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11. A CONCORRÊNCIA SUCESSÓRIA DO CÔNJUGE COM ASCENDENTES

11.1. MULTIPARENTALIDADE DO AUTOR DA HERANÇA: PREJUÍZO POR

Instituto recentemente criado pela doutrina brasileira, a multiparentalidade deve ser analisada pelos seus efeitos pessoais e patrimoniais, tendo reflexos, por isso, no âmbito do direito das famílias e das sucessões. Como centramos o nosso estudo na situação jurídico-sucessório do cônjuge, mais nos interessa as consequências sucessórias provenientes desta modificação estrutural na relação familiar, mais precisamente quanto à sua incidência frente à sucessão legitimaria.

Basicamente, a multiparentalidade consiste no alargamento do pólo parental da relação familiar vertical estabelecida com os filhos, notadamente com o acréscimo ao vínculo de pai(s) ou mãe(s), estendendo-se os demais elos familiares que lhe são conexos. A formação

185 É, por isso, que exemplificam Cahali e Hironaka (2014, p. 173) a respeito da possibilidade de se “outorgar à mãe bens do falecido pai recolhidos pelo filho sem descendentes (autor da herança), a que ela não tinha direito pelo regime de bens (por exemplo, regime da separação obrigatória de bens, pelo qual, no atual sistema, o cônjuge não é herdeiro), sendo que, se o pai não deixasse descendente, ou viesse a morrer após o filho, seu patrimônio particular seria devolvido aos seus ascendentes, se vivos, não ao cônjuge. E, em situação mais peculiar, pode ocorrer que os bens do falecido, havidos por herança de seu avô paterno, devolvam-se aos avós maternos, no pressuposto de já terem falecidos os pais e não existir descendente. Ou seja, haverá transferência patrimonial entre as duas famílias, sem víncul consaguíneo entre elas, pois a coincidência de sangue se verifica apenas no neto comum.”. À primeira vista, um desidioso exame projetaria uma imagem de “burla” às regras impeditivas e/ou limitativas do fenômeno sucessório, notadamente aquelas que afastam a comunicabilidade em situações excepcionais. Contudo, a situação presente deve ter em conta o titular do acervo a ser transmitido, partindo dele a origem patrimonial, sendo analisados eventuais óbices em relação a ele e não ressuscitá-los de outra seara.

deste laço decorrerá, todavia, da comprovada verificação da sedimentação da afetividade em determinada situação.

Não se pretende, aqui, levantar maiores discussões acerca da possibilidade ou não de consagração deste instituto no ordenamento jurídico brasileiro, mas apenas analisar a incidência dos seus efeitos sucessórios, projetando eventuais consequências positivas ou negativas da sobrevivência da multiparentalidade no sistema brasileiro, diante das premissas enunciadas nos capítulos anteriores.

É sabido que a multiparentalidade não espraia seus reflexos apenas sobre o domínio do direito sucessório, não se limitando a ter como elemento finalístico eventual projeção da sua eficácia com a abertura da sucessão. Muito mais do que isso, este instituto pode demandar legitimidade para pleitear direito a alimentos, sujeição ao poder parental (guarda, regulamentação das visitas, alienação parental e etc.), ou seja, todos os direitos e deveres inerentes ao vínculo filiatório.

Para os defensores desta tese, como Barbosa de Almeida e Rodrigues Júnior (2010, pp. 382-383), “parece permissível a duplicidade de vínculos materno e paterno-filiais, principalmente quando um deles for socioafetivo e surgir, ou em complementação ao elo biológico ou jurídico pré-estabelecido, ou antecipadamente ao reconhecimento da paternidade ou maternidade biológico.”.

Com a construção desta doutrina, não obstante haja a pretensão de tutelar as relações socioaetivas, cujo elo de afeto esteja já sedimentado sobre bases sólidas, em determinados casos mais firme do que a própria consanguinidade, melhor seria conferir ao requerente que optasse pela manutenção do elo biológico ou substituísse o antigo pelo novo laço em construção. Através de uma irrestrita permissividade, num campo onde não há limites para a difusão dos laços familiares, conduz-se, a toda evidência, a uma verdadeira confusão entre os vínculos, sem respeitar a vontade dos terceiros (que guarda alguma relação com aquele que reconhece este estado filiatório), tão pouco tendo a cautela de examinar os efeitos sucessórios que dali se retiram, criando uma “multi-hereditariedade”.

