FRANCISCO V IDAL LUNA
HERBERT S. K LEIN
As medidas econômicas adotadas durante o período de Getúlio Var- gas tiveram consequências marcantes e duradouras. Os governos que o sucederam aprofundaram muitas de suas políticas, mas en- frentaram as reivindicações das novas classes médias urbanas e a radicalização dos movimentos operários, fatores que em parte ex- plicam o golpe de 1964. Além disso, os militares foram claramente desafiados pela ascensão de líderes civis populistas, que imitavam Getúlio Vargas na forma de organizar e manipular o apoio popular. Apesar de os militares se oporem aos movimentos populares inicia-dos na época de Vargas, eles deram continuidade a seu projeto de
criação de um Estado industrial moderno. Embora as políticas prat- icadas de estímulo à economia tivessem criado sérios desequilíbrios a longo prazo, tais como déficit público, endividamento externo e in- flação, foi durante o período militar que se lançaram as bases funda- mentais de transformação do Brasil no líder industrial da América Latina. Esse período também significou uma etapa importante na consolidação do mercado interno, estimulado pela industrialização e por inúmeros programas destinados a proteger a produção nacional e aumentar a escala de produção, particularmente de bens de con- sumo durável. O processo resultou na criação do mercado de massas e na consolidação da classe média, que representava uma contra- partida à força da classe trabalhadora em expansão.
Além disso, os governos militares representaram uma fase de profundas mudanças sociais. A rápida industrialização e a intensa
urbanização provocaram o mais intenso processo de mobilidade so- cial da história brasileira, com o surgimento de uma nova elite in- dustrial e gerencial, a partir de uma sociedade ainda agrícola e com baixo padrão educacional. A industrialização também resultou em
intensas migrações das áreas pobres para as zonas mais ricas do Brasil, com rápido e desordenado crescimento das regiões metropol- itanas. A incapacidade de atender de forma adequada à forte de- manda por habitação e saneamento explica parte dos assentamentos precários encontrados ainda hoje na periferia das grandes cidades brasileiras.
Por outro lado, os governos militares, pela necessidade de mel- horar a qualidade da mão de obra e como forma de obter o apoio da classe média emergente, promoveram forte aumento na oferta de educação primária e secundária, e expandiram o ensino técnico e tecnológico de forma significativa. Além disso, e talvez como com- pensação às políticas de arrocho salarial, realizaram grandes avanços no sistema de assistência social, tanto nos serviços de saúde quanto no sistema de aposentadorias e pensões. Embora não suficiente para atender ao vertiginoso crescimento da demanda, o regime militar também implantou um ambicioso programa de saneamento e habit- ação, por intermédio do Banco Nacional da Habitação (BNH). De fato, embora baseado em um modelo tecnocrático e autoritário, o período militar marcou a consolidação de um moderno sistema de bem-estar social.1
Paralelamente, ocorriam transformações dramáticas na estru- tura demográfica da população brasileira. No início do regime, ainda persistiam sinais da estrutura tradicional, com taxas de fertilidade e mortalidade elevadíssimas e baixa expectativa de vida, se comparada aos padrões internacionais. Aliás, na década de 1950, a expectativa de vida no Brasil ainda permanecia nos níveis observados no final do século XIX e início do século XX. A situação alterou-se profunda- mente nos vinte anos dos militares, sendo algumas mudanças result- antes de políticas públicas, em especial na área da saúde, enquanto outras eram influenciadas por transformações ocorridas fora do
território nacional. Essas influências exógenas foram em particular acentuadas nas áreas da fertilidade, pela mudança radical do com- portamento das mulheres brasileiras em relação à fertilidade e ao tamanho da família.
Embora as transformações sociais tivessem início ou se intensi- ficassem durante o regime militar, elas representaram mudanças in- stitucionais de longo prazo, com significativos impactos culturais nas décadas seguintes. Tanto a mortalidade quanto a fertilidade at- ingiram níveis históricos nunca antes alcançados. A primeira foi in- fluenciada por uma forte queda na mortalidade infantil, que, afinal, iniciou uma trajetória de diminuição forte e persistente. Como a fer- tilidade declinava mais devagar, a taxa de crescimento natural da população alcançou níveis extremamente elevados, também nunca antes alcançados na sociedade brasileira. Não só a fertilidade era muito alta em relação à mortalidade, como também havia um efeito adicional, provocado pela maior sobrevivência das mulheres ao per- íodo fértil.
