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MULHER FREUDIANA: MATERNIDADE OU RECALQUE?

No documento UNIVERSIDADE CATÓLICA DO SALVADOR (páginas 48-53)

PARTE 2 – A MÃE E A MULHER NA PERSPECTIVA DE FREUD

4. MATERNIDADE X FEMINILIDADE: A TESE FREUDIANA EM QUESTÃO

4.3 MULHER FREUDIANA: MATERNIDADE OU RECALQUE?

Nos dois textos que Freud se dedica exclusivamente ao feminino, encontro elementos que me ajudam a refletir sobre os três argumentos. Em Sexualidade Feminina (1996 [1931]), Freud afirma:

Nas mulheres, o Complexo de Édipo constitui o resultado final de um desenvolvimento bastante demorado. Ele não é destruído, mas criado pela influência da castração; foge às influências fortemente hostis que, no homem, tiveram efeito destrutivo sobre ele, na verdade, com muita frequência, de modo algum é superado pela mulher (1996 [1931], p. 238).

Mais a diante ele surge com outra afirmação igualmente inquietante: “A menina reprime sua masculinidade prévia” (1931, p. 247). O que me faz concluir que, a partir dos argumentos destacados e dos trechos citados, a feminilidade ocorre ao preço de inúmeras repressões.

Em Feminilidade (1933), Freud volta a falar sobre o deslocamento do desejo do pênis para deslocar-se, por fim, ao bebê. E nesse texto ele é extremamente claro: “Não é senão com o surgimento do desejo de ter um pênis que a boneca-bebê se torna um bebê obtido de seu pai e, de acordo com isso, o objetivo do mais intenso desejo feminino” (FREUD, 1933, p. 128). Mais uma vez, onde se encontra a mãe ou a maternidade, tão aclamada como realização feminina? Ele complementa:

Sua felicidade é grande se, depois disso, esse desejo de ter um bebê se concretiza na realidade; e muito especialmente assim se dá, se o bebê é um menininho que traz consigo o pênis tão profundamente desejado. Com muita frequência, em seu quadro combinado de ‘um bebê de seu pai’, a ênfase é colocada no bebê, e o pai fica em segundo plano (p. 128).

Por fim, conclui: “Talvez devêssemos identificar esse desejo do pênis como sendo, par exellence, um desejo feminino” (p. 128). Essa é, portanto, a saída do Complexo de Édipo feminino dada por Freud: o desejo de um bebê, o que não convém ser entendido como maternidade. Ter um bebê não necessariamente é o mesmo que ser mãe. Um bebê que na verdade corresponde a uma substituição do órgão masculino. Um desejo eminentemente fálico28.

Destaco que, para Freud, (ao menos nesses textos sobre a sexualidade feminina e feminilidade) uma menina torna-se mulher quando passa a desejar o pênis de forma camuflada, através de um substituto que corresponde, segundo Freud, ao bebê.

A partir do momento em que Freud dispõem as coisas dessa maneira, destacando o bebê como “o objetivo do mais intenso desejo feminino”, ou o pênis como sendo, “par exellence, um desejo feminino”, só resta uma conclusão, que a menina e a mulher para Freud são sujeitos desejantes. E mais, que não é a maternidade que se encontra como equivalente ao feminino, ou como suposta realização da mulher, mas sim a presença de um objeto fálico.

O desejo que a inaugura como mulher não é outro senão o desejo do pênis – aquilo que lhe falta – que se manifesta através do desejo de um filho, que insistentemente foi interpretado como maternidade. É, inclusive, esse salto, do pênis para o bebê, que parece

28 O objeto fálico deve ser compreendido como o correspondente do objeto do desejo. Desejamos o que não temos, logo, na economia psíquica apresentada por Freud, a princípio, o pênis é o objeto fálico pois corresponde ao que a menina não tem. Mas essa equivalência entre pênis e falo (objeto fálico) é de ordem simbólica. O falo representa o pênis, mas ele não é o pênis. Ele representa o pênis na medida em que, para Freud, é o pênis que a menina deseja num primeiro momento. Mas o próprio pênis já é em si substituto de algum outro objeto que a menina deseja. Na sequência ele corresponderá ao bebê, e não mais ao pênis, como substituto do objeto do desejo da menina, ou seja, como substituto do objeto fálico.

caracterizar o feminino em Freud. Mas essa operação ocorre sob a condição de um recalque29.

