I. INTRODUÇÃO
6. Mulheres Quilombolas: memórias e identidades
Nesta seção, apresentamos trabalhos que abordaram a temática das mulheres quilombolas, em diferentes áreas de conhecimento, para compreendermos aspectos de sua vivência e cotidiano. Priorizamos apresentar os trabalhos que abordaram a vivência das mulheres quilombolas, mas principalmente aqueles que analisaram os processos identitários ou que foram desenvolvidos no estado do Espírito Santo, e, de modo mais específico, na região do Sapê do Norte - ES.
Trabalhos como de Riscado, Oliveira e Brito (2010) e de Prates e outros (2018) destacaram o aspecto da saúde na vivência cotidiana e na construção identitária das mulheres quilombolas. Ambos os estudos apontam que a mulher quilombola tem em seu imaginário a demarcação dos papéis destinados ao cuidado da casa e da família, como atividades feminizadas e de atribuição à mulher. Além de destacarem a interação entre gênero e raça, juntamente aos conteúdos históricos e culturais estabelecidos na comunidade, definem os significados atrelados ao cuidado à saúde que se refletem na forma como elas agem, balizadas a partir das relações de gênero e de poder instituídas naquela comunidade (Prates, et al., 2018).
O aspecto da interseccionalidade entre raça, gênero e geração também é desenvolvido nos estudos de Grossi, Oliveira e Oliveira (2018) e de Bragas e Cal (2018).
As autoras destacaram as diversas violações de direito vivenciadas pelas mulheres dessa
comunidade, tais como: dificuldade de acesso a políticas públicas; insegurança alimentar;
não valorização do saber dos conhecimentos ancestrais e da identidade étnico-racial;
dificuldade de se inserir no mercado de trabalho; machismo que se materializa nas mulheres casadas que querem estudar, mas acabam sendo proibidas pelos maridos; bem como luta pela titulação do território (Grossi, Oliveira & Oliveira, 2018).
Grossi, Oliveira e Oliveira (2018) ainda destacam que uma das estratégias de enfrentamento encontradas pelas mulheres foi a formação das lideranças femininas na comunidade, que passaram a ser referências na militância pela titulação do território e pelo acesso a políticas públicas, principalmente através da associação comunitária. Assim como a tarefa de perpetuar a memória e o conhecimento do quilombo, são atividades que contribuem para a construção identitária da mulher quilombola.
A participação das mulheres quilombolas na organização e em movimentos políticos, por sua vez, também foi abordada no trabalho realizado por Bragas e Cal (2018), que analisam o papel da mulher na organização sociopolítica atual do movimento quilombola no Pará. As autoras argumentam que o papel da mulher ficou mais complexo a partir das lutas de reconhecimento do território, uma vez que, simultaneamente, passaram a ser responsáveis pelas tarefas domésticas e comunitárias, bem como pela liderança política da comunidade. Como exemplo, citam que algumas mulheres saíram das comunidades para viver em outras cidades e atuarem na coordenação e associações políticas, mas continuaram sendo responsáveis pelo cuidado e criação dos filhos, responsáveis pela educação nas comunidades, além de fazerem os roçados, pescarem e realizarem atividades extrativistas, estando vinculadas aos grupos culturais e religiosos da comunidade (Bragas & Cal, 2018).
Alguns dos estudos desenvolvidos no estado do Espírito Santo também abordaram aspectos das relações de gênero em comunidades quilombolas, ou a vivência das mulheres
nessas comunidades. Destacamos o trabalho de Silva (2015), que foi realizado em uma comunidade na cidade de Anchieta – ES, no sul do estado, e os estudos de Rodrigues (2016), Siqueira (2017) e Costa (2018), que foram realizados em comunidades da região do Sapê do Norte – ES, sendo que todos os estudos citados abordaram questões identitárias das comunidades estudadas.
