SUMÁRIO
1. Epistemologia e metodologia, os caminhos e descaminhos de uma pesquisa feminista, interseccional e interdisciplinar
3.2 MST: lutas transnacionais e interseccionais
O MST é um movimento social de luta pela terra, norteado prioritariamente pela busca da reforma agrária, pautada pela luta de classes, apoiado em um corpo teórico que aliava os princípios da teologia da libertação a um arcabouço teórico mais amplo, formado majoritariamente por autores marxistas e guiados por lideranças, como João Pedro Stédile, até hoje membro da Secretaria Nacional do Movimento. Seu surgimento acontece articulado a outras formas de luta. Ilse Scherer-Warren (1993), destaca três tipos principais de novas formas de organização camponesa contemporâneas, além do MST: O
57 Esses são os dados mais recentes sobre a concentração fundiária do país. 58 Quanto mais perto essa medida está do número 1, maior é a concentração na
Movimento dos Atingidos por Barragens (MAB) 59 e o Movimento de
Mulheres Agricultoras (MMA)60, além de outras organizações como o
Partido dos Trabalhadores (PT) e a Central Única dos Trabalhadores (CUT). Essas organizações são parceiras históricas e atuam conjuntamente em diversas atividades. Além disso, militantes podem participar de várias delas ao mesmo tempo.
Atualmente, o MST coloca o problema da terra numa perspectiva de transformação social mais ampla, articulando alianças com outros movimentos sociais, incorporando demandas socioeconômicas e socioculturais, ou redistribuição e reconhecimento segundo Fraser (2007), e utilizando largamente os meios de comunição de maneira direta (site do movimento, jornal dos Sem Terra, Revista Sem Terra, etc.) e de maneira indireta (grande mídia). Seus objetivos vêm sendo ampliados, sendo que os focos que se baseavam, inicialmente, em uma luta de natureza mais econômico-corporativa vêm se modificando e várias outras bandeiras de luta foram e estão sendo agregadas. Essa transversalidade de ações pode ser observada no site do MST que apresenta uma pauta heterogênea, representada por nove bandeiras: (1) cultura, (2) reforma agrária, (3) combate a violência sexista, (4)
democratização da comunicação, (5) saúde pública, (6)
desenvolvimento, (7) diversidade étnica, (8) sistema político, (9) soberania nacional e popular. São bandeiras que buscam aglutinar políticas de igualdade social e políticas identitárias (MSTa, 2014).
A incorporação de outras lutas é o resultado da releitura conjuntural e de alianças do Movimento com diversas organizações brasileiras e internacionais. Segundo Breno Bringel (2011), o Movimento sempre esteve integrado a uma rede ampla de organizações, desde sua gênese.
59 O Movimento dos Atingidos por Barragens surge na década de 70, período de
ampla expansão na construção de hidrelétricas no país (Tucuruí, Itaipu, Sobradinho e Itaparica), com o objetivo de mobilizar as famílias afetadas por essas construções, principalmente reivindicando indenizações justas para as/os atingidas/os (MAB, 2014).
60 Movimento de Mulheres Camponesas (MMC) é um movimento de mulheres
rurais que surgiu em 1995 como Movimento de Mulheres Agricultoras (MMA). Está organizado em vários estados do país e apesar de ter uma organização autônoma, está fortemente ligado à outros movimentos de luta pela terra, como o o MST, o MAB e o Movimento dos Pequenos Agricultores (MPA) (MMC, 2014).
Desde seu nascimento, o MST buscou articular várias escalas (local, nacional, regional e global) de atuação gerando uma espacialidade complexa e multidimensional, o que em parte explica o “êxito” do movimento ao conseguir articular uma organização de base com projetos educativos, produtivos e de vida alternativos com solidariedades e alcance político e social em diferentes lugares (BRINGEL, 2011, p. 207).
Inicialmente, o movimento adotava, em especial, estratégias proativas de resistência, como ocupações de terras, bloqueios em estradas, ocupação de órgãos públicos e empresas. Essas ações não enfraqueceram e até se intensificaram em determinados períodos, contudo, o movimento se articulou, criou alianças, inserindo-se cada vez mais em ações de âmbito institucional.
Existe um enredamento amplo em nível local e global. Muitas/os assentadas/os são representantes do poder executivo em seus municípios, líderes de sindicatos, entre outras atividades locais. Em âmbito nacional, Scherer-Warren (2012), através de pesquisa de composição de redes no Brasil, afirma que o Movimento é o ator social mais articulado em redes no país. Sua importância se deve a dois fatores primordiais: sua capacidade de liderança, sendo um elo estratégico nas articulações, e a grande visibilidade pública nas redes de movimentos sociais nacionais e mundiais, devido sua credibilidade na luta pela terra. Sua participação em fóruns é extremante relevante, sobretudo no Fórum Nacional de Reforma Agrária e pela justiça no campo (FNRA), no Fórum Social Mundial (FSM) e em vários espaços em distintas frentes de ação, como nas reivindicações de 8 de Março, dia da Mulher, e mais recentemente no Rio+20.