De forma que, por trás do desejo de um bebê, se encontra o desejo reprimido do pênis30 na

menina agora mulher – razão pela qual Freud compreende que o nascimento do filho do sexo masculino cumpre mais a realização que se encontra latente na mulher.

Tal é a conclusão que pude chegar: é o recalque que faz a mulher freudiana numa equação na qual o que se apresenta não é a mãe ou a maternidade como solução, mas um bebê substituto do desejo de pênis, recalcado. Diante disso, pergunto-me de que forma essa constatação me ajuda a refletir sobre a vulnerabilidade psíquica do puerpério?

Se isolo na letra de Freud a feminilidade como resultado do encontro da mulher com a própria castração, a vulnerabilidade seria o inevitável desse encontro. Um encontro com a própria falta. Pois o bebê, ao menos nos primeiros meses de vida, não pode recobrir a falta da mulher, como se propõe com a ideia de realização. Ao contrário, o recém-nascido parece antes reforçar esse buraco aberto pelo recalque no feminino. Pois o bebê, na linguagem freudiana, não corresponde ao pênis tão desejado. Mesmo que ele venha com o aparato anatômico tão aclamado, ainda assim, ele não é o pênis, mas um substituto e ela sabe muito bem que é um substituto (ZAFIROPOULOS, 2013). O desejo da mulher permanece assim aberto, insatisfeito, e, portanto, sempre em busca de satisfação.

Esta não é uma armadilha, [...]. É uma satisfação, esta é a mina de ouro no plano freudiano. [...] É por isso que, além disso, que os senhores muito ricos, que não podem fazer filhos a uma mulher, podem cobri-las de joias, mas o que ela quer é apenas isso: um bebê31 (ASSOUN; ZAFIROPOULOS, 2013, p. 28).

Há ainda outra forma de compreender a transposição dessa lógica freudiana ao período do puerpério, considerando nessa análise os efeitos psicológicos tão presentes, que traduzo através de um questionamento: não seria possível pensar que o estado de humor depressivo (ou, nos casos mais graves, uma depressão puerperal) que a mulher frequentemente apresenta no pós-parto, não estaria relacionado ao fato da mulher se deparar com o materno? Essa inflexão se impõe pelo fato de que a maternidade não é, a princípio, o que ela deseja realizar com o objeto bebê (o desejo de um bebê não necessariamente é o desejo de ser mãe), mas, de

29 Por ora entendamos recalque como um tipo de repressão do conteúdo que entra em choque com o que se espera e o que é aceito socialmente. Esse conteúdo não pode ser lembrado, evocado, a não ser através de um substituto. Desenvolvo esse conceito no próximo capítulo.

30 Idem.

31 “ce n’est pas un piège…, c’est une satisfaction, c’est le jackpot au plan freudien. (…) C’est pour cela d’ailleurs que des messieurs très riches qui ne peuvent pas faire d’enfant à une femme peuvent la couvrir de bijoux, mais ce qu’elle veut c’est ça: un enfant” (Tradução livre da pesquisadora).

alguma forma, é a maternidade que se apresenta como possibilidade quando se tem um bebê nos braços.

Devo reconhecer que, dessa forma, encontro em Freud, através da teoria sobre a feminilidade, um caminho para o problema proposto sobre a razão de tamanha vulnerabilidade psíquica do puerpério, a saber, o encontro com a castração, com a falta. Pois além de ter que se haver com a maternidade, que não se encontrava, a princípio, dentre os objetos de sua realização, ela ainda tem que se haver com um substituto do objeto tão desejado, e não com o objeto propriamente dito.

Mas, por outro lado, Freud não explica por que o desejo de um bebê é o que a mulher deseja como substituto. Por acaso, não poderia ser outro objeto substituto? Por que Freud encontrou o bebê ou o filho como resposta a esse enigma?

Na verdade, ele não está tão certo do que de fato a mulher deseja, ou o que vem a ser o desejo do bebê para a mulher, pois na sequência do texto ele deixa entrever que algo ainda lhe escapa. “Se desejarem saber mais a respeito da feminilidade, indaguem da própria experiência da vida dos senhores, ou consultem os poetas, ou aguardem até que a ciência possa dar-lhes informações mais profundas e mais coerentes” (1996 [1933], p. 134).

Os psicanalistas contemporâneos (ANDRÉ, 1998; ASSOUN, 2003;

ZAFIROPOULOS, 2010, 2013) sinalizam enfaticamente que Freud esbarra no desejo da mulher, como este sendo o enigma que marca o feminino, sobre o qual Freud não cessa de

tentar desvendar: “Apesar de tudo que aprendi do desejo da mulher, ela não me fez avançar

nenhuma polegada na minha investigação sobre a natureza do que ela quer32” (FREUD apud

ASSOUN, 2003, p. 52).

