2 FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA
2.9 MULTIMODALIDADE: UMA NOVA REALIDADE EM SALA DE AULA
A maneira como escrevemos e falamos é constantemente afetada pelas
novas formas de tecnologia que surgem dia após dia e, a partir delas, “surgem
novas formas de ser, de se comportar, de discursar, de se relacionar, de se informar,
de aprender” (ROJO e BARBOSA, 2015, p.116). Por esse motivo, não podemos
ignorá-las e deixá-las fora da esfera escolar, uma vez que nessa segunda geração
da internet a informação é construída por todos seus usuários: “A WEB 2.0 muda o
fluxo de comunicação e, em tese, acaba com a cisão produtores/leitores,
possibilitando que todos publiquem na rede e exerçam simultaneamente os dois
papeis” (Idem, p.119.), ou seja, o papel de leitor e autor, denominado por Rojo
(2013) de “lautor”. Com essas novas tecnologias também surgem novos gêneros na
sociedade, entre eles estão as fanfics, que englobam a escrita criativa, a
metalinguagem e a multimodalidade.
De acordo com Black (2007, p.118), as fanfics são “textos híbridos” que
permitem a combinação de várias mídias e vários gêneros. Essas multiplicidades de
formas nos levam a experimentar novas formas de escrever através da colaboração,
como, por exemplo, a utilização de ferramentas como o Google Docs e Google
Groups.
É por vivermos nesse mundo multi, o qual possui uma diversidade cultural e
várias linguagens, que o aluno da sociedade contemporânea são denominados
nativos digitais. De acordo com Rojo (2013, p.8), eles também podem ser chamados
de “construtores-colaboradores das criações conjugadas na era das linguagens
líquidas”, pois necessitam não apenas de um tipo de letramento em sala de aula, e
sim de uma pedagogia de letramentos, a qual o The New London Group (2000)
classifica de multiletramentos. Essa pedagogia de multiletramentos é composta da
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diversidade
de
ideias
que
podem
ser
científicas
ou
não
científicas
(multiculturalidade), da diversidade de formas de representar essas ideias através de
imagens, sons, cores, etc. (multimodalidade), e da diversidade de artefatos utilizados
para representar essas ideias (multimídias).
Podemos dizer que nas aulas de LE, a multimodalidade sempre esteve
presente, porque muitas vezes nem sempre é possível explicar ao aluno um
conceito ou significado utilizando apenas a língua falada. Os professores de LE, na
grande maioria das vezes, sempre foram grandes usuários de recursos como
figuras, músicas e gestos para a construção de novos significados dentro das salas
de aula. Os textos multimodais, segundo Rojo (2012, p.19), são “textos compostos
de muitas linguagens (ou modos, ou semioses) e que exigem capacidades e práticas
de compreensão e de produção de cada uma delas (multiletramentos) para fazer
significar”. Esses modos podem ser representados por imagens, sons, gestos,
músicas, leiaute de letras, objetos, dentre outros (KRESS, 2010).
Esta pesquisa envolveu a multimodalidade de duas formas. A primeira
constitui-se na elaboração do MD, que fez uso de diferentes modos para que os
alunos construíssem novas formas de conhecimento e, com isso, pudessem
escrever suas fanfics. Já a segunda diz respeito à própria utilização desses modos
pelos alunos na escrita do gênero, promovendo uma aprendizagem significativa
através de recursos que estão presentes na vida cotidiana deles, pois o nosso
objetivo como professores é “compreender os fatores que podem ser considerados
facilitadores do processo de aprendizagem para que se possam utilizar os recursos
disponíveis a fim de construir uma aprendizagem significativa” (DIONÍSIO e
VASCONCELOS, 2013, p.44).
Para que a aprendizagem seja significativa, a escola precisa ensinar aos
alunos como lidar com esse mundo multi. Trazendo a fanfic para a sala de aula,
acreditamos que os alunos tiveram contato com um gênero que envolve a
metalinguagem, que segundo The New London Group (2000), é uma linguagem que
explica a própria língua, e isso pode acontecer através de imagens, sons e de outros
textos, como, por exemplo, os comentários e a construção colaborativa dos lautores
das fanfics. Tendo como base esses comentários e as sugestões, eles passaram a
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refletir mais sobre a sua PE e produziram textos com uma grande carga de
multimodalidade, uma vez que, as fanfics receberam a companhia de imagens, sons
e diferentes leiautes. Além disso, trouxemos para a esfera escolar um gênero que,
muitas vezes, já vem sendo adotado na prática cotidiana pelos nossos alunos fora
da escola.
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3 METODOLOGIA DA PESQUISA
Nos dedicamos a ensinar as pessoas como construírem conhecimento juntas porque acreditamos que é isso que torna possível exercitar o poder da criatividade necessária para a transformação do conhecimento. (HOLZMAN, 2002, p.4)13
A partir deste momento discutiremos sobre a teoria metodológica que
direcionou o presente estudo. A Pesquisa Crítica de Colaboração (PCCol)
(MAGALHÃES, 2009, 2011, 2012) enfatiza a importância da colaboração no
processo de aprendizagem por todos que fazem parte da pesquisa, para, assim,
ocorrer a construção de novos significados através de um novo modo de pensar e
questionar dentro e fora da sala de aula. Ou seja, assim como Holzman, citada na
abertura deste capítulo, a PCCol salienta que ao trabalharmos juntos ocorre a
transformação do que já sabemos, dando origem a novos conhecimentos. Além da
PCCol, este trabalho também está inserido no paradigma crítico, no qual, segundo
Liberali&Liberali (2011, p.19), o conhecimento tem um “desenvolvimento histórico e
social” e o nosso papel como professora-pesquisadora é de um “agente de
mudanças”, participante na construção e/ou reconstrução no mundo social.
Sendo uma pesquisa crítica e colaborativa, ela também tem um caráter
qualitativo (MINAYO,1993 apud
LIBERALI, 2011, p.21), pois trabalha com “o
universo dos significados, dos motivos, das aspirações, dos valores, das crenças,
dos valores e das atitudes”, os quais não podem ser traduzidos em números. O
nosso papel como professora-pesquisadora foi o de tentar compreender e explicar
as relações entre os participantes da pesquisa na construção desses novos
significados através da escrita de fanfics, que transformaram não apenas as vidas
dos alunos, mas a da professora-pesquisadora deste trabalho também.
Isso posto, serão apresentados o contexto da pesquisa, seus participantes, os
instrumentos utilizados, o MD produzido durante a pesquisa e as produções dos
alunos.
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Tradução nossa, no original: We focus on teaching people how to make meaning together because
we believe that is what it possible to exercise the power of creativity required for developmental transformation (HOLZMAN, 2002, p.4).