Silva (2015) teve como objetivo descrever a construção das identidades jongueiras a partir das relações sociais no contexto das agências da Prefeitura Municipal e com os fazendeiros vizinhos, na comunidade quilombola de São Mateus em Anchieta – ES. Para tanto, ela analisou o ciclo festivo-religioso da comunidade. A autora conclui seu trabalho criticando as políticas patrimonialista do Estado, e, em sua análise, as políticas patrimonialistas não promovem autonomia aos jongueiros da comunidade sob o discurso da “salvaguarda cultural”. A autora apresenta aspectos da função da mulher nesse processo e descreve um ponto cantado durante o ciclo festivo-religioso da comunidade:
“Debaixo do mar tem areia/ Quem manda no mar é serei/ É sereia/ É sereia/ Quem manda no mar é a sereia”. Tal cantiga é cantada, exclusivamente, por mulheres e é um momento no qual as mulheres jongueiras demarcam a participação na roda, para além de fazer par com o homem na dança. Na análise da autora, Sereia está relacionada ao orixá Iemanjá, associada à maternidade e ao cuidado com os filhos e com a família. Além disso, destaca que, quem “manda no mar é sereia”, o que revela a participação das mulheres nos processos organizativos da comunidade, pois são elas as costureiras e estilistas do grupo de jongo, cozinheiras, condutoras dos cortejos e rezas, administradoras das Igrejas de São Benedito e de São Mateus.
Rodrigues (2016) também se propôs a descrever os processos de construção, recriação e expressão das identidades sociais e políticas, assim como evidenciar os processos de afirmação cultural que se tornam demarcadores identitários dos
quilombolas, como a prática do jongo, as brincadeiras e festas, e devoções aos santos padroeiros de comunidades quilombolas do Sapê do Norte-ES. Os resultados demonstram a influência feminina, tanto nas questões de organização cotidiana da comunidade, como nas decisões comunitárias e liderança das organizações e reuniões políticas, bem como na preservação das tradições culturais e religiosas da cidade. Para o autor, as potencialidades das mulheres estão relacionadas com o fato de serem filhas de Iansã e herdarem desse orixá as características enérgica, dominadora e guerreira.
Costa (2018) estudou os modos por meio dos quais as mulheres quilombolas desenvolvem as relações de poder. A sua pesquisa foi desenvolvida na mesma comunidade em que Rodrigues (2016) realizou seu estudo. Diferentemente de Rodrigues (2016), que enfatiza uma perspectiva espiritual, na qual o orixá Iansã caracteriza as mulheres daquela comunidade, Costa (2018) argumenta que a intersecção entre raça, gênero e quilombo auxilia a pensar as trajetórias das mulheres quilombolas. Para a autora, as categorias ser mulher, negra e quilombola são apreendidas de diversas maneiras pelas quilombolas, e isso reflete nas práticas, investimentos e no modo de agir cotidiano, bem como na elaboração da história de vida dessas mulheres. Além disso, o estudo descreve alguns aspectos das relações de gênero construídas na comunidade, sendo citado que muitas mulheres trabalham ou trabalharam como empregada doméstica na área urbana da cidade ou em municípios vizinhos e que elas se sentem irritadas por ser um papel cristalizado da mulher. Por fim, é destacado que essas mulheres são as guardiãs das memórias que constituem e fundamentam a identidade étnica daquela comunidade (Costa, 2018).
A partir dos trabalhos analisados, observamos que ser mulher quilombola é atravessado pelas relações de poder interseccional entre gênero, raça, etnia (ou quilombola) e geração (Bragas & Cal, 2019; Costa, 2018; Grossi et al., 2018). As relações
de poder, em geral, são assimétricas e geram violências estruturais e institucionais, bem como violência física, sexual e psicológica (Riscado, Oliveira & Brito, 2010; Gossi e outros, 2018). Entre os trabalhos analisados, verifica-se o papel da mulher como cuidadora (Costa, 2018; Grossi e outros, 2018; Silva, 2016;), bem como de liderança política, cultural e religiosa na maioria das comunidades abordadas nos estudos, e suas práticas, em geral, fundamentam a identidade étnica das comunidades (Bragas & Cal, 2019; Costa, 2018; Grossi e outros, 2018; Prates et al., 2018; Rodrigues, 2016; Silva, 2015; Siqueira, 2017).
Considerando essas diferentes dimensões que têm sido identificadas no contexto da vivência das mulheres quilombolas, é necessário estarmos atento a essas questões, pois fornecem importantes informações para o trabalho de profissionais que atuam nessas comunidades, bem como na proposição e implementação de políticas públicas.