CAPÍTULO 1 SUSTENTAÇÃO TEÓRICA
1.1 Mulheres gestantes em situação prisional: quem são e como vivem?
1.1.1 Mundo globalizado e profunda instabilidade social
Para discutir a respeito de linguagem como prática social, Magalhães (1996, p. 20) menciona as limitações do esforço que estudos em linguística têm dedicado a discutir as estruturas e os sistemas linguísticos. A crítica da autora se dá no sentido de que a linguística ainda tende a abstrair o estudo da linguagem do contexto social em que a produção linguística se concretiza. Para Magalhães (ibidem):
Se diferentes níveis do contexto social – a situação imediata, a instituição e a sociedade global – determinam a produção linguística como também sua interpretação, os estudos da linguagem devem valorizá-lo. (MAGALHÃES, 1996, p. 20)
Assim é que, procurando não abstrair da realidade social em que vivem as MGSP, começo discutindo o contexto social em que estas, assim como todos(as) nós, estão inseridas: em um mundo globalizado e de profunda instabilidade social. Desse modo, na interface da antropologia com a economia, é possível perceber que mundo globalizado e profunda instabilidade social são temas estreitamente relacionados às questões de identidade apreendidas pela sociedade atual. Por isso, constituem a base dos estudos que discuto neste tópico.
No livro “A Globalização Imaginada”, o antropólogo argentino Garcia Canclini (2007) afirma que um dos fatores que mais influencia nas sociedades pós-modernas é a globalização. O autor nos explica que há distinção entre globalização e globalização imaginada
A globalização pode ser vista como um conjunto de estratégias para realizar a hegemonia de conglomerados industriais, corporações financeiras, majors do cinema, da televisão, da música e da informática, para apropriar-se dos recursos naturais e culturais, do trabalho, do ócio e do dinheiro dos países pobres, subordinando-os à exploração concentrada com que esses atores reordenaram o mundo na segunda metade do século XX. [...] Mas a globalização é também o horizonte imaginado por sujeitos coletivos e individuais, isto é, por governos e empresas dos países dependentes, por produtores de cinema e televisão, artistas e intelectuais, que desejam inserir seus produtos em mercados mais amplos. As políticas globalizadoras obtêm consenso, em parte, porque excitam a imaginação de milhões de pessoas ao prometer que o dois e dois que sempre somou quatro pode resultar em cinco ou até seis. Muitas histórias sobre o que aconteceu a quem soube adaptar seus bens, suas mensagens e operações financeiras para se recolocar em um território expandido indicam que o realismo de se ater ao local, de quem se conforma a trabalhar com números nacionais, seria hoje uma visão míope GARCIA CACLINI, 2007, p. 29, grifos do autor).
De acordo com essa perspectiva, o processo de globalização não é apreendido por toda a sociedade de maneira uniforme, o que reforça a necessidade de atentar para as assimetrias existentes. Além disso, trata-se de uma forma de valorizar o que é global em detrimento do que é local. Isso porque, normalmente, determinados países, devido à hegemonia econômica e política que exercem, acabam impondo ao restante do mundo sua cultura e sua identidade, o que resulta no enfraquecimento cultural e identitário de outros países. No que tange à globalização imaginada, seria aquilo que se idealiza sobre a globalização, o que está no imaginário das pessoas, mas que não deixa de ter sua importância, uma vez que, segundo o autor “Se as construções imaginárias possibilitam a existência das sociedades locais e nacionais, elas também contribuem para a arquitetura da globalização” GARCIA CACLINI, 2007, p. 30).
Nesse sentido, Garcia Canclini (2007) reconhece que, sem uma integração entre os países sob os mais diversos aspectos, como econômico, social, ambiental, entre outros, a globalização inexiste. A despeito desse reconhecimento, o autor (ibidem) enfatiza que aos países da América Latina se aplica muito mais o que se concebe por globalização imaginada, ou seja, uma globalização idealizada, que por globalização propriamente dita e, a esse respeito, conclui:
Portanto, por mais que nos dias que correm se fale muito mais de integração entre países latino-americanos e europeus e se realizem acordos mais concretos que em qualquer época anterior, a abertura aos outros, a construção de uma interculturalidade democrática, está mais subordinada ao mercado que em qualquer época precedente (GARCIA CACLINI, 2007, p. 76).
Em outras palavras, ao considerar que à América Latina resta uma porcentagem tão baixa do faturamento resultante da internacionalização da economia, o autor afirma que prevalecem sobre a universalidade dos direitos políticos e culturais, a concorrência e a discriminação do mercado. Desse modo, Garcia Canclini (2007) ressalta a influência de fatores econômicos para justificar a assimétrica posição, menos privilegiada, que ocupam os países da América Latina com relação aos países da Europa e dos Estados Unidos.
