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Movimentos sociais: subcidadania e reconhecimento

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A TRADIÇÃO RECONFIGURADA: A QUESTÃO SOCIAL SOB A PERSPECTIVA DA MISÉRIA

4.2 Movimentos sociais: subcidadania e reconhecimento

Muitos estudiosos e militantes políticos se debruçam sobre a complexidade e as incertezas presentes na democracia política representativa e sua capacidade de ampliar o reconhecimento, como seres humanos e cidadãos, das maiorias desclassificadas e invisibilizadas de miseráveis e favelados na Região Metropolitana fluminense, e da participação destas no processo decisório. Alimentam uma percepção da falência do Estado como organizador e provedor do desenvolvimento e da inclusão e classificação social, colocam em cena as questões constitutivas da participação na tomada de decisões cotidianas do poder público, das demandas por direitos e do poder local.

O foco central é a busca de mecanismos que possam romper, na democracia política brasileira, a prevalência do formalismo juridicista sobre o plano do real, sentimentos vividos e sentidos pelos diversos atores sociais em seu dia-a-dia e em suas noites insones. No Brasil, tais mecanismos não são tímidos pós-Constituição Federal de 1988, são os que permitem maior participação popular nas decisões, tais como os conselhos comunitários, municipais, orçamentos participativos, iniciativas populares de lei, etc.

Sob uma larga base jurídico-institucional, observa-se que a democracia no Brasil, por intermédio de mandatários políticos e tecnocratas, constrói uma inexorável e quase intransponível barreira política que mascara e impede a classificação social, ampliando a desigualdade societal e tornando letárgica a participação da maioria de desclassificados sociais, como os pobres da Baixada Fluminense e os favelados do Grande Rio, impedindo-os, pela criminalização da pobreza, pela apartação territorial, étnica e de origem, do exercício legítimo dos direitos declarados formalmente em lei.

As concepções de democracia participativa e o modelo contemporâneo de republicanismo pós-Constituição de 1988 se propõem à construção de um sistema que repousa na sua capacidade de articulação com a população desclassificada e desorganizada, levando-a a fazer parte da sociedade civil reconhecida pelo Estado e a incorporar, via eleições e participação institucional no sistema de democracia política representativa, ampliando modelos de gestão do Estado compartilhados por representantes políticos eleitos pelo povo e a população, em mecanismos que possibilitem “a existência de diferentes níveis de reuniões que envolvem moradores das cidades e regiões, o estímulo aos debates sobre o espaço urbano, a participação nas determinações de obras públicas...” (Gugliano, 2004: 272).

Entretanto a criação e implantação de instâncias de participação não garantem a transparência do jogo político e, dessa forma, a efetividade e credibilidade buscadas esbarram em manipulações, cooptações e traições, sobretudo na Região Metropolitana do Rio de Janeiro, em particular e de forma exacerbada em Nilópolis, onde um grupamento político familiar, além de controlar todos os espaços públicos, tem ampla representatividade e legitimidade social junto à população residente no município desde 1926.

No bojo da propalada crise de legitimidade da democracia representativa, anunciada pelas agências discursivas mais diversas, e como conseqüência da mesma, surgem

os mecanismos de intervenção direta da população sobre a distribuição de políticas públicas [que] tem sido encarada como solução para a referida crise de legitimidade, na medida em que amplia a percepção dos representantes com relação à realidade objetiva dos governados, assim como admite a instauração de ciclos virtuosos na esfera pública através do funcionamento de múltiplas instâncias de controle social. (Dias, 2004: 236)

No sentido de demandas que imprimem à democracia maior participação, ou seja, na busca de aperfeiçoar a democracia para que se torne mais participativa – em contraposição à formalidade jurídica da democracia liberal representativa –, visando superar a suposta crise de legitimidade, ativistas e acadêmicos buscam estabelecer um modelo dual de distinção caracterizando dois movimentos que para eles, militantes e acadêmicos, são antitéticos: institucional e social. Nessa divisão apenas de caráter didático, entende-se como movimento institucional as práticas e iniciativas do poder público do Estado que se refletem primordialmente no ordenamento jurídico legal, e como movimento social, as oriundas da sociedade organizada ou inorgânica, tais como associações de moradores, sindicatos, ONGs, igrejas, fóruns, movimentos culturais, estéticos, de conflito e revolta civil.