Mas aquela fase sem precedentes observada no crescimento nat- ural da população terminou abruptamente nos anos finais do re- gime. A queda pode ser explicada pela entrada do Brasil no processo de transição demográfica, na qual a fertilidade declina de maneira tão acentuada que influencia profundamente a estrutura etária da população, assim como sua capacidade de crescimento natural. Ade- mais, esse processo demográfico exerceu significativo impacto sobre aspectos fundamentais da sociedade brasileira, como a estrutura fa- miliar e o emprego. Embora a taxa de fertilidade caísse mais de- pressa que a de mortalidade, esta também começou a declinar em ritmo cada vez mais célere, aumentando a expectativa de vida da população, que gradativamente se aproximava dos padrões observa- dos nos Estados Unidos e na Europa.
A transformação do Brasil em uma sociedade predominante- mente urbana representou outra característica fundamental do per- íodo. Não só houve crescimento vertiginoso das cidades, como, pela
primeira vez, se verificou a redução da população rural. As opor- tunidades que surgiam nos centros urbanos em expansão e a mod- ernização da agricultura geravam o fenômeno clássico de atração e expulsão da população do campo, que intensificava o processo de migração interna para as cidades, por sobre as fronteiras estaduais e regionais.
O modelo de crescimento ampliava também as desigualdades de classe social e de cor, pois as pessoas com nível educacional mais el- evado e os brancos tiveram inicialmente mais oportunidade de as- censão social que os negros e as pessoas com mais baixo nível educa- cional. Essa intensificação da desigualdade também se refletia nas disparidades regionais. Enquanto em algumas regiões ocorriam avanços significativos nos níveis de riqueza, saúde e educação, o mesmo não ocorria no Norte e no Nordeste, o que ampliava as difer- enças sociais e regionais já existentes. Assim, enquanto as regiões economicamente mais avançadas atingiam padrões de vida similares aos dos países industrializados, as mais pobres mantinham níveis comparáveis aos países subdesenvolvidos da África e da Ásia. Talvez em nenhuma outra época as disparidades regionais tenham se mostrado tão evidentes no Brasil.
A criação de uma sólida base industrial constituiu o núcleo es- sencial da política de governo durante a ditadura. O controle salarial, a proteção ao mercado local e o fortalecimento da infraestrutura fo- ram os principais instrumentos adotados para estimular os investi- mentos na indústria. Reorganização do mercado financeiro e de capitais, formação de fundos compulsórios de poupança, manipu- lação de amplo conjunto de incentivos e subsídios, estímulo à produção agrícola, controle de preços e, se necessário, arrocho salarial representavam meios amplamente utilizados para fortalecer a indústria, pela ampliação da oferta de recursos financeiros, ex- pansão do mercado consumidor ou redução dos custos de produção. Dessa forma acelerava-se o crescimento econômico – o que já ocor- ria antes do período militar –, mas ampliava-se a desigualdade.
