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Mulheres Negras e seus Territórios Repatriados

Capítulo 3: Um ensaio à construção do pensamento feminista negro brasileiro e seus espaços

3.2 Mulheres Negras e seus Territórios Repatriados

Antes de entrarmos nesse assunto, é importante identificar que o processo de desterritorialização precede a ação de repatriar territórios, pois como já foi dito, as mulheres negras quebraram regras, reconstruíram novas formas de sobreviver a um mundo não programado para elas, que as coloca no vácuo da existência. Desconstruíram e reconstruíram; arrombaram portas e levantaram novas; criaram novas epistemologias, em alguns momentos desfizeram as antigas noutros as ressignificaram. Criaram novas ordens territoriais para fora do controle, fizeram dos territórios lugares fluidos.

Logo, o conceito Território Repatriado deve ser compreendido sob essa formatação. Segundo Souza (1995) território é “um espaço definido e delimitado por e a partir de relações de poder.”332 É também um substantivo originado do latim territorĭum, está

associado à terra, ao espaço geográfico sob jurisdição de um determinado grupo de pessoas ou de uma autoridade, nesse sentido é um meio de legitimar poder. Para Corrêa (2004) “O mundo moderno é recoberto por números de territórios, [...], contínuos ou descontínuos, permanentes ou temporários. Essa pluralidade de territórios aponta para a sua força como componente essencial da vida social.”333 Desde a modernidade o conceito de território vem sendo utilizado tanto pelo colonialismo quanto pelo neocolonialismo como instrumento para o exercício de poder e apresamento dos pares dominados, seja no período das Grandes Navegações no século XV seja no Neocolonialismo do século XIX, com a finalidade de apropriação de territórios e de outras civilizações. No entanto, nos séculos XX e XXI tem ampliado sua base conceitual e seu espaço de atuação juntamente com os conceitos de nação, multiculturalismos, desterritorialização e reterritorialização, utilizados pelas ciências humanas.

332SOUZA, Marcelo Lopes de. O território: sobre o espaço e poder, autonomia e desenvolvimento in CASTRO, Iná E. de; GOMES, Paulo da C; CORRÊA, Roberto L. (org) Geografia: conceitos e temas. Rio de Janeiro Bertrand Brasil, 1995, p.78.

333CORRÊA, Robero Lobato in HAESBAERT, Rogério. O mito da desterritorialização: Do “fim dos territórios” à multiterritorialidade. Rio de Janeiro Bertrand Brasil, 2004. s/p.

O verbo Repatriar é uma palavra originada do latim repatriare que indica retornar a pátria de onde deriva, devolver ao local de origem, associado às questões de migração. Assim, o adjetivo substantivado repatriado, nessa construção conceitual bastante presente nos séculos XX e XXI está aliado ao conceito de restituição. No entanto, muitos autóctones que tiveram sua cultura expatriada ainda residem geograficamente dentro de seus espaços originais de pertencimentos, como aconteceu às populações nativas na América. Os ameríndios tiveram sua cultura, sua língua, seu território, tombados como patrimônio dos invasores e querem restituir o que lhes foi roubado e saqueado, preservando sua cultura e seu direito de viver. Estes por sua vez, se estabeleceram nesses territórios fazendo de sua cultura estrangeira, o algoz da colonização, refutando tudo que fosse nativo.

Enquanto, outros povos foram trasladados de seus territórios, tendo suas identidades e memórias afogadas na travessia do Atlântico para a América, perdendo qualquer contato com sua pátria de origem, como ocorreu aos negros escravizados. Estes por sua vez, como forma de resistência e apropriação do seu espaço cultural, se repatriaram em quilombos para onde fugiram e tiveram a possibilidade de reestabelecer e restituir o contato com sua ancestralidade e seus rituais maternos. A repatriação vem de um processo de descolonização muito presente na segunda metade do século XX, segundo Gay (2013).334 No caso das mulheres negras, pode-se entender esse processo, a partir da repatriação da memória e da ancestralidade, enquanto, há um restituição das perdas de humanidade as quais os negros foram submetidos por séculos.

