• Nenhum resultado encontrado

2.2 ABORDAGEM HÍBRIDA E MULTILETRAMENTOS

2.2.2 Multiletramentos

Soares (2012) discute os conceitos de “alfabetização” e “letramento”, ressaltando que esses conceitos envolvem tanto a escrita quanto a leitura. A autora descreve “alfabetização” como o ato de tornar o indivíduo capaz de ler e escrever, enquanto “letramento” é o estado de quem sabe ler e escrever, cultivar e exercer as práticas sociais de leitura e escrita. A autora infere que o nível de “letramento” do indivíduo relaciona-se diretamente com seu nível cultural, social e econômico. Ela descreve duas condições para que haja o letramento: escolarização real e efetiva da população e disponibilidade de material de leitura.

Segundo a autora, dentro da dimensão social, o letramento pode ser resumido em duas tendências: uma tendência progressista ou liberal e uma tendência radical e revolucionária. Na tendência liberal ou “autônoma” (STREET, 1984), o letramento é definido em termos de conhecimentos necessárias para que o indivíduo possa conviver no contexto social, com as formas práticas do dia a dia. Na tendência revolucionária ou “ideológica” (STREET, 1984), as habilidades de leitura e escrita são usadas em práticas sociais, responsáveis pelas concepções de conhecimento, identidade e modos de ser e estar no contexto social.

O conceito de letramento, porém, não foi suficiente o bastante para traduzir ou expressar a diversidade de formas novas de comunicação que explodiram no novo

contexto social e universal de inovações tecnológicas e linguísticas. A par da criação de novos conceitos, normas, mecanismos de expressão e comunicação entre pessoas e instituições, foi preciso também cunhar um novo termo, um novo conceito que exprimisse as novas formas de receptação e transmissão do conhecimento, levadas, trazidas e traduzidas por um sem-número de linguagens e de signos representativos. Um conceito plural para uma realidade plural (ROJO, 2012).

As terminologias que denotam formas de letramento no plural, como multiletramentos, novos letramentos e multimodalidade, são usadas por pesquisadores de letramento para representar modos e meios múltiplos de comunicação que as tarefas pedagógicas da pesquisa querem abordar. Esses termos são usados por pesquisadores em oposições a visões estreitas de letramento, ou seja, o letramento como um modelo autônomo de aquisição de habilidade, e não como um modelo ideológico, reconhecendo o letramento como práticas sociais e culturais (STREET, 1995; GEE, 1996; KRESS; VAN LEEUWEN, 2001; LANKSHEAR; KNOBEL, 2003; SOARES, 2012 ).

O conceito de multiletramentos foi cunhado pelo Grupo de Nova Londres (doravante GNL), composto por dez pesquisadores que se reuniram em 1996 para discutir o futuro do ensino de letramentos no contexto social, econômico e político que emergia naquele momento, ou seja, em resposta à “[...] crescente importância da diversidade cultural e linguística [e] à influência das novas tecnologias de comunicação” (KALANTZIS; COPE, 2008, p. 197, tradução nossa). Para o GNL, o papel da pedagogia deve ser redimensionado na sociedade contemporânea para que essa ciência seja transformadora e marcada pela presença das TICs auxiliando a desenvolver caminhos para preparar o aluno para agir como um agente do mundo. Partindo da perspectiva sociocultural, o grupo percebia que as mudanças recentes no mundo do trabalho e nos âmbitos público e privado envolviam novas formas de leitura e produção de significado que não eram abordadas no ensino formal. Diante desse novo quadro, a educação institucionalizada deveria se modificar, já que seu propósito fundamental é garantir a todos os estudantes os benefícios do aprendizado, de forma que lhes seja permitido participar plenamente da vida pública comunitária e econômica (COPE; KALANTZIS, 2000).

A ideia de multiletramentos cria um tipo diferente de pedagogia, em que a língua e outras formas de significados são constantemente refeitas pelos seus usuários em diferentes contextos profissionais, sociais e culturais (ROJO, 2012). O GNL enfatiza a necessidade dessa nova pedagogia, ou seja, dessa nova relação entre ensino e aprendizado que conduz a uma participação social mais completa. Segundo o GNL, a necessidade dessa nova pedagogia se deve ao fato de que, devido à natureza das NTCIs, o significado é constituído de forma cada vez mais multimodal, uma vez que o texto é sempre relacionado com um padrão de significado visual, auditivo, espacial, comportamental, entre outros (KALANTZIS; COPE, 2008). A palavra escrita se mistura com outros sistemas semióticos, por meio dos quais os sentidos são apropriados e transformados para produzir um novo conhecimento. Neste contexto, falar, ler, escrever, fotografar, fazer vídeos, dramatizar, fazer publicidade, entre outros, integram os vários modos de expressão de significados, configurando uma prática e uma pedagogia de multiletramentos (COPE; KALANTZIS, 2000).

Buscamos, por meio das tarefas pedagógicas desta pesquisa, analisar as evidências de uma aprendizagem significativa, no que se refere aos quatro princípios da pedagogia dos multiletramentos, proposta pelo GNL (1996), quais sejam: da prática situada, que envolve a imersão dos alunos em novas experiências que atraem interesses, conhecimentos e experiências que eles trazem para a escola; da instrução aberta, que é a intervenção do professor com o propósito de ajudar os alunos a reconhecer os padrões da língua, de modo que as ideias e conceitos principais sejam compreendidos; do enquadramento crítico, que estende o conhecimento específico da língua para uma linha de pensamento crítico, fazendo uma interpretação dentro de um contexto social e cultural específico; da prática transformada, que aplica o conhecimento a novos contextos, transformando significados, que “[...] podem funcionar ou não para um contexto social ou cultural particular” (KALANTZIS; COPE; FEHRING, 2002, p. 6). Esses princípios sintetizam o conjunto das relações apropriadas de aprendizagem.

