabalho analisar as condições necessárias para que o Estado, através das políticas públicas, promova o desenvolvimento de regiões subdesenvolvidas. Todavia, embora esta questão não seja ignorada, aqui se evidenciará a perspectiva que orienta a tese. Perspectiva esta que destaca a participação da comunidade regional, em especial os movimentos sociais, na busca de alternativas que favoreçam a promoção do desenvolvimento na região. Inicialmente serão

ponderadas duas percepções a respeito do Estado – desenvolvimento regional. Em seguida, se discute a questão referente às políticas públicas.

A primeira noção considera o Estado um agente importante, e necessário, para a redução das desigualdades regionais. Não se deve interpretar, neste prisma, que há uma ilusão de que o Estado possui as condições adequadas e interesse primordial na diminuição dessas desigualdades. Porém, sem a atuação do Estado o desenvolvimento regional dificilmente se daria, visto que o modo de produção capitalista, e a ausência ou pouca relevância do Estado, permitiria o aprofundamento de tais desigualdades. Este Estado intervencionista, que procura reduzir as desigualdades regionais se aproxima da ideia do Estado de Bem-Estar social, welfare-

state. Portanto, a ação do Estado é vista como um importante instrumento na redução das

desigualdades socioeconômicas. Essa noção acaba sendo a hegemônica quando se discute Estado e desenvolvimento regional.

O Estado de Bem-Estar Social, ou Estado Social, ganhou importância após a crise de 1929 e a recuperação da economia norte-americana a partir da década de 1930, ao se contrapor ao Estado Liberal. Não se faz necessário aqui debater, exaustivamente, a origem, os instrumentos e os objetivos do Estado de Bem-Estar Social, mas sim, considerar a perspectiva de que esse Estado é capaz, e essencial, para reduzir as desigualdades. A propósito, a caracterização entre o Estado de Bem-Estar social e o desenvolvimento regional está amparada na própria Constituição Federal Brasileira de 198814. A questão regional, ao integrar a constituição, parte do pressuposto de que as atividades econômicas devem:

[...] atuar no sentido de ajudar na redução das desigualdades tanto regionais quanto sociais, em nosso País, devendo contribuir, das mais diversas formas, para que sua atuação econômica, em uma dada região, seja efetivamente elemento de ajuda no combate à pobreza e às disparidades entre áreas mais ricas e às demais. Assim, a atuação, tanto do Estado quanto das empresas particulares, precisa estar em exato compasso com as políticas públicas de redução de tais desigualdades (políticas estas que precisam existir, de fato, para o alcance dos preceitos constitucionais. (SEGUNDO, 2007, p. 397).

Entretanto, infelizmente, a garantia desta necessidade na Carta Magna não representa, necessariamente, que o Estado trabalhe para este fim. A inexistência de uma política nacional de desenvolvimento regional, criada apenas nos anos 2000, reforça essa ideia. Na verdade, se

14 Art. 3º: Constituem objetivos fundamentais da República Federativa do Brasil: III – erradicar a pobreza e a

marginalização e reduzir as desigualdades sociais e regionais; Art. 170º: A ordem econômica, fundada na valorização do trabalho humano e na livre iniciativa, tem por fim assegurar a todos a existência digna, conforme os ditames da justiça social, observados os seguintes princípios: VII – redução das desigualdades regionais e sociais (BRASIL, 1988).

observa que, mesmo quando a questão regional entra na agenda, há obstáculos para que as políticas se tornem frutíferas. Dentre os obstáculos, destacam-se em especial:

1. A ideia do Estado mínimo: essa concepção reduz as condições necessárias para que sejam elaboradas, e implementadas, fortes políticas públicas de caráter regional; 2. Limites de mecanismos dos governos subnacionais: se a União enfrenta problemas

diante de crise fiscais, as unidades da Federação possuem capacidade ainda mais limitada de atuação. E as poucas que existem são adotadas em verdadeiras “guerras fiscais”, o que pode agravar ainda mais as disparidades regionais ao longo dos anos. A segunda perspectiva considera o Estado cúmplice, e responsável, pelo desenvolvimento desigual. Em que pese a existência de um vasto leque de concepções teóricas a respeito do Estado, a definição de O’Donnell (2004) apresenta uma interpretação bastante adequada. Para ele, o Estado é “Un conjunto de instituciones y de relaciones sociales (la mayor parte de estas sancionadas por el sistema legal de ese estado) que normalmente penetra y controla el territorio y los habitantes que ese conjunto pretende delimitar geográficamente.” (O’DONNELL, 2004, p. 2). Ou seja, o Estado possui o ofício de gerir o território e, consequentemente, as relações da sociedade em questão. Aliás, sobre as diversas funções que o Estado engloba, há um conjunto de aspectos que podem ser considerados. Entretanto, primordialmente a responsabilidade sobre o território, e as pessoas que habitam o território, é manifesta.

A forma pela qual o Estado é gerido não sinaliza para uma questão pacífica, pelo contrário, “[...] o Estado, como toda relação social, é uma relação de forças. É por isso também, seu direito e suas instituições, apesar da aparência de neutralidade que recompõem continuamente, estão entrecruzados pelas lutas e contradições da sociedade.” (O’DONNELL, 1981, p.21). Este pensamento afasta a ideia de um Estado imparcial, que atua em prol da coletividade, ainda mais em uma sociedade capitalista. Essa perspectiva é reforçada quando se compreende que:

[...] é o contexto capitalista de desigualdade generalizada no qual opera o Estado que determina basicamente suas políticas e ações. A concepção prevalecente é a de que o Estado, em tais sociedades, pode ser e é realmente, na maioria dos casos, o agente de uma ordem social “democrática”, sem