CAPÍTULO I: ASPECTOS GERAIS
3.2 MUDANÇAS CLIMÁTICAS E O CARBONO
As mudanças climáticas são definidas como alterações de longo prazo no clima de uma determinada localidade, região ou do planeta como um todo (IPCC, 2013). O clima da Terra tem variado significativamente ao longo de seu passado geológico, apresentando momentos com temperaturas inferiores as atuais durante as Glaciações e outros momentos em que a temperatura foi superior as registradas atualmente. Essas variações foram causadas por alterações nos ciclos do Sol, atividade vulcânica e por variações na concentração dos Gases de Efeito Estufa (GEEs) na atmosfera (McBEAN et al., 2001).
A partir de épocas mais recentes, especialmente desde a Revolução Industrial iniciada no século XVIII, além das forças naturais, um fator adicional entrou em cena, capaz de perturbar o delicado equilíbrio que determina o clima no planeta. Através de suas atividades, o Homem assume, atualmente, uma posição de influência sobre o clima, não apenas regionalmente, mas sim, num contexto global. Dentre as maiores causas que levaram às alterações no clima relacionadas às atividades humanas está o robustecimento do fenômeno
do Efeito Estufa, devido ao aumento na concentração dos GEEs na atmosfera terrestre (EVEREST, 1989).
O Efeito Estufa aquece a superfície terrestre a partir da radiação advinda do Sol e o balanço energético do processo é mantido através da emissão de ondas longas, na forma de radiação termal, da superfície terrestre de volta à atmosfera. Alguns gases, como o dióxido de carbono (CO2), o metano (CH4), o óxido nitroso (N2O), os clorofluorcarbonos (CFCs), o ozônio (O3) e até mesmo o vapor de água (H2O) presentes na atmosfera, promovem uma forte absorção da radiação termal e a emitem novamente em direção à superfície terrestre (EVEREST, 1989). Segundo a National Aeronautics and Space Administration (NASA), este processo contribui para que a temperatura média da Terra seja em torno de 30°C mais quente, se comparada na ausência da atmosfera (NASA, 2009).
Dentre os GEEs, o dióxido de carbono (CO2) configura entre um dos principais responsáveis pelo aquecimento global. A sua emissão é decorrente da queima de combustíveis fósseis, tais como carvão, petróleo e gás, desmatamento e degradação do solo devido a práticas agrícolas impróprias (BACH, 1985).
Conforme Rogner et al. (2007), medidas diretas e indiretas do CO2 confirmam um aumento de aproximadamente 100 ppm (36%) na concentração desse gás na atmosfera nos últimos 250 anos. A concentração de CO2 passou de 275-285 ppm na era pré-industrial (1000-1750 D.C) para 379 ppm em 2005. Metade desse acréscimo ocorreu ao longo de mais de 200 anos, e a partir da década de 1970 este avanço tornou-se ainda mais expressivo, atingindo desde então, até 2005, o restante do acréscimo observado, ou seja, 50 ppm em apenas 30 anos.
Estudos com base em reconstruções do clima passado e nas concentrações de CO2
aprisionado em camadas de gelo nos polos da Terra, têm demonstrado uma correlação direta entre o aumento na concentração de carbono atmosférico e o aumento na temperatura média global. Embora as metodologias utilizadas para a estimativa destes parâmetros passados sejam questionadas (ETHERIDGE et al., 1996, LEROUX, 2005; FLORIDES e CHRISTODOULIDES, 2008) e haja falta de consenso sobre a capacidade de uma única temperatura média global ser capaz de representar fidedignamente as alterações climáticas ao longo do tempo (ESSEX; McKITRICK, 2006), a comunidade científica, em geral, concorda que as alterações recentes no clima são decorrentes das atividades antropogênicas (HEGERL et al., 2006), que envolvem, além da emissão acentuada de CO2, outros fatores decorrentes da industrialização e urbanização do planeta.
A elevação nos níveis de CO2 na atmosfera e as consequentes mudanças climáticas de amplitude global, têm aumentado consideravelmente a preocupação com o balanço do
carbono em ecossistemas florestais (BERT; DANJON, 2006). Tendo em vista a grande importância desses ecossistemas no ciclo do carbono, os mais diversos estudos passaram a ser desenvolvidos com o intuito de melhor compreender o papel das florestas diante desse novo desafio mundial.
O balanço global do CO2 é fortemente influenciado pelas florestas, uma vez que essas são capazes de absorver e armazenar esse composto em diversos componentes, como na biomassa das árvores, no sub-bosque, na serapilheira e no solo. Diferentes tipologias florestais possuem capacidades distintas de armazenar carbono em função dos diferentes estágios de sucessão, idade, regime de manejo, composição florística e teor de carbono nos componentes das diferentes espécies (WATZLAWICK et al., 2004).
Entretanto, a participação das florestas no ciclo do carbono ainda não é totalmente compreendida devido à grande complexidade desses ecossistemas. Porém, estima-se que as florestas em geral, quando conservadas ou manejadas sustentavelmente, são capazes de absorver cerca de 16% do carbono atmosférico, acumulando-o em seus diversos componentes (GRACE et al., 2001).
Apesar da importância da Mata Atlântica para o ciclo de carbono, estimativas sobre os estoques de biomassa e carbono nessas florestas ainda carecem de aperfeiçoamento, considerando-se que o setor “mudanças no uso da terra e florestas” têm sido historicamente o maior responsável por emissões de gases de efeito estufa no Brasil, embora recentemente tenha havido redução significativa nas emissões, especialmente em função da diminuição do desmatamento (BRASIL, 2013).
Ainda assim, são necessárias estimativas baseadas em modelos com menor incerteza para o setor, necessitando de estudos aprofundados, visto que estimativas de emissões e absorção em setores que envolvem componentes biológicos são as mais complexas e precisam de métodos adequados que garantam a sua credibilidade (OGLE et al., 2015).
Considerando a importância das florestas para os processos de absorção e acúmulo de carbono na biomassa, a definição da distribuição espacial e temporal da biomassa florestal permite avaliar como as áreas florestadas respondem aos impactos humanos e às condições ambientais (ASNER et al., 2010; SAATCHI et al., 2007).
Portanto, avaliar o avanço ou retração da cobertura florestal em função de processos de recuperação ou desmatamento, respectivamente, possibilita a compreensão da dinâmica entre fontes e sumidouros do carbono atmosférico (ECKERT et al., 2011). Nesse contexto, estimativas da biomassa e carbono em escala regional e global têm sido feitas por meio da combinação de dados de campo com o sensoriamento remoto (DOUBRAWA, 2013;
WATZLAWICK et al., 2009; FREITAS et al., 2005), embora ainda haja poucos estudos com este enfoque na Mata Atlântica e as estimativas geradas ainda carecem de aperfeiçoamentos.