2.2 TEORIA INSTITUCIONAL
2.2.2 Mudança institucional
Dando continuidade à evolução do conceito de institucionalização, chega-se à mudança institucional, item que desmistificou a ideia de que as instituições eram somente utilizadas para explicar a persistência e a estabilidade.
Alguns estudos sobre os estímulos para a mudança institucional foram desenvolvidos como o de Flingstein (1991), que analisou a transformação estrutural da indústria americana, identificando a existência de quatro mecanismos que promovem ou inibem as mudanças, sendo eles: o papel da estratégia e estrutura existentes e a distribuição do poder de inibir a mudança e promover a inércia; turbulência nos campos organizacionais, onde atores, com interesses baseados em suas posições na corporação, podem articular novas estratégias e possuem poder para implementá-las; o papel das novas organizações entrando num campo já existente, dando exemplo a outras organizações; e as forças institucionalizadoras.
Como resultados, o autor verificou que as empresas alteraram suas estratégias porque os atores que visualizam as novas estratégias possuem poder para implementá-las ou então, porque outras firmas no campo atuavam como modelos de papéis, permitindo, assim, que os atores realizassem as mudanças. O autor aponta, ainda, que só os choques no campo organizacional não eram suficientes para desencadear a mudança; entretanto, se forem interpretados pelos atores, há possibilidade de ocorrerem mudanças.
Já o estudo de Brint e Karabel (1991) analisou o poder estrutural como fonte de mudança institucional. Destacam a capacidade de uma organização de influenciar o comportamento de outra, sem nenhuma interferência direta, nesse sentido considerando o campo organizacional como “[...] arenas de relações de poder" (BRINT; KARABEL, 1991, p.
355). Nesse estudo, esses autores verificaram o deslocamento de razões técnicas para razões
institucionais durante a mudança institucional.
Galaskiewicz (1991) aponta que, para estudar a construção de uma instituição, deve-se observar que a construção de instituições não é restrita ao setor público, que os eventos de constituição dessa instituição devem ser observados num contexto histórico e que a ordem social micro (preferências, capacidades, expectativas individuais) e macro (papéis, sistemas de incentivo, sistemas de crenças e ideologias) devem ser analiticamente distinguidas.
Galaskiewicz (1991) sugere que para analisar a construção de instituições deve-se descrever os estágios de desenvolvimento, identificar os processos sociais subjacentes que resultam na mudança institucional e os papéis que as estruturas sociais desempenham como facilitadoras ou dificultadoras da mudança e utilizar uma abordagem normativa.
Lelebici et al. (1991) apontam que uma das possíveis razões para a mudança é que o sucesso das instituições cria condições que motivam as mudanças, mas, no momento em que os recursos necessários para a conformidade se tornam escassos, alguns atores podem ter de adotar outras práticas, para poderem continuar com suas atividades.
Greve (1995) explorou a questão do abandono de estratégia, tendo como amostra as estações de rádio americanas. O autor argumenta que o abandono é tido como o fim de uma atividade ou de características estruturais de uma organização. No estudo desenvolvido por ele, o abandono de estratégia é normalmente um evento de substituição, em que a nova estratégia substitui a antiga.
Holm (1995), analisando as interconexões entre os níveis práticos e políticos de ação, constatou que a mudança institucional é a reestruturação dos campos organizacionais nos quais novas relações entre os diferentes níveis de ação são estabelecidas. Para ele, uma modificação institucional pode ocorrer por meio da organização de um grupo de interesse.
Nesse sentido, novas práticas implantadas no primeiro nível, prático, podem desencadear a formação de uma nova constelação de poder no segundo nível, político e, então, fundamentar o início de uma mudança institucional. O autor defende que, na maioria das vezes, a mudança começa por forças endógenas, as quais vão repercutir em locais não esperados.
Hoffman (1999) analisou as mudanças ocorridas no campo organizacional formado pelo corporativismo ambiental. Esse autor utilizou como constructos centrais os pilares cognitivo e normativo para analisar a evolução institucional.
O campo organizacional, no estudo em questão, forma-se em torno de um assunto específico, que é importante para os interesses e objetivos de um grupo de organizações, unindo diferentes constituintes do campo com propósitos divergentes, ou seja, o campo é o centro de um canal comum de diálogo ou discussão (HOFFMAN, 1999, p. 353). Esse autor
ilustra a afirmação anterior com o exemplo que segue: "[...] embora ambientalistas e indústrias químicas possam ocupar um campo organizacional comum, através do qual eles influenciam um ao outro, seria incorreto afirmar que eles compartilham as mesmas crenças e atitudes em relação ao ambiente".
Como forma de análise do campo, esse autor aponta que três aspectos devam ser observados: o aumento da frequência de interação entre as organizações; o aumento de compartilhamento de informações; e o desenvolvimento de uma consciência mútua de que eles estão envolvidos num debate comum.
Dacin, Goodstein e Scott (2002) apontam que, antes da introdução da mudança institucional na análise, o potencial da teoria institucional não estava sendo completamente explorado. Nesse sentido, esses autores apontam que as instituições mudam no tempo, não só de modo amplamente aceito, mas que possui particularidades que, também, podem ser por vezes contestadas. Para eles, as instituições servem “[...] tanto para estimular a mudança fortemente e para moldar a natureza da mudança entre os níveis e contextos, assim como elas (as instituições) também mudam em termos de caráter e potência no tempo” (DACIN, GOODSTEIN; SCOTT, 2002, p. 45).
Destacamos três pontos essenciais para a compreensão da mudança institucional: (a) quais são as forças os estímulos para a mudança institucional; (b) qual é o papel da agência e da necessidade de legitimidade; e (c) como ocorre o processo de desinstitucionalização e surgimento de novas formas organizacionais.
Machado-da-Silva (2003, p. 14) considera a hipótese de sistemas institucionalizados serem questionados em decorrência da adequação de práticas e procedimentos às exigências ambientais, o que pode levar a um "[...] processo de deteriorização gradual de aceitação e uso de práticas institucionalizadas". Esse apontamento destaca a possibilidade de mudanças num ambiente institucionalizado, a partir do momento em que a interpretação sobre o significado de determinadas práticas vai sendo modificado e com isso demandando algo que a substitua.
Sendo assim, percebe-se que as instituições, assim como elas modificam o ambiente, também podem ser modificadas por ele, inserindo a mudança como um elemento da institucionalização.
A análise dos estudos anteriores reforça a visão processual e dinâmica da institucionalização, bem como da desinstitucionalização. Assim, constitui-se um cenário em que diversas organizações estão envolvidas em torno de um tema comum, formando um campo organizacional (HOFFMAN, 1999). A partir disto, há diversos interesses envolvidos, o que configura o caráter limitador, como também estimulador de mudanças, característico das
instituições (DACIN, GOODSTEIN; SCOTT, 2002). Uma vez que se tem um grupo de atores que se encontram dentro de um campo organizacional, porém que podem fazer diferentes interpretações do mesmo (FLINGSTEIN, 1991), com base em sua necessidade para atuação, é estabelecida a dualidade entre estrutura e ação, cuja predominância dos consensos será estabelecida por um processo intersubjetivo.
Essa intersubjetividade ou cognição compartilhada será analisada com base na lógica institucional construída nesse campo, durante a interação entre os atores e num dado período de tempo. A lógica institucional, nessa direção configura a cognição do campo organizacional, que por sua vez é formada pela interação entre os múltiplos atores envolvidos com o tópico em discussão.
Para ampliar esse quadro de análise, apresenta-se no próximo item, a lógica institucional para elucidar a proposta de análise desse estudo.