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4 A CENA DA CAPOEIRA

4.2 CRIATIVIDADE CÊNICA

4.2.2 Multidimensionalidade





A Capoeira é uma arte que abrange várias dimensões simultaneamente. Mergulhar no âmbito do seu profundo e prezado conteúdo, requer concebê-la e assumi-la enquanto uma manifestação cultural que aborda vários campos integrados entre si. Entrelaçam-se e interpenetram-se as dimensões sensíveis/ expressivas/ corporais/ criativas/ estéticas, as quais revelam uma característica essencial da matriz cultural africana (e indígena também); sua arte enquanto um todo indissociável e como parte da vida cotidiana. Na Capoeira conjugam-se seus componentes rituais, musicais, teatrais e de dança, interagindo com os princípios e valores implícitos na sua arte. O capoeirista deve jogar, tocar e cantar, mas também conhecer os fundamentos e respeitar as regras de jogo. A Capoeira vive-se e constrói-se na sua alteridade, na sua relação com o outro e com o ambiente em que se desenvolve e se manifesta.

Frigerio (2000) busca reconhecer características comuns entre culturas africanas (grupos provenientes da África Central e Ocidental) para explicar similitudes com as manifestações culturais afroamericanas. Concordando com Mintz; Price (1977), o autor revela a necessidade de enfatizar menos as formas sócio-culturais e mais os princípios, estruturas, comportamentos, valores e/ou regras tácitas, sustentando (2000, p.144) que tal perspectiva possibilita além da exaltação da africanidade “uma melhor visão do cambio e da readaptação cultural”. Frigerio (2000) faz especial ênfase na multimensionalidade, sendo uma das principais características da performance artística afroamericana. Afirma:

Una de las características principales, sino la principal, de las artes negras es su carácter multidimensional, su densidad de performance. Es uma

performance que ocurre en vários niveles a la vez, mezclando gêneros que

para nosotros serían diferentes y separados. Encontramos um claro ejemplo de ésto en la capoeira tradicional (capoeira angola), que es a la vez una lucha, un juego, una danza, música, canto, ritual, teatro y mímica. Es la interprenetación, la fusión, de todos estos elementos lo que la hace una forma artística única31 (FRIGERIO, 2000, p.146).



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[Uma das características principais das artes negras, senão a principal, é seu caráter multidimensional, sua densidade de performance. É uma performance que ocorre em vários níveis ao mesmo tempo, misturando gêneros que para nós seriam diferentes e separados. Encontramos um claro disto na capoeira tradicional (capoeira angola), que é simultaneamente uma luta, um jogo, uma dança, música, canto, ritual, teatro e mímica. É a interpenetração, a fusão de todos estes elementos que fazem dela uma forma artística única] (Tradução

Explica que aí radica a dificuldade em encaixá-la em uma categoria rígida segundo os padrões da cultura ocidental, em que seriam percebidos diferenciada e separadamente. Afirma que a multidimensionalidade é a primeira característica que tende a desaparecer quando tais manifestações são praticadas por grupos que não a contemplam no seu repertório cultural. Analisa como com a expansão da Capoeira às variadas regiões do Brasil e a outros estratos sociais “[...] va perdiendo su densidad o complejidad como arte y se va practicando

cada vez más como un deporte o arte marcial, donde sus aspectos de lucha son enfatizados, en detrimento de la gestualidad, la ritualidad, mímica y aún de aspectos musicales”32. A desenfreada “internacionalização” da Capoeira, da mão da globalização, intensifica o fenômeno.

Indubitavelmente a Capoeira tem se transformado consideravelmente. Tem adquirido outras re-significações, tem se re-interpretado e re-configurado em novas formas criadas a partir dela, algumas bem distanciadas dos princípios e valores que lhe deram vida, mas muitas também lutando incansavelmente por não perder o legado dos mestres mais velhos. O interesse pela manutenção da tradição não implica necessariamente refutar à mudança. Cada mestre vai construindo a sua própria metodologia, de acordo com os ensinamentos que lhe foram valiosos, assim como a partir das experiências vivenciadas, dos erros e acertos, das metas, perspectivas e objetivos vislumbrados. Não seria possível dizer que a Capoeira Contemporânea perdeu a totalidade dos componentes rituais tradicionais. Há alguns grupos que talvez não estejam preocupados por tais aspectos, enfatizando mais outras características, mas também existem aqueles que, mesmo sendo poucos33, buscam se aproximar e interagir com a comunidade angoleira que busca salvaguardar os valores e fundamentos da tradição da Capoeira.

