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Multiculturalismo e os movimentos multiculturais

Esta seção discute o contexto dinâmico das relações dos sujeitos sociais, os principais movimentos multiculturais, dentre os quais, o dos afrodescendentes. Buscamos verticalizar o olhar sobre o conceito de multiculturalismo e suas contribuições para o processo de reivindicação de direitos e representação.

Na busca pelo entendimento sobre o multiculturalismo, nos constantes debates que originam abordagens sobe o tema, verifica-se em seu âmago que a razão de sua existência está na questão da diferença (SEMPRINI, 1999, p.8-11) imperativa nas abordagens de tom reivindicatório.

A construção das identidades e sua valorização adquiriram relevo e importância à formulação de estudos sobre a temática que envolve aspectos conceituais e históricos do multiculturalismo, cercado por um cenário dinâmico

vinculado à história e desenvolvimento cultural das nações mais desenvolvidas, principalmente, quanto ao envolvimento de aspectos referentes ao conceito de pluralidade cultural.

No cenário norte-americano dos Séculos XVIII e XIX, o grande número de imigrantes do ciclo migratório revela um episódio de impulso para reflexões sobre a questão da pluralidade cultural. Os impactos dos movimentos imigratórios para os tempos contemporâneos têm se configurado no fenômeno de amplos debates sobre as diferenças culturais. As características das populações que povoaram os Estados Unidos da América marcam um dos pontos cruciais do entendimento sobre as populações integradas reveladas por Alexis Tocqueville. Além da composição de imigrantes brancos, destacavam-se os índios (nativos) e negros (em condição escrava da África Ocidental) como aqueles que, por motivações variadas, passavam a integrar a sociedade norte-americana. Essas populações carregavam elementos que compunham sua cultura, etnia e linguagem. As variações étnicas de grupos africanos com sua “língua, hábitos, costumes e tradições culturais” se transformaria em relevantes elementos à composição da cultura da nação (SILVA, 2001, p.87)

Esse processo migratório desencadeou as discussões do estado-nação simetricamente próximas de visões conservadoras de estruturação e proteção da cultura nacional. Nesse sentido, o multiculturalismo surgiu sob uma perspectiva assimilacionista. Como marcado por Cardoso (1996, p.10), perfilado como uma primeira fase do multiculturalismo, o assimilacionismo consiste necessariamente em um posicionamento conformista dos grupos culturais e étnicos face a uma cultura dominante. As estratégias adotadas eram pautadas por um processo sistemático de forçar a descaracterizar as culturas marcadas como diferentes, proibindo as

expressões religiosas indígenas e africanas, provocando o seu “desenraizamento cultural”. A sociedade norte-americana foi edificada sobre o sangue indígena e a presença de um racismo sobre as populações negras urdido sob uma “corrente racista de tipo biológico” (SEMPRINI, 1999, p.13-19), liberal, monocultural de caráter individualista.

Posteriormente, como o alvo do viés crítico multicultural, a presença majoritária do multiculturalismo assimilacionista é concebida para que as populações recém-chegadas fossem assimiladas pela vertente cultural dominante, terreno fértil à estruturação e valorização de discurso à emergência de uma narrativa cultural que valorizasse a memória e a cultura nacional, o Estado-Nação. Para implantação multicultural, a educação funcionou como um braço estatal estratégico para treinar filhos de imigrantes e introduzi-los ao idioma, costumes norte-americanos em ações compensatórias e ações afirmativas.

Multiculturalismo trata da inserção de diferentes culturas em uma mesma sociedade. Em sua conceituação mais geral, diz respeito ao fenômeno que objetiva estabelecer a coexistência de diferentes culturas em um mesmo espaço territorial. Refere-se, em sua origem, à “coexistência de formas culturais ou grupos” caracterizados por suas diferenças no âmbito das sociedades modernas (SANTOS; NUNES, 2003, p.25).

Do ponto de vista histórico, o termo multiculturalismo é apresentado pela primeira vez no contexto canadense (GOMARASCA, 2012), inserido nas estratégias de política do estado, utilizada pelo primeiro ministro canadense na década de 1970 para explicar as políticas com vistas a estabelecer um novo espaço de relacionamento entre os diferentes grupos culturais existentes. A diversidade cultural

urge como um problema.