O salário mínimo anual médio real, por exemplo, reduziu-se de um índice 100 em 1964 para 82 em 1997. Os incentivos e subsídios ao setor produtivo, a contenção dos movimentos dos trabalhadores e o arrocho salarial ampliavam o abismo distributivo e concentravam os ganhos obtidos com o crescimento e o aumento da produtividade. Apesar disso, a renda per capita dobrou entre 1940 e 1980, passando de R$ 2.110 para R$ 4.490 (preços de 2006), e entre 1960 e 1980 o peso da agricultura no Produto Interno Bruto (PIB) reduziu-se de 18% para 11%, enquanto a indústria aumentava sua participação de 33% para 44%, o mais elevado percentual atingido no século XX.2 Ao
mesmo tempo, crescia de maneira drástica o emprego na indústria e no setor de serviços. Entre 1960 e 1980, o número de trabalhadores no setor primário permaneceu relativamente estável, em redor de 11 milhões de pessoas, enquanto o emprego aumentava de 2,4 milhões para 9 milhões no setor secundário, e de 5,2 milhões para 11,3 mil- hões no setor de serviços.3
O rápido crescimento e a alteração na estrutura econômica tiveram profundas consequências sobre a mobilidade social. O movi- mento das gerações entre ocupações e classes sociais alterou-se naquele período. Antes predominava a mobilidade circular, em razão do número relativamente fixo de posições de elite. Contudo, a partir dos anos 1960, com o rápido crescimento industrial e a intensi- ficação da urbanização, passou a preponderar a mobilidade estrutur- al. Houve grande aumento das novas posições gerenciais e de outros cargos de prestígio exercidos por profissionais com status ocupa- cional mais elevado que o de seus pais. O Brasil representava uma das nações industrializadas na qual a elite gerencial apresentava a maior disparidade social em relação aos próprios pais. Estimou-se que, a partir de 1973, mais da metade dos filhos tinha mudado de status em relação à ocupação dos pais, sendo 57% dessa mudança resultante da criação de novos postos de trabalho (estrutural) e 43% pela mobilidade circular, ou seja, pelas flutuações normais, sem qualquer relação com o aumento na oferta de postos de trabalho.4
A partir de 1980, com a relativa estagnação da economia, o Brasil retornou ao padrão usual de mobilidade circular, e assim se manteve pelo resto do século. Além disso, uma vez ocupadas essas posições superiores, tornou-se possível mantê-las pelo crescimento da própria elite, sem necessidade de recrutamento nos níveis mais baixos da escala social. Assim, apesar da rápida mobilidade ocorrida
no grupo de elite, especialmente pronunciada para aqueles cujos pais provinham da área rural, a mobilidade total assemelhava-se à identificada nos países industriais mais avançados. Em 1973, aprox- imadamente 71% dos trabalhadores urbanos tinham pais proveni- entes do meio rural, significando que a maioria procedia de um meio mais pobre ou com baixo nível de escolaridade.5
Surpreendentemente, as mulheres apresentavam maior mobil- idade que os homens em relação à ocupação dos pais (intergeracion- al), mas tinham menor mobilidade que os homens na alteração de seu status do primeiro ao último emprego durante seu tempo de vida (intrageracional).6 Como esperado, os brancos superavam os negros
nos dois tipos de mobilidade, embora tal disparidade fosse declin- ando ao longo do tempo. 7 Naquele período, embora houvesse el-
evada mobilidade, em particular para os níveis superiores da estru- tura ocupacional, a maioria dos trabalhadores estava presa em posições de menor status, que em seguida apresentou mobilidade re- lativamente baixa, pela pobre posição de partida em termos de capit- al humano.
Servindo-se da estrutura salarial, em lugar da estrutura ocupa- cional, um estudo recente identificou na mesma fase uma das mais altas taxas de mobilidade média de salários entre pais e filhos da história brasileira. Também descobriu que a maior mobilidade ocor- ria nos níveis mais baixos da escala salarial, em particular como res- ultado da universalização da educação primária, que diminuía o im- pacto negativo do salário dos pais. Esse processo favoreceu a mobil- idade da população não branca. Mas, no topo da escala salarial (o quintil superior), a imobilidade era mais pronunciada e com uma clara influência de raça, pois naquele quintil a probabilidade de os
brancos manterem o nível de renda dos pais era de 50%, enquanto entre os filhos dos pais negros a probabilidade reduzia-se a 25%.8