Estabelecida a indissociabilidade entre globalização e economia, é certo que a globalização trouxe muitos pontos positivos para as sociedades pós-modernas, entre outros exemplos, os avanços tecnológicos, a rápida digitalização, o amplo acesso às
informações, o maior intercâmbio em nível político, social e econômico entre as nações e uma gama de oportunidades para os atores sociais e espaços de solução, anteriormente inimagináveis, para alguns dos problemas mais urgentes do mundo. Todos esses aspectos são fundamentais para a transformação das sociedades. Contudo, como sugere Garcia Canclini (2007), é relevante ver a globalização não somente do ângulo de quem se beneficia com a ampliação dos mercados, de quem pode participar dele nas economias e culturas periféricas, mas também do ângulo dos conflitos, das assimetrias e daqueles que são excluídos dos circuitos globais. Sendo assim, a despeito de todos esses pontos positivos, é preciso perceber o “outro lado da moeda”, pontos negativos, como significativos riscos relacionados com a mudança de padrões de emprego, com o alargamento da desigualdade de renda e instabilidades sociais estreitamente associadas ao que o Relatório dos Riscos Globais, do Fórum Mundial Econômico, realizado no ano de 2016, em Genebra, aponta como riscos globais.
Na 11ª edição do Relatório dos Riscos Globais, Schwab (2016, p. 5), fundador e presidente do Fórum Mundial Econômico de 2006, afirma que as possibilidades de construir conhecimentos a respeito do desenvolvimento dos riscos globais e de contribuir para criar uma compreensão compartilhada das questões mais urgentes que o mundo enfrenta motivaram especialistas de diversas áreas a publicar o 1º Relatório dos Riscos Globais. No que tange aos pontos negativos da globalização, a 11ª edição do referido relatório, publicada em 2016, confirma que o mundo passa por um momento de profundas mudanças. Desse modo, compreender as maneiras como essas profundas mudanças se interconectam e seus potenciais impactos negativos para pessoas, instituições e economias é mais relevante do que nunca.
A esse respeito, conforme mostra a Figura 1, abaixo, o Relatório identifica as interconexões entre 29 grandes riscos globais para a próxima década.
Como podemos ver, com base na legenda que compõe a ilustração da Figura 1, os riscos globais são divididos em cinco categorias: econômica; ambiental (perda da biodiversidade e colapso dos ecossistemas, falha na adaptação em mudanças climáticas, eventos climáticos extremos, catástrofes naturais e catástrofes ambientais provocadas pelo homem); social (propagação de doenças infectocontagiosas, crise hídrica, crise alimentar, instabilidade social, migrações involuntárias e falha nos planejamentos urbanos); geopolítica e tecnológica (RELATÓRIO DOS RISCOS GLOBAIS, 2016, p. 86).
Fonte: The Global Risks Report 2016, p. 4
Segundo o referido Relatório, os riscos globais têm se materializado em novas e inesperadas formas. Além disso, suas consequências afetam pessoas, em maior ou menor grau, instituições e economias. Nesse sentido, conforme a Figura 1, cabe chamar a atenção para o posicionamento central que assumem os aspectos sociais e, por conseguinte, a profunda instabilidade social.
Essa profunda instabilidade social é caracterizada por múltiplas transformações que afetam a maioria, senão todos, dos países do mundo. Tais transformações resultam da junção de aspectos, como acelerado progresso tecnológico, globalização, concentração de riqueza e renda, mudanças demográficas, falta de oportunidades de trabalho e mudanças climáticas. Juntos, esses aspectos estão criando novas oportunidades, expectativas e, também, fontes de frustração. Contudo, como consta no Relatório, a instabilidade social não se perpetua como um fator negativo, porque pode conduzir os atores sociais em outras direções, com novo e maior equilíbrio.
Com base nos dados extraídos do Relatório, as interconexões entre os riscos globais sugerem que uma convergência pode estar ocorrendo, com um pequeno número de riscos-chave exercendo grande influência. Conforme a Figura 1, no topo da escala, os dois riscos projetados para 2016, com maior número de interconexões – profunda instabilidade social e desemprego estrutural ou subemprego – são responsáveis por 5% de todas as interconexões. Com base nessa relação, o Relatório explora três dinâmicas em que os riscos globais têm maior potencial de impactar a sociedade. São elas: a do "cidadão (des)empoderado", a do impacto das alterações climáticas na segurança alimentar e a do potencial que pandemias têm de ameaçar a coesão social.
A expressão “cidadadão (des)empoderado” é utilizada no Relatório para descrever a dinâmica que vem emergindo de duas tendências concomitantes: a do empoderamento e a do (des)empoderamento dos atores sociais. Os indivíduos se sentem mais “empoderados” em função do que as mudanças tecnológicas propiciam, como maior facilidade em reunir informações, em se comunicar e em se organizar. Ao mesmo tempo, os indivíduos, os grupos da sociedade civil, os movimentos sociais e as comunidades locais se sentem cada vez mais excluídos da significativa participação nos tradicionais processos de tomada de decisões e cada vez mais (des)empoderados em termos de capacidade de influenciar, de serem ouvidos por instituições e fontes de poder.