No Estado brasileiro, a reforma permanente do Estado como paradigma de ação política percorreu uma trajetória em que, ao longo do tempo histórico, foram ganhando corpo e densidade a idéia e a noção de democracia participativa sob um viés institucional e presente no ordenamento jurídico brasileiro, que se apresenta, em uma cronologia avistada pelo autor desta tese, da seguinte maneira:

a) Desburocratização – ainda no período da ditadura militar, com a criação do Ministério da Desburocratização, tendo à frente o ministro Hélio Beltrão;123

b) Municipalismo e Descentralização – promovidos pela Constituição Federal de 1988;124

c) Reforma Política do Estado – nos Governos Fernando Henrique Cardoso e Lula;125 d) Orçamento Participativo – implementado por incontáveis municípios em prefeituras

controladas por partidos de diferentes matrizes ideológicas.126

A concepção de uma democracia liberal representativa tem sido criticada como restritiva à participação direta da população, elitista e promotora de privilégios. Para a superação de tal quadro, o tratamento sanitário prescrito para a superação da crise de legitimidade, que guarda coerência com o diagnóstico apresentado por estudiosos e militantes políticos variados, da esquerda à direita, além de incontáveis ONGs, envolve três tópicos, a saber: participação direta da população nas decisões, maior transparência na gestão estatal e

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No período, o ministro Hélio Beltrão gozou de excepcional prestígio social e político e presença junto ao público, com o Programa Nacional de Desburocratização muito freqüentemente difundido como eficaz e eficiente pelas mídias de larga escala, como televisões e rádios.

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A Constituição da República brasileira de 1988 imprimiu uma linha radical de descentralização que até hoje ainda está sendo implementada por meio de Leis Complementares. Entretanto o novo pacto federativo promoveu o município a ente federado, com isonomia política em relação à União, ao Distrito Federal e aos Estados, sendo o federalismo brasileiro trino, e o poder municipal equipotente ao poder da União e dos Estados (Oliveira Chaia, 1999).

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A descentralização efetuada nos Governos FHC e Lula teve recorte vertical. Na área de educação, por exemplo, unidades escolares públicas (federais, estaduais e municipais) podem e são obrigadas a tal – por meio de um processo simplificado – promover suas emancipações (mediante uma Associação de Pais e Alunos, registro de ata em cartório, publicação em Diário Oficial, abertura de conta em banco) e se habilitar a receber verbas diretamente, formato extremamente ampliado com a aprovação de mecanismos jurídicos institucionais que dão legalidade e amplitude às parcerias público-privadas, consagrando o princípio de que público pode ser estatal ou privado (Sachs, 2001).

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Tido como experiência inovadora do Partido dos trabalhadores em Porto Alegre, o orçamento participativo foi experimentado na década de 60 do século XX, no Governo do Estado da Guanabara, com Negrão de Lima, na década de 70, no Município de Resende, no Estado do Rio de Janeiro, com o prefeito Noel de Carvalho; e na década de 80, no Município do Rio de Janeiro, com o prefeito Saturnino Braga, e no Município de Duque de Caxias, com o prefeito Hideckel de Freitas. No tempo presente, o orçamento participativo é operado nos municípios fluminenses de Nilópolis, Duque de Caxias, Queimados, São João de Meriti e Paracambi, entre outros.

aperfeiçoamento dos mecanismos de controle social dos espaços públicos, com a implantação de práticas institucionais de “accountability”.

Na Região Metropolitana do Rio de Janeiro, assim como no Brasil em geral, a aplicação de tal receituário tem se mostrado relativamente eficiente e eficaz, embora em meu entendimento, pela observação na Baixada Fluminense e nas favelas, imprecisa, pois apesar da implementação formal e ativa de inúmeros preceitos legais, institucionais e não- institucionais, como conselhos, fóruns e terceirizações da ação estatal para ONGs, estes inúmeros “conselhos” e as muitas “ouvidorias” e fóruns não têm conseguido, na prática, atender aos objetivos de ampliação dos espaços públicos e promoção de classificações sociais amplas, já que são cooptados, manipulados e capturados, tanto pelo empreguismo via poder público nos Municípios, Estados ou União, como pela submissão servil ao patronato político local, municipal, regional, estadual e/ou nacional, pela dependência dos patrocínios e financiamentos públicos a ONGs, associações, sindicatos e núcleos de pesquisa acadêmica nas universidades.