O caráter multidimensional da Capoeira reflete-se na interconexão e complementação entre suas qualidades éticas/estéticas/artísticas e os diferentes níveis de percepção, da sensibilidade e da criatividade. É na luta da Capoeira, dançando e brincando que se abrem caminhos à imaginação. Expressa-se no jogo, no canto, na movimentação corporal e capacidade inventiva, em cada ato e em todo som, na forma de participar e de interatuar com os integrantes da roda e com os espectadores. O fluxo energético é constante, ininterrupto, circular e espiralado.



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[[...] vai perdendo sua densidade ou complexidade como arte e vai se praticando cada vez mais como um esporte ou arte marcial, em que seus aspectos de luta são enfatizados, em detrimento da gestualidade, da ritualidade, mímica e ainda de aspectos musicais] (Tradução nossa).

Martins (2008, p.117) descreve os três pilares fundamentais da estrutura básica das danças africanas e os quais são, conforme a autora, “[...] embasados pela filosofia e pela estética”. A polirritmia, o policentrismo e o holismo estão presentes não somente no Candomblé, mas também, afirma, em outras manifestações culturais afro-descendentes como a capoeira, o samba-de-roda, samba-reggae, maculelê, afoxé e maracatu, dentre outras. Analisa a dança de Yemanjá Ogunté e ressalta certos valores estéticos, entre os quais, a dimensionalidade. Martins esclarece (2008, p.121) que a sua medição não pode se estabelecer unicamente a partir das três dimensões físicas habitualmente analisadas (altura, largura e profundidade), afirmando que a dimensionalidade “é baseada principalmente na sensação percebida pela execução da forma cíclica que toma o movimento, numa evolução espiral, que vai do solo para o alto, transcendendo os limites visuais do aspecto físico”. Fala-nos de uma quarta dimensão, transcendental, que vai além do uso das três dimensões nos planos espaciais; vertical, horizontal e sagital.

No ritual da Capoeira cria-se uma atmosfera cuja energia ultrapassa a matéria. Através da devoção, revelada nos cantos, orações e movimentos, evocam-se entidades não palpáveis, mas perceptíveis. Vivificam-se memórias e acontecimentos dos antepassados, propiciando a conexão com esferas inalcançáveis à vista humana, intangíveis e imensuráveis. Expressa-se a sacralidade e o Divino se revela.

A atmosfera espetacular, exposta por Martins (2008) na Dança de Yemanjá Oguntá, em que todos os sentidos entram em jogo, é também revelada na Capoeira. Manifesta-se, para mim, na interação harmoniosa entre seus múltiplos aspectos, componentes e níveis sensitivos, espirituais e artísticos. Expressa-se na criatividade da improvisação, na beleza do combate dançado, nas artimanhas dos figurinos, no seu virtuosismo e nas destrezas corporais, musicais e teatrais, dentre outras. Na cultura popular da Capoeira baiana tradicional ela se manifesta enquanto parte do seu cotidiano viver, propiciada de forma espontânea e/ou organizada. Se os encontros em lugares específicos e dias especiais viraram tradição para capoeiristas, membros da comunidade e turistas, no momento menos esperado pode-se iniciar o jogo e a luta. É na brincadeira, na perspicácia e na falsidade, na mandinga34, na capacidade de enganar, de criar cenas e imitar situações que se manifestam algumas das suas qualidades teatrais.

Bião (2009, p.163) salienta que a teatralidade é formada pelos “microeventos da vida cotidiana” e afirma que ela é “o jogo cotidiano das interações face a face, onde somos simultaneamente atores e espectadores”.

A teatralidade na Capoeira se expressa na forma em que interagem os capoeiristas com suas habilidades corporais, gestuais, vocais e musicais. As maneiras de enfrentar as vicissitudes na roda e na vida são indissolúveis. O quotidiano teatral na Capoeira torna-se numa manifestação espetacular, mesmo sem ser o seu propósito. A roda e sua energia global, circular e espiralada, envolvem aos capoeiristas e assistentes numa atmosfera de unidade integrada. Não há uma clara separação entre os espectadores e os artistas/ brincantes/ performers/ jogadores. Os capoeiristas são espectadores também e os visitantes participam do enredo e podem entrar no jogo. Entrelaçam-se todos tomando parte da cena e do vibrar energético que permeia a experiência coletiva, o corpo social.

Bião (2009, p.164) afirma que: “As formas sociais da teatralidade são minúsculas soluções, já incorporadas à tradição cultural, para os mesmos problemas. São as formas singularizadas das pessoas e das relações interpessoais”.

