• Nenhum resultado encontrado

multissubpartidarismo

No documento Ul ysses gU imarães (páginas 170-192)

1ª Parte – diScurSoS 174

O erro costuma ter muitos filhos, infelizmente. Perpetrado esse erro, e não se desejando ou querendo enfrentar o assunto com a seriedade conveniente para bem resolvê-lo, inventou-se outro artificialismo.

Criou-se essa figura esdrúxula, híbrida. O saudoso comentarista, ho-mem de letras e de teatro, Silveira Sampaio, poderia afirmar a sua tese favorita de ser mais uma solução mulata, das que frequentemente são advogadas no Brasil. Ao invés de caminhar-se para a criação de mais um, dois, três partidos, que é a solução constitucional, a solução lógica, inventou-se essa figura, que não tem precedente no Direito Eleitoral de qualquer país, ou de qualquer democracia medianamente responsável, essa espantosa novidade da sublegenda.

Então, Sr. Presidente, sendo matéria pacífica que o multipartidarismo é um erro que estava corroendo as instituições neste país, num prodígio de ilogicidade, a revolução objetiva, ao que se anuncia, implantar o mul-tissubpartidarismo. O que se deseja agora, por meio desta ameaça, reitera-damente preocupante para aqueles que, com seriedade, querem examinar e resolver a conjuntura do bipartidarismo, o que se deseja, de uma forma oblíqua, de uma forma tangencial e – não hesito em dizer – irresponsá-vel, com grave consequência para o Brasil se cometerem esse despautério?

O que se quer é criar o multissubpartidarismo de pronto-imediato, sur-preendendo, no malsinado intento, pelo respeito à Constituição, porque, sem atender aos requisitos mínimos nela fixados, com o apelido de suble-genda, em verdade serão criados seis ou mais partidos. O que se quer é tangenciar e, por via oblíqua, implantar novas agremiações políticas, sem observar os requisitos inscritos na Lei Maior do país.

O Sr. Chagas Rodrigues – Permite V.Exa. um aparte?

O SR. ULYSSES GUIMARÃES – Com muito prazer.

O Sr. Chagas Rodrigues – V.Exa. sabe, nobre deputado – e todos os estudiosos de Direito Eleitoral –, que existem dois processos válidos para combater o multipartidarismo ou a pulverização partidária. Estes pro-cessos são o da eleição majoritária para a Câmara, por intermédio dos distritos eleitorais, ou a proibição das alianças e das coligações partidá-rias. Nós só chegamos a ter doze partidos, porque se permitiu a aliança partidária. Eram partidos pequenos, que só mandavam representantes à Câmara servindo-se das alianças regionais, violentando, muitas vezes, as alianças nacionais, uma vez que os partidos são nacionais. De modo que, se não quisermos adotar o princípio da eleição distrital, bastará

1ª Parte – diScurSoS 176

aceitarmos a proibição das coligações, que hoje constituem princípio constitucional. Entretanto, no lugar de adotarmos um solução válida, fomos, como disse V.Exa., ao erro oposto, de tal maneira que o Brasil hoje, na chamada área da democracia ocidental, por meio de uma trans-ferência espúria de um processo inglês e norte-americano, processo que lá, no mundo anglo-saxônico, resultou num clima de liberdade por meio de uma evolução histórica, chegou a esta situação única no mundo inteiro, onde não há liberdade partidária. Existem apenas dois partidos, criados num regime ditatorial e que devem continuar nisto que chamam de fase de transição para a ordem constitucional vigente.

O SR. ULYSSES GUIMARÃES – Muito grato a V.Exa.

