2.1 Terceiro setor
2.1.2 Mudanças no campo das ONGs
A economia mundial vem passando por inúmeras mudanças, as quais se manifestam em contradições e transformações no âmbito das organizações. Essas mudanças provenientes da globalização do mercado e pelo uso descontrolado da tecnologia têm trazido novos níveis de exigências, questionamento dos valores e maior competição no ambiente organizacional que, cada vez mais, torna-se mais complexo e imprevisível.
Organizações de todos tipos e de todas as nações têm sofrido, de alguma forma, esse intenso dinamismo mercadológico. As do Brasil são retrato fiel desse quadro, pois estão constantemente buscando alternativas para superar os desafios do ambiente globalizado. Neste cenário de vulnerabilidade, até as organizações do Terceiro Setor, notáveis pela promoção de ações sociais, não conseguem se sobressair das atuais pressões do ambiente. Conforme afirma Mulhare (1999), as ONGs são vulneráveis às mesmas mudanças ambientais que geram impacto nas organizações lucrativas. As exigências do mercado chegam com força a essas organizações, de tal forma que preocupam os que se debruçam sobre os problemas históricos por elas enfrentados, a pôr em risco o desempenho e a vida dessas organizações sociais. Em face do contexto atual, é inevitável a mudança para as ONGs e evidente a necessidade de se reestruturarem interna e externamente para garantir a sua sobrevivência (ARMANI, 2002).
O contexto onde atuam as ONGs vem passando por inúmeras mudanças, as quais resultam em novos desafios à sobrevivência dessas organizações quanto ao seu desenvolvimento institucional. Armani (2002, p. 1) foi um dos que mapeou alguns campos onde mudanças substantivas modificaram o contexto na qual se movimentam as ONGs brasileiras. O primeiro é o campo do contexto sócio-econômico representado pela aprovação da Constituição Federal de 1988, acompanhada pela introdução de políticas neoliberais, do incentivo às parcerias de governos estaduais e municipais com as ONGs e a estratégia de Reforma do Estado que transferiu ao Terceiro Setor parte substancial dos serviços sociais.
O segundo campo de mudança é o da nova configuração das relações de cooperação internacional justificado pela redução da cooperação governamental e das contribuições do público em geral, a qual tem originado mais dificuldades às ONGs em termos da necessidade de maior visibilidade, formas de ação e implementação de sistemas de planejamento e gestão. É sabido que antes as ONGs não costumavam utilizar técnicas e funções administrativas em suas atividades. No entanto, os novos desafios enfrentados, principalmente pela escassez de recursos, vêm levando essas organizações a buscarem freqüentemente desenvolver ações estratégicas em busca de fortalecimento institucional e sustentabilidade.
Segundo Souto Maior et al (2000, p. 90), atualmente a forma tradicional e o formato de planejar dessas organizações não atendem mais às necessidades do mercado externo. Neste sentido, a sobrevivência dessas organizações está vinculada aos ajustes organizacionais de acordo com o cenário no qual estão inseridas, e principalmente à adoção do planejamento organizacional, tendo em vista assegurar o futuro da organização.
Frente ao quadro de novas exigências, torna-se indispensável a adoção de práticas gerenciais para realizar os objetivos almejados. Tenório (2000, p. 15) assinala que, para superar esses desafios à sua existência administrativa, as ONGs precisam pensar em adotar novos instrumentos e atitudes que assegurem o cumprimento dos objetivos institucionais.
O resultado do trabalho de Bezerra (2002, p. 14) permitiu visualizar que a sustentabilidade da ONG estudada, por depender estrategicamente de donativos públicos e internacionais, pode vir a ser comprometida, caso não sejam adotadas estratégias que permitam captar novos investimentos, para que possa dar prosseguimento à efetivação de seus objetivos sociais.
Como é sabido, a superação dos novos desafios dessa era globalizada permeia a constante necessidade dessas organizações adquirirem habilidades para atender e se
adaptarem às novas exigências do novo cenário. Neste sentido, as ONGs encontram como alternativas, frente aos novos desafios, a utilização das práticas administrativas do setor lucrativo para o cumprimento dos seus objetivos institucionais.
Em recente estudo, Diniz (2000) corrobora essa afirmação ao constatar que, para garantir a sobrevivência institucional, as ONGs estudadas têm vivenciado ajustes organizacionais baseados na lógica de mercado, sendo que tais ajustes são entendidos como mudanças ocorridas na estrutura organizacional e indicam a utilização, por elas, das modernas práticas administrativas das empresas do setor lucrativo.
Souto Maior et al (2000, p. 90) justificam essa utilização como vital para as ONGs, ao expressarem que o formato tradicional dessas organizações não atende tão bem às suas necessidades, cabendo-lhes incorporar mudanças adequadas à suas características, principalmente quando se trata do planejamento de suas atividades, pois este mecanismo é crucial para suas decisões futuras. Estão elas inseridas na mesma dinâmica de mercado e enfrentando as mesmas exigências do setor privado lucrativo, tais como mostrar eficácia e eficiência nas suas atividades, além de angariar maior visibilidade. É natural que as ONGs, confinadas aos restritos caminhos para adaptabilidade ao novo contexto copiem as práticas utilizadas pelas organizações em geral, sobretudo as apegadas ao ideal de sobrevivência e de sustentabilidade. Na opinião de Reis (1999) apud Souto Maior et al, (2000, p. 92)
(...) já existe um corpo bastante extenso em administração e muito esforço pode ser economizado se os membros das organizações do Terceiro Setor - em particular seus dirigentes - se dedicarem a estabelecer procedimentos a partir da teoria existente.
Embora sejam ressaltadas as diferenças dos aspectos institucionais das ONGs, estas têm sentido as mesmas dificuldades enfrentadas pelas organizações de fins lucrativos, na busca da sustentabilidade. Corroborando essa afirmativa, Armani (2002) enfatiza que a busca da sustentabilidade das ONGs tem implicado: a) na introdução de aperfeiçoamento técnico com vista a maior eficiência e eficácia; e b) na necessidade de novas parcerias e canais de sustentação institucional. No que diz respeito à introdução das técnicas de aperfeiçoamento,
busca-se atender às exigências da sociedade e dos financiadores, que pedem maior representatividade, melhor eficiência e eficácia organizacional, além de demonstração de desempenho das atividades (ARMANI, 2002), bem como transparência e responsabilidade, assim evitando ter que abandonar o campo onde atuam (REILLY, 1999). Para estabelecer uma dinâmica capaz de atender as demandas dos seus stakeholders, as organizações vêem o planejamento estratégico como ferramenta propulsora de desenvolvimento organizacional. Como assegura Oster (1995), o uso do planejamento estratégico é imprescindível porque proporciona a definição e a forma sistemática dos caminhos para sobrevivência e crescimento da organização.