Concomitantemente ao abordamos a questão do multiculturalismo, somos instados a associarmos questões de ordem política e cultural. Perceberemos quão complexas têm sido as definições que ora estabelecem dimensões de teoria e outra em posicionamento político cercado por variáveis acusadas de centralidade cultural. Para Santos e Nunes (2003, p.33), a importância da diferença efetiva-se por alguns princípios básicos caros ao multiculturalismo, como o reconhecimento da diferença no contexto das sociedades contemporâneas.

Santos (2003) discorre quão complexa tem sido a realidade no que se refere às definições sobre o multiculturalismo, que em linhas gerais tem-se firmado na acepção de compreender as culturas presentes nas sociedades ‘modernas’. Sua complexidade assemelha-se às dificuldades apresentadas para se definir o termo cultura. A pós-colonização e o crescente processo da globalização aprofundaram sensivelmente as desigualdades, aumentaram a densidade migratória do Sul para o Norte, o que permitiu inferir não ser possível distinguir com clareza as suas diferenças e olhar sobre as questões étnicas (SANTOS, 2003). Se por um dado instante seria possível associar aspectos específicos de uma cultura e diferenciá-la, contudo, na nova realidade multicultural isso não parecia ser possível.

O multiculturalismo tem convivido com certa dualidade crítica. Por um lado, a crítica dos conservadores, principalmente nos Estados Unidos onde obtém espaço de ressonância, especialmente, por ir de encontro às alterações migratórias (entrada dos ilegais, maioria da América Latina) e ocorrência das mudanças étnicas ocorridas na sociedade norte-americana. No outro extremo da crítica, estão os grupos considerados progressistas ou de esquerda. As críticas partem desde a

consideração de que o multiculturalismo é um conceito eurocêntrico germinado no âmbito de uma política da cultura do Estado-Nação a considerações de que o termo é parte de uma estratégia estabelecida na globalização cultural do capitalismo multinacional (SANTOS, 2003, p28-32). Apesar das críticas, a perspectiva da qual se ergue o multiculturalismo está posta para identificar “as diferenças culturais” na conjuntura transnacional e global.

Outra característica relevante e associada ao multiculturalismo está na intenção de se contrapor a qualquer viés hegemônico e conservar articulações de autossuficiência e emancipatória. Obviamente, a perspectiva ora apresentada consiste no olhar crítico multicultural contemporâneo. Nesse sentido, o tipo de multiculturalismo crítico figura com características combativas, face ao reconhecimento de direitos de grupos étnicos para denunciar as desigualdades sociais (GOMARASCA, 2012).

Os movimentos sociais, com base em seu dinamismo social, são caracterizados como ações coletivas que visam a promover transformações de ordem política, social no cenário contemporâneo, ao combater ou denunciar as desigualdades a partir da identificação da insatisfação social. Desse modo, esses grupos articulam protestos, reivindicações de direitos, críticas, denúncias contra opressões. Esses movimentos foram surgindo pautados por momentos marcados historicamente para os quais contribuiu o multiculturalismo.

Nos Estados Unidos da América, por exemplo, a articulação dos movimentos afrodescendentes16 na luta pelos direitos civis e por políticas igualitárias foi um

marco para as discussões étnicas norte-americanas, sobretudo, por inaugurar as

16 Termo genérico para identificar todos os grupos sociais identificados com a causa do movimento negro.

bases de reflexões políticas, culturais e sociais estrategicamente abraçados pelos intelectuais (professores universitários, advogados e outros profissionais liberais) e em suas pesquisas que colaboraram com subsídios para compor metodologias e materiais didáticos para o ensino formal. Assim, a educação foi relevante enquanto estratégia dos movimentos de contornos étnicos no contexto estadunidense para sedimentar um caminho que interferisse diretamente na realidade (SILVA; BRANDIN, 2008) somadas a outras inciativas como a formação dos Black Studies no fim da década de 1968. Os Black Studies foi um movimento criado dentro das universidades norte-americanas com a instalação de departamentos de pesquisa cujo objetivo era proporcionar visibilidade e um espaço de debate sobre as questões de história, cultura, política, articulação entre grupos sociais da população afro- americana. O primeiro departamento foi criado em 1968 na San Francisco State University e logo em 1969 espalhou-se por outras instituições como Havard, Yale e Columbia (GONÇALVES; SILVA,1996).

No Brasil, os movimentos multiculturais contribuíram com amplos debates sobre racismo e questões de raça, o movimento negro é o mais atuante movimento do contexto multicultural voltado para a questão étnica, apresentado neste trabalho mais adiante.