Além disso, algumas transformações promovidas diretamente pelo poder público influenciaram de modo significativo a mobilidade social. A educação e a pesquisa científica podem ser apontadas como exemplos disso. O regime militar deu continuidade ao persistente crescimento da educação primária e secundária que se iniciara no pós-guerra. Em 1960, 73% das crianças de 5-9 anos de idade fre- quentavam a escola primária; em 1968 esse percentual havia aumentado para 89%. Embora números comparáveis não estejam disponíveis para os anos seguintes, observa-se que em 1985 aprox- imadamente 79% das crianças de 5-14 anos estavam matriculadas na escola primária.9 Ademais, no período de 1960-1980, as matrículas
do ensino secundário e universitário cresceram mais que a popu- lação.10
As mudanças mais importantes ocorreram no ensino secun- dário. Enquanto o ensino primário apresentou uma trajetória regu- lar de crescimento, mantida pela continuidade dos investimentos, no ensino secundário ocorreu uma alteração drástica no ritmo de ex- pansão. Entre 1963-1984 o número de professores do ensino secun- dário duplicou, passando de cerca de 121 mil para 215 mil, e as matrículas aumentaram de 1,7 milhão para 3 milhões. Mas a grande transformação foi no papel que o governo passou a desempenhar no ensino secundário. Em 1963, 60% dos alunos desse nível de ensino estavam matriculados em escolas secundárias privadas. Em 1984 a situação se alterara radicalmente, pois naquele ano 65% das matrículas no ensino secundário ocorriam nas escolas públicas. 11 Os
3 milhões de estudantes do ensino secundário representavam mais de 22% de todos os estudantes de 15-19 anos, contra 12% em 1972.12
No mesmo período, e pela primeira vez na história brasileira, o governo investiu maciçamente em ciência e tecnologia. Esse aspecto foi tão relevante que um destacado estudioso da história da ciência no Brasil o denominou “Grande Salto Adiante”.13 Em 1964, o
governo, através do Banco Nacional de Desenvolvimento (BNDE), estabeleceu o Fundo de Desenvolvimento Tecnológico (Funtec), con- tando com recursos da ordem de US$ 100 milhões. Em 1974, o pequeno Conselho Nacional de Pesquisas foi expandido e adequada- mente financiado, transformando-se no Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq). Assim, o governo militar, em nome de um programa nacionalista, passava a investir maciçamente em pesquisa avançada, na implantação da infraestru- tura e na consolidação das indústrias básicas.
Ao mesmo tempo, cientistas da Universidade de São Paulo (USP) e de outros novos centros de pesquisa seguiam o modelo da Fundação Nacional de Ciência dos Estados Unidos, que desempen- hou papel importantíssimo após a Segunda Guerra Mundial, trans- formando seu país no principal centro mundial em ciência e tecnolo- gia. Em 1953, por meio da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes, criada em 1951), o governo passou a financiar bolsas de estudos para estudantes nas áreas científicas. Na década de 1960 já havia um número expressivo de cientistas brasileiros com treinamento no exterior, em particular nos EstadosUnidos e na Inglaterra. Depois do retorno ao país, eles passaram a
exercer forte pressão para a criação de modernos laboratórios e out- ros instrumentos de pesquisas, fundamentais para o Brasil competir no mundo que se formava após a guerra.
Em 1968 ocorreu uma ampla reforma universitária, adotando o modelo norte-americano de organização por departamentos e cri- ando a estrutura de formação em três níveis: graduação, mestrado e doutorado. Esse foi o padrão seguido pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e pela Universidade Nacional de Brasília (UnB), criadas naquele período, e pela USP, bem como pelas demais universidades federais que seriam implantadas em todos os estados. Além disso, em 1966 o governo do estado de São Paulo inaugurou
uma universidade em Campinas (Unicamp), composta por grande número de professores nacionais formados no exterior e por es- trangeiros, e que logo passou a competir com a USP como o mais
importante centro universitário do país. A Unicamp foi projetada desde a srcem para transformar-se em centro de pesquisa científica avançada, especialmente em física, e vários cientistas brasileiros que trabalhavam na Bell Labs e em universidades norte-a mericanas pas- saram a integrar seus quadros.14
O governo militar também implantou a indústria aeroespacial e de computadores, e lançou um ambicioso programa de pesquisa nuclear, envolvendo unidades de pesquisa situadas fora das univer- sidades. Essas foram algumas das principais ações desenvolvidas no período, que colocaram o Brasil em posição de destaque na área científica e transformaram o país, junto com a Índia, em um dos poucos do mundo subdesenvolvido com possibilidade de competir na comunidade científica internacional.
