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A ideia de desenvolvimento traz consigo a complexidade conceitual e, no contexto histórico em que surgiu, “implica a expiação e a reparação de desigualdades passadas” (SACHS, 2004, p. 13), mas que, por vezes, é utilizado de forma equivocada, o que pode mudar o seu sentindo real ou sua essência. Compreender desenvolvimento é fazer um exercício em direção à universalização da efetividade de todos os direitos (políticos, civis, cívicos;

econômicos, sociais e culturais; coletivos), mas também representa incluir “a modernidade inclusiva propiciada pela mudança estrutural” (SACHS, 2004, p. 13) para se ter uma vida mais feliz e completa para todos. Assim, as ações de desenvolvimento devem ter o ser humano como central, pois são elas, em dado contexto local, regional e/ou territorial, que reaproximam a economia e a ética, incluindo a política (SACHS, 2004; SIENDENBERG, 2012).

Siendenberg (2012, p. 21) considera necessário pensar desenvolvimento como processo, mas é termo volátil e pode assumir diferentes significados em diferentes contextos. Esse é também o entendimento de Sen (2010, p. 17), de que desenvolvimento é um “processo de expansão das liberdades reais que as pessoas desfrutam”. Liberdades aqui entendidas como determinantes das disposições sociais e econômicas, serviços de educação e saúde, além dos direitos civis, a liberdade de participar de discussões e averiguações públicas. O desenvolvimento, afirma o referido autor, requer que se removam as principais fontes de privação de liberdade: pobreza e tirania, carência de oportunidades econômicas, destituição social sistemática e a negligência dos serviços públicos, serviços esses que podem ser de assistência social, educação e saúde.

Para tanto, Sen (2010) desenvolveu uma forma diferente de calcular o índice de desenvolvimento de um país, superando os índices puramente econômicos presentes no PIB, por exemplo. Contrapondo essa forma de medição do PIB, cria, como alternativa, o Índice de Desenvolvimento Humano (IDH), uma medida geral e sintética do desenvolvimento humano de determinado território. O IDH tem por base a abordagem das capacidades de Amartya Sen, que concebe o desenvolvimento diretamente relacionado com a liberdade que os indivíduos têm para levar a vida de acordo com a própria vontade, desde que não prejudique outra pessoa.A noção de desenvolvimento e de agente sugeridos por Sen (2010, p. 10) “consiste na eliminação de privações de liberdade que limitam as escolhas e as oportunidades das pessoas de exercer ponderadamente sua condição de agente”, ou seja, de exercer seu poder de ação.

Seguindo a mesma lógica, o Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD, 2016) considera que o desenvolvimento não pode ser medido e discutido apenas pelo viés da economia, pois está essencialmente ligado às oportunidades que ele oferece à população de fazer escolhas e exercer sua cidadania. Isso inclui garantia dos direitos sociais básicos (saúde e educação), assim como também segurança, liberdade, habitação e cultura.

No mesmo documento, consta que:

O conceito de desenvolvimento humano também parte do pressuposto de que para aferir o avanço na qualidade de vida de uma população é preciso ir além do viés puramente econômico e considerar outras características sociais, culturais e políticas que influenciam a qualidade da vida humana (PNUD, 2016).

Esse conceito apresentado pelo PNUD é a base para cálculo do Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) divulgados nos Relatórios de Desenvolvimento Humano (RDH), publicados anualmente desde 1990 pelo PNUD, nos quais a ideia de desenvolvimento refere-se à liberdade defendida por Amartya Sen e apresenta o ser humano na condição de agente, como alguém que age e ocasiona mudanças (PNUD, 2014; 2015). Segundo Sen (2010, p. 29), o desenvolvimento tem de estar “relacionado sobretudo com a melhoria da vida que levamos e das liberdades que desfrutamos”. Assim, o desenvolvimento humano é concebido como um facilitador para eliminar as barreiras que impedem as pessoas de utilizar sua liberdade de agir. Trata-se de habilitar os desfavorecidos e excluídos a exercer os seus direitos, fazer-se ouvir e tornarem-se agentes ativos na determinação do seu destino, ou seja, “a liberdade de cada um viver a vida que valoriza e de a gerir de forma adequada” (PNUD 2014, p. 17).