Apesar de ter sido saudada com evidente otimismo, as experiências do orçamento participativo têm produzido mais discursos que resultados concretos, pois sua margem de operação para decisão coletiva varia de 2 a 8% dos recursos financeiros oriundos de taxas e tributos disponíveis para o orçamento. O mais objetivo e substantivo argumento apresentado a favor do orçamento participativo, em meu entendimento, tendo por base as observações empíricas levadas a cabo para a elaboração desta tese, é que ele sinaliza para a valorização da participação popular organizada, estimulando uma intensa vida orgânica em múltiplos partidos e associações de caráter diverso.

No Brasil e na Região Metropolitana do Rio de Janeiro, os movimentos sociais direta ou indiretamente engajados na resistência à desclassificação social ganham corpo na segunda metade da década de 70 do século XX, e sua história pode ser dividida em quatro períodos, a saber:

a) Fase heróica – com a erupção de “manifestações públicas, tanto na órbita das relações capital-trabalho, quanto na esfera da reprodução da força de trabalho”. Tal fenômeno “deu visibilidade à existência de um movimento social rapidamente concebido como sujeitos sociais portadores de novas práticas, refletindo novas concepções políticas com grandes potencialidades renovadoras” (Nascimento, 1993: 100). Por surgirem num período de regime ditatorial, tais movimentos, além de sua reconhecida atuação no sentido de imprimir uma luta pelo reconhecimento de carências mediante o poder de pressão (enfrentamento entre organizações populares e os poderes públicos), há quem lhes outorgue um sentido de oposição ao regime militar-autoritário “que muitas vezes se confundia com a oposição a qualquer tipo de Estado. Não por acaso a expressão ´de costas para o Estado` virou categoria emblemática na explicação das características destes fenômenos coletivos” (Soares, 1993: 188). Nessa fase

Aparecem como atores fundamentais desse momento, associações de moradores, partidos de esquerda em situações de clandestinidade, a ala progressista da Igreja Católica comprometida com a Teologia da Libertação e instituições profissionais que prestam solidariedade em casos de ameaça de expulsão ou situação de apoio e direcionamento à formação de entidades organizativas. (Barreira, 1993: 175)

b) Fase de afirmação – nessa etapa foi formada uma rede de movimentos sociais e sindicais que potencializou várias lutas. Podemos destacar o movimento contra a carestia na Região Metropolitana de São Paulo, comandado pela Igreja Católica, pelo Partido Comunista do Brasil – PCdoB, pela Ação Popular Marxista-Leninista –

APML e pelo partidão – PCB; na Região Metropolitana do Rio de Janeiro, o MABE, no Município de Nova Iguaçu, articulando e formando associações de moradores em Nova Iguaçu, Nilópolis, Duque de Caxias, Belfort Roxo e Queimados. O MABE, sob o comando central da Mitra Diocesana de Nova Iguaçu, tendo o bispo Dom Adriano Hipólito à frente, em aliança com o PCdoB, a APML, o MR-8, o PCB, o PMDB, o PT e o PDT, teve forte impacto em todos os movimentos sociais do Grande Rio (Queiroz, 1981). No Município do Rio de Janeiro, a rápida proliferação de associações de moradores e amigos de bairros e associações de favelados formatou um vigoroso movimento associativo, liderado pela FAMERJ e FAFERJ. Todos com intensa participação do partidão – Partido Comunista Brasileiro, do Partido Comunista do Brasil, da APML, do MR-8, do PT, do PMDB e do PDT.

c) Fase de decadência – com a lei da anistia aprovada em 1979, as eleições diretas para governador em 1982, o movimento Diretas Já, a eleição indireta de Tancredo Neves para presidente da República e a eleição direta para prefeitos nas capitais dos estados e nos municípios considerados de segurança nacional, as principais lideranças dos movimentos sociais metropolitanos, tanto no Rio de Janeiro quanto em São Paulo, entraram de forma vencedora como candidatos a vereadores, deputados estaduais, deputados federais, senadores, prefeitos e governadores. Esse foi o caso, no Rio de Janeiro, de Jó Resende, vice-prefeito do Rio de Janeiro, Jorge Gama, deputado federal por Nova Iguaçu, Francisco Amaral, deputado estadual por Nova Iguaçu e vice- governador do Estado do Rio de Janeiro com Moreira Franco, Pedro Porfírio, Fernando William, Chico Alencar, Edson Santos, Eliomar Coelho, Leila do Flamengo e tantos outros. A institucionalização dos movimentos associativos de bairros e de favelas por meio de suas lideranças provocou o declínio desses movimentos, que passaram a existir de forma atrelada aos diversos níveis dos Poderes Executivo e Legislativo dos municípios, passando pelo governo estadual e chegando ao poder central da Federação via Congresso Nacional ou ministérios.

