O DESAFIO DA SOCIEDADE DO CONHECIMENTO E DA GLOBALIZAÇÃO
3 A resposta da educação superior
3.2 Mudanças objetivas: dos conhecimentos às competências
Conforme vimos anteriormente, no modelo pedagógico da universidade tradicional, especialmente em países com um modelo napoleônico, os conhecimentos, especialmente os teóricos, são o aspecto sobre o qual se dá maior ênfase no sistema educativo superior. Entretanto, tudo indica que as necessidades do novo contexto educacional superior exigem, além dos conhecimentos, a formação de indivíduos num conjunto amplo de competências que incluam não só os conhecimentos mas também as atividades e as atitudes que são requeridas nos postos de trabalho.
O conjunto de todas as qualificações que necessita um trabalhador para ocupar adequadamente um posto de trabalho é adquirido, atualmente, sob termo de competências. A definição que os espe-cialistas dão a este termo é a seguinte: “Uma pessoa tem competência
ocupacional se possui os conhecimentos, as destrezas e as aptidões que necessita para desenvolver-se em uma ocupação, se é capaz de resolver tarefas independentes e flexivelmente e se tem a vontade e a capacidade de desenvolver sua esfera de trabalho dentro da estrutura organizacional na qual está inserido” (Bunk, 1994; p. 9). O seguinte
quadro, adaptado de Bunk (1994) resume as diferentes dimensões que constituem o conceito de competência.
Na pesquisa, aqui citada anteriormente, perguntava-se também aos diplomados europeus que valores davam às competências requeridas em sua área de trabalho e, também, em que medida haviam adquirido essas mesmas competências, quer durante os estudos ou durante o tempo que estavam trabalhando. A Tabela 3 mostra a valoração que os graduados europeus faziam das competências requeridas por seus campos de trabalho. Como se pode observar, todas se referem a atividades e atitudes, tais como, ser capaz de realizar o trabalho independentemente; ser capaz de resolver problemas; ter capacidade de comunicação oral; ser capaz de assumir responsabilidades; saber administrar o tempo; saber planejar; ter
Competências
especializadas metodológicas Competências Competências sociais Competências participativas Conhecimento Destrezas Habilidades Flexibilidade Sociabilidade Modos de conduta Participação - Interdisciplinares - Específicos - Estendidos vertical e horizontalmente - Métodos de trabalho - variáveis - Pensamento independente - Adaptabilidade - Vontade de flexibilidade e adaptabilidade - Atitude positiva frente ao trabalho - Vontade de cooperar, de jogo limpo - Vontade de ajudar; espírito de equipe - Capacidade de coordenar - Organizar - Persuadir - Tomar decisão - Assumir responsabilidades - Liderar
iniciativa, adaptabilidade e lealdade. Observa-se claramente, segundo as opiniões dos próprios graduados, que os postos de trabalho exigem um conjunto de habilidades que não são as que tradicionalmente preocupam, nem, portanto, se ensinam nos sistemas mais tradicionais de educação superior, especialmente nos modelos profissionalizantes como o espanhol.
TABELA 3
Valoração das competências requeridas (Indicador que considera valores de 1 a 5)
Trabalhar independentemente 4.3
Habilidade para resolver problemas 4.3
Habilidade na comunicação oral 4.3
Trabalhar sob pressão 4.3
Assumir responsabilidades, tomar decisões 4.2
Trabalhar em equipe 4.2
Administração do tempo 4.1
Firmeza, resolução, persistência 4.1
Exatidão, atenção ao detalhe 4.1
Planejamento, coordenação e organização 4.1
Iniciativa 4.1 Adaptabilidade 4.1
Envolver-se pessoalmente no trabalho 4.1
Lealdade, honestidade 4.1
Habilidade na comunicação escrita 4.1
FONTE: Elaboração própria com dados da pesquisa CHEERS.
Baseada nos dados da mesma pesquisa, a Tabela 4 mostra as diferenças entre os valores exigidos e os adquiridos das competências, ordenadas pela maior ou menor diferença entre o valor exigido e o adquirido (para ressaltar as tendências mais relevantes, somente foram incluídas as competências que aparecem nos dois extremos de uma longa lista). Uma vez mais observamos que os déficits nas competências dos graduados universitários estão relacionados com habilidades e atitudes, enquanto que os graduados manifestam que existe um excesso de competências em conhecimentos gerais e em
conhecimentos teóricos. Afortunadamente, uma habilidade tão importante como é a capacidade de aprendizagem parece que está também bem assimilada pelos graduados. A outra competência na qual os graduados mostram também superávit é, curiosamente, o domínio de idiomas estrangeiros. Nem o valor requerido, nem o valor adquirido são excessivamente altos, o que demonstra que a utilização de idiomas estrangeiros na Europa é ainda muito menor do que se supõe.
TABELA 4
Valoração das competências mais e menos exigidas, com a valoração do nível em que têm sido exigidas e a diferença entre os dois valores
(Indicador que considera valores entre 1 e 5)
Adquiridas Exigidas Diferença
Capacidade de negociação 2.6 3.7 -1.1 Planejamento, coordenação e organização 3.1 4.1 -1.0 Assumir responsabilidades, tomar decisões 3.4 4.2 -0.9 Administrar o tempo 3.3 4.1 -0.8 Trabalhar sob pressão 3.5 4.3 -0.8 Raciocinar em termos econômicos 2.8 3.5 -0.8
Liderança 2.8 3.6 -0.7
Habilidade para resolver problemas 3.6 4.3 -0.7 Habilidade na comunicação oral 3.6 4.3 -0.7 Amplo conhecimento geral 3.7 3.6 0.1 Conhecimento teórico do campo específico 3.8 3.7 0.1 Habilidade para aprender 4.2 4.0 0.2 Domínio de línguas estrangeiras 3.1 2.9 0.2
FONTE: elaboração própria com dados da pesquisa CHEERS.