O Sr. João Meneses – Nobre deputado, antes de V.Exa. continuar a brilhante exposição que vem fazendo, eu também quero dar um peque-no aparte ao discurso de V.Exa. Realmente, até a própria Constituição Federal, a nossa Constituição vigente, estabelece a pluralidade dos par-tidos. O modo, a execução dessa pluralidade é que é o difícil, e a esse respeito, naturalmente, V.Exa. explanará no seu discurso. Mas estamos vivendo realmente um período autocrático, um período de autoridade, um regime onde não há democracia política. Então, foge-se para a suble-genda, para não ficar nesse partido único e para que esse partido único, que é o partido do governo, não se torne tão grande que nele não caibam aqueles que querem a ele pertencer. Assim, só uma solução para mas-carar o unipartidarismo: a sublegenda. E como não cabem dentro do partido todos aqueles que desejam dele fazer parte, procura-se encontrar uma válvula para acomodar a todos. V.Exa. faz muito bem em focalizar esse assunto, que é vital, imediato e indispensável na vida democrática do país, porque, se ficarmos no regime da sublegenda, vamos partir para um partido único e, com isto, acabar de uma vez por todas com o princípio da liberdade democrática e da liberdade de pensamento.

O Sr. João Herculino – Nobre deputado, em aparte que dei fora do microfone, disse que a adoção de sublegenda será como que o reviver dos velhos e tradicionais partidos, de maneira completamente ilegal. Tenho para mim, nobre deputado, que essa corrida em busca da sublegenda é a demonstração clara de que o bipartidarismo não serve à vida nacional.

Quando se fala em sublegenda, sentimos que os homens do antigo PSD, da antiga UDN ou do antigo PTB, para apenas citar três, condicionados dentro da Arena, desejam disputar com os seus antigos adversários uma

posição valendo-se de candidatos que seriam lançados nas sublegendas.

O mesmo ocorre dentro do MDB. As correntes pessedistas, udenistas e trabalhistas, cada uma se julgando mais forte que as outras, desejam, cada uma delas, sobrepor-se às demais, por intermédio desta medida que consideramos absolutamente ilegal e incompatível com o regime que combatemos, mas que é o regime constitucional vigente. Quero fe-licitar V.Exa., e temos certeza de que esta Casa terá, nesta tarde, uma visão mais ampla, um estudo mais profundo desse problema, que não é, hoje, apenas dos partidos políticos nem dos nossos políticos, mas é uma preocupação de todos os cidadãos que acompanham, de qualquer modo, a vida pública brasileira.

O SR. ULYSSES GUIMARÃES – Muito grato a V.Exa.

Sr. Presidente, quanto ao bipartidarismo, o que ocorreu no Brasil foi o erro de se tomar o efeito pela causa. Nos Estados Unidos, na Inglaterra, existem, na verdade, somente dois partidos que têm condições de se reve-zar ou de disputar, com êxito, principalmente, os grandes postos da nação, mas não por uma imposição legal de cima para baixo. Foi um processo de sedimentação, de experiência através dos séculos, sem qualquer dificulda-de para a existência dificulda-de outros partidos, que, dificulda-de resto, existem. Tanto exis-tem nos Estados Unidos como na Inglaterra. Estes partidos não ocupam geralmente a atenção, a não ser daqueles que estudam ou acompanham mais de perto o problema, porque só têm condições de êxito eleitoral os dois grandes partidos. Mas existem outros partidos.

Aqui, o que se quis, Sr. Presidente, foi, por intermédio de uma im-posição de cima para baixo, num arremedo dessa legislação, impor o espartilhamento da opinião pública nacional em torno, exclusivamente, de dois partidos. Torno a dizer, porque me parece um argumento válido, que, se formos examinar a legislação comparada, não veremos, em qual-quer país medianamente responsável, essa solução de estabelecer suble-gendas que competem, em igualdade de condições, com as respectivas legendas. Isso é uma invenção, uma ideia que ocorreu exclusivamente no Brasil. No curso da argumentação que irei expender, procurarei de-monstrar as graves consequências que isto trará à vida partidária, já tão vulnerada, e também ao regime em nosso país.

O Sr. Clóvis Stenzel – V.Exa. me permite?