d) Fase de renascimento – no tempo presente, assiste-se ao renascimento dos movimentos sociais urbanos, lutando pelo direito à moradia no Movimento dos Sem Teto, centrado na Zona Oeste do Município do Rio de Janeiro e na Baixada Fluminense, promovendo ocupação de prédios abandonados e terrenos urbanos inabitados, e de vários movimentos contra a violência e por reconhecimento social nas favelas e bairros periféricos da Baixada Fluminense. Entre os de maior impacto, destaco o Movimento Popular das Favelas, a Central Única das Favelas, o movimento Mães do Rio, o Afro-Reggae, o Reage Baixada, o SOS Queimados, o Posso me Identificar?, o Voz do Silêncio, o Questão de Honra, a Rede de Diminuição de Danos da Violência Urbana nas Favelas, o Movimento de Pré-vestibulares Comunitários e para Negros e Carentes em todos os municípios da Baixada Fluminense e em 70 favelas do Grande Rio e a Rede de Comunidades e Movimentos Sociais Contra a Violência. Todos têm como eixo a demanda por reconhecimento como seres humanos, reconhecimento social, reação a insultos morais e humilhações individuais e coletivas, e agem na direção de promover, em um primeiro momento, ações de revolta civil, indignações coletivas, chegando a atos de conflito civil. Exceção feita ao Movimento dos Sem Teto, que tem como paradigma o Movimento dos Sem Terra, e a presença de militantes políticos com origem nas universidades e múltiplos partidos políticos de todas as tendências.

A nova característica dos movimentos sociais urbanos na Região Metropolitana do Rio de Janeiro pode ser percebida na análise de Boaventura de Souza Santos, que elaborou o que denomina “direito de Pasárgada” para se posicionar pelo pluralismo jurídico. Elegendo uma favela do Rio de Janeiro como modelo, observa que, como em todas as favelas, seus habitantes se confrontam com uma realidade estruturada na ilegalidade formal, uma vez que a ocupação do espaço “é ilegal e, no caso de Pasárgada, iniciou-se no princípio da década de 30 num terreno, situado então nos arredores da cidade, que era na altura propriedade privada, passando mais tarde a propriedade do Estado. Igualmente ilegais são as construções (barracas precárias ou, mais tarde, casa de tijolo), o que decorre não só da falta de título legal de posse de propriedade do terreno como também da violação das disposições legais (nacionais e municipais) sobre a construção de edifícios nas áreas urbanas” (Santos, 1980a:10).

Dessa situação decorrem outros problemas práticos para os moradores uma vez que

As favelas não têm direito à instalação de equipamentos colectivos por parte do estado, desde o abastecimento de água ao domicílio, até à rede elétrica, esgotos e pavimentação das ruas, o que cria mecanismos cumulativos de vitimização colectiva e impõe aos moradores um quotidiano particularmente duro. (Santos, 1980a:11)

Dessas condições objetivas, surge o “direito de Pasárgada”, que se consubstancia num direito paralelo ao do Estado em prover e distribuir justiça, apesar de se reconhecer que tais relações “são ilegais ou juridicamente nulas, uma vez que dizem respeito a transacções sobre terrenos ilegalmente ocupados e a construções duplamente clandestinas” (Santos, 1980a: 14).

No momento em que, na Região Metropolitana do Rio de Janeiro, em muitas favelas e bairros, os “chefões” do narcopoder e os “comandos” de grupos de extermínio, polícia privatizada, chefetes locais, executam e distribuem “segurança” e demonstram “poder de polícia” sobre os moradores, poderíamos falar em “polícia de Pasárgada” como formadora de uma casta127 de mandatários locais, que constituem, eles próprios e seus financiadores, o que caracterizamos como elite mandatária local emergente.

