Quando se pensa em torcida organizada, logo vem à mente um grupo formado por muitos rapazes uniformizados, em bando e prontos para atacar a torcida adversária. O que muitos não sabem é que existe, sim, muitas mulheres nas torcidas organizadas ou ainda torcidas especificamente femininas.
É difícil quantificar o crescimento da presença das mulheres nesses antigos redutos masculinos. Há até pouco tempo, a participação feminina era quase nula. Hoje, estima-se que elas representem cerca de 5% do contingente das organizadas. Elas tentam se igualar a eles acompanhando os jogos, viajando atrás do time, gritando, xingando e às vezes se metendo em
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confusões. Mas também têm de enfrentar as tais revistas constrangedoras, banheiros imundos e restrições impostas pelos homens, que chegaram primeiro.
É assim o exemplo de Fernanda Lazzari, 30 anos, formada em Economia e associada à Mancha Verde (principal torcida organizada do Palmeiras) desde 2000, conta que já viajou para mais de oito estados e dois países Conheceu suas melhores amigas na torcida e diz que não há brigas ou ciúmes, pois todas estão ali com o mesmo propósito: torcer para o Verdão275. “Mulher não tem vez", declara Priscila Bernardino, 25, que frequenta, desde 1994, a Gaviões da Fiel, organizada do Corinthians. "Mas eles estão melhorando", diz Érika Papangelacos, 27, 15 anos de Gaviões. "Antes, nem deixavam a gente ir a clássico."276.
"Muito homem não aceita que mulher possa gostar de futebol sem ser para ver perna de jogador", diz Amanda de Oliveira, 20, do Bonde Feminino, ala de meninas da Dragões da Real, organizada do São Paulo. Ela explica que só ganham respeito depois que demonstram entender de futebol277.
Existe até uma tabela para identificar torcedoras fieis de verdade ou torcedoras oportunistas, que não frequentam estádios e eventos do clube pelo real motivo, ou seja, a paixão por futebol. Essa tabela tem características específicas que auxiliam essa identificação.
O termo “Maria torcedora” representa todas aquelas mulheres que vão ao estádio procurando relações íntimas com atletas ou membros importantes da torcida. Esta expressão se assemelha
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à conhecida “Maria chuteira”, em oposição à “torcedora nota dez”, que tem aceitação maior
Enfrenta todas as dificuldades, como horas de ônibus para acompanhar o time em outras cidades, debaixo de sol ou chuva.
Permanece pouco tempo na torcida. Fica anos na torcida, onde tem muitos amigos e, às vezes, até namorado.
Essas torcedoras “nota dez” citadas acima pertencem a torcidas organizadas masculinas, ou seja, enfrentam ainda muito preconceito e dificuldade, no entanto surgem aos poucos alguns núcleos sociais compostos por mulheres e até mesmo torcidas específicas femininas. E no Rio Grande do Sul não é diferente. Como já citado neste trabalho, no nosso estado existem dois grandes grupos relacionados aos principais clubes de futebol. No Grêmio o Núcleo de Mulheres Gremistas e no Internacional o Espaço da Mulher Colorada. Esses dois núcleos têm grande importância, pois acompanham o clube, criam eventos sociais e beneficentes e até participam de votações importantes.
No entanto não são somente esses grupos que existem. Há também uma torcida organizada especialmente formada por mulheres no Internacional, chamada de Força Feminina Colorada (FFC). É considerada a única torcida organizada feminina do Rio Grande do Sul reconhecida pelo Ministério Público.278 Esse reconhecimento é muito importante, pois
278www.internacinal.com.br acesso em 27 de junho de 2012
oficializa o grupo de mulheres que a partir desse momento se enxergam de forma organizada, com regras, liderança, estatuto.
A ideia surgiu no site de relacionamentos Orkut, em 2009 onde, na comunidade de torcedoras coloradas, algumas manifestaram desejo de contar com uma torcida organizada que fosse estritamente feminina. A primeira reunião ocorreu em 24 de maio, com 15 torcedoras presentes. Foi escolhida a diretoria e, então, se deu início ao trabalho. A primeira apresentação oficial da FFC foi na vitória do Inter sobre o Avaí, no primeiro turno do Campeonato Brasileiro por 2 a 1, no dia 31 de maio de 2009.279 Uma das regras para se entrar na FFC é ser sócia do Clube. Essa modalidade de torcida tem mexido inclusive com a rivalidade Grenal. A torcedora Jéssica Maciel, 24 anos, sempre quis ir ao estádio, mas tem namorado e uma família gremista e tinha medo de ir sozinha. Então conheceu a FFC e agora vai acompanhada de 200 mulheres aos jogos do Inter. “Agora estou super bem acompanhada”, ressalta Jéssica280.
A FFC se posiciona na arquibancada inferior entre duas das mais tradicionais torcidas organizadas do Internacional, a Camisa 12 e Nação Colorada, porém isso não inibe nem um pouco o incentivo na torcida das meninas. A cada jogo, contam com o apoio de mais mulheres que acabam se conhecendo no estádio e que se tornam novas afiliadas.
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Torcida organizada Força Feminina Colorada Fonte: Acervo pessoal da membro da torcida Adriane Peppl
A presença das mulheres no estádio acaba diminuindo os casos de violência nas arquibancadas. “A gente pensa que pra ser torcida organizada não precisa brigar e trazer violência para o estádio. A torcida organizada é para estar no estádio e apoiar o time”, revela a presidente da FFC, Adriana Paranhos281. Muitas das afiliadas são de fora do Rio Grande do Sul e todas manifestam o desejo de acompanhar o Inter. Em virtude dessa procura, a FFC também acompanha o “Colorado” em suas viagens. A FFC também criou a primeira banda feminina e aceita não apenas membros da torcida, mas também adolescentes em vulnerabilidade social que gostariam de aprender algum instrumento. A ideia é que essas aulas se tornem logo um projeto social282.
Que as mulheres estão participando cada vez mais do espaço do futebol dentro e fora do campo isso fica claro. A pergunta que fica é se esse aumento de sócias vinculadas há algum clube se dá diante das mudanças de infra-estrutura dos estádios. Muitas das mulheres citadas acima deixam claro que participam e se envolvem com as atividades do clube desde muito tempo. Algumas apresentadas estão há 15, 20 anos acompanhando o seu clube de coração, época essa que os estádios ainda eram precários (alguns ainda são), sujos, desorganizados e muito mais violentos. Não obstante será essas mulheres maioria? Ou ainda o que se vê são poucas torcedoras fieis que sempre acompanharam seus clubes, e uma maioria que somente agora passa a se interessar pelo esporte diante de tantas modernizações.