Fotgrafia 10: Queimada no cerrado baiano
1.2. MOVIMENTOS SOCIAIS
Na perspectiva teórica apresentada até aqui o conceito de sociedade civil está intimamente relacionado à temática dos movimentos sociais. Particularmente atuantes na década de 80, no Brasil, estes atores coletivos trouxeram para o cenário político novas formas de ação coletiva, bem como auxiliaram os teóricos a desenvolver abordagens que interligassem as construções democráticas na América Latina, a ação dos movimentos sociais e um conceito de sociedade civil que não estivesse fora deste contexto. Movimentos sociais foram considerados cruciais para o potencial democratizante da sociedade civil e para os estudos sobre mobilização, participação e ampliação dos espaços públicos, dando visibilidade a muitos conflitos sociais. Os movimentos sociais fazem parte da sociedade civil, entretanto há uma dificuldade de identificar exatamente quando eles se iniciam e o que os desencadeia, bem como de diferenciá-los de outras formas de ação coletiva. Portanto, faremos uma exposição de algumas abordagens teóricas que trataram do tema. O objetivo é utilizar algumas categorias e formas de análise na compreensão e discussão do caso em questão.
Os estudos sobre os movimentos sociais vêm sendo realizados a partir do uso de uma variada gama de teorias, enfoques e abordagens. Conforme assinala Gohn (1997, p. 301),
movimentos sociais e sociedade civil são conceitos interrelacionados teoricamente e na experiência histórica do Brasil:
A construção de uma nova concepção de sociedade civil é resultado das lutas sociais empreendidas por movimentos e organizações sociais nas décadas anteriores, que reivindicaram direitos e espaços de participação social. Essa nova concepção construiu uma visão ampliada da relação Estado-sociedade, que reconhece como legítima a existência de um espaço ocupado por uma série de instituições situadas entre o mercado e o Estado, exercendo o papel de mediação entre coletivos de indivíduos organizados e as instituições do sistema governamental.
Gohn (2008) argumenta que o desenvolvimento do campo de estudos sobre o social, de fato, levou as ações coletivas para “... outro patamar, um universo mais amplo, reconstruindo e construindo novas teorias sobre a sociedade civil” (p. 11). As teorias das ações coletivas são bastante variadas e não se restringem apenas ao estudo dos movimentos sociais, mas foram e são muito alimentadas pela existência destes. A variedade de enfoques multiplica as possibilidades de análise das diversas experiências, mas, por outro lado, também causa uma confusão no tratamento das ações coletivas: “... há muitas ações coletivas que não são movimentos sociais propriamente ditos, e várias das teorias contemporâneas estão focalizando estas ações” (p. 10).
O imbricamento conceitual também está presente nas práticas, na medida em que coletivos de atores sociais que não seriam considerados como movimentos sociais se apresentam à sociedade como tal. Muitas categorias de análise utilizadas para compreender e discutir os movimentos sociais são pertinentes para o estudo de outras ações coletivas. Ademais, os movimentos sociais são “criados e desenvolvidos a partir de grupos da sociedade civil” (GOHN, 2008, p. 14) e, mesmo em ações coletivas que não sejam caracterizados como movimentos sociais, podem existir elementos que, em outro momento, ajudem a explicar o surgimento de determinado movimento social.
Três correntes teóricas delineiam os estudos sobre movimentos sociais na literatura: histórico-estrutural; culturalista-identitária e institucional/organizacional-comportamentalista. A primeira delas tem como principal referência o Marxismo, que depois passou por várias releituras, incluindo a vertente Gramsciana. De acordo com essa vertente, os movimentos de trabalhadores (proletariado) eram os sujeitos históricos por excelência, e a transformação da sociedade estava relacionada à compreensão das relações sociais estruturadas com o proletariado. Movimentos sociais e luta de classes estavam ligados profundamente.
A segunda corrente - a culturalista-identitária – surgiu a partir de várias influências da filosofia e sociologia e seu principal conceito são os “novos movimentos sociais”. Com a visibilidade de novas ações coletivas protagonizadas por grupos que não poderiam mais ser enquadrados somente como proletariado – mulheres, negros, homossexuais, índios – a categoria identidade passou a ser central para a análise de movimentos sociais. A luta pelo reconhecimento político de novas identidades era o cerne da ação coletiva. Apesar dessa inovação, os seguidores desse enfoque não abandonaram completamente o diálogo com o marxismo.