Internacionalmente, há intensivo intercâmbio em todo o mundo, tendo como principal elo nessas ações a Via Campesina e a Coordenadoria Latino americana de Organizações do Campo (CLOC), organizações autônomas que coordenam entidades camponesas e indígenas na América, África, Ásia e Europa.
Desde 2010, há uma Brigada Internacionalista da Via Campesina Brasil no Haiti, trabalhando junto às moradoras/es afetadas/os pelo devastador terremoto que assolou o país naquele ano. Mais de 30 militantes de distintos estados e movimentos sociais já fizeram parte da
equipe, que é formada atualmente por 10 integrantes, quase todos do MST (MST, 2014). Há também estudantes em Cuba e Venezuela. Segundo o documento “MST: lutas e conquistas”, o Movimento conta com 80 estudantes realizando o curso de Medicina em Cuba, graças a uma parceria com o governo cubano, e ainda com 30 estudantes na Venezuela, realizando o curso de Agroecologia (MST, 2010).
O Movimento ainda conta com uma rede de solidariedade chamada “Amigos do MST” em vários países da Europa. Em cada um deles há um site onde se encontram informações gerais da estrutura organizativa, um rápido histórico sobre o Movimento, materiais produzidos, reportagens recentes, fotos, contatos das brigadas de apoio local, além de links para doações. Os países onde há essa rede de solidariedade são identificados no site do MST com pequenas bandeiras nacionais localizadas no final das páginas.
A primeira bandeira é da Grã-Bretanha, ao clicá-la61 somos direcionados a uma página muito semelhante a do MST, porém escrita em inglês com o título Friends of the MST. Curiosamente, ao examinar um pouco mais o site, se descobre que na verdade se trata de um grupo de solidariedade estadunidense espalhado pelo país, em Boston, Chicago, Nova York e Washington. Na Espanha, existem vários comitês de apoio. Além de Madrid, o Movimento conta com apoiadores em outras cidades, como: Alicante, Aragón, Asturies, Barcelona, Euskal Herria, Córdoba, Valencia, Galiza, Terrasa, Mallorca e Sevilla. Na
página62 do Comité de Apoyo de Madrid del Movimiento de los
Trabajadores Sin Tierra são disponibilizadas várias informações com um layout distinto ao site brasileiro.
Além desses, há outros grupos de solidariedade: os Amis des Sans
Terre Brésiliens na França; o Amig@s MST na Itália; MST:s vänner i
Sverige na Suécia; Freundinnen und Freunde der Brasilianischen
Landlosenbewegung MST na Alemanha; MST Nederland na Holanda;
Brasilian Maattomien maatyöläisten liike MST na Finlândia, além de outros apoios mais individualizados e sem página de acesso, como na Suíça e em Portugal63.
61 Para maiores informações, acessar: http://www.mstbrazil.org
62 Para maiores informaçãoes, acessar: http://www.sindominio.net/mstmadrid/.
63 Para maiores informaçãoes do comitê da França, acessar:
http://amisdessansterre.blogspot.com.br/; da Itália, acessar:
http://www.comitatomst.it/; da Suécia, acessar:
Dentro dessas redes multi-identitárias, multissetoriais, translocais e transnacionais, há inúmeros conflitos e dificuldades nos enredamentos dos movimentos sociais, devido à pluralidade de atores e atrizes, à complexidade de temáticas e de demandas; à dificuldade de conciliação de temáticas prioritárias, ao desencontro de agendas de interesse, ao diálogo ou falta de diálogo intercultural, dentre outros fatores (SCHERER-WARREN, 2012). Nas redes de que o MST faz parte, esses conflitos acontecem à medida que o movimento se destaca e representa a principal liderança coletiva brasileira, além de ser um importante ator transnacional.
A incorporação de lutas identitárias, ou por reconhecimento (FRASER, 2007), ocorreu frente a esses conflitos e contradições, mas, sobretudo, pelo grande intercâmbio e amadurecimento do Movimento. Segundo Maria Inez Paulilo e Cristiane Bereta da Silva (2010), as discussões sobre as questões de gênero no MST estão presentes desde sua formação, na década de 1980, e foram fortemente influenciadas pelo
Movimento de Mulheres Agricultoras (MMA)64. Inicialmente no sul do
país, lutas pelo preço mínimo de produtos; ocupações de terras; luta contra barragens e recuperação de terras indígenas pautavam as reivindicações de camponesas/es organizadas/os e o MMA começou a estabelecer uma relação dessas lutas no campo com questões feministas, principalmente no que tange à aposentadoria para mulheres agricultoras.