No entanto, a relação entre governo e comunidade científica nem sempre foi pacífica no período militar. Muitos cientistas foram perseguidos, aposentados compulsor iamente e exilados. Embora es- sas perseguições tenham sido mais agressivas na área das ciências humanas, elas atingiram também núcleos importantes de pesquisa em ciências exatas. O exemplo mais marcante foi o desmantela- mento do Departamento de Física da UnB, após a perseguição de membros de seu corpo docente e a invasão do campus universitário. A Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC), principal
órgão de representação da comunidade científica no Brasil, fez oposição sistemática ao regime militar e representou uma voz im- portante no processo de redemocratização do país.
Além do fortalecimento dos centros de pesquisa, o período mostra também a expansão lenta, mas persistente, do ensino uni- versitário. Em 1984, havia 68 universidades, das quais 35 federais,
dez estaduais, duas municipais e vinte instituições privadas, e o número de estudantes universitários crescera de 142 mil em 1964 para 1,3 milhão em 1984. 15 Paralelamente, os programas de pós-
graduação dobraram suas matrículas, atingindo 40 mil alunos em meados da década de 1980.16 O percentual de jovens de 20-24 anos
que frequentavam instituições de ensino superior – universidades e escolas técnicas – cresceu de 2% para 12% entre 1965 e 1985.17
O aumento da escolaridade exerceu profundo impacto sobre a alfabetização. Em 1940, apenas 38,4% da população era alfabetiz- ada; em 1950 esse percentual continuava baixo, 42,7%. Em 1970, os alfabetizados representavam ⅔ da população, e em 1980 atingiam
74%.18 Aliás, somente no Censo de 1960 foi ultrapassada a marca de
50% de alfabetização de homens e mulheres no Brasil. Em 1950, os homens alfabetizados com dez ou mais anos de idade tornaram-se maioria; mas, naquele ano, apenas 44% das mulheres da mesma id- ade eram alfabetizadas. A década de 1950 foi o período crucial da transição, pois no Censo de 1960 o percentual de mulheres com dez ou mais anos alfabetizadas atingia 57%; no mesmo ano, os homens alfabetizados representavam 64% daquele grupo etário. 19 Mas seria
necessário esperar até os primeiros anos da década de 1980 para que as mulheres atingissem o mesmo patamar dos homens em termos de alfabetização, resultado obtido graças ao rápido crescimento do número de mulheres matriculadas no ensino primário. O precon- ceito anterior contra a educação das mulheres pode ser observado pelo exame da população analfabeta por idade no Censo de 1970. Não só entre as mulheres mais velhas havia maior proporção de analfabetas, mas, para as faixas etárias mais elevadas, o percentual de analfabetismo entre as mulheres superava o percentual masculino (Gráfico 1).
GRÁFICO 1: PORCENTAGEM DOS ANALFABETOS, POR IDADE E SEXO, 1970
Fonte: IBGE, “Estatísticas do século XX”.
Até o início dos anos 1980, quando consideramos o problema da alfabetização, além da discriminação por gênero, encontramos tam- bém discriminação por motivo de cor. Se em 1982 as mulheres já ul-
trapassavam os homens no quesito alfabetização, a proporção de analfabetos entre os pretos e pardos era ainda muito elevada se com- parada aos brancos e asiáticos (Gráfico 2). Seriam necessários mais de trinta anos, com a universalização da educação primária, para ter início a redução dessa disparidade. Aliás, o mesmo comportamento quanto à alfabetização era identificado na diferença entre os resid- entes nas áreas urbana e rural.
Fonte: IBGE, “Estatísticas do século XX”.
O crescimento do emprego na indústria manufatureira e no set- or de serviços observado naquele período resultou das maciças mi- grações internas através de fronteiras estaduais e regionais, bem como do deslocamento da população da zona rural para os assenta- mentos urbanos. O fator de atração, gerado pelo aumento do emprego urbano e melhores condições de vida nas cidades, foi acom- panhado pela crescente mecanização da agricultura brasileira. O