Na esteira da metropolização globalizada da Baixada Fluminense e das favelas da cidade do Rio de Janeiro, observa-se uma nova ênfase na identidade e na diferença e isso resulta

Por um lado, a viragem para o reconhecimento representa um alargamento da contestação política e um novo entendimento de justiça social. Já não restrita ao eixo da classe, a contestação abarca outros eixos de subordinação incluindo a diferença sexual, a “raça”, a etnicidade, a sexualidade, a religião e a nacionalidade. Isto constitui um claro avanço relativamente aos restritivos paradigmas fordistas que marginalizavam tal contestação. (Fraser, 2002: 3)

A autora preconiza uma “concepção ampla e abrangente” que compatibilize a dimensão da distribuição com a dimensão do reconhecimento, da seguinte forma:

Do ponto de vista do reconhecimento, por contraste, a injustiça surge na forma de subordinação de estatuto, assente nas hierarquias institucionalizadas de valor cultural. A injustiça paradigmática neste caso é o falso reconhecimento, que também deve ser tomado em sentido lato, abarcando a dominação cultural, o não-reconhecimento e o desrespeito. (Fraser, 2002: 4)

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Para o escopo desta tese, incorporamos a idéia e a compreensão sobre castas produzida por Louis Dumont em Homo hierarquicus – o sistema das castas e suas implicações (1997).

Em meu empreendimento, tendo por base empírica de observação minha pesquisa de campo em Nilópolis e na Rocinha, pude constatar, ao testar as hipóteses desta tese, que as idéias de reconhecimento e respeito são sentimentos que estruturam ações coletivas e dão formato a um novo ciclo de movimentos sociais nas favelas e na Baixada Fluminense, em que há “reivindicação de respeito, ponto central do discurso social e político do brasileiro pobre que mora nas cidades...” (Vidal, 2003: 265).

É importante ressaltar que em Nilópolis não se percebem indícios desse novo ciclo de movimentos sociais; a população de Nilópolis participa ativamente das instituições locais e credita confiabilidade em suas elites mandatárias do clã Abrão David-Sessim, reforçando e alicerçando sua legitimidade política e social, pois o clã tradicional e familiar tem a competência política de promover uma ampla classificação social via poder público, a inclusão social e o prestígio coletivo via escolarização e a espetacularização do cotidiano por intermédio da escola de samba Beija-Flor de Nilópolis.

No Município de Nilópolis, a maioria absoluta da população residente mantém um complexo e sofisticado arranjo de relações sociais, políticas, econômicas e ideológicas, pois observa-se, por mais paradoxal que possa parecer, que o poder local e a autoridade das elites mandatárias são legitimados pelas três formas de dominação descritas por Max Weber (Weber, 2005), ou seja, pela via racional-legal, pela via da autoridade tradicional e pela via da autoridade carismática, sem que com isso aconteçam conflitos de interesses que coloquem em risco o pleno e longevo domínio hegemônico do clã Abrão David-Sessim, pois é ele que exerce, de forma concomitante, as três formas de dominação.

É conveniente frisar neste contexto que a luta por reconhecimento em termos coletivos é o “processo prático no qual experiências individuais de desrespeito são interpretadas como experiências cruciais típicas de um grupo inteiro, de forma que elas podem influir, como motivos diretos da ação, na exigência coletiva por relações ampliadas de reconhecimento” (Honneth, 2003: 257). Dessa forma, “uma luta só pode ser caracterizada de ´social` na medida em que os seus objetivos se deixam generalizar para além do horizonte das intenções individuais, chegando a um ponto em que eles podem se tornar a base de um movimento coletivo” (Honneth, 2003: 256).

O primeiro problema: pobres, miseráveis e desclassificados na Baixada Fluminense ou nas favelas cariocas, morando na cidade do Rio de Janeiro ou em áreas periféricas da Região Metropolitana, têm um discurso próprio, além das muitas queixas e reivindicações que, reelaboradas por estudiosos ou midiáticos, são entretanto apresentadas em programas do tipo “mundo cão”, como Cidade Alerta, da Rede Record, e nos principais jornais, como O Globo,

O Dia, Extra e Jornal do Brasil, como discursos criminalizados ou toscos, desqualificando

favelados e pobres como atores sociais em luta por reconhecimento social e direitos de cidadania. Apesar do discurso próprio de favelados e moradores da Baixada Fluminense, não

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