Símbolo da luta de mulheres camponesas, Luci Choinacki65 foi, talvez, a
principal liderança desse processo de reivindicação dos direitos das mulheres no campo. Naquele período, tanto o MST quanto o PT e a CUT passaram a incorporar questões de gênero como pauta de luta. Na contramão desses avanços, as discussões sobre sexualidade e sobre o racismo poucas vezes foram priorizadas.
http://mstsverige.blogspot.com.br/; da Holanda, acessar:
http://www.mstnederland.nl/; e da Filandia, acessar:
http://maattomienliike.wordpress.com/.
64 A partir de 2004, o MMA/SC se unificou com os demais movimentos de
mulheres no Brasil criando o Movimento de Mulheres Camponesas (MMC), de organização nacional. Conferir mais detalhes em Salvaro (2010).
65 Luci Choinaki é uma importante líder camponesa de Santa Catarina que
iniciou sua militância nas Comunidades Eclesiais de Base (CEBs) no início da década de 1980 até se tornar deputada estadual e federal, o segundo cargo sendo exercido até hoje.
Outros fatores contribuíram para abertura maior nos espaços de participação das mulheres, como a influência do debate acadêmico, a pressão de agências financiadoras internacionais que solicitavam a contemplação da categoria gênero, tanto na reflexão teórica, como nos programas de ação dos movimentos como condição de aprovação dos financiamentos, e também os diversos convites para a participação em congressos e encontros internacionais.
A primeira atitude formal frente à questão de gênero foi tomada em 1985 no 1º Congresso Nacional do MST. Com o lema “Sem Reforma Agrária, não há Democracia”, militantes mostraram certa preocupação em relação à desigualdade na participação de mulheres e homens e resolveram estabelecer o critério de participação mínima de
30% de mulheres66 nas instâncias organizativas do Movimento. Segundo
Lechat (1993), as discussões foram feitas nos assentamentos com ajuda da Igreja e dos sindicatos. As mulheres começaram a ocupar as instâncias superiores e a organizar-se, o que culminou na constituição de grupos de mulheres.
Após alguns anos, em 1990, no 2º Congresso Nacional, novas políticas apareceram, mostrando alguns avanços na discussão. As mulheres se organizaram e se firmaram como grupo que reivindicava o direito de participação nas associações, cooperativas e sindicatos, inclusive nas diretorias. Para conquistar um maior espaço institucional, assumiram um compromisso das mulheres votarem somente em mulheres. Outra conquista fundamental foi a assunção da profissão de “trabalhadora rural” nos documentos, em que anteriormente constava sua profissão como “do lar” (MAGRINI, 2010).
Interessante notar que nesse período já havia um setor que discutia a situação da mulher assentada. No organograma abaixo, retirado da dissertação de Lechat (1993) em um assentamento no Rio Grande do Sul no início da década de 1990, é possível ver a divisão setorial em: Jovens, Propaganda, Cooperativas Agrícolas, Igreja, Educação, Formação e Mulheres. Segundo Görgen (1989), a equipe de mulheres, como o autor denomina, seria um espaço onde as mulheres se reuniam para debater questões específicas e para se organizarem a fim de participar de instâncias superiores, no caso explicitado, em nível
66 É interessante pensar que a lei de cotas para mulheres no Brasil (Lei 9100/95)
surgiu somente em 1995, determinando que 30% da representação no legislativo fossem disponibilizadas para mulheres.
estadual. Não foram encontrados detalhamentos sobre quais seriam as atividades específicas desse setor.
Figura 1. Organograma do MST em 1990. Fonte: Lechat (1993, p. 78).
Além do setor de mulheres, outro que chama bastante atenção é o da Igreja. Segundo Görgen, a equipe de religião tinha o objetivo de discutir “como elaborar, como fazer as celebrações. Encaminha a questão da religião, já que existem membros de várias religiões. Organiza missas, os cultos, as rezas, as reflexões, os estudos bíblicos, etc. Procura ligar a vida de fé com a realidade da luta no acampamento” (1989, p. 19). Nos primeiros anos de gestação do MST, a Igreja, por meio de seu braço agrário, a Comissão Pastoral da Terra (CPT), era um pilar de sustentação da luta nos acampamentos, ora pelo apoio ideológico e espiritual, ora pela força política da instituição.