O SR. ULYSSES GUIMARÃES – Ouvirei V.Exa. Pediria aos nobres colegas que, depois, me permitissem desenvolver as ideias que tenho,

1ª Parte – diScurSoS 178

que são de certa amplitude, para que deixe esta tribuna já tendo dado conta do meu recado.

O Sr. Clóvis Stenzel – Quero, preliminarmente, pedir escusas a V.Exa. por apartear um discurso que não deveria ser interrompido, tal o brilhantismo da forma e do conteúdo com que está sendo produzido.

Desejava apenas lembrar ao nobre deputado Ulysses Guimarães que o assunto não é assim tão pacífico como se tem dito nesta Casa. Vê V.Exa.

que no próprio nascimento da democracia americana, que serviu de padrão para todas as democracias sul-americanas, o presidente George Washington era até contra a existência de partidos. Achava que daí advi-ria, no seu governo, aquilo que chamou de partidocracia. O grande dra-ma do Brasil e do continente sul-americano está em fazer democracia.

Se democracia é o governo do povo, pelo povo e para o povo, partido-cracia é o governo do partido, pelo partido e para o partido. Contra isso, repito, se levantou o eminente estadista George Washington, no início da democracia norte-americana. E vê mesmo V.Exa., ainda no exemplo americano, que, da luta entre Hamilton e Jefferson, o partido federalista, se não me engano, deixou de existir no início do século passado, e, du-rante mais de dez anos, viveu o povo norte-americano sob um partido único, o Partido Republicano Democrático, que só mais tarde se divi-diu. Todo o drama no Brasil está em se criarem os partidos nacionais. E, nesta Casa, quero sempre prestar um preito – é permanente esse prei-to – à memória de Alberprei-to Torres de Oliveira Viana. O que nós nunca conseguimos realizar no Brasil foram os partidos nacionais. Tivemos os partidos de governadores, os de coronéis. No início da República, os dois partidos chamados impropriamente de nacionais, como era o caso do Partido Republicano – eram o Partido Republicano do Rio Grande do Sul, o Partido Republicano de Minas Gerais e o Partido Republicano de Pernambuco. E, até há pouco, tínhamos o PSD do Rio Grande do Sul contra o PSD de Minas Gerais e o PSD nacional. A realidade social é, por conseguinte, o partido-expressão das facções estaduais. O que o presidente Castelo Branco almejou, e o governo revolucionário almejou com a imposição inegável, como disse V.Exa., de cima para baixo – de resto, em todas as democracias sul-americanas, o que se observa é a pressão do ápice da pirâmide para baixo, e não da base para cima –, ao dificultar a existência de mais partidos, foi criar no Congresso, como se está criando, um espírito nacional. Se nós nos dividimos em nossos

estados, é louvável que aqui, na Câmara, estejamos unidos sob uma só legenda, no que diz respeito aos interesses da política nacional. Este o grande desejo, o fim que se colima. Conheço os defeitos das sublegen-das. Em tese, não as defendo, mas sei que a realidade social não se mo-difica exclusivamente por imperativos de ordem legal. Na luta entre o costume e a lei, o que tem vencido é o costume. Tenhamos um, dois, três ou mais partidos, e o espírito de facção sempre será deletério da existência dos partidos nacionais.

O SR. ULYSSES GUIMARÃES – Sr. Presidente, entendo que o de-feito capital da projetada criação da sublegenda é que se perpetrará, se isto ocorrer, um espantoso erro histórico e filosófico.

Como é, Sr. Presidente, Srs. Deputados, que imemorialmente se de-cide qualquer colégio, qualquer conjunto de pessoas? Qual o critério, qual o método, desde que um conjunto de pessoas tenha de decidir, se-não aquele que, sendo impossível a decisão da unanimidade, prevaleça a decisão da maioria?

Este é o critério, Sr. Presidente, o único que sempre se adotou e sem-pre se há de adotar, para que pessoas que tenham ideias diferentes, pen-samentos que não sejam os mesmos possam decidir.