É nesse sentido que é necessário compreender a famosa declaração à Maria Bonaparte: “A grande questão que resta sem resposta e à qual eu mesmo não pude jamais responder apesar dos meus trinta anos de estudo da alma feminina é a seguinte: o que quer a mulher?”.

Freud não confidencia apenas uma de suas perplexidades, mas, se tomamos a fórmula ao pé

da letra, a questão sobre a qual se exerce sua perplexidade33 (ASSOUN, 2003, p. 51). Na mesma perspectiva:

32 “malgré tout ce que j’ai appris du désir de la femme, cela ne m’a pas fait progresser d’un pouce dans mon enquête sur la nature de ce qu’elle veut” (Tradução livre da pesquisadora).

33 “C’est en ce sens qu’il faudrait comprendre la fameuse déclaration à Marie Bonaparte: ‘La grande question restée sans réponse et à laquelle moi-memê n’ai jamais pu répondre malgré mes trente années d’étude de l’âme féminine est la suivante: que veut la femme?’ Freud ne confie pas là seulement l’une de ses perplexités, mais, si on prend la formule à la lettre, la question sur laquelle s’exerce sa perplexité” (Tradução livre da pesquisadora).

Com esse ‘O que quer a mulher?’, Freud testemunha de fato – é nossa hipótese – que ele mesmo não estava verdadeiramente convencido pela sorte de axioma que ao longo de suas pesquisas o levou a indicar que a situação feminina por excelência se instala a partir do Édipo via o desejo do pênis ou do bebê. O que quer dizer, in fine, por uma identificação ideal à mãe no domínio do ter. Digamos logo, esse axioma constitui, do nosso ponto de vista, um dos maiores impasses do campo freudiano34 (ZAFIROPOULOS, 2010, p. 14).

Mas, e a mãe, onde a encontramos nessas ruminações sobre o feminino? Ela quase não aparece como parte do desenvolvimento da sexualidade, nem sequer como objetivo final. A mãe da menina, essa sim aparece, como primeiro objeto de amor e como rival no Complexo de Édipo. Talvez devêssemos perguntar se não é justamente esse mistério sobre a mulher, ao qual Freud se apegou com tanta tenacidade, que faz obscurecer e dificultar todo acesso e compreensão relativo ao campo materno.

Deparo-me, assim, diante de um impasse. Pois, reconheço que esse caminho proposto por Freud – ou seja, da mulher que permanece à sombra de um desejo fálico, de um lado, e de um não saber sobre o seu desejo, de outro lado – não diz muito sobre o materno. Fica para a mãe apenas um campo mal definido, sempre abordada a partir de outro, do bebê, da criança, da mulher, do pai... O que me remete à ideia grega de algo intocável, algo endeusado relacionado à mãe. É, portanto, nesse terreno, sempre a partir de outro, e sempre a partir de uma certa mitificação, que se encontra a mãe na psicanálise freudiana.

Nesse ponto das argumentações, devo admitir que as contribuições freudianas a respeito do feminino já não podem dar conta dos direcionamentos que alcancei até o momento. Constato, por conseguinte, que os avanços sobre a teoria da histeria, por outro lado, servem de terreno para a continuação da análise proposta, pois a ideia de que um mal-estar que se deflagra com a chegada do bebê nos remonta à formação do sintoma observado nos casos de histeria de Freud, e, igualmente, à lógica do psiquismo freudiano. É nesse contexto que podemos compreender melhor o conceito de recalque que parece definir o feminino em Freud, e que se encontra na base da estruturação do sujeito freudiano.

34 “Avec ce ‘Que veut la femme?’, Freud témoigne du fait – c’est notre hypothèse – que lui-memê n’était pas véritablement convaincu par la sorte d’axiome qui tout au long des ses recherches l’a amené à indiquer que la situation féminine par excellence s’installait à l’issue de l’oedipe, via le désir du pénis ou de l’enfant. C’est-à-dire, in fine, par une identification idéale à la mère dans le domaine de l’avoir. Disons-le d’emblée, cet axiome constitue de notre point de vue une des impasses majeures du champ freudien” (Tradução livre da pesquisadora).

No documento UNIVERSIDADE CATÓLICA DO SALVADOR (páginas 48-53)