• Nenhum resultado encontrado

CAPÍTULO 3: ANÁLISE DAS NARRATIVAS

3.1 Identidades sociais de gênero: antes do HIV

3.1.2 Mulher, identidade de gênero e silenciamento

A imposição do pai se opõe à compreensão da mãe, o que estremece a relação dos filhos e filhas com os pais. Somado à revolta adolescente, o discurso paterno tende a provar a fragilidade quando a complacência partilha a desilusão de que sua palavra era um aviso de que algo não daria certo devido à resistência e à tentativa de libertação ou subversão às regras que ele impusera ou propusera. (BOURDIEU, 2011, p. 89). O que pode explicar o medo, o ódio dirigido ao pai, no relato da Janete, logo a seguir. Fragmento 4 1 2 3 4 5 6 7 8 9 10

Sei de uma coisa: a gente só fala isto, que é HIV, para o parceiro ou para os parentes. Mesmo assim, pensei antes de falar, porque foi aí que eu vi que quando você é amada de verdade, supera tudo isto.

Contei da gravidez para Dona Minha Patroa e ela perguntou o que eu iria fazer. [...] Eu não queria falar para o meu namorado que eu estava grávida, para não pressioná-lo e nem obrigá-lo a ficar comigo. [...] eu tinha que falar para o pai (da criança). E ele precisava saber que eu era HIV. [...] Mas, antes, eu contei para minha família. Na hora, eles ficaram pondo a culpa em mim. Meu pai xingou-me muito. Mas ele nunca ligou para mim mesmo! Falou que eu me virasse. Meu pai xingou-me mais por eu estar grávida e por eu estar doente, não me ajudou. [...]

(Janete, mulher HIV+, 28∕04∕2014)

Nas linhas 1 e 2, é possível perceber a insegurança acentuada de Janete em revelar a gravidez somada ao fator de estar infectada pelo HIV, sobretudo aos entes

do núcleo familiar de origem e com quem teve relacionamento sexoafetivo. Da patroa com quem foi trabalhar como empregada doméstica, ela já esperava a reação de desinteresse conforme se observa na linha 4. Guimarães (1996, p.93) diz que a identidade feminina é estruturada pelo estereótipo do silêncio, do ocultamento. Porém, esse silenciamento não significa a inexistência de um discurso sobre o ser mulher, mas há um silenciamento simbólico marcado em formas concretas, como ocorre na primeira menarca, perda da virgindade, maternidade e menopausa.

Na linha 5, ao mesmo tempo que ela demonstra a insegurança em revelar a gravidez e a infecção ao HIV, quando ela afirma que precisava contar para ele, pode levar à compreensão de que as mulheres encontram no casamento, no “morar” junto com um homem como uma fuga e medo do julgamento moral da sua família de origem, na moral da família, no não envergonhar o pai. Esta minha afirmação é justificada na linha 8, quando Janete aponta a responsabilidade da gravidez e da infecção pelo HIV apenas sobre si mesma. A novidade estremece sua relação de filha e pai, visto que a mesma saíra de casa para trabalhar em casas alheias ainda adolescente por conta também disso. Quando ela afirma que não quer ficar com a filha, isso não quer dizer que ela não queira, mas tenha consciência que não pode ficar, pois sabe que tem suas limitações físicas e não pode trabalhar fora de casa. Embora o fragmento não traga isso de forma clara, em seu choro durante o relato e de sua tristeza apresentada por ter que ficar longe da filha, eu percebi que ela sofre com a separação delas tanto dessa filha que mora com o pai, bem como o do outro filho que mora com a irmã dela e de quando ela me relatou de que depende da irmã vir busca-la para passear na casa dela. (Anotações de campo, mai. 2015).

Fragmento 5 1 2 3 4 5

O pai da minha filha disse: “- Não vamos contar para ninguém!” [...]

A assistente social falou que eu tenho que chamar ele (ex-companheiro dela) na justiça. Mas tem gente que diz que não, que ele (ex-companheiro) cuida bem da minha filha. Vamos falar a verdade, ela (a filha) é bem cuidada. Eu não quero que ela more comigo, só quero ver ela (a filha).

(Andreia, mulher HIV+, 12∕05∕2014)

Ao considerar os processos discursivos de construção de identidades sociais (BORBA, 2010, p. 25), Andrea, ao falar da filha, assume sua identidade de mãe e de ex-esposa; quando fala que não quer que a filha more com ela, na verdade é uma forma de amenizar a impossibilidade da guarda da menina, pois, conforme minhas anotações de campo (2014), ela perdera a guarda por ter ficado muito doente em

decorrência das doenças oportunistas. É possível perceber seu distanciamento do ex- companheiro quando ela usa o pronome “ele” repetida vezes, ou o denomina como “o pai da minha filha”. A resolução do conflito gerado pela ausência da filha (que é uma criança (Anotações de campo, 2014) parece ficar resolvido se alguém trouxer a menina para ela ver.

Fragmento 6

1 2 3

Olha, eu não gosto muito de falar de mim quando o assunto em questão é o meu problema. Cada vez que é para eu falar eu fico deprimida. Eu sou uma pessoa fechada; eu guardo para mim, pois minha família é sem noção.

(Márcia, mulher HIV+, 16∕05∕2014)

O conflito em questão na narrativa de Márcia é o “problema” que pode vir a ser a causa ou consequência do “não querer falar”. O não falar seria a resolução do conflito. O problema narrado por ela é a sua sorologia positiva ao HIV. O falar pode indicar “dores” sentimentais e psicológicas e a dificuldade de viver com a rejeição e isolamento social está no imaginário de muitas pessoas como algo negativo pelo preconceito que ainda é vigente, muitas vezes por desconhecimento como um problema (linha 2), pois a não compreensão por parte da família, que muitas vezes tem atitudes preconceituosas com as pessoas infectadas pelo HIV, faz com que ela silencie e não queira nem mesmo rememorar sua situação sorológica, fazendo com que ela se sinta deprimida, triste e magoada (linha 2 e 5). É possível perceber que mesmo nas relações afetivas entre os familiares, a infecção pelo HIV é vista como problema do outro. Assim, pode-se dizer que as estruturas discursivas são reproduzidas e transformadas na prática. (FAIRCLOUGH, 2001/2008, p. 84).

As reflexões feitas por Márcia parecem se coadunar com as de Gayatri Chakravoty Spivak (2010, p. 14), que desenvolve pesquisa no sul asiático sobre o sujeito subalterno (termo com que ela se refere àquele que não é ouvido) refletindo sobre a pesquisa a respeito desse outro (subalterno) que pode vir a ser mero objeto de estudo e por quem os intelectuais falam. Mas, ao mesmo tempo, é possível reconhecer também, assim como ela, a cumplicidade, a troca de experiências de histórias vividas e narradas, escritas ou não com as mulheres que aceitaram dividir sua experiência de vida comigo, das quais partilho suas vidas (memórias) através do registro de meu trabalho de pesquisa, nessa cumplicidade com que me identifico então como uma pesquisadora, à qual as mulheres confiaram suas vidas privadas,

até mesmo íntima. Pois, vejo nesse silenciamento, esse não querer falar, pode ser uma forma de autoproteção, pois os soropositivos têm plena clareza da exclusão social que sofrem, de forma geral, quando revelam sua soropositividade ao HIV.