Isto ocorre, Sr. Presidente, nas decisões de uma sociedade anônima, de um clube de futebol, de uma congregação, nas assembleias legislati-vas, nos corpos legislativos. É sempre o único critério, o único método que se pode apontar para colher, para captar a decisão das pessoas que se reúnam em um colegiado qualquer.

Ora, Sr. Presidente, a sublegenda, por amor à minoria dissidente, eliminará a maioria, pois equipara aquela a esta. Persegue o objetivo insano de pretender revogar a regra multissecular de prevalecer, isto é, ser de fato a resolução da maioria. Esta não existiria mais, seria artifi-cialmente subtraída. Seria, inclusive, ignorar o número, a matemática em uma sociedade anônima, se a maioria decide, inclusive em torno de um programa, escolhendo, por exemplo, a respectiva diretoria. Essa maioria é que terá condições de responder pelo patrimônio, engajá-lo nos investimentos, decidir, enfim.

Seria absurdo, Sr. Presidente, que, por exemplo, na decisão de uma empresa, de um colegiado, de uma sociedade anônima, se fosse admitir que minorias pudessem competir em igualdade de condições, pudes-sem também dispor do patrimônio, pudespudes-sem traçar rumos, pudespudes-sem

1ª Parte – diScurSoS 180

usar o nome comercial, porque então iria desaparecer a razão de ser da maioria, do maior número. Seria a competição interna, guerra entre acionistas da mesma firma, a desorganização contábil. O que é verdade em qualquer colegiado também o será para as sublegendas, que lutarão entre si. A sublegenda destrói a legenda, fraciona-a.

Ora, Sr. Presidente, se isto é ilógico, se isto é absurdo em qualquer colegiado, em qualquer conjunto de pessoas que tenham de tomar uma decisão, que tenham de perfilhar ou de formular uma opção, não vejo como isso possa dar certo e possamos chegar a um resultado útil aos partidos e à democracia. Será a institucionalização da desordem, do caos, a entronização da balbúrdia. As minorias, ao invés de democra-ticamente acatarem o decidido pelo maior número, se organizam para combatê-lo, para disputar com outros candidatos. Se vingar semelhante monstrengo, ao término dos próximos pleitos, Machado de Assis, em Dom Casmurro, será o cronista desastre com a frase: “A confusão era geral”. Repita-se: o capital político da legenda – oposição ou situação – é simultaneamente usado, aplicado por três ou mais facções concorrente-mente e, até em sentido oposto, em benefício de três ou mais candidatos a um mesmo posto majoritário.

O Sr. Francelino Pereira – Nobre deputado, desejo apenas dois minu-tos de V.Exa. Compreendo o exato ponto de vista defendido pelo nobre colega paulista e aplaudiria mais ainda se V.Exa. estivesse se dirigindo ao futuro, e não aos dias de hoje, e entre os dias de hoje incluo o ano de 1970. Enfim, defendo as sublegendas, e as defendo com todo o ardor, como o único instrumento capaz de manter a unidade do MDB e, prin-cipalmente, da Arena, partido a que pertenço, sobretudo porque a su-blegenda é a única maneira de evitar a tirania partidária. E não é aque-la tirania partidária da maioria perante a minoria, em circunstâncias normais. O meu antigo partido era a UDN. Quando perdia na conven-ção – e muitas vezes perdemos em Minas Gerais e nas convenções na-cionais –, nós, da maioria, curvávamo-nos à minoria. Mas ocorre, ago-ra, na Arena, e mais acentuadamente na Arena, que, quando a minoria perde no estado ou no município, fica alijada definitivamente da políti-ca de seu partido. Minas Gerais é um exemplo. Na próxima convenção estadual, para escolha do candidato a governador nas eleições diretas, se o ex-PSD ganhar, a ex-UDN estará alijada definitivamente do pleito, em dezenas de municípios de minha região política, no norte e no

nor-deste de Minas Gerais. E meu exemplo é para citar a realidade. No mo-mento em que nós, da ex-UDN e do ex-PSD, perdermos na convenção, estaremos alijados definitivamente do pleito municipal, em qualquer localidade de minha região política. Neste caso, nobre deputado, nunca na História do país a tirania partidária será tão tremenda e tão rigorosa.