A terceira corrente teórica – a institucional/organizacional-comportamentalista – tem suas raízes nas teorias americanas liberais, neo-utilitaristas e institucionais. Movimentos sociais eram vistos como organizações, com objetivos, estratégias, recursos e atingiam seu ápice com a institucionalização. Revisões teóricas propiciaram a construção de novas abordagens, como as teorias de mobilização de recursos e oportunidades políticas (GOHN, 2008, p. 27-30)
Desde a década de 1980, estudiosos latino-americanos vêm construindo as bases de um paradigma teórico mais adequado ao estudo de suas realidades. A tendência observada por autores como Gohn (1997) e Toni (2001) é de um caminho de síntese, adaptando conceitos e categorias e criando novas formas de abordagem para este campo de estudos. Neste trabalho, o enfoque teórico relacionado às abordagens influenciadas pelo pensamento de Gramsci propicia a utilização de conceitos que auxiliam a compreensão das arenas políticas que abrigam projetos políticos em disputa. Para complementar a análise, sem, contudo, desmerecer a pertinência da corrente culturalista-identitária, utilizaremos algumas referências da corrente teórica institucional/organizacional-comportamentalista. Essa opção se fez devido ao fato desta corrente propiciar a utilização de conceitos e métodos de análise que auxiliam na compreensão das ações coletivas no âmbito das novas oportunidades políticas que surgiram na conjuntura do período estudado.
O conceito de movimento social proposto por Gohn (2008, p. 14) será o utilizado neste trabalho (grifos meus):
Um movimento social é sempre expressão de uma ação coletiva e decorre de uma luta sociopolítica, econômica ou cultural. Usualmente, ele tem os seguintes elementos constituintes: demandas, que configuram sua identidade; adversários e aliados; bases, lideranças e assessorias – que se organizam em articuladores e articulação e formam redes de mobilizações; práticas comunicativas diversas que vão da oralidade direta aos modernos recursos tecnológicos; projetos ou visões de mundo que
dão suporte a suas demandas; e culturas próprias nas formas como sustentam e encaminham suas reivindicações (p. 14).
Embora o conceito de sociedade civil tenha sido mais utilizado atualmente, dada a dificuldade de diferenciar as várias formas de ação coletiva presentes na atualidade, na concepção de sociedade civil que utilizaremos, movimentos sociais são fenômenos que se desenvolvem nesta mesma esfera de ação política e são gestados no interior de determinada cultura política. Gohn (1997, p. 251) articula novamente estas dimensões:
Movimentos sociais são ações sociopolíticas construídas por atores sociais coletivos pertencentes a diferentes classes e demandas sociais, articuladas em certos cenários da conjuntura socioeconômica e política de um país, criando um campo político de força social na sociedade civil (...) contribuem para o desenvolvimento e a transformação da sociedade civil e política.
Gohn (1997, p. 227-240) apresenta uma síntese de 22 elementos que ela acredita serem relevantes na formulação teórica para análise de movimentos sociais latino- americanos. Destacamos oito, que utilizaremos neste estudo, pois propiciam uma análise pertinente e integrada das dimensões internas das ações coletivas (estratégias, formas de mobilização, formação) e das externas (relação com o Estado, com outros grupos da sociedade civil, com a sociedade política). São eles (grifos meus):
(1) A relação da igreja católica, particularmente da ala progressista, ligada à Teologia da Libertação, no fomento aos movimentos populares e como ator da sociedade civil, por meio das pastorais sociais;
(2) A relação com o Estado, marcada pela formação de redes de movimentos que lutam para ser incluídos nas esferas decisórias;
(3) A abordagem teórica das oportunidades políticas, criadas não somente pelo Estado ou pela sociedade política, mas também pela sociedade civil, em cenários políticos em que os atores têm capacidades de intervenção variadas;
(4) A institucionalização dos conflitos sociais, como principal resposta da sociedade política aos movimentos sociais, o que alimenta a descrença no Estado como promotor do bem comum e pode gerar desmobilização, pela burocratização dos direitos conquistados;
(5) O resgate da ideologia tratada no âmbito das práticas sociais (projetos políticos), como conjunto de idéias que são suporte a projetos estratégicos de mudança na realidade social;
(6) A articulação entre diferentes lutas e movimentos sociais;
(7) As estratégias e táticas variadas e diferenciadas, como a criação de fatos novos e que gerem impacto na mídia;
(8) A heterogeneidade da sociedade civil, comportando no interior de movimentos e articulações projetos políticos diferenciados.
Além desses, acrescentamos a heterogeneidade do Estado, que pode abrigar instituições que atuam de maneira bastante diferenciada, propiciando a construção de novos cenários para atuação da sociedade civil.