O módulo 1, Concepção, é composto por painéis e objetos em vitrina, em sua maioria esculturas em barro e outros materiais, que abordam desde a concepção até as etapas da gravidez. Na seção “O encontro” há um diálogo entre o painel que mostra o encontro do óvulo com o espermatozoide (imagens), o encontro entre casais (esculturas em barro) e uma tela que mostraria Adão e Eva (Figura 10).
A lenda do boto cor-de-rosa, de origem amazônica, faz diálogo com uma escultura em barro da relação entre uma mulher e um boto – representado como homem na porção superior do corpo. A comunicação do tema da concepção também a partir dessa lenda, presente na tradição popular amazônica, é um ponto que merece ser destacado positivamente por incluir um aspecto da diversidade cultural em torno do nascimento que não tem como referência o saber científico, evidenciando a pluralidade de discursos e significados em torno desse evento social que é a concepção e o nascimento.
Em relação à família, contudo, a questão é um pouco diferente. O conceito de família patriarcal, da religiosidade cristã e do encontro entre homem e mulher dá o tom da apresentação, que se encontra em algum momento com o termo bíblico “Multiplicai-vos”. Transcrevemos abaixo, na íntegra, o painel “Ser Mãe, Ser Pai”:
O instinto maternal é automaticamente ligado às mães, que protegem, criam e cuidam da criança.
Mas como chamaríamos o sentimento e a dedicação que os pais, as avós, os avôs, os tios e as tias têm por uma criança?
“A maternidade tem um efeito muito humanizador. Tudo se torna reduzido ao essencial.” [Frase da atriz norte-americana Meryl Streep]
“Mãe – mulher ou homem que cumpre na convivência com uma criança a relação íntima de cuidado que satisfaz suas necessidades de aceitação, confiança e contato corporal, no desenvolvimento de sua consciência de si e de sua consciência social.” [Trecho extraído de Maturana & Zöller, 200487]
Na sociedade indígena, a criança é 'propriedade' de todos, de modo que muita gente ajuda a tomar conta dela”88 [Trecho extraído de Daniel Munduruku, escritor e
antropólogo indígena da etnia Munduruku]
87 Maturana, Humberto R.; VERDEN-ZÖLLER, Gerda. Amar e brincar: fundamentos esquecidos do humano do patriarcado à democracia. São Paulo: Palas Athenas, 2004. 272p.
88 Extraído do livro O banquete dos deuses: conversas sobre a origem e a cultura brasileira, de Daniel Munduruku (2000), índio brasileiro, antropólogo, pertencente à nação Mundurucu.
Figura 10: Módulo “Concepção” - “O encontro”
Há contrapontos interessantes no discurso quanto à tentativa de retirar da figura materna a exclusividade da dedicação à criança, quando ele traz a questão de outros membros familiares na vida da criança e o exemplo da comunidade indígena, onde supostamente ela não pertenceria a um núcleo familiar, mas à comunidade como um todo. Mas à mãe ainda caberia a proteção, a criação e o cuidado, sendo que o discurso em relação aos outros membros da família é o do sentimento e dedicação. A maternidade continua, de certa forma, a ser exclusiva no cuidado, enquanto que ao homem caberia o sentimento, reforçando o modelo paternal onde o pai é coadjuvante na criação dos filhos.
É possível perceber uma romantização do papel feminino sobre a maternidade, reforçando um conceito que é historicamente construído, o do “instinto maternal”, como condição natural da mulher, onde ser mãe “tem um efeito muito humanizador”. Vários pesquisadores tem alertado sobre o caráter opressor desse discurso sobre as mulheres que não desejam ser mães, por exemplo (MATTAR e DINIZ, 2012). Enunciados como este, naturalizados em nossa cultura, apresentam a maternidade como um modo de produção do que é ser mãe a partir do que se pensa ser mais adequado, inclusive moralmente, configurando uma norma reguladora da prática materna que desprestigia outros modos de existência do ser mãe (MOREIRA e NARDI, 2009); é o que Mattar e Diniz (2012) denominaram “hierarquias reprodutivas”, onde não basta ser mãe, pois a partir do momento em que uma mulher não se
encaixa nessa norma, há uma desqualificação de sua maternidade, configurando um cenário onde algumas mulheres são “mais mães” do que outras.
Considerando, ainda, que o momento político atual encontra-se efervescente quanto à reivindicação de direitos de reconhecimento de outros modelos de família que não se encaixam nesse modelo patriarcal, é preciso problematizar essa abordagem para pensar não apenas a família, mas os modos de paternidade e maternidade89.
Mesmo não sendo o único modelo existente, a família nuclear baseada na concepção do casal com filho é ainda a mais idealizada e há uma forte tendência de se classificar como “família desestruturada” os arranjos que se encontram fora dessa organização. Tem havido, contudo, uma tentativa de desconstrução da noção de família desestruturada90 por vários autores, na tentativa de interpretar se houve realmente mudanças
nos últimos anos, como se tem apontado, e, em caso afirmativo, de quais seriam elas e o porquê, sob a perspectiva da diversidade estrutural familiar (GOLDANI, 1993).
