JOEL SOUZA DUTRA
7. Mudanças nos paradigmas da gestão e do trabalho
Os novos tempos devem ser os espectadores do aprofundamento das alterações nos processos de produção e circulação de mercadorias, produtos e serviços, com a
aplicação intensiva da ciência e da tecnologia, orientada pela acumulação de capital cada vez mais flexível e mundializada. Assim, os padrões de gestão das empresas devem buscar maior flexibilidade, competitividade, inovação, conhecimento e redução de custos para desenvolver os negócios. Contudo, tanto as empresas quanto outras organizações sociais encontrarão dificuldades de desenvolvimento devido a problemas sociopolíticos que poderão criar limites enormes no que se refere à dimensão da demanda.
Curiosamente, no interior dessa “nova” ordem nunca se falou tanto em pessoas, gestão de pessoas, competências e talentos pessoais e organizacionais, aprendizagem, ética e responsabilidade social. Tudo indica que, no âmbito do novo paradigma de gestão das organizações, ocorre um conjunto de ações inovadoras e destrutivas de processos, modos e estruturas de trabalho anteriores, articuladas com um complexo de justificativas morais e sociais para firmar no nível subjetivo, ou mesmo superestrutural e ideológico, a dominância do tal paradigma.
Nessa “nova” ordem, muitos são os efeitos e os desafios para os trabalhadores e para as relações de trabalho em qualquer canto do mundo. A objetividade e a subjetividade do trabalho foram afetadas profundamente. Assim, alteraram-se tanto as 128
práticas de trabalho, redefinindo-se as condições, o ambiente, o mercado, o perfil das ocupações, o emprego e a renda, quanto as identidades políticas e ideológicas do
trabalho, as imagens e o próprio sentido do trabalho e as relações entre capital e trabalho em cada organização, nas cadeias produtivas e na sociedade.
A nova realidade, sintetizada na figura do trabalhador hifenizado (trabalho-parcial, trabalho-temporário, trabalho-casual, trabalho-por-conta-própria, trabalho- em-casa etc.), vem acompanhada, em geral, da precarização e degradação das condições de trabalho e renda. A expansão da força de trabalho ferfiinina está relacionada com tal figura e tem sido alvo de maior exploração e desvalorização nos setores industriais e de serviços. Acentuam-se as dificuldades de ingresso dos mais jovens e de permanência dos mais
velhos nos mercados de trabalho. Quadros técnicos, gerentes e executivos de empresas, como os demais assalariados, em suas diferenças, vivem situações de instabilidade semelhantes. No setor público, a privatização, o controle dos gastos públicos e o arrocho salarial têm provocado constantes ameaças às condições de vida e trabalho do
funcionalismo, apesar dos mecanismos legais e corporativos de proteção. Enfim, a heterogeneidade, a fragmentação e a complexidade do mundo do trabalho combinam-se com o aumento da insegurança, da instabilidade e do estresse nesse campo.
As organizações sindicais e os partidos políticos, outrora atuantes na defesa econômica e política dos trabalhadores, não estão conseguindo manter o poder de intervenção
conquistado, o que aumenta cada vez mais os flancos do trabalho.
As empresas privadas, agentes e pacientes do acirramento da competição, promovem com maior velocidade a destruição criativa de processos, estruturas, tecnologias
organizacionais e postos de trabalho. Os efeitos práticos disso são mudanças velozes nas cadeias produtivas e de serviços com a emergência de novos setores e a obsolescência dos antigos. Alguns exemplos podem ser mencionados para ilustrar esse processo: >a Amazon, maior empresa do mundo de comércio virtual, adquiriu uma carteira de clientes de 10,7 milhões em quatro anos de vida, enquanto as tradicionais redes brasileiras de lojas Mappin e Mesbla quase se extinguiram não fossem os arranjos de aquisição por um grande grupo varejista;
>a Brastemp, do grupo Multibrás, fechou as portas de suas fábricas no ABC, liquidando mais de mil postos de trabalho, e se instalou em Joinville.
Os governos dos estados, envergonhados e oscilantes na desmontagem do bem-estar social, sentem-se pressionados pelos mercados competitivos e, contraditoriamente, atuam na manutenção e na desestruturação da ordem social e institucional construída no passado recente.
O terceiro setor, composto de organizações não-lucrativas e não-governamentais, apesar do crescimento e da relevância na promoção de ações sociais, comunitárias e coletivas diversas (ver a título de exemplo estudo de Rifkin, de 1995, sobre o fim do emprego e a instigante discussão sobre o terceiro setor como a aurora pósmercado e suas
possibilidades de elaboração de um novo contrato social), apresen- 129
ta limites organizacionais, estruturais e financeiros e procura compensar
fragmentariamente, com base na iniciativa privada e social, as lacunas deixadas pelo mercado e pelo Estado nas esferas culturais, sociais e ambientais, essenciais à qualidade de vida das pessoas.
Os novos paradigmas do sistema capitalista comprimiram tempo e espaço dentro da lógica maníaca de busca de resultados e desempenho. Em outros termos, aprofundou-se a contradição entre a racionalidade, baseada no avanço do conhecimento, da ciéncia e da tecnologia, e a irracionalidade, baseada na perda de controle pessoal dos processos, ocasionando o aumento do risco e da insegurança sociais. Nesse contexto, toma-se difícil imaginar a manutenção de sistemas de relações de trabalho, o que paradoxalmente ameaça a ordem geral da sociedade, outrora fundada no trabalho, pois não se sabe se está preparada para uma desestruturação dessa magnitude.
Observe-se passagem lapidar de Sennett (1999), que aborda a preocupação com a corrosão geral do caráter e dos impactos da flexibilidade na vida social contemporânea: A cultura da nova ordem perturba profundamente a auto-organização. Pode separar a experiência flexível da ética pessoal estática […], pode separar o trabalho fácil, superficial,
da compreensão e do empenho […], pode tornar o constante correr riscos um exercício de depressão. […] A mudança irreversível e múltipla, a atividade fragmentada podem ser confortáveis para os senhores do novo regime, […] mas podem desorientar os servos do regime. E o novo ethos cooperativo do trabalho em equipe instala como senhores os “facilitadores” e “administradores de processo”, que fogem ao verdadeiro compromisso com seus servos. Quer dizer que o antes era melhor?
Nenhum de nós poderia desejar o retomo da segurança — […] era claustrofóbica […] —, seus termos de auto-organização eram rígidos. Numa visão de longo prazo, embora a conquista de segurança pessoal servisse a uma profunda necessidade prática e psicológica no capitalismo moderno, essa conquista custava um alto preço. Uma debilitante política de antigüidade e direitos por tempo de serviço governava os
trabalhadores sindicalizados […]; continuar esse estado mental hoje seria uma receita de autodestruição nos atuais mercados e redes flexíveis. O problema que enfrentamos é como organizar as histórias de nossas vidas agora, num capitalismo que nos deixa à deriva.