Conforme o Relatório, com mais “cidadãos (des)empoderados”, aumentam organizações e mobilizações e, com isso, governos e empresas precisam chegar a um acordo a respeito de como possam estar exacerbando as causas-raiz do descontentamento dos cidadãos. Assim, esses governantes e empresários precisam compreender os riscos e trabalhar para se ajustar a uma mudança operacional ambiente e a um novo panorama social.
Além da incerteza econômica, os riscos para os países em decorrência de uma profunda instabilidade social são: (1) enfraquecimento da legitimidade do mandato do governo; (2) aumento de polarização social; (3) impasse político e a impossibilidade de acionamento de reformas, conforme o caso; e – em circunstâncias mais graves – (4) possível desintegração de sistema governamental do país e outra cascata de riscos que possam facilmente emergir em um mundo verdadeiramente globalizado, interconectado e complexo.
Mas de que modo essa profunda instabilidade social pode implicar as questões relativas às identidades da sociedade atual? Como nos mostra o Relatório, a coesão social é enfraquecida por muitas incertezas, o que resulta em enfraquecimento ou mesmo em ausência de identidade comum e de causa comum entre os membros de uma sociedade.
Desse modo, uma sociedade com empoderamento, em que atores sociais estão alinhados atrás de uma visão conjunta para o país é um forte sinal de que um país é estável e confiante, com maior transparência, baixos índices de corrupção e regras que sejam fortes com relação ao cumprimento das leis e dos direitos.
Como consta no Relatório, um panorama de riscos tão amplo não tem precedentes nos 11 anos nos quais o Relatório tem acompanhado os riscos globais. Pela primeira vez, quatro das cinco categorias – ambiental, geopolítica, social e econômica – estão representadas entre os cinco principais riscos de maior impacto, como nos mostra a Figura 1. A esse respeito, o Brasil não está e nem estará imune às consequências da profunda instabilidade social. Um exemplo dessa profunda instabilidade social pode ser observado, no contexto brasileiro, por meio da temática da crescente inserção de mulheres nos índices de criminalidade, especificamente, de MGSP.
A respeito dessa temática, o gráfico da Figura 2, abaixo, mostra a distribuição dos estabelecimentos prisionais do Brasil de acordo com o gênero a que se destinam. A maior parte dos estabelecimentos, três quartos, é destinada ao público masculino. É importante ressaltar que há menos unidades prisionais femininas (7%) que estabelecimentos mistos (17%). No entanto, ao comparar os dados do último Infopen11, que data de 2014 com os do mesmo relatório de 2004, é possível constatar que houve um aumento de aproximadamente 246% da população carcerária feminina nos últimos dez anos (a população carcerária feminina passou de 10.112 em 2004 para 35.039 em 2014), impulsionado pela grande incidência do tráfico de drogas no Brasil. No Distrito Federal, de acordo com dados de junho de 2015, a população carcerária é de 7.712 pessoas em situação prisional, sendo que 590 são mulheres, incluindo as 18 grávidas e os 26 bebês, que convivem em uma ala específica, Ala de Bebê e Gestante, da PFDF.
Os dados do gráfico da Figura 2 e a constatação do órgão que gerencia o Sistema Prisional do Distrito Federal (SESIPE) de que “o número de detentas grávidas vem aumentando muito em razão do aliciamento de mulheres grávidas para entrarem
11 Infopen é um relatório resultante do Levantamento nacional de Informações Penitenciárias feito pelo
Ministério da Justiça. Este documento é divulgado uma vez ao ano e toma como base o número de presos no Brasil referentes ao primeiro semestre do ano anterior. Os relatórios mencionados datam de 2008 e 2014 e podem ser consultados em: http://www.infopen.gov.br/ .
Figura 2 - Distribuição de estabelecimentos prisionais de acordo com o gênero Fonte: Infopen, junho de 2014
com entorpecentes nos presídios" 12, chamam a atenção para o fato de que o crescimento célere do número de mulheres nos cárceres não é o único fator preocupante, mais preocupante ainda é a quantidade de gestantes, que se soma diante desse aumento. Diante dessa realidade, a relevância deste estudo está na possibilidade de produzir conhecimentos específicos sobre as representações linguístico-discursivas relativas às MGSP, de modo a contribuir para o entendimento da questão social. Isso, no sentido de chamar a atenção de autoridades para a necessidade de implantação de políticas voltadas para esse público e de outros atores sociais, como a imprensa, por exemplo, para que essas mulheres sejam ouvidas como pessoas em processo de ressocialização.
