4 A (IM)PRESCRITIBILIDADE DO RESSARCIMENTO AO ERÁRIO NO ÂMBITO DO SUPREMO TRIBUNAL FEDERAL
4.1 DA ARGUMENTAÇÃO EXPENDIDA NO ÂMBITO DO STF
4.1.1 MS n 26.210 DF, Rel Min Ricardo Lewandowski, DJ 10/10/
Tratou-se de mandado de segurança impetrado contra acórdão n. 2.967/2005 do TCU que determinou à impetrante o pagamento da quantia de R$ 167.021,15 (cento e sessenta e sete mil, vinte e um reais e quinze centavos), a título de devolução de valores em decorrência do descumprimento da obrigação de retornar ao país após o término do período relativo a bolsa de estudos no exterior que lhe fora concedida pela União, junto ao Conselho Nacional de Pesquisas (CNPq), para obtenção de doutoramento na University of Essex, na Inglaterra.
Com o fim de se eximir da obrigação fixada no referido acórdão, alegou a impetrante em sua defesa, dentre mais, a ocorrência de prescrição, nos termos do art. 1º do Decreto n. 20.910/193289, em função de que deveria o CNPq ter iniciado a
cobrança dos valores desde a data do encerramento do prazo de vigência da referida bolsa, qual seja, agosto de 1992.
89 “Art. 1º As dívidas passivas da União, dos Estados e dos Municípios, bem assim todo e qualquer direito ou ação contra a Fazenda federal, estadual ou municipal, seja qual for a sua natureza, prescrevem em cinco anos contados da data do ato ou fato do qual se originarem.”
Por outro lado, sob presidência do Ministro Cezar Peluso (Vice-Presidente) e relatoria do Ministro Ricardo Lewandowski, o plenário do STF, por maioria, vencido o Ministro Marco Aurélio, indeferiu a segurança vindicada, nos termos do voto do relator.
Neste sentido, verifica-se que o ministro relator, no que toca à matéria relativa à incidência de prescrição, entendeu que esta não seria aplicável ao caso, haja vista que a tomada de contas especial, instrumento por meio do qual se originou o referido acórdão do TCU, se destinaria a identificar responsáveis por danos causados ao erário, bem como determinar o ressarcimento do prejuízo apurado, implicando a incidência da segunda parte do art. 37, § 5º da CF.
Quanto ao tema, em seu voto, o referido ministro ressaltou ainda que não poderia prevalecer a tese restritiva formulada pela impetrante no sentido de que a previsão de imprescritibilidade prevista no dispositivo constitucional se aplicaria apenas a agentes públicos, pois, conforme julgador, tal entendimento consistiria numa quebra do princípio da isonomia, bem como violação da taxatividade da redação do parágrafo.
Embora tenham se pronunciado no mesmo sentido que o Relator, a fim da denegação da segurança vindicada, os ministros Eros Grau e Carlos Ayres Britto nada acrescentaram ao debate acerca da (im)prescritibilidade do ressarcimento ao erário, meramente reiterando as razões do voto do Ministro Ricardo Lewandowski.
Por sua vez, o Ministro Cezar Peluso, nada obstante também tenha votado pela denegação da segurança vindicada, entendendo inexistência da alegada prescrição, não fundamentou sua posição com base na redação contida na segunda parte do art. 37, § 5º da CF, a qual, conforme seu voto, não seria aplicável ao caso concreto, razão pela qual a obrigação impugnada não se tratasse de matéria imprescritível conforme declarado pelo Ministro Relator, muito embora, em seu entendimento, não se encontrasse prescrita, em função de que, tendo se originado de tomada de contas e de apuração de crédito da União, haveria “[...] sérias dúvidas a respeito da do nascimento da pretensão”.
A disposição contida na segunda parte do referenciado parágrafo do art. 37, conforme aquele ministro, consistiria em uma exceção ao princípio geral da prescritibilidade, razão pela qual, conforme seus termos, em vista de excepcionar
regra de tão amplo alcance, “[...] teria de ser interpretada, já desse ponto de vista, estritamente.”. Além do que, completou aquele magistrado, em função da expressão adotada no texto constitucional, “respectivos”, tal norma seria direcionada apenas à obrigação de reparar os danos causados por ilícitos criminais.
Neste sentido, ipsis litteris:
Esta norma estabelece claramente uma exceção – eu diria exceção marcante – em relação ao princípio jurídico universal: o princípio de limitação do prazo de exercício de todas as pretensões, porque é este requisito de segurança jurídica. [...] Então, em se tratando de exceção a uma regra de tão amplo alcance, teria de ser interpretada, já desse ponto de vista, estritamente.
Em segundo lugar, o que me parece claro dessa regra – com o devido respeito – é que se trata de uma exceção à previsão de prescrição para ilícitos, ou seja, há aqui segunda exceção normativa, uma exceção de segundo grau, que é de abrir ressalva à prescritibilidade em relação aos ilícitos praticados por qualquer agente, que, seja servidor ou não, cause prejuízo ao Erário.
Isso significa, no meu entender, que em primeiro lugar, a hipótese excepcional não é de qualquer ilícito, sobretudo não é de ilícito civil. [...] Noutras palavras, as ações relativas a crimes são prescritíveis, não, porém, as respectivas ações de ressarcimento. Respectivas do quê? Dos crimes, isto é, as ações tendentes a reparar os prejuízos oriundos da prática de crime danoso ao Erário. Este o sentido lógico do adjetivo “respectivos”. Não se trata, portanto, de qualquer ação de ressarcimento, senão apenas das ações de ressarcimento de danos oriundos de ilícitos de caráter criminal. Aí se entende, então, o caráter excepcional da regra da imprescritibilidade. Por quê? Porque é caso do ilícito mais grave na ordem jurídica. E a constituição, por razões soberanas, entendeu que, nesse caso, cuidando-se de delitos, no sentido criminal da palavra, as respectivas ações de ressarcimento não prescrevem, conquanto prescrevam as demais ações nascidas do ilícito penal.
[...]
De outro lado, em sentido absolutamente contrário ao Ministro Relator, o Ministro Marco Aurélio em seu voto posicionou-se a favor da concessão vindicada pela impetrante, justificando seu entendimento sob o argumento de que não compreenderia...
“[...] a parte final do § 5º do artigo 37 da Constituição Federal como a encerrar a imprescritibilidade das ações considerada a dívida passiva da União. Não. A ressalva remete à legislação existente e recepcionada pela Carta de 1988; a ressalva remete à disposição segundo a qual prescrevem as ações, a partir do nascimento destas, em cinco anos, quando se trata - repito - de dívida passiva da Fazenda. E isso homenageia a almejada segurança jurídica: a cicatrização de situações pela passagem do tempo.” Em outras palavras, o magistrado defendeu a tese de que a segunda parte do § 5º do art. 37 quando pontua “[...] ressalvadas as respectivas ações de
ressarcimento.”, ao invés isentar as ações de ressarcimento de prazo prescricional, teria reforçado e recepcionado os prazos de prescrição previstos em lei infraconstitucional.
Em momento posterior, em debate registrado pelas notas taquigráficas, o ministro ainda acrescenta que o constituinte de 1988 teria sido explícito em outros casos que teria determinado a imprescritibilidade, mas não quando tratou da matéria do ressarcimento ao erário.