Na realização do 3º Congresso Nacional em 1996, o MST revelou uma nova postura diante da situação da mulher e da busca por relações igualitárias no interior do Movimento. Entre os objetivos gerais, um deles demonstrava uma preocupação que até então não havia sido discutida, associando discriminação com a questão da mulher: “combater todas as formas de discriminação social e buscar a participação igualitária da mulher” (FERNANDES, 1999, p. 81). Nesse
mesmo ano aconteceu o 1º Encontro de Mulheres Militantes do MST67,
67
e como fruto desse encontro, foram aprovados alguns encaminhamentos e a elaboração de um plano de trabalho, impresso numa cartilha intitulada “A Questão da Mulher no MST”, como documento não só para as mulheres, mas para todo o Movimento, servindo de roteiro para estudo e reflexão dos grupos de base (FURLIN, 2009).
A partir de 1998, vários movimentos sociais passaram a dar maior atenção à questão dos direitos da mulher à propriedade da terra na reforma agrária. Devido à aceleração do ritmo da reforma agrária em resposta às ocupações e, em parte, devido a uma atenção maior
dispensada às questões de gênero nas organizações mistas68. Nesse
período, o MST adotou a exigência da distribuição e titulação conjunta de terra para os casais e também a meta de 50% de mulheres nas lideranças de acampamentos e assentamentos (DEERE & LEÓN, 2002). Até então, o discurso de gênero do Movimento centrava-se na participação das mulheres nas atividades dos acampamentos e assentamentos, bem como em suas instâncias organizativas. Sem dúvida, a paridade na representação nos espaços políticos institucionais do movimento representava um grande avanço para a organização. Contudo, essa paridade ainda se mostrava limitada, levando-se em consideração que as questões de gênero são muito mais abrangentes do que a igualdade numérica.
Em 1999, surge pela primeira vez uma proposta mais ampla e que vigora até hoje. O Movimento criou um Setor de Gênero69 definindo objetivos e a primeira linha política de ação em âmbito nacional. Essa proposta foi ratificada no 4º Congresso Nacional em 2000, com o desafio de “Garantir a participação igualitária das mulheres que vivem no campo em todas as atividades, em especial no acesso a terra, na produção e gestão, buscando superar a opressão histórica imposta às mulheres” (MST, 2003, p. 21).
Desde então, as ações nos dias 8 de março foram realizadas pelas mulheres do MST e da Via Campesina Brasil. A mais expressiva e que ganhou notoriedade nacional ocorreu em 2006, quando centenas de mulheres ocuparam e destruíram grande quantidade de mudas transgênicas de eucalipto plantadas em um horto florestal da Empresa
68 Considera-se uma organização mista aquela composta por homens e
mulheres.
69 Atualmente, existem doze setores organizados: Comunicação, Cultura,
Direitos Humanos, Educação, Formação, Frente de Massa, Gênero, Juventude, Produção, Projetos e Finanças, Relações Internacionais e Saúde.
Aracruz Celulose, na cidade de Barra do Ribeiro no Rio Grande do Sul. Segundo o MST, a ação não tinha somente o objetivo de questionar o monocultivo transgênico do eucalipto, mas de se solidarizar com comunidades indígenas desalojadas pelo avanço das fronteiras agrícola da referida empresa no Espírito Santo.
No 5° Congresso Nacional do MST, ocorrido em junho de 2007, conseguem adotar pela primeira vez uma direção nacional paritária, ou seja, todos os estados teriam um homem e uma mulher representando a coordenação do Movimento. Apesar desse avanço interno, na carta do 5º congresso, onde o MST assume compromissos como importante ator político, não constam referências a compromissos de lutar contra discriminações de gênero, sexualidade e raça/etnia.
Em todos esses anos, o MST trouxe poucas discussões sobre sexualidade e sobre racismo em cartilhas e cadernos de formação, por exemplo. A primeira, normalmente é relacionada a questões de saúde, como nos casos de campanhas que o MST apoiou sobre doenças sexualmente transmissíveis ou sobre planejamento familiar. A questão étnico-racial geralmente é associada à luta pelo território indígena e quilombola, como populações em situação semelhante à dos sem terras, mas nunca sobre preconceitos raciais, situação endêmica e que urge posicionamento de movimentos que lutam contra as injustiças e a desigualdade. As questões de gênero, apesar de estarem presentes e terem sido ampliadas a cada ano, recorrentemente são subsumidas em documentos finais e em discursos oficiais.
Essa situação continua se modificando e o VI Congresso Nacional mostrou ser um divisor de águas em alguns desses temas.
3.3 VI Congresso Nacional do MST: etnografia de uma reviravolta