3. Diagnóstico do Problema
3.3 Mudança do Clima e Desmatamento no Cerrado
ambiental, treinamentos e capacitações para agentes ambientais municipais e comunitários envolvidos no controle, prevenção e combate às queimadas ajudando a divulgar as informações do correto emprego do fogo como instrumento de manejo agrícola. Além disso, por meio da formação de Brigadas Municipais e Voluntárias a participação social e a difusão de tecnologias sobre uso de técnicas alternativas ao manejo com fogo e de combate aos incêndios são difundidas. Os cursos oferecidos são: a) Cursos de Formação em percepção socioambiental, b) Oficinas de diagnóstico e formação em educação ambiental para os brigadistas, c) Produção e socialização de recursos instrucionais, e d) Divulgação das alternativas ao uso do fogo.
natureza global da mudança do clima requer maior cooperação entre todos os países. Para uma resposta internacional efetiva e apropriada, os países devem agir de acordo com as responsabilidades comuns, mas diferenciadas de acordo com as respectivas capacidades e condições sociais e econômicas.
Em termos mundiais, o setor de oferta de energia teve, entre 1970 e 2004, a maior parcela de aumento (145%) das emissões globais de gases de efeito estufa (IPCC, 2007b), com os países desenvolvidos contribuindo com a maior parcela. No mesmo período, o setor de uso da terra, mudança no uso da terra e florestas apresentou um aumento de 40% (IPCC, 2007b). A principal fonte de aumento da concentração atmosférica de dióxido de carbono desde o período pré-industrial se deve ao uso de combustíveis fósseis, com a mudança no uso da terra contribuindo com uma parcela menor, mas significativa. Com base nos anos 90, as emissões de dióxido de carbono provenientes da queima de combustíveis fósseis foram de 80%, na melhor estimativa (variação de 72% - 92%), e de 20%, na melhor estimativa para o setor de mudança no uso da terra (variação de 8% - 28%) (IPCC, 2007a).
Segundo o 1º Inventário Nacional de Emissões e Remoções Antrópicas de Gases de Efeito Estufa não Controlados pelo Protocolo de Montreal, submetido pelo Brasil em 2004, como parte de sua Comunicação Nacional Inicial à Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudança do Clima (MCT, 2004), cerca de 76% das emissões de CO2 ou 55% das emissões nacionais de CO2 equivalente provêm do setor
“mudança no uso da terra e florestas” (estimativa com base no ano de 1994). O desmatamento e as queimadas na Amazônia e no Cerrado são responsáveis pela maior parte dessas emissões, indicando a importância de implementar e fortalecer medidas de controle do desmatamento nesses biomas.
A Tabela 11 mostra que, para o período de 1988 a 1994, o Cerrado contribuiu com aproximadamente 188,47 milhões de toneladas de CO2 por ano, ou seja, 26%
das emissões líquidas de CO2 do setor de mudança do uso da terra e florestas.
Considerando-se as emissões dos principais gases de efeito estufa avaliados no Inventário Nacional3, as emissões provenientes do Cerrado representaram aproximadamente 13% do total nacional para o ano de 1994.
Tabela 11. Emissões Líquidas por bioma para o período 1988-1994.
Biomas
Conversão de Florestas para outros usos
Abandono de Terras
cultivadas Emissões Líquidas Área 88-94
(km2)
Emissão Bruta (Tg CO2/ano)
Área 88-94 (km2)
Remoção Bruta (Tg CO2/ano)
(Tg
CO2/ano) %
Amazônia 92.100 556,23 82.600 127,97 428,27 59,29
Cerrado 88.700 246,03 17.700 57,57 188,47 26,09
Mata Atântica* 4.600 43,27 2.000 1,83 41,43 5,74
Caatinga 24.000 36,67 - 0 36,67 5,08
Pantanal 9.800 37,77 3.400 10,27 27,5 3,81
TOTAL 219.200 919,97 105.400 197,63 722,33 100
* Período 1990-1995. Fonte: MCT, 2004
3 Os principais gases de efeito estufa incluídos no Inventário Nacional de Emissões são: dióxido de carbono (CO2), metano (CH4), óxido nitroso (N2O), hexafluoreto de enxofre (SF6), hidrofluorcarbonos (HFCs) e Perfluorcarbonos (PFCs).
Os dados preliminares do 2º Inventário Nacional de Emissões e Remoções Antrópicas de Gases de Efeito Estufa (MCT, 2009) indicam a manutenção da alta participação do desmatamento nas emissões nacionais. O setor de mudança do uso do solo aparece contribuindo com 76% das emissões nacionais de CO2, ou 57,7% em termos de CO2 equivalente, em 2005. Em termos de CO2, o restante das emissões segue associada à queima de combustíveis fósseis (sendo 9% no setor de transportes, 7% na indústria e 5% em outros setores), processos industriais (2%) e emissões fugitivas (1%).