No tocante aos temas que a globalização e os deslocamentos culturais estabeleceram, o sexismo foi mais um que desafiou os movimentos em seu combate. O sexismo é definido como um comportamento caracterizado por buscar justificar as desigualdades entre os sexos. Se for mulher negra, o problema se agrava quando racismo e sexismo estão articulados e traçam atributos peculiares à mulher negra e restringem sua atuação profissional (doméstica) (GONZALES, 1984).

Em síntese, possui conotação depreciativa sobre a mulher e seu pressuposto de partida está no tratamento desigual comparado ao homem.

O preconceito contra a mulher não possui atributos exclusivamente negativos, constam, sobretudo, de atitudes positivas, fazendo crer na existência de um sexismo ambivalente. O sexismo ambivalente pode ser subdividido, segundo Formiga (2007), em duas categorias consideradas principais, “hostil” e “benévolo”. A primeira acepção apresentada pela autora consiste de maneira direta e irrefutável em preconceito que ergue colunas divisórias, crenças, práticas, “[…] antipatia e intolerância ao seu papel como figura de poder e decisão”. O sexismo benévolo, por sua vez, refere-se aos tratamentos diferenciados entre homens e mulheres com características, como vincular atributos de fragilidade por ser mulher, como justificativa positiva (FORMIGA, 2007).

No Brasil, segundo Carneiro (2003), o movimento feminista é um dos mais respeitados no mundo. O feminismo surge nos anos de 1960 como parte do cenário da globalização como o novo movimento social (HALL, 2001, p.44) conjuntamente com “revoltas estudantis, os movimentos juvenis contraculturais e antibelicistas [...]”. Nos anos de 1970, o Womem Studies norte americanos teve um importante papel na redefinição de conceitos a partir de contestações, principalmente, por abertura no espaço acadêmico e participação em estudos da cultura. Escosteguy (1998, p.2) atribui a Stuart Hall o reconhecimento da participação e influência feminina sobre aspectos relacionados aos estudos culturais:

[…] a abertura para o entendimento do âmbito pessoal como político e suas consequências na construção do objeto de estudo dos Estudos Culturais; a expansão da noção de poder que, embora bastante desenvolvida, tinha sido apenas trabalhada no espaço da esfera pública; a centralidade das questões de gênero e sexualidade para a compreensão da própria categoria

'poder'; a inclusão de questões em torno do subjetivo e do sujeito; e, por último, a reabertura da fronteira entre teoria social e teoria do inconsciente – psicanálise (ESCOSTEGUY, 1983, p.2).

O reconhecimento do posicionamento político do movimento feminista, traço presente no âmbito nacional, tem contribuído à elaboração e reivindicação de políticas públicas para promoção da igualdade de gênero e combate da discriminação nos espaços sociais (educação, trabalho, política, ciência), democratização do Estado, combate à violência doméstica entre outras inciativas (CARNEIRO, 2003).

Entre as conquistas mais recentes no combate à violência está a criação da Lei nº11.340, conhecida como Lei Maria da Penha. De acordo com Bandeira (2009), ao analisar três décadas de movimento feminista no Brasil, constata-se que as ações que pautaram a luta de combate à violência contra a mulher foi um dos motes inseridos no debate contra as formas de comportamento de inferiorização (sexismo) da mulher, ou seja, lutas que foram “desencadeadas pelas mulheres contra padrões, papéis e normas de comportamentos culturais e sociais desiguais que lhes foram impostos e que hierarquizam os sexos” (BANDEIRA, 2009).

Como assinalado anteriormente, as reações e reivindicações monoculturais ocorrem no contexto em que grupos sociais são identificados. Para Semprini (1999, p.59), “é processo de marginalização de um conjunto de indivíduos que o torna homogêneo e o constitui enquanto grupo”.

Diante do exposto, os movimentos multiculturais apresentaram pautas reivindicatórias, participação e representação de grupos face à sociedade heterogênea no que se refere ao gênero, religião, raça, culturas, dentre outros. Esses movimentos lançaram críticas à abertura dos espaços de poder aos grupos

que compõem a sociedade em discutir os conflitos, desigualdades sobre a questão da diferença e os padrões de comportamentos generalizadores que excluem e descartam a pluralidade de pensar, agir e produzir conhecimento. Têm contribuído fortemente à cena cultural, política, científica para dar voz às outras narrativas e discursos.

No contexto brasileiro, o movimento negro tem sido um dos movimentos multiculturais mais atuantes sobre a questão da diferença, preconceito e o racismo. Na próxima sessão, apresentaremos algumas considerações sobre o surgimento e atuação desse movimento no Brasil.