• Nenhum resultado encontrado

1. FUNDAMENTOS TEÓRICOS-METODOLOGICOS

1.5 Multiplicidade, Técnica, Fluidez e Artificialidade

As perspectivas e reflexões apresentadas sinalizam o caminho teórico- epistemológico desta construção teórica utilizada para analisar, como os mapas online, suportados por geotecnologias e informação geográfica instantânea, contribuem para a emergência e consolidação de uma Cartografia Geográfica (em movimento).

Portanto, nos possibilitou sistematizar, fundamentar e articular um conjunto de conceitos, categorias e elementos que a estruturam, dando-lhe conformidade do ponto de vista teórico-epistemológico e ontológico, ao estabelecermos as seguintes considerações e proposições:

a) O entendimento do espaço como produto de inter-relações, de interações efetivadas ou na possibilidade de vir a ser, em devir, nunca fechado, um cosmos. O que pressupõe falar da coexistência de outras histórias, de

trajetórias diferentes que coexistem no espaço como multiplicidade (MASSEY, 2004; 2008).

Ao adotarmos a noção de multiplicidade enquanto co-constituinte do espaço (MASSEY, 2008), implica na valorização política do conceito de espaço geográfico a partir do reconhecimento do outro, aquele além de nós, ou que conosco se relaciona.

Primeiro, isto significa afirmar de que não há apenas uma narrativa histórica, ou uma única cronologia, existem outras trajetórias não hegemônicas no espaço geográfico, por isto, ele é aberto, como também são diversas as trajetórias das representações cartográficas e as formas de interpretação simbólica do que se constitui socialmente como mapa. A linguagem cartográfica é um amalgama de modos cartográficos (EDNEY, 1993).

Segundo, reconhecendo-se a primeira afirmação, é admissível que espaço não é tempo, mas sim, produto de relações entre diferentes trajetórias coexistindo concomitantemente nesta espacialidade, onde as noções de tempo-espaço são relacionais. Assim, retoma-se a importância do espaço em relação ao tempo, embora exista uma íntima relação entre ambos. Entretanto, um não é o outro. Nesta perspectiva, não é plausível a negação de outras trajetórias no mesmo tempo-espaço, senão estaríamos transformando espaço em tempo e geografia em história, como defende Massey (2004).

Do ponto de vista cartográfico, estas trajetórias visíveis ou ocultas que assinalam as ações humanas em todo o planeta em tempo-espaço relativos e distintos, a priori, são técnica e politicamente alçados a possibilidades de entrelaçamentos segundo os mais diversos interesses, seja eles internos ou externos às suas práticas cotidianas, em função da instantaneidade da informação geográfica, componente essencial nas relações econômicas, políticas e sociais que assinalam a produção do espaço na contemporaneidade.

Isto ocorre pelo grau de penetrabilidade com que as tecnologias de informação e da comunicação (CASTELLS, 1999), as redes de Cibercultura (LÉVY, 2000; 2001) e uma miríade de dispositivos eletrônicos móveis têm sido articulados em nível planetário. Há um controle maior do tempo sobre as relações sociais e na escala do indivíduo, conectado (online) às redes a todo momento. Com isto, tem-se um refinamento e aprimoramento do que caracterizamos mais à frente como: sincronicidade do tempo.

Buscamos o entendimento deste espaço em aberto, sempre em construção. Esta ótica nos permite ampliar as perspectivas políticas (poder) e de futuro dado, de outras interpretações e possibilidades de abertura ao inusitado, daquilo que por muito tempo foi externo, por vezes, mascarados intencionalmente ou invisíveis aos sentidos e às interpretações de outros homens e das ciências.

Ao tratar da crise das ciências e dos desafios das ciências humanas na contemporaneidade, Latour (1994) aponta que em meio ao processo de hibridização, as questões do mundo atual já não podem ser abordadas de forma fragmentada, o fim das utopias demonstra que nenhuma teoria é capaz de explicar o mundo atual, nem apontar para o futuro. A hegemonia ocidental, por muito tempo não levou em conta nosso complementar, outras culturas, outras sociedades, frente a uma experiência coletiva.

Os fatos científicos são construídos, mas não podem ser reduzidos ao social porque ele está povoado por objetos mobilizados para construí -lo. O agente desta construção provém de um conjunto de prática s que a noção de desconstrução capta da pior maneira possível... [...] ... será nossa culpa se [grifo do autor] as redes são ao mesmo tempo reais como a natureza, narradas como

o discurso, coletivas como a sociedade? (LATOUR, 1994, p. 12).

