com o Público, porque são Planos de Saúde organizados pelos próprios funcionários de uma grande organização, por exem- plo, a CASSI do Banco do Brasil e existem inúmeras outras, é um exemplo que pode ser dado de auto-gestão. A CASSI no Rio de Janeiro procurou organizar o seu modelo de assistência de forma parecida com um programa Saúde da Família do SUS; estabeleceu equipes, vinculou clientelas a essas equipes, adotou a sistemática de visita domiciliar, adotou programas de atenção a pessoas portadoras de doenças crônicas e etc, então eu posso dizer que esse é um Serviço Privado que é bom, muito melhor do que muitos Serviços Públicos que não alteram o cuidado à população, e isso é para desmistificar a idéia de que o Público é bom e o Privado é ruim.
A cooperativa médica, introduziu novas tecnologias de cuidado, tais como a promoção e prevenção de agravos e ao mesmo tempo buscou regular o trabalho médico. No caso pesquisado de cooperativa médica ela procurou introduzir algumas regrinhas de manage care, mas ao mesmo tempo tentou uma substituição das tecnologias de cuidados exis- tentes produzindo promoção, introduzindo programas de atenção ao recém-nascido, programas de cuidado domiciliar para as pessoas portadoras de doenças crônicas enfim, pro- gramas de cuidado de hipertensos, de gestantes, etc. Então isso foi verificado como possibilidade de redução de custos e também de aumento de sua carteira de clientes. A coopera- tiva estudada, por exemplo, adotou um programa de atenção ao recém-nascido: a mãe a partir do momento que ela tem a criança recebe a visita de uma enfermeira com kit para o recém-nascido, que faz todo o programa do cuidado ao re- cém-nascido, orienta as mães quanto a higienização, cuidado nutricional, etc, e com isso conseguiu aumentar enormemente a sua carteira de clientes.
A medicina de grupo acompanha o trabalho médico operando principalmente no desenvolvimento dos recursos humanos, e a oferta e incentivos para médicos que tenham baixa prescrição de procedimentos. Os modelos de assistência foram se configurando em forma diferenciada aqui no Brasil a partir dessas alternativas.
Podemos entender então que existem novos arranjos no modo de assistir às pessoas, que combina experiências admi- nistrativas, com outras organizações do processo de trabalho, em substituição a tecnologias de cuidado que priorizam as tecnologias duras.
A introdução de novos profissionais no sistema assisten- cial desses Planos de Saúde já começa a ser vislumbrada, apesar de que é ainda muito forte um processo de trabalho centrado no saber e na pessoa do médico. Essa questão que foi aqui colocada, que há Plano de Saúde que só autoriza psicoterapia se houver encaminhamento do médico, mostra o quanto os modelos de assistência estão centrados no saber médico. Penso que a questão de aceitar ou não, incluir ou não
o trabalho do psicólogo, não é apenas uma questão do custo, é uma questão do modelo de assistência e de quais saberes estão estruturando a forma como se organiza e configura a assistência pelos Planos de Saúde.
Ao meu ver a inserção dos psicólogos assim como de ou- tros profissionais da Saúde Suplementar se vincula à mudança do modelo assistencial mais do que a questão dos custos. Por quê? Um usuário bem cuidado e usando tecnologias relacio- nais não só as prescritivas, vai necessitar menos internação, menos exames e terá menor custo. Então nós temos a possibi- lidade de operar certas tecnologias de cuidado mais leves que reduzem custos para os Planos de Saúde, reduzem custo para a Saúde Pública também, enfim reduzem os custos da Saúde. Acho que o problema da inserção nossa junto à Saúde Suple- mentar é principalmente relacionado ao modelo assistencial, ao saberes práticos de estrutura e modelo, e ao processo de trabalho de como está organizado. Conceber a Operadora como gestora do cuidado é um pressuposto para isso.
O principal documento que está direcionando a atividade da ANS é o “Projeto de Qualificação da Saúde Suplementar”. Esse projeto tem três ou quatro etapas, é uma ação para dez anos. Nesse documento o pressuposto do cuidado integral está colocado e portanto a Saúde Mental e a psicologia devem estar necessariamente incluídas.
Como eu estava dizendo, as novas formas de organização do modelo pressupõem trabalho em equipe, interação de saberes e fazeres, o cuidado integral, o saber especializado subsumido pelo saber amplo de cuidado à saúde e atitude acolhedora. Trabalhar na multiprofissionalidade não significa anular um núcleo de conhecimento específico de cada profissão, mas significa reconhecer que existe um campo de conhecimento e uma prática cuidadora que são comuns a todos. Então trabalhar na multiprossionalidade não significa anular o conhecimento da psicologia, da subjetividade – no nosso caso – não significa o médico anular o conhecimento da medicina e o enfermeiro da enfermagem, mas é fazer com que esse conhecimento específico, seja subsumido pelo conhecimento amplo e pela prática cuidadora que deve ser nossa.
Capacidade de produzir subjetivações em profissionais e usuários no sentido de aumentar a autonomia de ambos. Na Saúde Pública e Privada o atendimento ainda é muito sumário e prescritivo, e isso precisa mudar é essa a questão que colo- camos como importante. Nós psicólogos temos uma potência para atuar nesse campo, potência esta que não está entendida e na agenda das próprias operadoras e quem trabalha na Saúde. Enfim, é preciso fazer a afirmação do trabalho dos psicólogos nas possíveis intervenções, inclusive no espaço da gestão.
Acho muito salutar que esse debate esteja sendo feito e acho muito importante investirmos em pesquisa nessa área, para iniciar a produção de conhecimento relacionado ao modo como se produz a saúde em geral.
CADERNOS TEMÁTICOS CRP SP a inserção da psicologia na saúde suplementar