Será também, Sr. Deputado, se não aprovarmos as sublegendas, pois o único caminho que teremos será a Frente Ampla.

O Sr. Flores Soares – Queria apenas dizer, dando modesta colabora-ção, que comungo com as ideias tão bem alinhadas por V.Exa. quanto ao artificialismo do bipartidarismo. O que desejamos são partidos autên-ticos, que brotem do povo, com fronteiras ideológicas, com estilos dife-rentes e com lideranças também autênticas. Quanto à sublegenda, quero trazer só um argumento para V.Exa. e a Casa: uma, duas, três sublegen-das significam justamente a fraude na eleição majoritária. (Muito bem!) O SR. ULYSSES GUIMARÃES – Sr. Presidente, o que se verifica dos apartes ou de alguns dos apartes aqui expedidos confirma, ao invés de negar, a minha tese. O que se cometeu foi um grande e enorme erro: o estabelecimento artificial, de cima para baixo, do bipartidarismo, im-pondo esse convívio político realmente difícil, se não impossível, entre correntes de uma grande heterogeneidade nos seus estilos de ser e seu comportamento até social.

Agora, percebido esse erro, quer-se corrigi-lo com outro erro: o do multissubpartidarismo. A Arena, ao invés de confessar o erro que foi per-petrado e colaborar conosco pela maneira correta, com lógica, com bom senso, para se resolver a dificuldade, com a criação de novos partidos, in-clina-se para a perpetração desse novo absurdo, de consequências fáceis de serem verificadas, de grande prejuízo para a vida política do país, com a criação dos subpartidos concorrendo com os partidos, dando margem ao arrepio da legislação eleitoral e da própria Constituição à criação de, pelo menos, seis partidos. E, ao lado disso, além de outros dislates, esse de acabar na verdade com as maiorias, que não terão mais função, não poderão ocupar o espaço que devem normalmente ocupar nas decisões partidárias, porque maioria e minoria serão colocadas ambas em absolu-to pé de igualdade, o que causará, repiabsolu-to, o caos e a confusão.

O Sr. Martins Rodrigues – V.Exa. coloca a questão perfeitamente bem. O nobre deputado Francelino Pereira devia propugnar a ideia do pluripartidarismo, porque precisamente o artifício da criação apenas de

1ª Parte – diScurSoS 182

dois partidos está obrigando, agora, a artifício mais grave, como este a que acaba de aludir V.Exa., qual seja, a formação de sublegendas para resolver problemas internos da organização partidária. Não há coisa mais grave na vida política brasileira: é a fraude estabelecida contra a vontade popular, como muito bem acentua V.Exa. Assim, não haverá mais pos-sibilidade do princípio da maioria e o sistema majoritário a respeito de certas eleições, como para governadores de estado, prefeitos municipais e senadores, passa a ser inteiramente burlado por esse processo de su-blegendas, que se assemelha nas eleições majoritárias a um verdadeiro sistema de eleição proporcional. Haverá, portanto, uma confusão entre os dois sistemas, e a vontade do povo não será absolutamente atendida.

São processos viciosos com os quais se quer atender apenas aos interesses da maioria que domina o país, da oligarquia que aqui se implantou e quer perpetuar-se por esse sistema absolutamente condenável.