Neste sentido, assumimos o caminho da incerteza, da construção de um futuro em aberto, e não de um discurso dicotômico67, pois, se assim não fosse, estaríamos limitando outras interpretações, negando outras existências, outras cartografias.

Compreendemos que independente desta concepção, o(s) território(s) (lugar, para Massey) é constituído por inter-relações que marcam a intencionalidade das ações humanas objetivando os mais diversos interesses.

Os territórios e as redes informacionais são relacionais em termos de escala, estrutura, constituição e finalidade, coexistindo entre si ou não. Simbolicamente, são conjuntos que se inter-relacionam, ou na possibilidade de vir a ser, segundo os variados interesses e configurações das práticas sociais. Em termos cartográficos, estamos falando de “métricas” diferentes e suas interconexões.

A consolidação de uma cartografia no campo da Geografia perpassa não apenas por englobar as dimensões humana, social e cultural em sua totalidade, mas, pelo reconhecimento da coexistência de múltiplas trajetórias e narrativas possíveis (modos

67 Não é possível defender um discurso de “desenvolvimento” enquanto caminho hierárquico a ser trilhado por

todos os povos, ou de uma ciência estanque, e como tal, associado a uma visão de globalização aceita como algo natural, que sob a tutela do mercado postula ser a única via possível. Tampouco no mito do paraíso perfeito com a revolução das massas e sua ascensão ao poder como algo inexorável em meio às contradições do capital. Ver: Latour, (1994, p. 12-15).

cartográficos), e não apenas uma que se pretenda universal, inclusive aquelas que sendo hegemônicas, são tornadas invisíveis a uma interpretação geográfica.

Isto implica evitar reducionismos e compartimentalizações, ao mesmo tempo, ampliar as possibilidades de enfrentamento e de escape as superficialidades impostas pelo mercado frente as profundas transformações (inclusive as espaciais) e demandas provocadas por esta sociedade da informação.

Desta multiplicidade, enquanto princípio constituinte do espaço geográfico, definimos a categoria de análise: convergência, que assinala as inter -relações ou entrelaçamentos entre os homens, as coisas68, e os objetos técnicos nas redes sociotécnicas atuais. É esta convergência (também tecnológica) e a fluidez, enquanto uma de suas características, que pontua os fundamentos e princípios para o estabelecimento de uma espacialidade eletrônica, virtualizada e relacional, lócus de conformação dos mapas online que emergem no seio da Cartografia Geográfica em seu próprio movimento de transformação e reconfiguração na contemporaneidade.

b) O reconhecimento da técnica como produtora de transformações em qualquer sociedade (territórios), que se faz presente em toda ação humana. Ao mesmo tempo, extensão do corpo humano (LÉVY, 1996; 2000; MCLUHAN, 2016 [1964]) que se projeta no espaço para imprimir ações diversas;

A técnica elemento que permeia os territórios das coletividades e individualidades, é aqui entendida como uma categoria fundamental de análise destas inter-relações. Todavia, não é tratada como elemento central ou idealizado, mas num processo de interdependência e sinergia, reconhecendo suas mútuas interações e implicações com outros conceitos.

Evitamos dessa forma, a simplificação da análise, porém, adentramos no âmbito da complexidade, esta, não ancorada aos verticalismos das ciências. Aqui, ela diz respeito à complexidade com a qual a Geografia em renovação deve sedimentar um caminho que lhe é próprio.

Desta maneira, permite uma interpretação do mundo a partir das inter-relações, incertezas e probabilidades frente a ação humana em meio ao acelerado processo de

artificialização da vida, das coisas e dos objetos técnicos na produção do espaço geográfico.

Sobre isto Prigogine nos alerta que “[...] todo problema dinâmico deve poder ser resolvido em termos de amplitudes de possibilidade, exatamente como todo problema deveria ser resolvido na mecânica clássica em termos de trajetórias individuais” (PRIGOGINE, 1996 , p. 49-50).

Assim, estamos tratando de limite de previsibilidade e não de sua ausência. Estamos falando de possibilidade de atuação no presente e de construção de futuro (abertura), mas não de sua certeza.