Tal situação é descrita por Santos et al. (2016b) ao estudar e descrever as mulheres residentes no Território da Cidadania do Jalapão, em Tocantins. Essas mulheres vêm modificando seu papel junto a esse território nos últimos anos. Estão redesenhando sua história e modificando seu dia a dia, envolvidas anteriormente somente com tarefas domiciliares, passam “a desempenhar um papel mais ativo na dinamização da economia” (SANTOS et al., 2016b, p. 130). Conforme Jonathan (2011), a mulher que se encontra no comando de seu empreendimento consegue exercer poder em prol de outras, empoderando-as e promovendo a inclusão profissional e social destas. Isso faz com que ocorram importantes mudanças sociais, econômicas e culturais tanto locais quanto regionais.

Segundo Sen (2010, p. 220-221), as mulheres:

são vistas cada vez mais, tanto pelos homens como por elas próprias, como agentes ativas de mudança: promotoras dinâmicas de transformações sociais que podem alterar a vida das mulheres e dos homens (destaque no original).

Também é fundamental compreender as questões culturais e as condições de socialização às quais homens e mulheres são expostos, mediadas pela cultura. O 5º Relatório Nacional de Acompanhamento dos Objetivos do Milênio (IPEA, 2014, p. 52) enfatiza que o processo de socialização de meninos e meninas, nas famílias e na escola, define as trajetórias escolares e profissionais de homens e mulheres, tendo em vista que há lugares sociais reservados para cada um sexos e que determinam as escolhas destes quando adultos.

Apesar de as mulheres estarem cada vez mais aumentando sua participação e conquistando melhores postos no mercado de trabalho (BARROS et al., 2001), existe ainda uma diferença salarial entre homens e mulheres em determinadas áreas de atuação, como afirmam Mattei e Baço (2016) em estudo realizado em indústrias de transformação do estado

de Santa Catarina. A diferença salarial é uma discriminação de gênero e não resultado de avaliação do desempenho e dos atributos dos trabalhadores.

Diante dessa necessidade de fazer a diferença e acreditando que a educação e o trabalho são fundamentais para a construção da dignidade humana, pois contribuem para o aperfeiçoamento de seus valores morais, fortalecem suas relações sociais, permitem a construção de uma personalidade e possibilitam independência financeira, propõe-se estudar o empoderamento da mulher líder na perspectiva do desenvolvimento, a partir da sua percepção quanto ao poder que podem, querem ou desejam exercer diante das situações. A mulher tem atuação de destaque em diferentes áreas/segmentos do desenvolvimento, em especial realizando ações sociais e culturais, como junto à Liga de Combate ao Câncer, Associação de Pais e Amigos dos Excepcionais (APAE) e fundações culturais. A atuação das mulheres em diferentes projetos que visam melhorar as condições de uma dada sociedade é reconhecida por meio de premiações 6e valorizada, mas pouco estudada no contexto brasileiro.

A atuação organizada das mulheres tem contribuído para o desenvolvimento, pois tal estrutura social garante a participação em diferentes níveis de tomada de decisão política nos espaços públicos (MIRANDA; BARROSO, 2013). É por meio de projetos, com objetivos declarados em prol de uma sociedade mais justa e humana, que a mulher líder se empodera e exerce a liberdade de ação, reconhece seu poder para realizar escolhas. Assim o fazendo, gera transformações positivas na sociedade e contribui para o desenvolvimento.

6 De acordo com informações disponibilizadas no Portal Brasil, há diferentes formas de premiações à atuação da

mulher na proposição, implementação e atuação em projetos sociais no Brasil. A Fundação Banco do Brasil de Tecnologia Social, por exemplo, reconhece a qualidade dos projetos realizados por mulheres de todo o Brasil por meio de premiação bianual. O objetivo é identificar tecnologias sociais inovadoras e reaplicáveis, que promovam o envolvimento da comunidade, a transformação social efetiva na solução de questões relativas a alimentação, educação, energia, habitação, meio ambiente, recursos hídricos, renda e saúde.