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Capítulo II. Secularização de uma presença: meninos de em Salvador

II.2 Muleques, mendigos e posicionamento político

Para Donald Pierson (1945) e Mattoso (1988), a palavra se escreve muleque, moleque ou moleca. É de origem africana e era usada para designar um menino negro. No século XIX a mesma palavra era usada na mesma época pelas autoridades policiais para se referir aos meninos tidos como marginais ou trabalhadores e que passavam mais tempo nas ruas da cidade. Hoje a mesma palavra é pejorativa, pois passou a designar um rapaz ou adulto irresponsável. Como já foi citado, a presença dos moleques nas diferentes ruas e praças de Salvador começou a ser oficialmente mencionada pelas autoridades policiais no século XIX . Mas essa presença e a dos vários mendigos e dos vendedores africanos e crioulos de ambos os sexos nas ruas também não passavam despercebidas dos que visitavam a cidade. Robert Ave-Lallemant ([1859],1980) descreveu a população de Salvador durante sua visita no século XIX. Ele afirma que a população vista nas ruas era majoritariamente composta de negros africanos, com a presença de pouquíssimos brancos.

De feito, poucas cidades pode haver tão originalmente povoadas como a Bahia. Se não se soubesse que ela fica no Brasil, poder-se-ia tomá-la sem nenhuma imaginação, por uma capital africana, residência de poderoso príncipe negro, na qual passa inteiramente despercebida uma população de forasteiros brancos puros. Tudo parece negro: negros na praia, negros na cidade, negros na parte baixa, negros nos bairros altos. Tudo que corre, grita, trabalha, tudo que transporta e carrega, é negro; até os cavalos dos carros na Bahia são negros23.

As colocações de Lallemant fornecem muitas informações. A primeira é de que a população era majoritariamente composta de africanos. Entender aqui africanos por pessoas de cor preta. Todo o trabalho braçal era feito pelos negros. Parecia que a vida cotidiana da cidade era controlada por eles. Estavam em todos os lugares da cidade de Salvador, por serem eles que trabalhavam nas ruas e praças. Pareciam viver muito mais fora que dentro das casas. Eram responsáveis pelo transporte das mercadorias entre o porto, que fica na Cidade Baixa, e a Cidade Alta, dominavam a pesca, vendiam mercadorias nas ruas e transportavam pessoas de um local para o outro.

23 LALLEMANT, Robert Ave ([1859], 1980,22). Viagens pelas províncias da Bahia, Pernambuco, Alagoas e

A partir dessa análise, poderíamos concluir que boa parte da vida econômica da cidade estava sob a responsabilidade dos negros descritos pelo autor. Eram tão numerosos nas ruas e praças públicas porque, em sua grande maioria, não tinham o direito de serem recrutados como funcionários públicos, por terem nascido na África. Mesmo os libertos, por causa das restrições de emprego, eram obrigados, para sobreviver, a desempenhar certas funções que faziam parte das suas vidas quando ainda eram escravos. E, além dos adultos, havia muitos meninos negros trabalhando nas ruas da cidade. O fato de o autor mencionar a presença de poucos brancos nas ruas revela que muitos deles viviam à custa dos escravos de ganho. Mas observe-se que também havia negros vivendo do trabalho dos seus escravos de ganho. E, ainda, que muitos negros de ganho que sobreviviam trabalhando nas ruas e praças conseguiam assim comprar suas liberdades. A rua era o local de trabalho, de socialização, de moradia, de liberdade e até da espera da morte.

Essa realidade restrita do negro no mercado de trabalho em Salvador no século XIX levou Mattoso (1982, 200) a formular a seguinte pergunta: “Ser liberto é ser livre?” A mesma pergunta será retomada por Oliveira (1988). As duas pesquisadoras salientam que a Constituição Brasileira de 1824 outorgava algumas oportunidades ao negro nascido no país (o crioulo), enquanto do escravo nascido na África exigia-se um longo processo de naturalização como cidadão brasileiro. Sem isso, mesmo liberto, ele não podia trabalhar, por ser visto e tratado como qualquer estrangeiro.

Oliveira revela importantes fatores que complicavam a ascensão social e profissional do liberto. O primeiro, a falta de mercado de trabalho. Não havia muitas fábricas em Salvador: a cidade especializara-se em comércio e transações financeiras. O segundo, vinha do fato de a grande maioria dos brancos ser composta de pessoas pobres. Por isso, quando surgiam oportunidades, os brancos eram privilegiados. Sem contar que, devido à presença maciça de escravos como força de trabalho, esta era vendida a preço muito baixo.