É importante afirmar que a conexão dos princípios da pedagogia dos multiletramentos procede de forma complexa. Não há uma progressão linear de um princípio para outro. Em um determinado momento, pode haver elementos de mais de um princípio ocorrendo simultaneamente, ou um princípio ser mais preeminente que outro durante

uma determinada atividade, ou outros princípios podem ser continuamente revisitados (EVERETT, 2006).

Para que estas práticas de multiletramentos, que têm sua origem nas mudanças sociais, culturais e tecnológicas, do ciberespaço (LEVY, 1998), se realizem, é necessário que se desenvolva o letramento digital, o letramento multimodal e o letramento crítico (DIAS, 2012), explicados abaixo.

O letramento digital implica realizar práticas de leitura, escrita e produções de textos orais no meio digital aplicando o conhecimento construído a outros contextos socioculturais. Ser um letrado digital pressupõe saber colaborar on-line, usar regras de negociação, ler e escrever os códigos verbais e não verbais, como imagens e desenhos. Segundo Tapscott (1999, apud XAVIER, 2005), os letrados digitais tendem a desenvolver habilidades como: independência e autonomia na aprendizagem, abertura emocional e intelectual, preocupação pelos acontecimentos globais, liberdade de expressão e convicções firmes, curiosidade e faro investigativo, imediatismo e instantaneidade na busca de soluções, responsabilidade social; senso de constatação e tolerância ao diferente.

O letramento digital traz consigo uma série de situações de comunicação local e global com pessoas próximas e desconhecidas no mundo inteiro, como as salas de Bate- Papo (por exemplo, Whatsapp,Twitter, Facebook), Fóruns eletrônicos (e-forums) e Correios eletrônicos (e-mails). Finardi e Porcino (2013, p. 278, tradução nossa), chamam a atenção para o fato de que o letramento digital “[...] não fica limitado à habilidade de lidar com a tecnologia; ele vai além, ele abrange a habilidade individual de entender e manipular informação multimodal de várias fontes”.

O letramento multimodal refere-se à capacidade do indivíduo de produzir significados por meios de vários modos semióticos, quais sejam, o linguístico, o imagético, o sonoro, o gestual, o espacial. Os textos multimodais já fazem parte do universo escolar no que se refere ao livro didático, apesar de a leitura de textos visuais, por mais central que possa ser na sociedade contemporânea, ainda ser menosprezada, produzindo “iletrados visuais” (KRESS; VAN LEEUWEN, 2001).

Alinhado a esse conceito de letramento visual, Ferraz (2012) descreve aulas de inglês em dois contextos educacionais universitários, um público e um privado. O objetivo do

estudo é a investigação das práticas pedagógicas conduzidas pelos professores dos dois grupos, por meio das imagens e da leitura das imagens de filmes e documentários. A análise dos dados registrados em gravações de áudio e vídeo e em atividades escritas pelos alunos sugere que, na universidade privada, houve um trabalho de leitura predominantemente focado na aprendizagem linguística. Em relação à universidade pública, constatamos ruptura de uma leitura linguística, promovendo uma leitura crítica voltada para a realidade social por parte dos alunos e do professor.

O letramento crítico, por sua vez, subjaz todas as ações realizadas por meio da linguagem e envolve o questionamento de poder, das representações presentes nos discursos, especialmente a intertextualidade, e suas implicações para o indivíduo e sua comunidade (DIAS, 2012).

O letramento crítico se refere também ao empoderamento do indivíduo para pensar por si próprio, explorando e negociando significados nas entrelinhas dos textos, a partir do domínio de outros letramentos, permitindo não apenas a análise crítica de determinadas estéticas e gêneros textuais, mas principalmente a capacidade de intervenção e de edição em situações significativas para ele (ROJO, 2012). Por exemplo, Rojo (2012) descreve o valor estético de um grupo de alunos do primeiro ano de Letras (jovens com idades de 17-18 anos), durante uma atividade em sala de aula, com Animes.7 No decorrer da atividade, que consistia na avaliação estética de Animes, a autora pode observar que os alunos mostraram critérios estéticos específicos ao justificarem suas escolhas, além de interagir com o meio de linguagem. Podemos concluir que o letramento crítico é diretamente proporcional ao domínio de outros letramentos, que permitem a abordagem, o conhecimento e o pleno aproveitamento,manipulação e uso do instrumento de linguagem utilizado.

Podemos afirmar, então, que o indivíduo que tem acesso às diferentes modalidades e dimensões da linguagem da era tecnológica, capaz de circular pela linguagem visual, digital, multicultural e crítica, tem consciência de que, assim como a língua, a

7 Anime é um termo que define os desenhos animados de origem japonesa e também os elementos relacionados com esses desenhos. O anime é tradicionalmente desenhado a mão. Porém, com o desenvolvimento dos recursos tecnológicos de animação, muitos animes passaram a ser produzidos em computadores (Disponível em: <www.suapesquisa.com/o_que_e/anime.htm>. Acesso em: 15 ago. 20014).

tecnologia está sempre a serviço de algum propósito econômico, social ou político (DIAS, 2012).