O SR. ULYSSES GUIMARÃES – Sr. Presidente, além dessas consequ-ências que anulam, pulverizam e fazem desaparecer a maioria, não existi-rão mais as decisões partidárias neste país. Desaparecerá a preponderân-cia, que é natural, da maioria, porque, repito, esta se equiparará, para todos os efeitos, às minorias. Outra funesta consequência – e não é interpreta-ção, é um dado de constatação – será a desmoralização dos partidos e dos políticos frente à opinião pública do país. Como ocorre, Sr. Presidente, que candidatos da mesma legenda disputem um mesmo cargo executivo, governador de estado, por exemplo, ou prefeito, o que se verificará inelu-tavelmente é que as campanhas em geral, em todo o mundo, mais notada-mente no Brasil, apaixonam, geram um clima passional e há uma grande liberdade, direi mesmo licença de linguagem. Frequentemente, no ardor da campanha, determinados candidatos ou adeptos de uma candidatura, até para sua promoção pessoal, chegam às raias da calúnia e difamação.

Ora, Sr. Presidente, irá desventuradamente acontecer aquilo que já aconteceu na prática maléfica da sublegenda no Brasil. Aqueles que as-sistem à televisão, acompanham os comícios, ouvem o rádio, leem os jornais, verão candidatos adeptos de candidatos de uma mesma legenda agredindo-se por meio de uma linguagem contundente, difícil e incô-moda. E o eleitor, o povo, não compreenderá, ficará perplexo, atônito, ao ver que homens que têm a mesma legenda, responsáveis pela mes-ma bandeira, que devem zelar pelo cumprimento de um mesmo pro-grama, tenham atuação assim tão conflitante na condução das

campa-nhas político-eleitorais. Sem dúvida alguma, isto irá ocorrer com maior gravidade na disputa das eleições para a governança dos estados, e a consequência final será carrear-se o desprestígio frente ao corpo eleito-ral de todos os partidos e de todos os políticos. E os partidos, ao invés de lar de irmãos políticos, serão infernal seara de Caim. Além disso, os pes-cadores de águas turvas terão campo fértil para a sua atuação. Isto por-que a sublegenda dará lugar – e sabemos por-que já se esboçam movimentos nesse sentido – a barganhas em que determinadas facções apoiarão, em alguns estados ou municípios, facções opostas.

A sublegenda será balcão para o mercado negro dos apoios espúrios, de vergonhoso troca-troca, de miserável do ut dês, em que indecorosas adesões de grupos de partidos diferentes serão compradas pelo dinheiro, negociadas pela partilha de cargos, manipuladas pelos carreiristas e pelos demagogos, cujo êxito justifica tudo. Por outro lado, ensejará que se vul-nere também mortalmente o sistema e nós iremos verificar que os mais fortes, na proporção que sejam os mais fortes, terão sua fraqueza decre-tada pela sublegenda, porque, havendo três candidatos para essa mesma legenda, os dois que se sentirem mais fracos poderão fazer conluios e en-tendimentos entre si ou com sublegendas adversárias para derrotar aquele que tem condições de maior simpatia ou que, frente ao corpo partidário, melhor represente seus ideais, sua bandeira e seu programa.

Como o erro é prolífico, gera muitos filhos errados; o erro da su-blegenda fatalmente procriará o erro fascista da vinculação total. Digo fascista porque sublegenda mais vinculação conceberão a cria maldi-ta do partido único. Será, então, a camuflagem, o biombo da mentira, guarda-chuva do farisaísmo para o embuste ou aparência da democra-cia no Brasil. Os jornais já informam de murmúrios nos arraiais gover-nistas, de que para evitar a infiltração de Lacerda e da Frente Ampla pela brecha da sublegenda deve ser ministrada à democracia nacional a me-dicina salvadora da vinculação total. A vinculação parcial e, principal-mente, a total são uma violência contra a consciência do eleitor, cuja in-dependência é a substância das escolhas livres, protegidas até pelo voto secreto. A lei obriga o cidadão a ser eleitor, não o compele a filiar-se a este ou àquele partido. A voluntariedade é a ética, o fundamento da vida partidária. Ontologicamente, o que o país pede, se não exige do eleitor, é que vote nos melhores, nos mais aptos, sendo a condição partidária dos mesmos, meio, e não fim. Os partidos existem não para obrigar que

No documento Ul ysses gU imarães (páginas 170-192)