4. AVALIAÇÃO EMPÍRICA DA MUDANÇA ESTRUTURAL E DO CRESCIMENTO DA PRODUTIVIDADE
4.2.1. Mudança estrutural e o crescimento da produtividade
A partir do banco de dados principal desse capítulo (10-Sector, GGDC) foram elaboradas series históricas da evolução da produtividade e da participação setorial no emprego em cada setor das respectivas economias constantes nessa análise. A comparação desses resultados se mostrou extremamente valorosa para a compreensão de como a mudança estrutural é fundamental para sustentar o crescimento da produtividade e, por conseguinte, o crescimento de longo prazo. A importância desse tipo de procedimento nas análises de cunho estrutural fica evidente, além disso, se conclui que a composição dos elementos que sustentam a mudança estrutural deve ser incorporada a análise, dado o potencial de esclarecer as verdadeiras dinâmicas nas trajetórias de crescimento da produtividade.
Nesse sentido, a participação do emprego alocado nesses três setores representativos da economia é fundamental para a análise, pois, consiste em um dos instrumentos mais elementares nas análises que focam a mudança estrutural. Tal exercício, quando realizado para os distintos grupos de países, permite a visualização sobre a diferente magnitude e importância de cada esfera setorial nas distintas economias. O gráfico abaixo confirma algumas das hipóteses subjacentes a essa pesquisa; primeiramente, o setor de serviços ganhou espaço na estrutura ocupacional de maneira consistente e significativa no longo período analisado para todos os grupos de países em postos em tela. Outro ponto que se destaca é a maior participação proporcional da indústria no grupo de países desenvolvidos, ao longo de todo o período; o setor industrial ainda permite outras conclusões adicionais: o setor industrial só ganhou participação no emprego ao longo do tempo nos países asiáticos, e nos países latino-americanos a proporção desse setor ao longo do tempo permaneceu praticamente estável, indicando que a mudança estrutural pelo lado do emprego teve palco principalmente nos setores de agricultura e de serviços.
Como passo seguinte, se pretende uma avaliação geral sobre a evolução dos níveis de produtividade do trabalho através da taxa de crescimento acumulada em numero índice para; primeiramente, esse estudo será desdobrado para os grupos de países na classificação agregada de três setores. Além disso, para cada um desses grupos, no nível de desagregação de nove setores, será apresentado um comparativo do crescimento médio da produtividade para os três recortes temporais selecionados.
Gráfico 4.1 Participação setorial do emprego por grupo de países
A apreciação desses dados para a América Latina demonstra que, ao passo que o setor industrial e o setor agrícola crescem as respectivas produtividades significativamente, principalmente a partir década de 1990, o setor de serviços que inicia a série com os mais baixos níveis de produtividade passa por uma retração ainda mais grave desse índice a partir do mesmo ano de referencia em que seus pares logram crescimento. Conforme será visto, somente nos países latino-americanos esse comportamento regressivo é observado no setor de serviços.
Gráfico 4.2 - Crescimento da produtividade: média em percentual para América Latina com três setores
Fonte: GGDC. Elaboração própria.
Quando essas taxas de crescimento nos países latino-americanos são decompostas, mais uma vez se tem a confirmação da estagnação do setor de serviços nesse grupo de países. No gráfico abaixo se observa que, com exceção das atividades de transporte, armazenamento e comunicação, as atividades de serviços apresentam crescimentos de produtividade decrescente conforme se avança nos recortes temporais delineados na análise. O oposto se observa no setor industrial e no setor de agricultura, que ao longo dos períodos analisados o crescimento da produtividade logrou aumento de passo sem exceção. Com exceção do setor de Construção Civil os demais três setores industriais cresceram a produtividade sempre acima de 2% ao ano em média, já na categoria de serviços somente o setor de Transporte, Logística e Comunicação, todos os setores cresceram a menos de 2% ao ano em média.
