2 MUDANÇA ESTRUTURAL: ASPECTOS TEÓRICOS E EMPÍRICOS
2.4 ASPECTOS EMPÍRICOS
2.4.1 Mudança estrutural e crescimento econômico
Existem duas visões principais sobre a relação entre mudança estrutural e crescimento econômico. A tradicional considera que as transformações que ocorrem na estrutura produtiva são decorrência do crescimento. A expansão da economia demanda novos produtos, que alteram os processos produtivos e as alocações de trabalho e capital entre as atividades. A visão alternativa afirma que a mudança estrutural é a principal fonte do crescimento econômico. Sendo assim, a estrutura produtiva deve mudar para que o crescimento e o desenvolvimento ocorram, sendo que a transformação na direção de certos setores
5 Para uma discussão sobre as eficiências dinâmicas e suas relações com a mudança estrutural, veja Torezani e Piper (2014).
considerados essenciais para o crescimento de longo prazo deve ser objeto de política. Essa visão, que emerge da observação e análise dos desempenhos econômicos de países em desenvolvimento, faz parte da tradição estruturalista (OCAMPO; RADA; TAYLOR, 2009).
Historicamente, a mudança estrutural relacionada com o processo de desenvolvimento econômico ocorre com a migração da mão de obra da agricultura para a indústria e os serviços, ou seja, de atividades de menor para as de maior produtividade. O consequente aumento da produtividade agregada ocorre de duas formas, pela mudança na composição do emprego e da produção entre as atividades de diferentes níveis de produtividade e pelo aumento da produtividade dentro da própria atividade6. Nesses termos, o efeito da mudança estrutural sobre o desenvolvimento econômico tende a ser mais importante nos países em desenvolvimento ou mesmo atrasados. Isso ocorre em razão das maiores diferenças entre as produtividades setoriais, característica marcante de economias não desenvolvidas e que, pelo lado positivo, oferece campo aberto à transformação produtiva e seus efeitos sobre o aumento da produtividade agregada (MCMILLAN; RODRIK; SEPÚLVEDA, 2017)
A análise dos dados das últimas décadas tem permitido a identificação de um padrão geral da mudança estrutural ocorrida na economia mundial. O cruzamento de dados de Valor Adicionado (VA) nominal com o logaritmo do PIB per capita de 103 países desenvolvidos e em desenvolvimento entre 1975 e 2005 mostra regularidades estatísticas que ajudam a entender melhor as relações entre mudança estrutural e desenvolvimento econômico (HERRENDORF; ROGERSON; VALENTINYI, 2014). Em linhas gerais, maiores níveis de desenvolvimento (medidos pelo log do PIB per capita) estão associados com menor participação da agricultura e maior participação dos serviços. Nota-se que o crescimento da parcela dos serviços no VA total acelera-se quando o log do PIB per capita atinge valores mais elevados. Esse comportamento está relacionado com a curva da participação da indústria. A parcela da manufatura no Valor Adicionado aumenta conforme cresce o nível de desenvolvimento, até atingir um limite próximo a 40%. Desse ponto em diante, há uma queda
6 No modelo dualista de Lewis (1954), toda mudança importante (inovação, acumulação e aumento de produtividade) ocorre no setor moderno, restando ao setor tradicional a estagnação. Nesses termos, o crescimento econômico decorre unicamente da expansão do setor moderno. Para Kaldor (1968), o efeito realocativo estático não é tão importante. A produtividade agregada acelera-se, por um lado, como efeito dos retornos crescentes decorrentes da expansão da produção nos setores que recebem mão de obra, e por outro, pelo aumento da produtividade dos trabalhadores restantes nos setores com excesso de mão de obra antes das mudanças. Para McMillan, Rodrik e Sepúlveda (2017), processos de modernização com aumentos de produtividade restritos a determinadas atividades podem ter resultados agregados incertos. Em economias em que as diferenças de produtividade são baixas, não há grandes problemas. Mas em economias em desenvolvimento caracterizadas por forte heterogeneidade estrutural, de níveis elevados de informalidade ou de desemprego, o deslocamento da mão de obra para setores de baixa produtividade, notadamente em serviços, pode ter como resultante uma queda pronunciada da produtividade agregada.