A partir dessa leitura o conceito Território Repatriado apresenta novas formas de restituir, tomar posse ou de repatriar as mulheres negras a seus espaços de trânsito e pertencimento. Não é possível retornar a África, uma vez que o continente não é o lugar de pertencimento nacional e espacial das gerações que se seguiram, mas o lugar de sua ancestralidade atrelada as novas construções territoriais contemporâneas. Aos negros foi negada qualquer forma de sobrevivência de sua subjetividade quando foram apresados e encaminhados para a escravização na América, soma-se a isso a dupla opressão sexista e étnica sofridas pelas mulheres negras.

Esse conceito requer uma retomada de espaço, seja físico, seja material ou imaterial, está associado ao campo das ideias e dos espaços comuns divididos com a branquitude que tem na mulher negra um indivíduo assujeitado. Lugares que nunca foram permitidos a essas

334 GAY, Auréline. La restitution des biens culturales à leur py’s d’origine. Um débat au carrefour entre le droit, la politique e la morale. Lyon: Insitut d’Etudes Politiques de Lyon, 2013.

mulheres devido sua condição “inumana” dada pela escravização e pelas teorias raciais. Nesse sentido elas reconstroem novos territórios e ressignificam aqueles sob os quais estão submetidas, como sujeito de ação não mais como parte do patrimônio. Os Processos de localização e de repatriação se fazem necessários, pois servem de bússola para a construção de novos espaços de atuação, novas formas de subjetividade e novas possibilidades de habitar o mundo, como o sujeito que postula uma “atitude crítica”.

[...] uma questão perpétua que seria: “como não ser governado assim, por isso, em nome desses princípios, em vista de tais objetivos e por meio de tais procedimentos, não dessa forma, não para isso, não por eles”; e se nós damos a esse movimento da governamentalização, da sociedade e dos indivíduos ao mesmo tempo, a inserção histórica e a amplitude que creio ter sido a sua, parece que poderíamos aproximadamente colocar ali o que chamaríamos de atitude crítica335.

Segundo Foucault, a atitude crítica está além do julgamento, é a possibilidade de extrair da relação de poder-saber sinais de existência, se recusando a ser visto ou mesmo governado dessa ou daquela maneira alheia a sua vontade, nesse caso como um indivíduo sem a consciência de si, segregado e com valores dados pela branquitude. A atitude crítica é uma estratégia de resistência e de sobrevivência que só pode ser exercida a partir do autoconhecimento e conhecimento de seus pares.

Os Territórios Repatriados trazem para a construção das subjetividades das mulheres negras a possibilidade de recriarem novas epistemologias, novas formas plurais de se colocarem no mundo que até então não as identificava como sujeitos de ação e protagonismo. Toda essa mobilidade das mulheres negras, intencional ou não, é política. Atravessada por políticas de gestão neoliberal, que faz do indivíduo único responsável por seu sucesso ou seu fracasso. Essas sete entrevistadas fizeram os mais variados deslocamentos para fora de seus espaços de origem e mapearam o mundo que toca e, dentro dos pontos de partida, escolheram suas rotas de fuga decidiram como seriam governadas e como dirigiriam suas trajetórias.

A jornalista Bebel Nepomuceno, aos seis anos de idade, depois do deslumbramento com a Central do Brasil, na década de 1960, de férias na capital do Rio de Janeiro, na casa dos patrões de sua madrinha, conta como essa realidade a surpreendeu positivamente:

Ela [a madrinha] passou a nos levar, depois, foi trabalhar nessa casa no Leblon, na General Urquiza, eu me lembro que o patrão era um médico e a

335 FOUCAULT, Michel. Qu'est-ce que la critique? Critique et Aufklärung. Bulletin de la Société française de philosophie, Vol. 82, nº 2, pp. 35 - 63, avr/juin 1990 (Conferência proferida em 27 de maio de 1978). Tradução de Gabriela Lafetá Borges e revisão de wanderson flor do nascimento. p.1-34. p.3.

mulher era professora, eu hoje imagino que fosse professora universitária, eles passavam o dia fora, só chegavam em casa à noite e tinham dois filhos já naquela época adolescentes, quase entrando na vida adulta, e então ela ficava praticamente tomando conta do apartamento, era um apartamento duplex, e a gente ficava brincando, vendo televisão, olhando revistas, tinha livros na casa, ela dizia assim você pode fazer tudo, mas fiquem aqui, só não suba, não vá lá pra cima. A gente dormia no quarto da empregada. E os meninos quando chegavam da escola, faziam a gente, eles eram super legais, aí ficavam assim, “samba pra gente ver”. Eu não te falei, mas meu pai tinha uma escola de samba, (nesse momento ela mostra fotos da família, mas ela, não estava nas fotos). [...] Eles faziam assim: “samba pra gente ver!” Levavam a gente pra praia no Leblon, estava começando o surfe, eles tinham uma prancha de madeira, no início eram aquelas pranchas enormes de madeira pesadas gigantescas, eles levavam a gente, diziam vamos lá vamos ver e a gente ficava sentada na areia. Então eu tinha contato com dois mundos, bem diferentes, durante um mês eu vivia numa rua do Leblon, na zona sul do Rio de Janeiro, num apartamento duplex e depois eu voltava para minha casinha simples, mas isso ia alimentando meus sonhos.336

Esse contato com o mundo alheio ao seu, fez com que a menina do interior do Rio percebesse o quanto sua realidade poderia ser diferente da reservada à sua mãe, à sua madrinha e àquelas mulheres que deixavam suas famílias por 15 dias para trabalhar como domésticas na capital, pois esse não era o único caminho para sobreviver.

Já Mabel Assis, moradora da periferia da cidade de São Paulo, sentiu na pele o racismo, fazendo dessa percepção crítica uma motivação que a impulsionou para fora do servilismo. A assistente social foi bem enfática ao dizer que “consciência negra que te dá esse entendimento do que é o racismo de como ele funciona como é que ele te atinge e [...] que posicionamento político você tem diante de tudo isso.”337 Sua compreensão ao se autodefinir, e se locomover de maneira segura, enquanto descobre o mundo a sua volta, passa pela chave do racismo estrutural, conforme aponta no fragmento a seguir, já mencionado anteriormente. Embora até esse momento de sua trajetória teria vivido muitas situações de racismo, não as nomeava dessa forma, no entanto, os enfrentamentos eram diários.

Quando tinha 14, 15 anos, um vizinho trabalhava no DEC falou pra minha mãe: “olha, lá onde eu trabalho no DEC estão precisando de uma ascensorista, eles querem uma adolescente, e como sua filha faz o ginásio estou querendo indicar ela pra ser ascensorista lá”. Minha mãe falou: “que bom, nós estamos precisando mesmo”. Ela tinha bastante filho, colocar pra trabalhar seria interessante. Então, ele fala pra pessoa responsável... Quando eu chego lá, a descrição que ele fez [de mim] não bate com a cor da pessoa, e a mulher me coloca pra fazer faxina. Ele era loiro do olho azul, pra ele, nós éramos todos iguais, os filhos dele e os filhos da minha mãe cresceram

336Entrevista cedida à autora em 11 de fevereiro de 2018. 337Entrevista cedida à autora em 21 de março de 2018.

juntos, éramos muito amigos, somos amigos até hoje, pra ele não tinha diferenciação, mas lá, essa mulher fez a diferenciação. Então, quando eu chego lá, ela coloca para fazer faxina, eu falei, mas o sr. Antônio falou que a senhora precisava de alguém pra ser ascensorista. Ela disse: “não, é que ainda tem alguém lá, só esperar alguns dias que essa pessoa vai sair e você ocupa a vaga”. Esperei o segundo dia, cobrei dela, não falou nada. No terceiro dia, cobrei, ela não falou nada. No quarto dia eu não fui mais. O que eu entendi? Que eu não servia pra ser ascensorista, alguma coisa tá errada com esse lugar que eu não posso ocupar? [...] não fui nunca mais nem pra buscar a carteira profissional. Eu entro em contato com o racismo, mas não consigo denominá-lo dessa forma.338

A entrevistada continuou sua narrativa, enfatizando a dificuldade e intolerância em se subordinar às ordens, pois não ficava mais do que 4 meses num emprego, principalmente porque tais ordens estavam impregnadas de violência. Então, sua mãe a alertou que precisaria estudar muito para conseguir um bom emprego e se sustentar, pois não iria se casar, afinal nenhum homem conseguiria “mandar” nela. Somando todos esses fatores, Mabel percebeu que sua vida precisaria de novos rumos, novos movimentos. Em meio a busca de novas alternativas até a Universidade, entre suas inquietações e seu encontro com a educação, embora estivesse bem empregada, não sabia como investir em si. Esse é um dos locais que mapeia sua desterritorialização.

A historiadora Claudia Pons Cardoso vem de uma família inter-racial, humilde e a parte branca dessa família não se furtava em apresentar seus discursos racistas, por conseguinte, seus colegas de classe e vizinhos de rua também não.

Éramos de um bairro de Porto Alegre que é Menino Deus, eu nasci nesse bairro e é um bairro classe média. Ele tinha no seu entorno um bairro negro, que era Ilhota, só que nos anos 1960 houve a expulsão dos negros desse espaço para outras as áreas periféricas das cidades e o bairro se transforma, já no meu período num bairro classe média. Então nós morávamos numa casinha muito da paupérrima, quebrada, enfim, mas no meio de um bairro branco classe média, e uma família inter-racial e pobre dentro dessa realidade. Eu nunca estudei em escola particular eu estudava em escola pública, numa boa escola pública, e também por ser uma escola pública que fazia suas diferenciações[...] quanto mais distante mais preto vai ficando, [...] em determinado momento eu estive na classe A, aí de repente nunca mais voltei pra A eu passei a frequentar o B, e o B não era tão branco quanto o A, mas eu era muito boa eu sempre gostei muito de estudar. Então isso sempre foi muito colocado pra mim, sempre foi visível e muito apresentado na família, na escola e em qualquer lugar. Eu não lembro quando criança, por conta dessa realidade de ter amigos, eu tinha a companhia dos livros. [...] Porque quando eu morava nesse bairro ninguém brincava comigo. Tem uma coisa que eu só fui resolver no terapeuta, por incrível que pareça, foi uma

vez que me deram um chocolate e eu até cheguei a comer o tal do chocolate, só que [...] os outros meninos e meninas da rua, acharam o chocolate no lixo. E deram pra quem? Para mim, então isso sempre foi muito presente339.

Nessa narrativa, Cardoso conta sua trajetória dentro das instituições e das relações sociais, as quais lhe apresentam o racismo de forma explícita. Apesar de algumas sutilezas, para quem observa a ação, para o agente que sofre a ação de uma realidade racista como uma mulher negra sulista de uma família inter-racial, no seio de um bairro de classe média branco permeando toda sua história social e acadêmica, a faz movimentar-se para espaços de liberdade, para fora das matrizes de dominação. Portanto, a educação e a consciência político- social, assim como as relações inter-raciais que viveu na adolescência, são cruciais para que se compreenda como sua condição de mulher negra a levou para o feminismo negro, na década de 1980, e a importância da ONG Maria Mulher para sua caminhada. Embora não faça parte do movimento desde 2004, ano em que se mudou para Salvador, sua militância é um modo de vida.

Segundo a pastora Cleusa Caldeira, a teologia e o espaço da fé são lugares de movimento também para as mulheres negras. Essa é uma narrativa sobre si, sobre suas escolhas dentro de um exercício pessoal e intransferível de autoconhecimento, que provoca desterritorializações do pensamento patriarcal; por conseguinte, cria espaço para o pensamento sobre os femininos dentro de uma instituição que não fora pensada para mulheres negras. É um “movimentar-se” para dentro das instituições eclesiásticas, e uma reconstrução de novos paradigmas sob os quais muitas religiões produzem dogmas. Portanto, Cleusa produz teologia negra sistemática, isto é, promove um sistema léxico e epistemológico sobre a história negra feminina, a partir das narrativas bíblicas.

Já a hermenêutica feminista negra “tem como desafio desmascarar as interpretações tendenciosas e reinterpretar o relato bíblico na perspectiva do povo negro, nesse caso, da mulher negra”340, desmontando a interpretação androcêntrica, racializadora e etnocêntrica sobre as mulheres negras. Quanto aos conceitos sobre quilombos e conflitos étnico-raciais dentro de uma instituição religiosa branca e patriarcal, move essas peças para fora das matrizes de dominação. Nesse caso, o trabalho da pastora rompe com os axiomas eclesiásticos:

339Entrevista cedida à autora em 01 maio de 2018. 340 CALDEIRA, Op. Cit. 2013, p.1189.

