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132 muito chato não é? Mas ela não se pode, nem a posso tratar como eu queria trata-la

No documento A solidão e a pessoa idosa institucionalizada (páginas 142-146)

porque ela chora por tudo e por nada! (…)

26. (…) Ela não sabe porque chora, não sossega nem me deixa sossegar e enerva-me!

Aquele choro é enervante, ela não chora, ela guincha! E parte das vezes sem lágrimas! É só para fazer barulho, e para meter pena! Ela quer que tenham pena dela! Ela até tem razão, porque ela não tem ninguém! Até tem razão, coitada para se sentir (…) como se sente só…é assim a maneira de ela se expressar, porque ela não é uma pessoa normal…

27. [Aqui dentro do lar, quando se sente sozinha, o que é que faz para fugir desse

sentimento] Eu poucas vezes me sinto só, eu pouco venho para o quarto para estar só,

estou nos momentos em que venho, para rezar, enfim! Tenho momentos em que me meto aqui no quarto, ou para fazer qualquer coisa que precise de fazer aqui no quarto, mas não me sinto só, rezo, faço as minhas orações, e leio, faço um trabalhinho, estou a fazer uma toalha…em crochet! Enfim! Entretenho-me assim…Mas eu pouco me meto no quarto, tenho poucos momentos de…isolada! Estou pouco, não gosto me isolar! Gosto de conviver! (…)

28. [Aqui dentro do lar sente-se excluída ou isolada de alguma forma] Não! Não! Nunca

fui mal tratada aqui nem me sinto excluída, não! (…)

29. [Existem pessoas aqui dentro do lar, utentes ou profissionais com quem pode falar ou

desabafar] Não! Para desabafar não é fácil, e eu gosto pouco de desabafar (…) de falar

da minha vida com pessoas desconhecidas (…) o tempo que aqui estou não dá, não é para estar a falar, mas eu falo normalmente mesmo na minha vida, gosto pouco de falar da vida dos outros! Falo da minha, com as pessoas com quem convivo! (…)

30. [Quando sente necessidade de desabafar, falar de assuntos mais pessoais, sente que

existem alguém com quem pode falar] Tenho! Aqui dentro, às vezes falo! Com as

pessoas amigas que aqui tenho! [utentes] sim, utentes! (…)

31. [Profissionais] com os profissionais, há pouco convívio, andam ocupadas e há pouco

convívio. (…) não tenho queixas a fazer de ninguém, as pessoas tratam-se bem, mesmo os profissionais, não tenho queixas a fazer, só que não há tempo para convívio com as pessoas que trabalham aqui… falo com todas da mesma maneira, e todas me têm tratado bem desde que aqui estou, não tenho que me queixar de ninguém…(…)

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32. [Sente-se acompanhada] Sinto! Sinto-me acompanhada (…) Sinto, não vim forçada! E

como não vim forçada, sinto que é um lugar onde estou acompanhada, porque se estivesse em casa estava só, e sentia-me isolada, e aqui não sinto! (…)

33. (…) E tenho a minha família, tenho a minha filha que vem todas as semanas ver-me, o

meu filho vem quando pode, o meu filho tem uma vida ocupada, ontem liguei eu pensando que ele estivesse cá, como era Domingo, e ele estava em Nova Iorque, quando liguei ele estava fora (…) está agora a fazer um curso, porque vai para um avião novo, ele é piloto da força aérea, e então vai… está a estudar, porque vai pegar num aparelho novo, num avião novo!

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Transcrição da Entrevista nº 3 Duração: 9’ 39’’

E: Quais foram os motivos que a trouxeram para o lar? e: [o entrevistado fez uma pausa

longa antes de responder] falta de saúde e saber que estava só. E:falta de saúde? e: eu vim do hospital diretamente para aqui quando eu tive essa crise…tive essa crise urinária depois fui para o hospital e depois do hospital é que eu não podia ir para casa sozinha por isso tive na ideia de vir ficar aqui…já conhecia a casa E: e a opção de vir para o lar? Foi da D. Paula? e: foi…foi minha foi, não tive ninguém a dizer que faça ou deixe de fazer…E: E os seus sobrinhos?

Concordaram com a sua vinda para aqui? e: São indiferentes…o que a tia fizer para eles está

bem…Acham que está bem só que agora um dos meus sobrinhos acha que isto é grande demais para mim e que continuo aqui sem convivência… E: E a D. Paula, já tinha planeado a sua

vinda para aqui, ou foi uma decisão… e: há um tempo, depois da morte da minha irmã,

quando fiquei sozinha, foi quando comecei a pensar em vir para um lar, mas enquanto me mexia bem, fui ficando em casa…agora sinto que já não me mexo bem, que preciso ser ajudada. Também precisava de alguém que me ajude a lavar-me a ajudar… E: Agora vou fazer-lhe uma

pergunta mais abrangente, o que é para si a solidão? e: A solidão tem fases, há alturas em

que a gente necessita dessa solidão, para viver dentro de nós, para nos encontrarmos a nós mesmos, mas depois durante a vida e durante a idade, já não temos projectos, a solidão é a coisa mais triste que há…E: Para si, a solidão é um sentimento bom ou um sentimento mau? e: Para mim a solidão é um sentimento mau… E: Não encara a solidão como um sentimento

bom? e: Não na idade…agora…porque em jovem gostava da solidão, de ter a cabeça ocupada

com os nossos trabalhos, com as nossas coisas…até gostava de estar sozinha. E: E a D. Paula,

alguma vez já se sentiu isolada ou sozinha? e: [pausa prolongada] Pensando bem…houve

alguns momentos, mas poucos…de resto tenho sempre convivido com, não sendo a família, com pessoas amigas, convivendo com os outros, fazendo algum voluntariado e assim evito a solidão… E: e agora, sente-se… e: Aqui senti-me mais… E: Sozinha? e: [Acenou com a cabeça] porque fiquei num quarto sozinha, com um corredor muito grande, toco à campainha, ninguém aparece, nunca vejo ninguém… E: A D. Paula sente-se mais só agora do que se

sentia há uns anos atrás? e: ah…muito mais, agora sinto-me muito mais só do que há uns anos

atrás, há uns anos atrás ocupava-me com várias coisas…E: Com o quê? e: por exemplo, uma das coisas com que eu me ocupava, frequentava o centro de Telheiras, o Centro Social de Telheiras, onde temos muitas atividades, geralmente, Segunda, Quarta e Quinta ía para lá, desde a ginástica, a trabalhos manuais que nós fazíamos, agora sinto que não posso fazer, é uma altura em que não faço E: uma altura na sua vida? e: uma altura na minha vida em que não faço…

E: A D: Paula, sabe lidar com a solidão? e: que remédio é que eu tenho senão lidar com

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