Entendemos que a técnica molda e amplia a concepção de espaço, a medida em que esta permite um maior domínio e entendimento de processos decorrentes da natureza , de sua artificialização ou de virtualização da realidade. Portanto, a compreensão e apropriação da natureza pelo homem se dá pelas técnicas, o que nos permite cada vez mais, reproduzi-la artificialmente e com notável precisão. Em muitos aspectos participando da co-criação de novos objetos técnicos - alguns inclusive com relativa capacidade cognitiva, à exemplo dos softwares baseados em inteligência artificial. Neste processo de artificialização do espaço geográfico,

[...] hoje tudo tende a ser objeto, já que as próprias coisas, dádivas da natureza, quando utilizadas pelos homens a partir de um conjunto de intenções sociais, passa, também, a ser objetos. Assim, a natureza se transforma em um verdadeiro sistema de objetos e não mais de coisas e, ironicamente, é o próprio movimento ecológico que completa o processo de desnaturalização da natureza, dando a esta última um valor (SANTOS, M., 1996, p.53).

Acreditamos que isto implica em falar do humano e do não humano, de instrumentos autônomos, nanotecnologia, engenharia genética, informática e inteligência artificial enquanto objetos técnicos da ação humana agindo sobre a natureza, da natureza a serviço do homem, e, da artificialidade e seus objetos agindo sobre a vida do homem em sociedade.

Como afirma Latour (1998), foi preciso descobrir outros “meios ambientes” para que pudéssemos construir uma outra noção de totalidade, descobrir o que era exterior a nós, assim, o que antes estava fora agora está dentro, o que era negado, agora é valorizado. A dissociação entre homem e natureza ganha uma outra dimensão, e as técnicas atuais têm papel fundamental nesta construção, pois, esta “inversão antropológica” tornou ela (a natureza) “muito mais fraca que o homem” (LATOUR, SCHWARTZ et al., 1998, p. 97).

Portanto, é a ciência através das técnicas que permite este domínio, este esquema de manipulação apropriado pela acumulação capitalista, retroalimentando o circuito que transita da sociedade à ciência, nunca como retorno , nem de forma linear, mas como reordenamento de processo, enquanto possibilidade segundo um limite de previsibilidade. Neste cenário a fluidez com que as técnicas e alguns objetos técnicos se apresentam como característica da categoria convergência (tecnológica) é compo nente fundamental para a compreensão deste mecanismo.

Ao refletir sobre uma epistemologia da tecnologia (Techné), Morin (2005) defende a necessidade de analisá-la em conjunto, pois, enquanto objeto abstrato, e, dado sua interdependência, já não é possível separar o conceito de tecnologia, do conceito ciência, do conceito indústria, criando um circuito onde a técnica está profundamente relacionada com a manipulação do circuito sócio-histórico.

Na contemporaneidade “[...] a manipulação exercida sobre as coisas implica a subjugação dos homens pelas técnicas de manipulação [...] é a lógica das máquinas artificiais que se aplica cada vez mais às nossas vidas em sociedade. Justamente aqui reside a origem da nova manipulação” (MORIN, 2005, p. 109). Há uma dimensão filosófica na técnica como condição dela vir a se constituir a idealização da perfeição humana.

Percebemos de um lado o endeusamento de uma tecnociência profundamente ligada às grandes empresas de tecnologia e ao mercado de capitais, estes, através das suas redes autônomas de controle da comunicação e da informação, se utilizam de softwares, sistemas de reconhecimento e inteligência artificial, para colocar em prática uma ordem, uma racionalidade69 cada vez mais tênue e centralizadora sobre a produção do espaço geográfico, de suas territorialidades e, consequentemente, sobre a vida dos indivíduos.

No plano dos objetos técnicos e das relações humanas (ações), o controle exercido por estes poucos atores, implica numa simplificação de processos complexos, na flexibilidade da produção, na sincronicidade do tempo, na unicidade e na uniformidade de ações sobre as ações dos homens em sociedade, dado a fluidez com que os objetos técnicos e suas capacidades técnicas têm de em meio à ações pontuais e disruptivas, influenciar em

69 Racionalidade não é razão, a razão é aberta ao desconhecido, a aquilo que não se pode racionalizar, a razão não

pode ser instrumentalizada. O que as diferencia basicamente é que a racionalidade é um sistema fechado que impõe uma lógica que sendo negada, coloca-se à força. Ver: (MORIN, 2005) e (ADORNO e HORKHEIMER, 1991).

termos comportamentais a percepção da realidade sobre os territórios na contemporaneidade.