em sua parcela, coincidindo com níveis mais elevados de desenvolvimento e com o aumento da participação dos serviços. Os dados evidenciam, portanto, que um processo de catching up em países em desenvolvimento está associado fortemente ao aumento da indústria no VA. A redução da participação da indústria e a aceleração do aumento dos serviços acontecem em fase posterior do processo de desenvolvimento, quando a industrialização já deu os resultados esperados, com aumento da produtividade agregada da economia e com a geração de atividades de serviços de alta produtividade (MCMILLAN; RODRIK; SEPÚLVEDA, 2017).
A oferta de amplas e confiáveis base de dados econômicos de países desenvolvidos e em desenvolvimento tem incentivado inúmeros estudos empíricos sobre a mudança estrutural e sua relação com o desenvolvimento econômico. Desde relatórios gerais sobre o tema (MEMEDOVIC; IAPADRE, 2009) até estudos regionais e setoriais, ou sobre as implicações da mudança estrutural sobre aspectos do desenvolvimento. Primeiramente, os dados evidenciam a pequena contribuição (positiva ou negativa) da mudança estrutural no crescimento da produtividade agregada em países desenvolvidos. Esse é um fato esperado, dada a pouca discrepância entre as produtividades intersetoriais desses países, em que há uma maior homogeneização estrutural. O mesmo não ocorre nos países em desenvolvimento. Nestes, a mudança estrutural tem tido um papel fundamental, embora haja diferenças fundamentais entre as regiões. Dados de 1990 a 2005 de países em desenvolvimento mostram que a Ásia foi a única região em que a contribuição da mudança estrutural foi positiva no período. Por outro lado, América Latina e África apresentaram transformações produtivas que contribuíram negativamente para o crescimento. Essas diferenças devem-se aos distintos padrões de mudança estrutural, com a mão de obra migrando de atividades de baixa produtividade para as de alta nos países asiáticos, e ocorrendo o oposto nos países da América Latina e África (MCMILLAN; RODRIK; VERDUZCO-GALLO, 2014; DIAO; MCMILLAN; RODRIK, 2017). Dados mais específicos evidenciam que estas duas regiões apresentaram ganhos estáticos, ou seja, houve fluxo positivo da mão de obra de atividades com níveis de produtividade abaixo da média para atividades com níveis acima da média. Entretanto, tais atividades, tanto na América Latina quanto na África, apresentaram um ritmo de expansão da produtividade abaixo da média, caracterizando um cenário de perda dinâmica. Esse padrão de desenvolvimento contrasta com o verificado na Ásia, onde houve contribuição positiva da mudança estrutural da indústria e onde as perdas dinâmicas, por consequência, foram escassas (TIMMER; VRIES; VRIES, 2014).
A mudança estrutural também tem sido associada à capacidade de uma economia sustentar um crescimento econômico durante longos períodos de tempo. Um estudo de 2015
(FOSTER-MCGREGOR; KABA; SZIRMAI, 2015) analisa que tipos de estrutura econômica e padrão de mudança estrutural mais contribuiriam, em países em desenvolvimento, para a sustentação do crescimento. As principais conclusões são de que participações maiores da indústria no Valor Adicionado aumentam as probabilidades de ocorrer episódios de crescimento e de durarem mais. Também ajuda a reduzir a volatilidade das taxas de expansão do produto. Lavopa e Szirmai (2014) apresentam evidências sobre a relação entre mudança estrutural negativa e economias presas em armadilhas de renda baixa ou média. Já Lavopa e Szirmai (2012) avaliam de que forma casos de mudança estrutural afetam os níveis de pobreza. Dadas as melhores condições de trabalho encontradas em atividades industriais, mudanças de mão de obra na direção de atividades mais produtivas na indústria possuem impactos positivos e persistentes no alívio da pobreza em países de renda baixa7. Já em países de renda média, mudanças para atividades industriais mais intensivas em capital e em tecnologia têm impacto sobre a qualidade dos empregos, com maiores efeitos de transbordamentos sobre outros setores8.