Dentro desta perspectiva, o que resta ao liberto? Realizar as mesmas tarefas quando escravo, competindo com os demais pelas escassas chances oferecidas. Continuar como estivador, abarrotando os navios de gêneros de exportação e os armazéns de produtos importados aos quais nunca teria acesso. Continuar carregando homens e mulheres livres em “cadeirinhas de arruar”, a viver de expedientes ou de pequeno comércio ambulante,

comprando aqui, vendendo ali, para um mercado de baixo poder aquisitivo. Continuar como barbeiro e nas horas vagas, músico. Continuar, em roças na periferia da cidade, a plantar gêneros de subsistência para vender minguados excedentes para um mercado sempre mais carente de alimentos24.

As colocações de Oliveira respondem à pergunta de Mattoso sobre o significado do ser liberto. Segundo as informações da autora, parece que a nova realidade era mais dura que no tempo da vida de escravo. Essas informações levam à seguinte pergunta: a vida de liberto não acabava levando muitas pessoas a adotar a vida de rua e da mendicância como meio de poder continuar vivo? A adoção deste meio de vida não seria, então, a nova carreira possível de ser abraçada pelos novos rejeitados e desesperados ? Esta realidade por si só mostra o grau de integração dos novos cidadãos negros oriundos da escravidão na sociedade brasileira.

Fraga (1996) foi quem melhor estudou a presença dos meninos que perambulavam pelas ruas e praças de Salvador no século XIX, como também dos mendigos adultos. Ele sustenta que, além dos artigos publicados em jornais da cidade, muitos delegados de polícia também se referiam a qualquer menino que trabalhasse no ganho como moleque: os vendedores de bilhetes de loteria ou de jornais e condutores de cegos. Segundo o mesmo pensador, a rua era para muitos meninos tidos como moleques o local de trabalho, de divertimento, de socialização, de aprendiz da profissão da mãe ou dos parentes, de peraltices e de brincadeiras. Vê-se aqui que todos os garotos negros que trabalhavam nas ruas eram tratados de muleques. Partindo do fato de que muitos deles eram ligados às famílias, aos mestres de oficio e até aos seus senhores (para os escravos), a rua passava a ser quase o único local onde conseguiam comportar-se e brincar como crianças, sem medo de correções físicas e castigos. Neste caso, a rua não poderia ser vista como o local que possibilitava suportar a violência perpetrada pelo sistema escravocrata que pairava sobre eles? Não seria, no pensamento deles, uma parte da casa com maior liberdade? O espaço de maior familiaridade, por terem sido levados para lá, desde crianças, pelas próprias mães? Não seria na rua que estes meninos conseguiam vivenciar o que era uma família?

A rua em Salvador passava a desempenhar várias funções para a população negra. De um lado, expunha aos visitantes as condições sócio-econômicas nas quais se encontrava

24 OLIVEIRA, Maria Inês Cortes (1988,32-3). O liberto: o seu mundo e os outros. Salvador, 1790/1890. São

grande parte desta população e o grau de sua integração na nova sociedade. E era ao mesmo tempo, para a população negra, o espaço de exclusão e de inclusão. Os rejeitados ocupavam as ruas, as praças públicas e as frentes das igrejas – os locais onde eles podiam resgatar a dignidade, graças às redes sociais estabelecidas entre pessoas da mesma raça. Tais logradouros compunham o espaço da integração social dos perifericamente integrados da sociedade. Naquele tempo e contexto, o olhar moralista não tinha lugar – e nem poderia imaginar a existência de formas diferentes de famílias naqueles agrupamentos sociais. Era por isso que se encontravam tantos meninos perambulando nas ruas e praças da cidade. Mas vale destacar que a presença deles refletia a exclusão cuja grande vitima era o negro.

Fraga salienta que, de 1840 a 1870, a polícia capturou 83 meninos tratados como vadios e de 10 a 18 anos de idade. Dentre aqueles cuja cor foi declarada pelos registros policiais, 60% eram crioulos (crianças de cor preta nascidas no Brasil) e 28,3%, pardos. Essas informações confirmam, de um lado, que a grande maioria dos meninos que perambulavam nas ruas de Salvador era predominantemente composta de negros (pretos e pardos), que somavam 88,3% dos capturados pela polícia. No século XIX, os mesmos meninos já eram tratados pela polícia como uma ameaça à ordem. Além das funções descritas por Fraga, Freyre (1990:398) salienta que os meninos pareciam desempenhar a função de guardiões das tradições culturais pertencentes aos negros nas cidades do Nordeste.