Assim, para definir o foco da pesquisa, é necessário apresentar o contexto particular vivenciado por MGSP no espaço de execução penal do Sistema Prisional Feminino do Distrito Federal. Segundo o último estudo realizado, em 2013 e publicado em 2014, pelo Departamento Penitenciário Nacional (DEPEN), as pesquisas sobre encarceramento feminino são ainda inexpressivas e realizadas de forma generalizada.
Andrade (2011), em um estudo empírico sobre a história de presídios femininos no Brasil, relata que, no projeto inicial da Penitenciária do Estado de São Paulo, constava o pavilhão para mulheres. No entanto, na época de sua inauguração, em 1920, o referido pavilhão foi utilizado como hospital e enfermaria, sendo adiada por mais de vinte anos a efetiva inauguração de um espaço penitenciário para mulheres. Segundo Andrade (op cit), somente em 1947, foi inaugurado o Presídio de Mulheres de São Paulo, o primeiro do Brasil. Ainda assim, tal presídio foi inaugurado de forma improvisada, pois funcionava na antiga residência dos diretores no terreno da Penitenciária do Estado, no bairro do Carandiru. Historicamente, esse tratamento superficial dado ao contexto prisional feminino se deve ao fato de que, no Brasil, até meados do século XX, o quantitativo de mulheres em situação prisional era praticamente inexpressivo, sem o registro de dados quantitativos precisos. No entanto, no decorrer dos últimos dez anos, houve um crescimento acentuado e constante da população feminina a ocupar espaço nos estabelecimentos prisionais do país. Como já
12 Informação da SESIPE em entrevista concedida ao G1 (sede de um jornal local) sob o título de “Detenta dá à luz em cima de saco de lixo em corredor de presídio no DF”, em 09/05/2015. Disponível em: http://g1.globo.com/distrito-federal/noticia/2015/05/detenta-da-luz-em-cima-de-saco-plastico-em- orredor-de-presidio-no-df.html. Acesso em 28/07/2015.
mencionado, na explicação da Figura 2, a população carcerária feminina passou de 10.112 em 2004 para 35.039 em 2014. Pode parecer pouco, mas esse número representa 24.927 mulheres em situação prisional a mais, o que culmina na inclusão média anual de aproximadamente 2.050 mulheres ao sistema prisional. Consequentemente, em razão de especificidade do gênero feminino, entre os quais, a gestação, também, um aumento expressivo da quantidade de MGSP.
No Distrito Federal, especificamente, contamos com a Penitenciária Feminina do Distrito Federal – PFDF. Esse Estabelecimento Prisional de segurança média é destinado ao recolhimento de mulheres sentenciadas a cumprimento de pena privativa de liberdade em regime fechado e semiaberto, bem como de mulheres em situação prisional provisória que aguardam julgamento pelo Poder Judiciário. À época da coleta e da geração de dados, entre 2013, 2014 e até meados de 2015, essa penitenciária possuía uma unidade materno-infantil, com capacidade total para 24 MGSP, dotada de berçário integrado, contando ainda com acompanhamento médico e psicológico, prestado por profissionais do próprio estabelecimento e da rede pública de saúde.
Segundo Diagnóstico Nacional, elaborado pelo Ministério da Justiça em 2014 (documento mais recente), na referida penitenciária feminina, as mulheres são separadas por regime e por grau de periculosidade. O último dado oficial, que data de 2014, é de que, na PFDF, existem 26 bebês e 44 mulheres, entre mães e gestantes, convivendo na ala destinada ao berçário (DIAGNÓSTICO NACIONAL DE MULHERES ENCARCERADAS, 2014, p. 42).
A respeito dos direitos das MGSP, existe a Lei de Execução Penal que regulamenta a matéria. “A mulher gestante que se encontra na condição de detenta, tem seus direitos garantidos pela Constituição Federal de 1988, (Artigo 5º- L - CF) e pela L.E.P. (Lei de Execução Penal V. Art.89, Lei 7.210/84) de ficar com o seu bebê durante o período de aleitamento materno”. Esse direito, porém, pode ou não ser praticado dentro da unidade onde a MGSP cumpre sua pena, desde que este estabelecimento prisional tenha estrutura suficiente para proporcionar uma permanência saudável tanto para a mãe quanto para o seu bebê.
Neste tópico, abordei as visões de Nestor García Canclini (2007 e de especialistas responsáveis pela elaboração do Relatório dos Riscos Globais (2016) sobre
a globalização, as identidades e suas dinâmicas culturais, sociais, politicas e econômicas e a crescente inserção da mulher em situações de criminalidade, bem como a distribuição de estabelecimentos prisionais de acordo com o gênero. No próximo tópico, passo à discussão sobre gêneros sociais na pós-modernidade.
1.1.2 Gêneros sociais e relações de poder na pós-modernidade: