A socióloga Maria José Rosado Nunes observa que enquanto a maioria das mulheres era considerada como do lar, as freiras, já no final do século XIX, afora as mulheres pobres, foram as primeiras a exercer uma profissão, embora “devido ao lugar que ocupam na instituição eclesial católica, são os homens que ditam as normas e regras de vida das religiosas” e isso com maior rigidez praticamente até Concílio Vaticano II, com raras exceções, embora as religiosas nunca tenham sido tão passivas como possa parecer num primeiro momento, nem constituído apenas um grande grupo homogêneo. Da mesma maneira, de acordo com Rosado, sabemos que nos primeiros séculos do Brasil colonial, não era tão simples entrar para um convento assim como seria, por exemplo, para as mulheres da colônia espanhola. Por uma série de motivos, ressalta a socióloga, havia uma notável diferença entre as colônias portuguesas e espanholas, tendo o primeiro convento de mulheres na Colônia surgido apenas em 1677. 70
Rosado aponta que além dos motivos econômicos de Portugal para restringir a fundação de conventos femininos, estava a questão da política populacional, isto é, enquanto a Espanha desenvolvia uma política de povoamento, a Metrópole portuguesa desenvolvia uma política de exploração de recursos naturais. Quando o despovoamento passou a ser um problema, relata a pesquisadora, a “escassez de mulheres brancas foi apresentada como um obstáculo para a construção de conventos femininos e a solução de ir para um convento em
68
QUINTANEIRO, Tania. Retratos de mulher: a brasileira vista por viageiros ingleses e norte-americanos durante o século XIX. Petrópolis, RJ: Vozes, 1995, p. 86.
Portugal tornou-se inviável”, havendo, ainda, a preocupação com o processo de mestiçagem, uma vez que o concubinato com as negras e índias era comum na Colônia, contrariando os projetos da Coroa. “Essas restrições à constituição de conventos femininos foram contornadas, em parte, pela criação de “recolhimentos”, ou seja “casas de reclusão para mulheres que poderiam, mais tarde, transformar-se em conventos, mas que não eram estabelecidas canonicamente” e não tinham a obrigatoriedade dos votos. Dessa forma, complementa a socióloga, “o primeiro recolhimento erigido pela ação de uma mulher de que se tem notícia data de 1576. Trata-se da Ordem Terceira Franciscana, dirigida por irmã Maria Rosa, em Olinda”. 71
Rosado esclarece que, no Brasil, conventos e recolhimentos apresentavam diferenças de classe e raça, uma vez que a exigência da pureza de sangue para ingresso no convento “significava sua interdição para mestiças e para filhas de judeus, os chamados cristãos novos”, tendo sido mesmo para as mulheres brancas das classes altas “um espaço contraditório”, no sentido de funcionar também como reguladores de casamentos, quando houvesse a dificuldade de um pai de casar “bem” todas as filhas, por exemplo. A solução, segundo Rosado, era encerrar as que não conseguissem um bom casamento, colaborando para aumentar a história de mulheres enclausuradas contra sua própria vontade, procedimento este que, além disso, pretendia resolver o problema de mulheres tidas socialmente como “desviantes”, assim chamadas por tentar escapar ao controle dos homens da família e dos maridos. Mas, por vezes, complementa Rosado, as mulheres se valiam dos conventos e recolhimentos justamente “para escapar de um casamento não desejado, para viver seu desejo de viver piedosamente”; onde algumas “uma vez refugiadas nos claustros, pediram o divórcio de seus maridos que as maltratavam fisicamente ou dissipavam sua herança”. 72
Quando as normas provenientes do Concílio de Trento (1545-1563) acabaram por centralizar nos sacramentos, pondera Rosado, tornaram a figura do padre indispensável, reafirmando como decorrência do contexto, um estatuto ainda mais subordinado para as religiosas, embora nem todas tenham se submetido tão facilmente. Em consequência, é comum ver essas mulheres atuando no campo da educação, por exemplo, ao mesmo tempo em que durante o século XIX, ao lado do modelo de clausura, aparecem as congregações
70 NUNES, Maria José Rosado. Freiras no Brasil. In: PRIORE, Mary Del. A mulher na história do Brasil. São
Paulo: Contexto, 1992, p. 482-483.
71 NUNES, Maria José Rosado. Freiras no Brasil. In: PRIORE, Mary Del. A mulher na história do Brasil. São
Paulo: Contexto, 1992, p. 484-485.
72
NUNES, Maria José Rosado. Freiras no Brasil. In: PRIORE, Mary Del. A mulher na história do Brasil. São Paulo: Contexto, 1992, p. 488-490.
femininas de vida ativa. Contribuiu para tanto, esclarece a socióloga, a situação de uma Europa hostil e contrária à Igreja que acabou por facilitar a vinda de religiosos e religiosas para o Brasil, ao mesmo tempo em que “o trabalho educativo nos colégios, o cuidado dos doentes, das crianças e dos velhos em orfanatos e asilos constituirão suas principais atividades”, chegando a implicar a desvalorização do modo de vida mais contemplativo a ponto da “imagem da freira enclausurada, não-produtiva levar certos grupos a reagirem à vinda das religiosas” dali para frente. Rosado, então, exemplifica com um artigo jornalístico da época, cujo título já não deixa nenhuma dúvida: “uma praga a mais”. O artigo reclama que o país precisa é de gente que trabalhe e que as criadas e as cozinheiras não são mais encontradas com facilidade. Portanto, se estas religiosas vierem para passar a boa vida em santo ócio, rezando e cantando o dia inteiro, conclui o artigo, não serão nada bem-vindas. 73
Com os novos costumes do século XX, o Vaticano II também busca uma adaptação a esses novos tempos, comenta Rosado, onde o cristão, agora, deveria inserir-se no mundo e ser um “fermento na massa”, e não mais agir com base na ideia de separação do mundo, da fuga mundi dos antigos, onde os “costumes conventuais e formas de comportamento das religiosas deveriam ser diferentes para marcar essa distinção com o mundo”. Segundo a pesquisadora, surgiam novas realidades que reavaliavam também os modos de se vestir desde os “pesados hábitos religiosos inspirados nas camponesas europeias em muitas congregações; os altos muros rodeando a área conventual, e mesmo os colégios; os horários rígidos; as exigências de silêncio às refeições”, numa obediência total seguida de penitências. Uma organização interna muito semelhante as denominadas “instituições totais”, esclarece a socióloga, e que se estendia para além dos próprios conventos, ou seja, nas obras por eles desenvolvidas como nos colégios, hospitais e casas de assistência a exemplo dos asilos e orfanatos. Todo esse processo de transformação pós-conciliar, conclui Rosado, apesar de estimular as religiosas “à promoção de importantes alterações em suas condições de vida; de outra parte, o controle do clero se fez sentir na limitação e orientação das mudanças promovidas”. 74
De qualquer maneira, algumas mudanças foram adotadas e sem elas, talvez esse modo de vida nos mosteiros tivesse chegado com muito maior dificuldade nos dias atuais.
73 NUNES, Maria José Rosado. Freiras no Brasil. In: PRIORE, Mary Del. A mulher na história do Brasil. São
Paulo: Contexto, 1992, p. 492-494.
74
NUNES, Maria José Rosado. Freiras no Brasil. In: PRIORE, Mary Del. A mulher na história do Brasil. São Paulo: Contexto, 1992, p. 495-503.
3 A ORIGEM DOS MOSTEIRO ATUAIS, SUAS REGRAS E CONSTITUIÇÕES Este capítulo tem o objetivo de apresentar parte da história e das origens dos três mosteiros pesquisados: o Mosteiro da Santíssima Trindade, em Santa Cruz do Sul, RS; o Mosteiro Nossa Senhora do Carmo e o Mosteiro São Damião, em Porto Alegre, RS. Essas casas religiosas estão respectivamente vinculadas às Ordens das Beneditinas, Carmelitas e Franciscanas e são regidas por regras e constituições específicas.