As primeiras mulheres de cor a se vestirem como senhoras brancas no Brasil foram vaiadas pelos muleques; isto é, pelos da própria raça inconformados com a deserção de negros da classe servil para a alta. O mesmo sucedeu a negros de cartola, de sobrecasaca, de luva, de bengala: foram vaiados pelos muleques em mais de uma cidade do Brasil, durante o século XIX.

Essas atitudes de posicionamento descritas por Freyre não seriam a materialização de uma conscientização política por parte dos próprios muleques? Poderiam ser vistas e tratadas como uma forma de luta política consciente contra a assimilação dos seus? Não seriam eles contrários à ascensão dos negros, às atitudes de embranquecimento, à assimilação dos comportamentos dos brancos opressores? Ou teriam, muito cedo, identificado os algozes dos seus pais como seus próprios algozes?

As atitudes dos moleques levam a pensar ou acreditar que eles tinham em mente a existência de dois mundos ou de duas raças: a dos senhores – brancos exploradores e castigadores dos meninos e de seus pais negros – e a dos negros – escravos, libertos e livres – explorados e sempre lutando para sobreviver. Por isso, tais atitudes poderiam ser interpretadas e analisadas como uma forma de vingança contra uma classe ou raça que sempre os castigava, como também castigava seus país. Vê-se que a rua era o espaço onde os dois lados se enfrentavam constantemente, independentemente da idade. Isso leva a sustentar que a maturidade desses meninos nada teria a ver com a idade deles, mas sim com as experiências da dura realidade da vida escravocrata.

Essas atitudes descritas pelos autores geram a formulação de várias perguntas acerca de um posicionamento político consciente dos próprios muleques. À primeira vista, parece que os meninos tinham consciência do que faziam e das conseqüências de seu ato na população branca da cidade. Na continuidade da sua reflexão, Freyre destaca como o medo instalado pelos muleques acabou influenciando boa parte do comportamento da elite urbana. Temendo uma importuna incursão dos muleques em suas casas, os mais ricos mantinham sempre as janelas e portas fechadas25, o que acabava prejudicando a circulação do ar e a entrada do sol.

A conscientização política dos muleques, se não fica muito clara na análise de Freyre, mostra-se com mais nitidez nos trabalhos históricos de Reis (1993, 1995). Em 1857, decretou-se na Bahia que o escravo ou o liberto de ganho trabalhando na rua teria que andar com uma chapa de ferro em torno do pescoço como meio de identificação. Mas é bom salientar que a chapa visava disciplinar, vigiar e controlar os negros nos espaços públicos da cidade tanto durante o trabalho quanto no seu tempo de lazer. Fossem escravos ou libertos, eles deviam ser bem vigiados: carregando ou vendendo mercadorias, fazendo batuques, jogando capoeira ou vadiando.

Mas tendo a consciência de que o comércio funcionava em Salvador com o trabalho deles, os escravos e libertos decidiram cruzar os braços para opor-se ao novo decreto. Para esses negros, a rua – além de tudo que, como já vimos, representava – tornou-se também o local da resistência, da conquista da dignidade humana e do enfretamento com o poder

25 As informações fornecidas por Freyre mostram que a preocupação com a segurança em bairro de pessoas

imperial. O uso da chapa os faria lembrar os tempos em que eram vendidos como animais ou expostos como peças para a contemplação dos prováveis compradores. Para que a paralização fosse total, os muleques puseram-se a agredir “os fura greve”. Analisando os textos da imprensa da época e os relatos das autoridades policiais, Reis sustenta que os muleques se comportavam como os piqueteiros modernos.

Tendo matriculado nessa Repartição no dia primeiro de junho os seus escravos que andam no ganho sob os números 99 e 100 aconteceu que o numero 100 de nome de Antonio, nação Aussá recolhendo-se para casa depois da Ave-Maria, um grupo de africanos moleques na Baixa dos Sapateiros arrancassem do pescoço a chapa que o trazia o dito escravo, vindo espancado26.

A presença dos moleques nas ruas da cidade não se devia somente à pobreza que muitos enfrentavam em casa, como já foi salientado. A via pública constituía, a partir daquela circunstância, o local onde eles podiam reclamar e enfrentar o poder dominante, além de resgatar a fase de infância que lhes fora roubada, confiscada e controlada. Percebe- se que, muito cedo, esses meninos já conheciam bem a topografia e a geografia da cidade, assim como as mazelas da escravidão, por acompanharem suas mães vendedoras. A dureza do regime escravocrata e a situação dos seus pais dotaram os moleques de uma consciência política nunca imaginada para a sua idade. Se os senhores conseguiam estabelecer regras duras de comportamentos e de atitudes em casa contra os seus “subordinados” e castigá-los quando sentissem necessidade, nas ruas acontecia uma inversão de valores e de poderes. Elas passavam a estar sob a “responsabilidade” dos filhos das pessoas que não eram ninguém nas casas dos seus donos. O posicionamento político dos meninos não cessou depois da greve contra a chapa de ferro.