Compreendemos que se trata dos sistemas reguladores da cibernética70 e da Teoria de Informação atuando sutilmente em conjunto com outros processos administrativos, psicológicos e sociais, segundo a lógica e os interesses do mercado no controle da informação, do tempo, das ações sobre os objetos, dos homens sobre os homens, e dos objetos sobre os homens.

Entendemos que do ponto de vista prático desta sociedade informacional, isto caracteriza todo um movimento de transformação e (re)construção cartográfica intermediado pela convergência tecnológica71 entre as diversas áreas do conhecimento.

Isto significa, reconhecer a existência e articulação de todo um conjunto de redes de Cibercultura e uma miríade de objetos técnicos espacializados interconectados através de redes telemáticas - ou seja, de uma computação ubíqua (WEISER, 1993) – que através de tecnologias de informação e da comunicação provém informação geográfica instantânea.

Na perspectiva cartográfica aqui defendida, isto significa c artografar: fenômenos, processos, objetos técnicos, os indivíduos, as coletividades, as ações humanas, a natureza e a natureza artificializada.

Implica falar dos territórios e das redes, consequentemente em territorialização e desterritorialização, em sociedade industrial e sociedade informacional , na combinação de elementos heterogêneos, das geometrias de poder (FOUCAULT, 1979), de diferentes “métricas” que coexistem e se inter-relacionam.

Estes sistemas reguladores (alguns objetos técnicos especializados) se caracterizam pela fluidez, categoria aqui elencada para nos referirmos a ações humanas e

70 A Cibernética do grego “kybernetik” (piloto, pilotagem), termo utilizado por Platão para designar as qualidades

da alma. Na década de 1940 Norbert Wiener a partir de seus estudos em teoria da informação, teoria do controle e dos sistemas, utiliza esta expressão para nominar esta ciência, cujo propósito é “da comunicação e do controle...(...) quer seja ele no humano, animal ou mecânica. O objetivo na cibernética é o de desenvolver uma linguagem e técnicas que nos capacitem, de fato, a haver-nos com o problema do controle e da comunicação em geral. (...) A informação é termo que designa o conteúdo daquilo que permutamos com o mundo exterior ao ajustar-nos a ele e que faz com que nosso ajustamento seja nele percebido (...) Destarte, comunicação e controle fazem parte da essência da vida interior do homem, mesmo que pertençam à sua vida em sociedade” (WIENER, 1968, págs. 16- 18). Existe uma íntima relação entre a Cibernética e as modernas teorias da Administração (ver: CHIAVENATO (2009), págs. 325-338). Ademais, a cibernética não pode ser confundida com robótica, mas sim, à autômatos/automação (enquanto linguagem para/de sistemas reguladores) e informática (tratamento automático da informação e da sua representação por meio de suportes de informação), como mecanismo de manipulação das coisas através destes meios.

a capacidade de alguns objetos técnicos se auto reprogramarem ou de serem reprogramados, para atingir um determinado objetivo, inclusive da sua autocriação e aperfeiçoamento - aspectos que se apresentam, por exemplo, em alguns mapas online. A fluidez também se relaciona as ações invasivas e dominadoras de uma racionalidade técnica responsável por desintegrar uma “complexa rede de relações sociais” auxiliando na determinação, como assinala Bauman (2014), de uma ordem econômica implacável que se reproduz continuamente.

Ao tratar da interação entre sociedade e economia em meio à transformação tecnológica atual (paradigma tecnológico), e da reversibilidade dos processos nas instituições e organizações, Castells (1999, p. 78) pondera e alerta que:

Tornou-se possível inverter as regras sem destruir a organização, porque a base material da organização pode ser reprogramada e reaparelhada. Porém, não devemos evitar um precipitado julgamento de valores ligados a essa característica tecnológica. Isto porque a flexibilidade tanto pode ser uma força libertadora como também uma tendência repressiva, se os redefinidores das regras sempre forem os poderes constituídos.

Defendemos que esta capacidade de reconfiguração é também característica de algumas geotecnologias: mapas online, dos sistemas autônomos e inteligentes72 com os quais interagem e/ou estão integrados, participando ativamente da reprodução das relações sociais de produção. Logo, a produção dos objetos, e por conseguinte, do espaço geográfico explicita o seu caráter estratégico e político, além da sua planificação espaço- temporal conforme aponta Lefebvre (2008 [1976], p. 63).