Além disso, com os movimentos pelo reconhecimento da família homoafetiva, que reivindicam o casamento civil de casais homossexuais e a possibilidade de adoção de crianças por parte desses, outras possibilidades do que pode ser a família, a maternidade e a paternidade são acionadas, de forma que não há como ignorar esse debate no momento atual.
Isso não quer dizer que a exposição tenha que, obrigatoriamente, abordar essas outras configurações familiares e os debates que sobre elas se travam, mas trata-se de não enveredar a abordagem do tema do parto e nascimento por conceitos que estão ligados a uma matriz de família que não representa mais o tipo predominante de arranjo doméstico contemporâneo existente no Brasil.
O texto de Maturana e Zöller (2004), citado no painel, é instigante na medida em que coloca todo o arcabouço de significados que tem a maternidade para “mulher ou homem” que cumpriria tal papel. Mas apresentá-lo na abordagem sobre o tema da maternidade é também um tanto controverso, pois confunde papeis em busca de um parâmetro igualitário
89 Há estudos que mostram que a predominância de famílias formadas por casais com filhos vem decaindo: em 1993, equivalia a 63%, mas, em 2007, 52% das estruturas familiares correspondiam a esse modelo; tem ocorrido um aumento de outros arranjos familiares, como mulheres e homens morando sozinhos, e famílias monoparentais masculinas ou femininas, sendo esses últimos tipos os mais em ascensão no país (PINHEIRO et al., 2009). Há também um crescimento que tem sido identificado, no Brasil, de casais sem filhos, fenômeno ainda pouco sistematizado em estudos sobre esse tipo de arranjo familiar (ALVES et al., 2010), mas que questionam a “obrigação” social da configuração familiar de casais com filhos.
90 Para um melhor aprofundamento sobre as questões do conceito de família e interpretações possíveis sobre as configurações da família no cenário brasileiro, ver GOLDANI, Ana Maria. As famílias no Brasil contemporâneo e o mito da desestruturação. Cadernos Pagu, Campinas, v. 1, n. 6, p. 68-110, 1993.
entre as figuras paterna e materna sem que essa discussão esteja amadurecida na sociedade. Atualmente, vem acontecendo, no Brasil, um movimento por uma paternidade ativa, que não tem como base a igualdade entre homem e mulher e, sim, a construção de uma outra paternidade. Não se trataria de uma substituição de atores a ocupar o papel da mãe, que também está imerso em sua historicidade, mas de um movimento de questionamento do modelo tradicional de paternidade e a tentativa de construção cultural de uma paternidade tão ativa quanto a mulher em sua maternidade. Esta é, inclusive, uma das pautas de alguns grupos de ativismo pela humanização do parto e nascimento, a partir da constatação de que a mudança no parto e nascimento por modelos mais humanizados e que permitem o protagonismo da mulher, tem ocorrido em paralelo a uma mudança de protagonismo também na paternidade, de um modelo passivo para um modelo mais ativo, diferente dos moldes tradicionais destinados ao homem até então.
Outros movimentos de mulheres, no Brasil, também tem discutido esse tema nas pautas sobre as políticas públicas para promoção da equidade de gênero. As desigualdades na licença-parental entre homens e mulheres tem origem na divisão sexual do trabalho e, nesse sentido, uma mudança simbólica e cultural da paternidade não se torna possível se o Estado não conferir o reconhecimento da paternidade em termos de legislações e direitos trabalhistas, por exemplo91. É claro que apenas a criação de legislação não garante mudanças na ordem
simbólica entre maternidade e paternidade, mas é fundamental o papel do Estado no sentido de prover as condições necessárias para que as mudanças socioculturais que já estejam em curso sejam viabilizadas.
Acreditamos, portanto, que é a partir de perspectivas como essa que deva se dar a discussão sobre maternidade e paternidade, bem como sobre as mudanças socioculturais que vêm ocorrendo. E não propriamente por meio de um discurso psicoafetivo que coloca em paridade conceitos distintos historicamente, mas que não contribui para a discussão sobre uma paridade institucional e cultural que leve em conta as desigualdades de gênero.
91 Como mostra o trabalho de Pinheiro et al. (2009), sobre a discussão da ampliação e modificação da licença- parental no Brasil, os direitos conferidos à mulher, desde a gestação até o pós-parto, não são comparáveis aos direitos dos homens referentes à paternidade, que se resumem a cinco dias de licença-paternidade após o nascimento do filho e ao salário-família. A legislação nacional ainda se mantém sob viés sexista e de desigualdade de gênero no que diz respeito ao que podem ser as competências e responsabilidades de homens