Por último, a Tabela 5 mostra os resultados de uma regressão ordinária na qual a variável dependente era o salário dos graduados universitários e as variáveis explicativas eram um grupo selecionado de competências juntamente com um conjunto de variáveis de controle (características pessoais, posto de trabalho, estudos, etc.) que garantiram a validade estatística da análise. As competências que foram incluídas na análise apresentam-se nesta tabela ordenadas da maior para a menor influência sobre os salários. Os resultados confirmam, mais uma vez, a importância que o mercado de trabalho
está dando às habilidades e às atitudes dos graduados sobre a que dá aos conhecimentos. Segundo este estudo, as competências signi-ficativamente influentes no salário são: assumir responsabilidades, ser capaz de planejar, ser capaz de resolver problemas, ser capaz de trabalhar sob pressão e possuir habilidades de comunicação oral. O restante das variáveis, incluindo o conhecimento teórico e meto-dológico do campo específico no qual se formou o graduado, não parece influir nos salários. O certo é que os conhecimentos teóricos e metodológicos possivelmente sejam a condição necessária para a escolha do campo de trabalho que se ocupa, não podendo reduzir, por isso, a sua importância. O fato é que não são os conhecimentos que estabelecem a diferença salarial entre os graduados, mas suas atitudes e predisposição diante do campo de trabalho.
TABELA 5
Expressividade de uma seleção de competências em uma equação de salários t-stud
FONTE: Elaboração própria com dados da pesquisa CHEERS.
Todos estes resultados demonstram que os sistemas de educação superior, de algum modo, deverão preparar seus alunos nessas atitudes e habilidades demandados pela sociedade. Não é possível que os sistemas de educação continuem por mais tempo centrados na formação exclusiva de conhecimentos e, principalmente, de conhecimentos teóricos, quando as demandas da sociedade do conhecimento e o mercado de trabalho, no qual atuarão os graduados,
Assumir responsabilidades, tomar decisões 6.63
Planejar, coordenar e organizar 4.36
Ter habilidade para resolver problemas 4.02
Trabalhar sob pressão 2.14
Ter habilidade em comunicação oral 2.14
Trabalhar em equipe 1.62
Ter iniciativa 1.22
Ter pensamento crítico 1.01
Ter habilidade em comunicação escrita 0.84
Ter conhecimento metodológico no campo específico 0.49
exigem também a formação noutro conjunto mais amplo de competências (Valle, 2000; CINDA, 2004; Mora et al., 2005). É necessário transmitir os valores do mercado de trabalho ainda que, dada a grande diversidade de empregadores (públicos e privados, e dentro destes, de múltiplas tipologias) estes valores serão também generalizados. É preciso também transmitir os valores gerais relacionados com a cultura do trabalho: maior atenção ao ambiente de trabalho, maior ênfase aos novos estilos de gestão, maior ênfase aos aspectos culturais e humanos do processo produtivo.
A questão é como modificar os métodos de ensino para poder transmitir esses objetivos. Do ponto de vista de nossa análise, os métodos de ensino podem ser classificados em dois tipos: reativos e proativos. Nos primeiros, o professor atua e o aluno responde; nos segundos, o aluno atua enquanto o professor é, fundamentalmente, um guia. Os primeiros (classes teóricas e práticas, incluído laboratórios com práticas dirigidas) permitem ensinar conhecimentos e inclusive destrezas, mas não competências metodológicas, sociais ou par-ticipativas. Para formar nos segundos, são necessários mecanismos educativos distintos: seminários, aprendizagem interativa, técnicas de discussão, técnicas de apresentações, técnicas de tomadas de decisões, períodos de práticas em empresas, etc. É necessário introduzir métodos proativos que transmitam as competências das quais necessitarão os futuros trabalhadores (Mora, 1997). Nesses momentos, uma educação ativa que desenvolva as potencialidades individuais e sociais que o aluno necessitará no futuro, deveria ser o principal objetivo pedagógico das universidades e do ensino espanhol e europeu.
Convém assinalar uma questão importante que, embora apa-rentemente simples, produz mais confusão do que parece. A formação teórica é um conceito antagônico ao de formação prática, enquanto que formação geral é antagônica à formação especializada. Dá a impressão que, freqüentemente, se confunde formação prática com formação especializada. A necessidade de desenvolver muito mais a formação prática nos planejamentos de estudo não deve confundir-se com o desenvolvimento da formação especializada, pelo contrário, a formação em competências (entendidas num sentido amplo) exige desenvolver muito mais a formação geral que a formação específica. Evidentemente, uma formação geral que ao mesmo tempo seja uma formação prática na qual os alunos tenham a oportunidade não somente de saber muitas coisa como também de saber aplicá-las.
Finalmente, tem-se constatado (Teichler e Kehm, 1995) que, em muitos casos, o sucesso dos alunos depois dos estudos estão mais relacionados com as atitudes e ações dos próprios colegas, do que com o modo no que se provê a educação (programas, estilos docentes, etc.). De fato, a Tabela 2 mostrava que a relação com os colegas era um dos efeitos de sua experiência universitária mais valorizados pelos diplomados. Este resultado obriga a que as instituições levem em consideração, como algo importante, a organização de todos os tipos de atividades formativas que promovam os intercâmbios entre estudantes e destes com seu ambiente social e de trabalho.