1. PRESSUPOSTOS TEÓRICOS
1.1. DaFnE: A abertura de um novo campo de estudo
1.1.4. Multilinguismo e Plurilinguismo: Concorrência ou
De acordo com Mario Wandruska (1979), um dos primeiros autores a abordar a questão do plurilinguismo, a condição monolíngue é uma exceção, visto que todo ser humano tem o plurilinguismo em si, seja por originar de uma comunidade bi- ou multilíngue, seja por motivos econômicos, culturais, de enriquecimento pessoal ou profissional. Em sua obra, Die Mehrsprachigkeit des Menschen, salientou que o fenômeno do plurilinguismo, denominado por ele “plurilinguismo interno” está presente em todos os indivíduos, visto que, mesmo em suas línguas maternas, estes podem fazer uso de uma série de variantes, tais como as variantes formais e informais, o uso de dialetos e de linguagem técnica (jargão). Quanto ao “plurilinguismo externo” do aprendiz, este representa uma extensão de seu “plurilinguismo interno” e permite a aprendizagem de línguas estrangeiras.
Ao considerarmos alguns aspectos acima arrolados sobre as políticas linguísticas e a difusão do ensino de mais de uma língua estrangeira, tem-se a certeza de que a aprendizagem de diversas línguas é uma realidade. Nesse contexto faz sentido que os conceitos de plurilinguismo e multilinguimo sejam diferenciados, como consta no
Quadro Europeu Comum de Referência para as Línguas (TRIM et al., 2001).
O multilinguismo diz respeito à coexistência de uma variedade de idiomas em um país, uma região, um estado ou em uma comunidade, e influencia a escolha das
línguas ensinadas nas escolas, sua abrangência, intensidade e no tipo de aula que será dada. Em resumo, o multilinguismo pode ser definido pela oferta de idiomas em uma escola ou em um sistema educacional. Os idiomas, por sua vez, têm status diferentes e podem ser classificadas de diferentes formas (cf. NEUNER, 2009, p.18):
• Línguas de Estado: são as línguas consideradas oficias, junto às quais existem algumas línguas regionais;
• Línguas Minoritárias: as línguas de determinados grupos, sejam estas reconhecidas ou não;
• Língua Padrão, com suas variantes dialetais e socioletais;
• Línguas codificadas escritas e tradicionalmente orais.
O plurilinguismo, por outro lado, diz respeito às experiências linguísticas de um indivíduo, que podem se estender dos âmbitos familiares até os domínios das línguas de outros países. Todas as línguas aprendidas servem à construção da competência comunicativa do individuo, para a qual todos os conhecimentos e capacidades linguísticas colaboram e na qual as línguas interagem, relacionando-se. A partir disso o indivíduo é capaz de, em diferentes situações, retomar de forma flexível diferentes partes dessa competência, para que a comunicação se dê da forma mais eficiente possível (p. ex. trocar de um dialeto/língua para outro e, dessa forma, explorar todas as possibilidades que a língua oferece) (TRIM et al., 2001, p. 07).
O plurilinguismo, amplamente difundido e incentivado ao redor do mundo devido à necessidade premente das pessoas de aprenderem mais de uma língua estrangeira, também engloba outras possibilidades, como a retomada de conhecimentos em diversas línguas para auxiliar a compreensão de um texto, por exemplo, através do uso de internacionalismos. Outras características do conceito de plurilinguismo compreendem: O aluno nunca inicia a aprendizagem de uma língua estrangeira sem nenhum conhecimento prévio sendo que, para o sujeito plurilíngue, a aprendizagem de língua serve como uma extensão do domínio linguístico já adquirido. O aprendiz não é
obrigado a atingir o nível de fluência em todas as suas línguas, sendo que os níveis de competência e o perfil linguístico em cada língua podem variar. A partir da perspectiva plurilíngue, o objetivo da aula de língua estrangeira foi modificado de maneira substancial, visto que não se trata mais de dominar uma ou mais línguas de forma fluente, mas sim da construção de um repertório linguístico, no qual todas as capacidades linguísticas têm seu espaço (cf. TRIM et al. 2001).
Conforme salientado por Königs (2000 apud NEUNER, 2003, p.15), existem três formas distintas de plurilinguismo, a saber: o plurilinguismo retrospectivo, a mistura entre plurilinguismo retrospectivo e prospectivo e a forma simples de plurilinguismo prospectivo. No modo retrospectivo, o aprendiz traz consigo o plurilinguismo para a sala de aula, podendo ser considerado bilíngue e dispondo de conhecimento considerável na língua aprendida no momento. No caso de um plurilíngue retrospectivo/prospectivo, o aluno também traz o plurilinguismo consigo, porém nenhuma das línguas por ele dominadas corresponde aquela trabalhada em sala de aula. Por último, tem-se o plurilinguismo prospectivo, no qual o aprendiz chega à aula de língua estrangeira monolíngue, construindo, através desta, seu plurilinguismo. Esta é a situação mais comumente encontrada na aula da primeira língua estrangeira. Para a situação do ensino de alemão posterior ao de inglês, podemos partir de um plurilinguismo retrospectivo/prospectivo, visto que são estudados falantes bilíngues (por vezes trilíngues), que adquirem mais uma língua estrangeira a partir de seus conhecimentos previamente adquiridos em outras línguas.
Para autores como Königs, Bausch e Krumm (2004), o conceito de plurilinguismo não é abordado de forma unânime em todas as áreas, visto que, enquanto o Conselho da Europa propõe a existência de um plurilinguismo individual, que designa uma rede linguística mental do indivíduo, a psicolinguística e a área de aquisição de segundas línguas entendem o bilinguismo como uma forma de plurilinguismo. De forma geral, entretanto, o plurilinguismo e a competência plurilíngue referem-se à habilidade do indivíduo em usar diversas línguas para o propósito da interação comunicativa intercultural.
Para os sujeitos plurilíngues é incomum dominarem todas as suas línguas com o mesmo nível de proficiência, já que elas são empregadas de forma funcional. Aprendizes plurilíngues parecem ter um poder de abstração mais acentuado e reconhecem modelos com maior facilidade, bem como reagem de forma mais flexível a tarefas e estabelecem estratégias de memória mais efetivas (McLAUGHLIN; NAYAK, 1989 apud APELTAUER, 2001, p. 636).
De acordo com Krumm (2003), a escola e a sociedade devem fazer uso das experiências linguísticas de seus alunos, o que significa dizer, no âmbito do conceito de plurilinguismo, que é recomendado para a aula de língua estrangeira relacionar as línguas que os alunos têm conhecimento. Para a presente dissertação, a pesquisadora toma como pressuposto que as ocorrências multilíngues e plurilíngues não constituem fenômenos concorrentes, mas sim simultâneos, pois se pode falar ao mesmo tempo de políticas linguísticas multilíngues, quanto de plurilinguismos individuais. De qualquer forma, este estudo foca os sujeitos plurilíngues, investidos em suas competências linguísticas idiossincráticas.