Na roda da Capoeira evidencia-se como os capoeiristas enfrentam seus problemas pessoais e coletivos, e como podem, ou não, serem resolvidos. Podem diluir-se sem sabores, assim como podem incrementar-se as rivalidades ou propiciar-se novas rinhas. A roda é o espaço e o momento em que os capoeiristas revelam suas diferenças e afinidades interpessoais. Na luta corpo a corpo intimida-se e testa-se ao oponente, e, se o atacante for capoeirista experiente e respeitoso das regras, não precisará bater com descontrolada violência, poderá atingir eficazmente com técnica, elegância e muita malícia. Hoje em dia vê- se de tudo nas rodas (murro na cara, chute no ouvido, golpes nos órgãos genitais etc.), mas é precisamente no poder fazer e evitar, no controle corporal/emocional e na atitude, que esconde-se e revela-se um dos fundamentos da Capoeira e do seu caráter teatral.

Bião (2009, p.163-164) ressalta que se na teatralidade as técnicas corporais fazem parte da cotidianidade, na espetacularidade são “extracotidianas” e exigem um treinamento específico.

A Capoeira da atualidade é propiciada, em maior grau, com fins espetaculares. Realiza-se a roda e configura-se enquanto um ato extraordinário. Os aspectos teatrais vêm se perdendo ao se enfocar mais seu caráter técnico, desportivo e competitivo, em virtude da eficiência e da espetacularidade. Enfatiza-se a capacidade de realizar movimentos de grande virtuosismo, saltos, giros e acrobacias, de ter corpos bem demarcados e preparados para se exibir. Valem-se de treinamentos rigorosos em que a musculatura não é sempre delineada pelos exercícios próprios à Capoeira, mas graças ao uso de pesos, à malhação em academias e à utilização de anabolizantes. Ser violentamente invencível na luta e/ou grandiosamente

Bião (2009, p.163-164) afirma que a espetacularidade é formada pelos “macroeventos”, os quais “ultrapassam a rotina”. Define-a como “a categoria dos jogos sociais onde o aspecto ritual ultrapassa o aspecto da rotina: são os rituais religiosos, as competições esportivas, os desfiles e comícios, as grandes festas”. Salienta que há “distinção mais clara entre atores e espectadores”.

A Capoeira é ainda, para alguns, ritual religioso e é concebida também, pese às críticas suscitadas, enquanto prática esportiva. Dificilmente na Bahia a Capoeira está ausente nos atos públicos, em eventos especiais, em competições, nas comemorações festivas e de diversas naturezas. Os roles estão definidos, brincantes e espectadores assumem funções específicas e diferenciadas, mas tomam parte da cena multidimensional.

A Capoeira na atualidade, tanto a Angola quanto a Regional e suas formas contemporâneas, revelam, em menor ou maior grau, aspectos de teatralidade e da sua espetacularidade. Tais categorias são conceitos tratados na etnocenologia:

[...] implicam o elemento lúdico que lubrifica as articulações do corpo social. São os jogos cotidianos e os rituais extraordinários que constituem essas articulações: teatralidade e espetacularidade. Para simplificar, exageremos: as características do teatral são o que se refere ao espaço ordenado em função do olhar (do grego theatron); espetacular é o que caracteriza o que é olhado (do latim espectare) (BIÃO, 2009, p.162).

Na Capoeira, a teatralidade e a espetacularidade estão imersas e relacionam-se, ou não, entre si. A pesar de ser o caráter teatral um dos aspectos que na atualidade tendem primeiramente a desaparecer, assim como alguns componentes da ritualidade (o misticismo, a religiosidade, a sacralidade, o vínculo com a ancestralidade africana, dentre alguns), a Capoeira não deixa de revelar a sua capacidade multidimensional, mesmo sendo abordada, muitas vezes, diferenciadamente dos preceitos éticos/estéticos que lhe deram vida e forma.

Não podemos reduzir a Capoeira Contemporânea aos objetivos das pessoas que vão na contramão dos princípios e fundamentos que a regem, mesmo havendo raras exceções (como a Capoeira Contemporânea do grupo analisado) que vêm surgindo e se manifestando especialmente na procura de um diálogo com a tradição e de valorização das suas matrizes culturais.

Olimpíadas Mundiais, mas também é cura para quem assim a concebe. A Capoeira tem essa capacidade abrangente e transformadora. É multidimensional desde qualquer das suas configurações, correlacionando-se num todo indissociável as suas dimensões sensoriais, intuitivas, perceptivas, éticas e estéticas.

Capoeira é uma arte multidimensional, integral, única.