Gráfico 4.3 – Crescimento da produtividade: média para a América Latina (%)
Fonte: GGDC. Elaboração própria.
No grupo de países desenvolvidos se observa a mesma tendência de crescimento das produtividades na indústria e na agricultura, com o diferencial que nos países latinos quem lidera o crescimento da produtividade é o setor industrial, ao passo que nos países desenvolvidos quem cumpre essa posição é o setor agrícola. Outro diferencial marcante é que nesse grupo de países a produtividade do setor de serviços não apresenta tendência de estagnação ou retração, apesar de crescer sensivelmente menos que nos outros setores o setor de serviços mais que dobra o passo em que aumenta sua produtividade.
Gráfico 4.4 Crescimento da produtividade: média em percentual para os países Desenvolvidos com três setores
Fonte: GGDC. Elaboração própria.
Essa visão agregada e tri-setorial revela para o grupo de países asiáticos as trajetórias mais dinâmicas. O primeiro ponto que se deve salientar é a magnitude do crescimento da produtividade nesse grupo de
países, mesmo nas atividades de desempenho mais fraco terminam o período com uma taxa acumulada de crescimento próxima de 6%, nível muito superior do que o verificado nos mesmos setores nos outros grupos de países, além disso, o setor industrial, que lidera o crescimento de produtividade também regista uma marca muito superior a verificada nos outros grupo, com cerca de 12% de crescimento acumulado.
Gráfico 4.5 Crescimento da produtividade: média em percentual para Ásia com três setores
Fonte: GGDC. Elaboração própria.
Nesses países o setor industrial se encontra isolado como líder na “corrida” pelo aumento da produtividade e, diferente do que ocorrido nos outros dos grupos o setor de agricultura não teve sua produtividade atrelada ao crescimento da produtividade industrial.
Certo aprofundamento sobre o caso específico do setor de serviços, objetivo principal desse trabalho, caberá nessa sessão, no gráfico abaixo o que se observa de mais notável é que a produtividade nesse setor, em termos absolutos, é muito discrepante em nível e também em taxa de crescimento. Enquanto somente quatro países – EUA, Grã-Bretanha, Japão e Espanha - atingiram níveis de produtividade superiores a 80 mil dólares a partir de meados de 1990, os demais sete países analisados em nenhum momento superaram a marca de 40 mil dólares por anos, menos da metade do observado nos outros países. Além dessa grande discrepância em nível, em diferença também se observa um grande distanciamento do grupo de países desenvolvidos, que quase dobram os valores médios para produtividade do trabalho no setor de serviços durante o lapso temporal analisado.
Gráfico 4.6 – Produtividade média do setor de Serviços por grupo de países (2005 US$ mil)
Fonte: UNCTADStat. Elaboração própria.
Percebe-se claramente no gráfico acima que o setor de serviços não é uniformemente improdutivo entre os diferentes países, essa observação é um importante passo para a validação da hipótese central desse trabalho. A observação do crescimento da produtividade no setor de serviços, mesmo que de maneira agregada, demonstra a disparidade entre os países; caminha-se nesse sentido um importante passo para corroboração da hipótese de que com a emergência do novo paradigma tecnológico o setor de serviços muda em relação ao seu perfil tradicional associado a improdutividade, todavia, ao que aparenta, esse movimento dinâmico no setor de serviços não foi experimentado de maneira uniforme por todos os países.
Ainda mais, dos grupos de países analisados, aparentemente a América Latina é o único em que o setor de serviços evoluiu de maneira regressiva, diminuindo sucessivamente seus níveis de produtividade, ao passo que no grupo dos países em desenvolvimento asiáticos, ou dos países já desenvolvidos esse setor esboçou um comportamento progressivo, ainda que com desempenho aquém dos registrados na manufatura.
Gráfico 4.7 – Crescimento médio da produtividade no setor de Serviços por grupo de países
Fonte: GGDC. Elaboração própria.