Ela supõe o estabelecimento de localizações, o conhecimento das redes de troca, de comunicações, dos fluxos (...) a programação espaço-temporal (...) poderia submeter as outras dimensões à simultaneidade global do espaço (...) Só o tecnocrata perfeito a quer. Ela submeteria a sociedade inteira ao jugo da cibernética (LEFEBVRE, 2008 [1976], p.63).

Wiener (1968), um dos fundadores da cibernética, ao tratar dos propósitos desta ciência, deixa claro este viés racionalizador ao afirmar que: “[...] em comunicação e controle, estamos sempre em luta contra a tendência da Natureza de degradar o orgânico e destruir o significativo” (WIENER, 1968, p. 17).

Compreendemos que esta natureza a que se refere o autor, é considerada como degradação em relação aos sistemas reguladores, em razão desta constituir-se possibilidade de resistência, do conflito entre as camadas sociais, de contraponto à uma racionalidade técnica da cibernética, que busca subjugar tudo aquilo que escapa ao

controle exercido pelos autômatos e pela comunicação da informação – inclusive as práticas humanas quando destoam dos interesses do mercado.

Assim, embora a lógica dos sistemas administrativos prime pela ordem e controle utilizando-se das técnicas e da fluidez da comunicação, por outro lado, instala- se a contradição, pois, a natureza, o homem, as sociedades, os processos sociais e a própria fluidez de alguns objetos técnicos são tributários da desordem, da horizontalidade, da não- linearidade, do caos. Não como aniquilação, mas como destruição visando reorganização, regeneração, de diversidade em meio à multiplicidade, por isto, tendem à incerteza na forma complexa como se reorganizam e assimetricamente estabelecem relações de força e poder.

A possibilidade de escape à previsibilidade dos sistemas reguladores, é justamente esta fluidez proporcionada pela reprogramação. Aqui, não nos referimos a fluidez no que se refere aos sistemas de produção e administração, mas a capacidade das ações humanas, dos objetos técnicos e da natureza moldar-se a processos diferentes daqueles para os quais foram concebidos.

Tomemos estas nossas considerações em torno do posicionamento apresentado como elemento importante para análise das ações humanas73, sobre a forma como utilizando-se dos objetos técnicos indivíduos, coletividades e as organizações tornam -se competidores equivalentes ao construirrem capacidades assimétricas de poder como resistência às ações de controle hegemônico.

A reflexão que se coloca, é que esta ordem cibernética em meio ao endeusamento da tecnociência capitaneada pelo mercado, traz entre outros discursos, uma artificialização da vida implicando em flexibilidade e sutileza nos jogos de poder, no controle dos processos em geral, e principalmente, no ofuscamento da razão pela racionalidade instrumental das ações sobre os territórios e as redes eletrônicas. Sobre esta realocação de poder da qual a técnica é coparticipe, Bauman (2014) nos alerta sobre a liquefação dos poderes e a reconstrução de uma nova ordem baseada nesta racionalidade técnica:

Hoje, os padrões e configurações não são mais ‘dados’, e menos ainda ‘autoevidentes’; eles são muitos, chocando-se entre si e contradizendo-se em seus comandos conflitantes, de tal forma que todos e cada um foram desprovidos de boa parte de seus poderes de coercitivamente compelir e restringir (...) Os poderes que liquefazem passaram do ‘sistema’ para a ‘sociedade’, da ‘política’

para as ‘políticas da vida’ – ou desceram do nível ‘macro’ para o nível ‘micro’ do convívio social (BAUMAN, 2014, p. 15).

Cremos, pois, que a artificialidade não está apenas nos objetos ou nos esquemas de domínio da natureza, mas sobretudo na vida do homem em sociedade , que cada vez mais é artificializada e superficial por intermédio das mídias sociais e dos dispositivos móveis, enquanto redes de comunicação e informação, porque, cada vez mais, a percepção e a compreensão que as pessoas têm do mundo, se dão através destas redes de relações artificiais.

A manifestação sutil desta racionalidade se reflete em inúmeros segmentos tais como: no urbanismo, no design, nos produtos, nas relações socioeconômicas, nos objetos técnicos etc. Ou seja, globalmente se apresenta da mesma forma em todos os lugares, o que muda é a paisagem ou algumas particularidades relativas à força do lugar em termos de reação e aceitação. Assim, técnica e artificialização estão completamente infiltradas na