Eu nunca tive consciência de que a hermenêutica negra feminista fosse o meu lugar de militância, porque no início eu me relacionava com ela de forma mais intimista. Entretanto, a repercussão dela no espaço público me fez repensar minha relação com ela. Inclusive, por conta disso, depois de deixá-la por um tempo enquanto cursei o doutorado, volto agora a retomá-la no pós-doc; visto que não há como seguir na reconstituição de minha identidade como mulher negra e pastora negra fora da hermenêutica negra feminista. Ora, a hermenêutica negra feminista é minha ferramenta política que me dá voz e vez, não como indivíduo isolado, mas como pastora negra que pode ajudar outras pessoas a reconstruírem suas identidades negadas a partir da descrição de um novo imaginário religioso.341

Cleusa utiliza a mesma ferramenta que a enquadra para estabelecer espaços novos de ação às mulheres negras: a religião. Como ela mesmo declara, assumir uma hermenêutica negra feminina é “contar uma outra história”, desmontar a hermenêutica androcêntrica e branca, historicizando as ações de mulheres negras nos textos bíblicos. A pastora utiliza o texto Bíblico do livro de Cantares de Salomão 1:5-6342, para apresentar uma referência explícita da presença da mulher negra, ignorada pelos teóricos religiosos, ou ainda, “Pode-se dizer que a mulher negra é explicitada também em Números 12.1; 1 Reis 10.1-13, ambos no Antigo Testamento. No Novo Testamento, há a figura da Rainha de Sabá, registrada em IReis 10.1-13, retomada por Jesus em Mateus 12.38-42 e Lucas 11.19.32.”343

Sendo assim, faz-se necessário desterritorializar espaços masculinos, desarticular o sexismo, a sexualização e o servilismo da figura das mulheres negras, sobretudo quando são apresentadas como mulheres brancas, ou simplesmente têm sua etnia ignorada. Desterritorializa organizando e desorganizando, desconstruindo e reconstruindo espaços físicos ou não. Como é de conhecimento da maioria dos religiosos, a igreja cristã utilizou-se dos textos bíblicos para atestar as práticas racistas; nesse caso, a hermenêutica negra feminista vem mostrar que, sob os mesmos textos, essas teorias não se aplicam, pois fazem parte de uma leitura unilateralmente caucasiana para manutenção de privilégios, ignorando uma gama de outros sujeitos nessa compilação literária milenar, que não teve como foco geográfico a Europa, na maior parte de suas narrativas, centrando-se predominantemente no mundo afro- asiático.

341 Entrevista cedida à autora em 13 de março de 2018.

342 Bíblia Nova Versão Internacional. Livro de Cantares de Salomão Capítulo 1. Versículos 5-6, Velho Testamento. “Estou escura, mas sou bela, ó mulheres de Jerusalém; escura como as tendas de Quedar, bela como as cortinas de Salomão. Não fiquem me olhando assim porque estou escura; foi o sol que me queimou a pele. Os filhos de minha mãe zangaram-se comigo e fizeram-me tomar conta das vinhas; da minha própria vinha, porém, não pude cuidar”.

Para Angélica Basthi, esse “movimentar-se” passou pela primeira infância, chegou à adolescência e à fase adulta numa sucessão de ações de deslocamento social, econômico e principalmente psicológico. Pois, segunda a autora, a branquitude, por meio das teorias raciais, fizeram dos negros um problema social, mas “não somos um problema como eles colocam, eles que criaram um problema que não somos nós.”344 Reiterando a necessidade de traduzir as ações das comunidades negras como um fardo social, como se os negros fossem um problema social, onde a responsabilidade do racismo e da desigualdade social e étnica recai sobre a comunidade negra. Basthi, quando questionada sobre seu processo de subjetivação e crescimento como mulher negra, narra-se como alguém “fora do lugar”:

[...] Essas resistências a gente encontra todos os dias em todos os lugares e em todos os momentos, mas eu fiz muitas sessões de terapias para aprender a lidar como esses enfrentamentos diários[...], compreendendo que essa dinâmica do racismo não é algo, quer dizer essa resistência não é algo que me enfraquece, é uma resistência que faz parte do outro. Então se o outro tem [...] algum tipo de problema em tentar me desqualificar em tentar me minimizar, reduzir, ele vai ter um problema sério com ele mesmo. [...]eu

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