Doravante, a análise se aprofunda e revela como essa dinâmica é ainda mais complexa mais profunda é a desagregação setorial. Ou ainda, por mais reveladora e útil que seja a produtividade total de uma economia, se revela um indicador simplista quando posto contra uma análise que comtempla diferentes padrões inter-setoriais; por conseguinte, essa estrutura tri-partíte se mostra menos reveladora e contundente quando contrastada com um maior nível de desagregação. Logo, se supõe as vantagens de uma desagregação setorial ainda mais diversa, entretanto, que não satisfaria os objetivos aqui propostos. Nos próximos três gráficos serão realizadas desagregações da evolução da produtividade no interior do setor de serviços, que contará com uma subdivisão desse setor em suas quatro atividades componentes: 1) Comércio, hotéis e restaurantes, 2) Transporte, armazenamento e comunicação, 3) Finanças, seguros, imóveis e serviços de negócios e, 4) Serviços pessoais e comunitários.
Primeiramente, no caso dos países desenvolvidos, observa-se que o setor que liderou o crescimento da produtividade no setor de serviços foi aquele que mais diretamente se associa com a infraestrutura (2), enquanto, como era de se esperar, a atividade com desempenho mais estagnado é àquela associada diretamente aos serviços entendidos como
tradicionais (4). Uma constatação que deve ser feita é o fraco desempenho relativo às atividades que, em tese, concentrariam os serviços mais diretamente ligados ao novo paradigma tecnológico (3); essa observação se coloca contrária a hipótese do trabalho, de que essas atividades concentram o núcleo mais dinâmico do setor de serviços frente ao novo paradigma ICT, todavia, uma justificativa consistente para essa divergência é que esse nível de desagregação não dá conta das especificidades dessas atividades, e ilhas de alta produtividade podem estar escondidas nesses resultados devido a sua pequena participação em relação as outras atividades.
Gráfico 4.8 – Crescimento médio da produtividade nas atividades de Serviços nos países Desenvolvidos
Fonte: GGDC. Elaboração própria.
Para o caso dos países latino-americanos a observação dos resultados vem de encontro com a teoria economia que suporta e da origem a hipótese desse trabalho, bem como revalida as conclusões prévias já esboçadas anteriormente nesse capítulo. É marcante para esse grupo de países a estagnação e comportamento regressivo da produtividade no setor de serviços, já a partir de meados da década de 1970. O único setor que não segue tendência declinante é o setor que se associa mais diretamente ao perfil da estrutura produtiva desses países, qual seja, uma estrutura produtiva especializada na exportação de produtos intensivos em recursos naturais.
Gráfico 4.9 – Crescimento médio da produtividade nas atividades de Serviços na América Latina
Fonte: GGDC.
Por fim, o grupo de países asiáticos mais uma vez se destacam pelo dinamismo e pelo alto nível de crescimento da produtividade; para esses países, mesmo a atividade mais estagnada do setor de serviços teve desempenho superior as três atividades menos dinâmicas dos países latino-americanos. Além disso, em indicio claro a corroboração da hipótese dessa pesquisa, o setor (3) apresenta, conforme o esperado um bom desempenho, indicando um bom engajamento desses países ao suposto novo perfil das atividades de serviços que surgem com a emergência do novo paradigma tecnológico.
Gráfico 4.10 – Crescimento médio da produtividade nas atividades de Serviços na Ásia
Esses resultados cumpriram o papel de esclarecer a longa onda de mudança pela qual os diferentes países enfrentaram na segunda metade do século passado. Tais resultados permitiram algumas conclusões, bem como, suscitaram alguns questionamentos mais profundos. Na seção seguinte se explora o argumento da heterogeneidade estrutural, caro a teoria estruturalista, e potente para explicar como os níveis de diversificação/especialização em uma estrutura produtiva podem impactar sobremaneira a mudança estrutural e o desenvolvimento de longo prazo.