Esses dados preliminares trazem estimativas de que as emissões do Cerrado foram da ordem de 189 milhões de toneladas de dióxido de carbono em 1990 e de 379 milhões de toneladas de dióxido de carbono em 2005. Para a Amazônia, esses números são 410 milhões de toneladas de dióxido de carbono em 1990 e 714 milhões de toneladas de dióxido de carbono em 2005 (MCT, 2009).
Vale lembrar que a Convenção Quadro das Nações Unidas sobre Mudança do Clima define a mudança do clima como aquela que possa ser direta ou indiretamente atribuída à atividade humana. Ela defende o estabelecimento de medidas de mitigação, enfrentando as emissões antrópicas por fontes e remoções por sumidouros de todos os gases de efeito estufa. Prega a promoção da gestão sustentável, bem como a promoção e cooperação na conservação e fortalecimento, conforme o caso, de sumidouros e reservatórios de todos os gases de efeito estufa, incluindo a biomassa, as florestas e os oceanos como também outros ecossistemas terrestres, costeiros e marinhos. Portanto, sinaliza a importância das florestas como fonte e sumidouro de dióxido de carbono, que é captado da atmosfera para a biomassa através do processo de fotossíntese. Assim, a redução do desmatamento no Cerrado constitui relevante ação de mitigação da mudança do clima.
É relevante registrar também que a mudança no uso da terra resulta em perda ou ganho de carbono, seja na biomassa aérea como no solo. Diferentemente do 1º Inventário Nacional, em que foram consideradas apenas duas transições (a conversão de florestas para outros usos e a regeneração de áreas abandonadas), o 2º Inventário utiliza a metodologia mais detalhada do IPCC e considera todas as transições possíveis entre diversos usos (vegetação nativa, agricultura, pastagem, vegetação secundária, reflorestamento, área urbana, áreas alagadas e reservatórios e outros usos). Apesar da diretriz do IPCC recomendar a contabilização da remoção em toda área considerada manejada, não são consideradas, nos dados preliminares do 2º Inventário, as remoções de CO2 nas áreas de vegetação nativa, as quais, de maneira conservadora, foram consideradas como não antrópicas. Esta questão é extremamente relevante e deverá ser mais discutida durante o período de consolidação do Inventário. São também incluídas nesse setor as emissões de CO2
por aplicação de calcário em solos agrícolas.
Em termos de emissões oriundas do desmatamento, as atenções estão voltadas em grande parte para a Floresta Amazônica. No entanto, de acordo com o Monitoramento da Cobertura Florestal da Amazônia (INPE, 2010), este quadro começa a se alterar diante dos resultados recentes do monitoramento do desmatamento da Amazônia que registrou em 2009 a menor taxa histórica: 7.464 km². A redução contínua e consistente das taxas de desmatamento na Amazônia vem ocorrendo desde 2004, após o lançamento e implantação do Plano de Ação
para a Prevenção e Controle do Desmatamento na Amazônia Legal (PPCDAm). Os resultados positivos do PPCDAm servem de inspiração para a implantação do PPCerrado.
Se os níveis atuais de desmatamento do Cerrado forem mantidos, o bioma passa a assumir papel de maior destaque nas emissões nacionais de gases de efeito estufa, sendo de extrema importância, portanto, que o PPCerrado seja realizado e consiga alterar o eventual cenário de aumento das taxas de desmatamento no Bioma.
A preocupação com a possível manutenção de taxas elevadas de desmatamento no Cerrado decorre também do fato de que esse tem elevado potencial de emissões. A maior parte da biomassa do Cerrado está no subsolo, podendo constituir até 70% da biomassa total, dependendo da vegetação dominante (CASTRO & KAUFFMANN, 1998). De modo inverso, na Amazônia, a maior parte da biomassa encontra-se na parte aérea e somente cerca de 21% da biomassa total é subterrânea (MCT, 2004).
De acordo com o IPCC (2000) o estoque de carbono no Bioma é de cerca de 29 t/ha na vegetação e 117 t/ha no solo (até 1 metro de profundidade). Considerando toda a extensão do Bioma estes valores podem chegar a 5,9 bilhões de toneladas em toda a vegetação e 23,8 bilhões de toneladas em todo o solo. De acordo com Bustamante et al., (2006), o carbono orgânico do solo do Cerrado varia de 87 t/ha até 210 t/ha.Já segundo Abdala (1993) apud Lal (2008), o total de carbono estocado no Cerrado do Brasil central é de 265 t/ha, sendo:
estrato arbóreo = 28,5 t/ha
estrato herbáceo = 4 t/ha
serrapilheira (litter) = 5 t/ha
raízes e detritos = 42,5 t/ha
reservatório de carbono orgânico do solo (1 metro de profundidade) = 185 t/ha
Levando em conta o estoque de carbono existente, as ações nacionais voluntárias de mitigação da mudança do clima no Cerrado constituem uma importante contribuição do Brasil, a qual se soma a diversas outras iniciativas.
Destaca-se, novamente, que a redução do desmatamento na Amazônia está sendo alcançada, o que mostra a eficácia de planos de governo com tal objetivo. E o PPCerrado pode ser considerado como um primeiro instrumento para ampliar a agenda de prevenção e controle do desmatamento em outros biomas no Brasil.