Não que cause absoluta repulsa o pensamento em questão, mas apenas pretendemos promover uma análise mais minuciosa e cautelosa das suas nuances, verificando a possibilidade de aceitar a interferência na esfera de terceiros dos efeitos decorrentes do novo vínculo.186 Pretendemos, ao menos, por limites aos efeitos advintos do reconhecimento da

186 Ressaltando o cuidado que se deve ter ao conceber e aplicar esta tese, Chaves de Farias e Rosenvald (2015, Famílias, p. 599) advertem: “De qualquer modo, procurando uma visão mais sistêmica e problematizante, é preciso perceber que uma consequência natural da admissibilidade da tese da pluri-paternidade é o reconhecimento de

multiparentalidade, para que não surjam aberrações jurídico-sucessórias a partir da infinidade de novos parentescos, criando verdadeira “teia” sucessória.

É extremamente necessário evitar a sua aplicação desprovida de liames básicos da sua incidência, sendo fundamental que se estabeleçam limites aos efeitos que decorrem deste reconhecimento de parentalidade. Deste modo, nos parece mais objetivo e sistemático a obrigatória declaração dos efeitos que decorrerão daquele reconhecimento, partindo-se de um pressuposto negativo, nulo, diante do qual caberá ao aplicador do direito indicar quais os direitos e deveres filiatórios e parentais que advirão desta multiparentalidade. Falamos em uma declaração restritiva, onde se elencam taxativamente todos os efeitos dali decorrentes.

Por outro lado, se admitida a completude dos direitos e deveres próprios do vínculo de parentalidade, por uma via positiva, ampla, e não reducionista, as consequências podem ser catastróficas. Uma das razões de fundo estruturante da eventual multiparentalidade seria, portanto, a utilização deste instituto com finalidade exclusivamente patrimonial, no intuito de fazer jus à participação na sucessão do(s) novo(s) pai(s) ou da(s) nova(s) mãe(s), quiçá dos novos parentes proveniente do novo laço de parentesco construído. E estas atitudes, por óbvio, devem ser imediatamente rechaçadas.

Partindo, consequentemente, da preexistência da aceitação deste instituto adentro do sistema jurídico brasileiro, em um cenário de amplitude ilimitada dos seus reflexos (tanto no âmbito do direito de família, como no domínio do direito das sucessões), seria inevitável alcançar a sucessão de pessoas que se quer concordaram, ou mesmo tiveram conhecimento, do novo vínculo de parentesco construído.

Como este reconhecimento demanda um ato de vontade, esta seria apenas manifestada ou conhecidas pelas partes que participassem da sua construção, em eventual processo judicial inaugurado para este fim. Entretanto, outros parentes que possuíssem vínculo com quaisquer destas partes, que figuraram na conformação desta nova relação, sofreriam a interferência deste recente vínculo, inclusive com relação aos direitos sucessórios, na própria sucessão ou quando chamados a suceder.

A título exemplificativo, vislumbremos a seguinte situação: A possui três filhos comuns com seu cônjuge, B, C e D, e não tem ascendentes. Pouco tempo antes de A falecer, D

uma multi-hereditariedade, na medida em que seria possível reclamar herança de todos os seus pais e de todas as suas mães. Isso sem esquecer a possibilidade de pleitear alimentos, acréscimo de sobrenome, vínculos de parentesco... O tema, portanto, exige cuidados e ponderações de ordem prática, uma vez que, admitida a pluripaternidade, estar-se-ia tolerando, por igual, a plurihereditariedade, gerando inconvenientes explícitos, como uma estranha possibilidade de estabelecimento da filiação para atender meramente a interesses patrimoniais. Mais ainda: uma pessoa poderia herdar várias vezes, de seus diferentes pais.”.

reconhece, por multiparentalidade, o filho E, conferindo-lhe, em razão dos efeitos sucessórios, a comunicação com toda a sucessão que decorre dos novos vínculos de parentesco. Logo em seguida, todos os três filhos de A falecem, sendo pré-mortos quando da abertura da sucessão, restando como descendente, somente, E. Neste caso, se os efeitos da multiparentalidade alcançassem apenas o vínculo com D, não seria admitida a vocação de E e o cônjuge de A herdaria a título universal. Porém, como os efeitos advindos deste instituto se espraiam por todas as relações de parentesco, deverá E ser chamado a suceder, reduzindo, por conseguinte, o quinhão a que faz jus o viúvo.

Como visto neste exemplo, o prejuízo será suportado pelo cônjuge, que sequer foi instado a se manifestar acerca da sua concordância com este novo vínculo familiar. Pior, ainda, será a futura sucessão deste viúvo, pois será o acervo integralmente transmitido a este descendente, sendo que não manifestou a sua vontade em tê-lo como parente, mas acaba aquele por recolher a integralidade da herança em virtude da sua condição de descendente.