Os mesmos moleques participariam de um outro tipo de movimento politizado, segundo Reis: a Cemiterada. No século XIX, quando a Câmara Municipal decretou o fim dos enterros nas igrejas, eclodiu um violento protesto da população negra contra a construção do cemitério.

O major do Exército Pedro Ribeiro Sanchez relatou que, estando caçando nas imediações do cemitério naquele dia, ‘presenciou uma multidão de

pessoas (...) sendo a maior parte delas muleques, pretos de pé no chão, e negras, que todos eles reunidos em número maior de mil destruíram aquele edifício e o deitaram por terra27.

A rua passava a ser o local da aprendizagem, mas também do posicionamento político para os moleques, bem como para todos os negros que viviam do trabalho na rua. Esta era o espaço onde eles podiam se mobilizar, parar a vida econômica da cidade e enfrentar as autoridades quando necessário, como foi o caso das revoltas: a greve de 1857 e a Cemiterada.

A rua tornava-se o local onde os moleques podiam resgatar e vivenciar a fase da infância, tornar-se crianças ou adolescentes, brincar, ficar juntos sem medo da ira dos senhores. No caso de vendedores de ganho que se faziam acompanhar dos filhos, o brincar nas ruas entre mães e filhos passava também pela iniciação na profissão da mãe, no caso das meninas, ou do pai, no caso dos meninos, quando ele estava presente. Para muitos desses meninos a rua era o local da paz, dos ensinamentos, do convívio com as pessoas de todas as gerações do grupo da mãe. Fora desses meninos, aqueles que viviam nas ruas corresponderiam aos que denominamos hoje meninos de rua, na medida em que muitos deles encontravam a tranqüilidade emocional, psicológica, psíquica e conseguiam resgatar os sentimentos de pertencimento na vida da rua.

Se tal é o caso, a rua não seria um tipo de casa sem muros cujos donos eram os próprios meninos e todos aqueles que viviam de e nas ruas? Estes arranjos sociais não colocariam boa parte das teorias sobre a família por terra? E a casa não seria sinônimo de castigos, repressão, humilhação e trabalho pesado para os meninos que eram confiados aos mestres de oficio ou que aprendiam uma profissão com os irmãos de pele mais clara?

A grande maioria dos mestres de ofícios tratava como escravos os meninos que lhes haviam sido entregues pela Câmara. Os mestres de oficio mulatos castigavam (Fraga, 1996) mais os seus próprios irmãos que não queriam seguir a profissão deles. Eram muito severos com os aprendizes irmãos porque acreditavam que só a profissão lhes permitiria serem aceitos na sociedade dominante. Eles percebiam que a sociedade que os rejeitava como

27 REIS, João (1995, 329). A morte é uma festa: ritos fúnebres e revolta popular no Brasil do século XIX. São

não-brancos poderia aceitá-los caso tivessem dinheiro e fama. Ou seja, para eles, o dinheiro embranquecia.

Na ocasião em que foi preso vagando pela Freguesia de Brotas, em fevereiro de 1865, o menor Paulo Francisco, pardo, confessou que fugira da companhia do seu irmão mais velho por não querer fazer charutos, preferindo o oficio de carpina a que o referido seu irmão não queria anuir28. A colocação do menino preso mostra que essas crianças não tinham a liberdade de escolher uma profissão. A fuga passava a ser a maior e melhor arma para opor-se à “tirania” dos adultos, como também o meio pelo qual era possível expressar seu posicionamento diante dos adultos e, sobretudo, proporcionar um canal de diálogo. Os mulatos claros obrigavam seus irmãos biológicos a aprender uma profissão que, segundo eles, outorgava um status social maior e a possibilidade de vir a ser aceito na sociedade dominante, ou a se embranquecer graças ao dinheiro. Todos os esforços desses mulatos eram concentrados nesta direção.

Se a rua carregava, e continua carregando, conotações negativas, como bem o salienta DaMatta29, para esses meninos ela apresentava conotações positivas e todos aqueles que dela viviam aprendiam a tirar proveito das brechas do poder senhorial e policial. Ao dominar os códigos que regiam a vida cotidiana das ruas e a topografia da cidade, os moleques conseguiam implantar a cultura do medo, sendo também a rua o local onde podiam dispor de maior tempo para ficar com seus pais.