Vê-se, portanto, a preocupante situação criada pela irrestrita aplicação dos efeitos pessoais e patrimoniais ao reconhecimento da multiparentalidade, principalmente em relação aos terceiros, que não manifestam a sua vontade quanto à esta situação, apenas suportando as deletérias consequências provenientes deste instituto.

É justamente por isso que defendemos, em último caso, a possibilidade da aplicação limitada dos efeitos pessoais inerentes à multiparentaldiade, apenas aqueles que não refletem na esfera de terceiros, v.g. o registro plúrimo de paternidade e maternidade187. Além disso, de forma alguma devem decorrer automaticamente os impactos patrimoniais advindos desta nova relação de parentesco.

187 Neste mesmo sentido já decidiu o Tribunal de Justiça do Distrito Federal e Territórios (TJDFT), do Brasil, no julgamento da Apelação Cível n° 0049834-80.2012.8.07.0001, rel. Ana Catarino, condicionando os efeitos da multiparentalidade à manifestação dos interessados, que seriam atingidos pelas consequências da respectiva decisão: DIREITO CIVIL. APELAÇÃO CÍVEL. AÇÃO DECLARATÓRIA DE RECONHECIMENTO DE MATERNIDADE SÓCIOAFETIVA. ENTEADOS MAIORES DE IDADE E CAPAZES. TITULARES DO DIREITO. AUSÊNCIA DE MANIFESTAÇÃO. IMPOSSIBILIDADE DE RECONHECIMENTO. O TITULAR DO DIREITO AO CANCELAMENTO OU MODIFICAÇÃO DO REGISTRO CIVIL É, EM PRINCÍPIO, O PRÓPRIO INDIVÍDUO. NESSE SENTIDO, AQUELE INDIVÍDUO CAPAZ E CUJO REGISTRO SE PRETENDE FAZER QUALQUER MODIFICAÇÃO DEVE NECESSARIAMENTE E INTEGRAR A LIDE, TENDO EM VISTA QUE ESTA GIRA EM TORNO DE DIREITO INDISPONÍVEL E INERENTE À SUA PRÓPRIA PERSONALIDADE. CONSIDERANDO AS PROPORÇÕES DO DEFERIMENTO DO PLEITO, O QUAL ACARRETARÁ ALTERAÇÕES EM DOCUMENTOS E ASSENTOS DE NASCIMENTO DOS INTERESSADOS E DE SEUS DESCENDENTES, DEVEM ESTES, OS QUAIS POSSUEM LEGITIMIDADE PARA TANTO, VIR A JUÍZO REQUEREREM, PESSOALMENTE, OU JUNTAMENTE COM A AUTORA, O ALMEJADO RECONHECIMENTO SOCIOAFETIVO. O INDEFERIMENTO É MEDIDA QUE SE IMPÕE, TENDO EM VISTA QUE UM DOS ENTEADOS SEQUER VEIO AOS AUTOS OU SE MANIFESTOU PELA CONCORDÂNCIA COM O RECONHECIMENTO DA MATERNIDADE SOCIOAFETIVA. APELO CONHECIDO E NÃO PROVIDO. (TJDFT, Relatora ANA CANTARINO, Data de Julgamento: 11/06/2014, 6ª Turma Cível)

Com relação aos efeitos que esbarram na seara de terceiros, a sistemática empregada deve partir de um caráter nulo, somente sendo atribuídos aqueles declaradamente elencados para esta finalidade e com a expressa concordância de todos aqueles que serão atingidos por este reconhecimento.

Enfim, a incidência de eventuais efeitos que toquem a esfera de terceiros a esta relação multiparental (cônjuge, descendentes, ascendentes e colaterais) estarão condicionados à sua restrita discriminação e à aquiescência destes entes, que suportarão futuramente os reflexos deste novo vínculo.

Concordamos, todavia, com a possibilidade de imediata, automática aplicação das consequências que não venham a impactar na seara alheia, sendo exclusivamente dotada de características inter partes, a exemplo da inserção do nome do novo(s) pai(s), mãe(s), avô(s) avó(s), no registro de nascimento, numa posição de salvaguarda da sedimentação dos laços afetivos, mas digno de evitar a consecução deste mecanismos com finalidade unicamente patrimonial, gerando evidente enriquecimento ilícito por uma via, aparentemente, legítima.